<?xml version='1.0' encoding='UTF-8'?><?xml-stylesheet href="http://www.blogger.com/styles/atom.css" type="text/css"?><feed xmlns='http://www.w3.org/2005/Atom' xmlns:openSearch='http://a9.com/-/spec/opensearchrss/1.0/' xmlns:georss='http://www.georss.org/georss' xmlns:gd='http://schemas.google.com/g/2005' xmlns:thr='http://purl.org/syndication/thread/1.0'><id>tag:blogger.com,1999:blog-8578073</id><updated>2011-10-04T22:14:41.127-03:00</updated><title type='text'>Pedro Alexandre Sanches</title><subtitle type='html'></subtitle><link rel='http://schemas.google.com/g/2005#feed' type='application/atom+xml' href='http://pedroalexandresanches.blogspot.com/feeds/posts/default'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8578073/posts/default?max-results=100'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://pedroalexandresanches.blogspot.com/'/><link rel='hub' href='http://pubsubhubbub.appspot.com/'/><link rel='next' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8578073/posts/default?start-index=101&amp;max-results=100'/><author><name>Pedro Alexandre Sanches</name><uri>http://www.blogger.com/profile/07131381196986635010</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><generator version='7.00' uri='http://www.blogger.com'>Blogger</generator><openSearch:totalResults>527</openSearch:totalResults><openSearch:startIndex>1</openSearch:startIndex><openSearch:itemsPerPage>100</openSearch:itemsPerPage><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-8578073.post-9182952421897103745</id><published>2011-08-31T11:43:00.002-03:00</published><updated>2011-08-31T11:45:30.905-03:00</updated><title type='text'>FAROFAFÁ</title><content type='html'>Como sabe todo mundo que entrou aqui em algum momento nos últimos sete meses, este blog está desativado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nosso endereço e local de encontro agora é &lt;a href="http://www.farofafa.com.br"&gt;Farofafá&lt;/a&gt;, www.farofafa.com.br, FAROFAFÁ.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Seja bem-vindo, entre sem bater!&lt;br /&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/8578073-9182952421897103745?l=pedroalexandresanches.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8578073/posts/default/9182952421897103745'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8578073/posts/default/9182952421897103745'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://pedroalexandresanches.blogspot.com/2011/08/farofafa.html' title='FAROFAFÁ'/><author><name>Pedro Alexandre Sanches</name><uri>http://www.blogger.com/profile/07131381196986635010</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-8578073.post-975330320569487946</id><published>2011-01-14T12:45:00.001-02:00</published><updated>2011-01-14T12:46:45.215-02:00</updated><title type='text'>chegou a hora dessa gente bronzeada mostrar seu valor</title><content type='html'>Vamos lá, que a turma do Twitter inspirou o @pdralex a pensar sobre A Grande Família. Assim falou Carlinhos Brown, neste trecho da entrevista exteeeeeeensa publicada pelo iG (&lt;a href="http://ultimosegundo.ig.com.br/cultura/musica/carlinhos+brown+apresenta+seus+adobros/n1237864420092.html" target="_blank"&gt;aqui&lt;/a&gt;, &lt;a href="http://ultimosegundo.ig.com.br/cultura/musica/sou+nganga+abicum+obicura+filho+de+santo+antonio/n1237864438386.html" target="_blank"&gt;aqui&lt;/a&gt; e &lt;a href="http://ultimosegundo.ig.com.br/cultura/musica/o+que+a+gente+quer+e+uma+franchising+de+acaraje/n1237864460513.html" target="_blank"&gt;aqui&lt;/a&gt;):&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-weight:bold;"&gt;PAS -&lt;/span&gt; Quem era italiano na sua família? Branco?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-weight:bold;"&gt;CB -&lt;/span&gt; Meu avô , Bertolino Gonçalves, pai da minha mãe, Madalena. Branco de origem italiana-libanesa. Aos 2 anos de idade o pai faleceu, e um dos tios doou pra ele fazendas de laranjas em Cruz das Almas, ali no Recôncavo, perto de Caetano, Santo Amaro etc. etc. Ele sempre falava: “Sumiram com o baú”. Perdeu o interesse total por riqueza. Foi acudido por um grande empreendedor da Bahia, um homem com visões sociais junto aos Ahmed, aos Amado. Foi o que criou o Mercado do Ouro, o lugar onde hoje estou tentando organizar o Museu do Ritmo. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-weight:bold;"&gt;PAS -&lt;/span&gt; Esse Amado é o mesmo de Jorge Amado?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-weight:bold;"&gt;CB -&lt;/span&gt; Não, é a família dos Ahmed, que viraram Amado, árabes. Meu avô passou a cuidar da Barra, onde eu faço carnaval. Não quis mais ficar lá, conheceu essa mulher de Irará, terra de Tom Zé, que é minha avó Damiana Costa Santos. &lt;span style="font-weight:bold;"&gt;O pessoal falava que era Costa Santos Valente, porque tem parentesco com Assis Valente&lt;/span&gt; (&lt;span style="font-style:italic;"&gt;autor de marchinhas carnavalescas lançadas por Carmen Miranda&lt;/span&gt;). Era negra, mas meu avô dizia: “Não é negra, não, é Cabo Verde. Não pelo lugar, mas porque Cabo Verde está muito associado a quem tem cabelo liso. Ela tinha cara de nigeriana, ou angolana, do narizão, do olho puxado. Mas não tinha o cabelo duro, era mais ondulado, fino. Eles se conheceram e foram morar no bairro do Candeal. Tiveram duas filhas, Madalena e Alice, que é minha tia, deficiente visual.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-weight:bold;"&gt;PAS -&lt;/span&gt; Madalena é Magalenha?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-weight:bold;"&gt;CB -&lt;/span&gt; Ah, mas pode ter certeza que tá próximo. Magalenha é a maga que sabe botar fogo na lenha. É ela, minha mãe. Madalena, aos 14 anos, conheceu Renato Teixeira de Freitas, meu pai. E isso me botou numa história de bastardia que até hoje busco compreensão. Renato Teixeira de Freitas já vinha desse histórico bastardo dos Teixeira de Freitas na Bahia. Uma das primeiras coisas que me lembro é que nego dizia a minha mãe: “Mas você, de família tão rica, batendo nessa barrela”. Minha mãe era lavadeira, eu sempre ouvia esse papo e não entendia. Fiquei afoito quando descobri que meu bisavô paterno era um dos maiores juristas do país. Ia aos Barris levar roupa e dizia, insistentemente: “Quero falar com seu João, ele é meu bisavô”. “Vá, menino, sai daqui”. Aí eu começava a conversar com a estátua dele, que ficava do lado de fora, depois jogaram lá pra dentro. E tinha o lado português de minha avó Gertrudes, que foi casada com Renato Teixeira de Freitas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-weight:bold;"&gt;PAS -&lt;/span&gt; Seu pai é branco?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-weight:bold;"&gt;CB -&lt;/span&gt; De origem portuguesa, mas não é tão branco assim. Vamos dizer cigano, libanês. Salvador é a cidade mais muçulmana do Brasil. O terreiro mistura muito com a linguagem muçulmana.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-weight:bold;"&gt;PAS -&lt;/span&gt; O que não entrou na sua descrição foi o lado indígena, não tem também?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-weight:bold;"&gt;CB -&lt;/span&gt; Tem os índios, tem. Tem minha avó Damiana. Essa coisa da preta com cabelo liso eu achava que era um pouco a coisa do índio. Hoje o alto magistrado quer condecorar alguém da família e me convidou. Quando falo desse assunto, meu pai foge, não quer saber, “não, essa história não, isso é passado”. Teve uma ruptura. Eu, se fizesse um livro, gostaria de chamar Bastardia, porque é totalmente, uma história de escravidão, do bastardo. Sempre me tive como serviçal, mas serviçal de uma dinastia, não de pessoas à-toa. Nunca me vi como uma pessoa à-toa, de história dolorosa. Não me vejo chorando no Faustão ou no Gugu, “passou fome?”, “passei”, “e agora?”, “tenho um jatinho” (ri). &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-weight:bold;"&gt;PAS -&lt;/span&gt; Na sua família então há passado de riqueza dos dois lados.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-weight:bold;"&gt;CB -&lt;/span&gt; Exatamente. Não existe mal-nascer, nem bem-nascer. Existem situações sociais que, se forem reparadas na essência, a gente vai sempre construir uma sociedade melhor. Eu não sou diferente do Marcola ou do Beira-Mar. A diferença é que eu estou do lado de fora. Eles podem ser o que for, mas são reconhecidos como líderes, ilegais, mas são. O que eu não me conformo é que eu não sei quem de nós três está certo. Se tenho tentado por um lado que é visto como a legalidade entre aspas, onde estão as chances? Essas chances foram estacionadas ou sequestradas pra que situação? A sociedade brasileira quer, mas ao mesmo tempo tem medo de perder o cabide. Tem um pensamento assim: se nós tivermos uma sociedade de baixo poder aquisitivo escolarizada, educada, quem vai cozinhar pra mim?, quem vai ser a babá? Lá fora você não acha babá, babá lá é baby-sitter e custa 5 mil dólares. Aqui muitas vezes nego dá a comida pra pessoa viver. Sabe o que a gente quer? Uma franchising importante de acarajé pra concorrer com McDonald’s. Como os italianos conseguiram espalhar a pizza no mundo inteiro e a gente tem a camada comida baiana que o mundo inteiro gosta e a gente não consegue estender? É uma riqueza que a gente tem. Dia 2 de fevereiro, todos os filhos de Iemanjá vão agradecer no mar. O cara pega a câmera, a televisão, “é dia de Iemanjá”, “os pobres”, “os negros”… Filósofo e historiador vai, suga, vira um livro de fotografia. E a gente não vê nada, continua ali. O que nós estamos pedindo é que nos deem a possibilidade de reescrever a nossa história por nós mesmos. Isso não vai instalar nenhum separatismo, ao contrário, vai enriquecer o caldo cultural do Brasil, do mesmo jeito que nós, negros, afrodescendentes, somos exímios consumidores de pizza. Não me queixo em sair daqui, mas não saí porque quis. Saio porque não estava achando trabalho, e continuo não achando. Tenho consciência de que tenho carisma, mas é também um tipo de personagem que, às vezes penso, por que é tão incomodativo, o que incomoda tanto? É o fato de ser rápido na percussão? &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-weight:bold;"&gt;PAS -&lt;/span&gt; Não é racismo? &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-weight:bold;"&gt;CB -&lt;/span&gt; Então talvez esse seja o desafio. E a gente vai vencer isso dentro da revolução pela doçura. Quando boto aquele cocar o pessoal diz: “Cocar de índio”. É uma das piores críticas possíveis. Aquele cocar  não é de índio, aquele cocar é meu. Fui chamado para usar por um candomblé de caboclo, pelos índios. Fizeram um primeiro, e disseram: “Esse é seu, mas você vai descobrir o seu cocar”. E eu descobri, e fiz um cocar que não tem no histórico do índio brasileiro. Afasta-se o negro, o índio, o japonês, e eles terminam buscando uma identidade que encontram na internet, no discurso de um país que ainda não se curou de uma guerra ou de um problema étnico interno. O cara começa ouvir tal banda, vai pregando aquilo no ouvido da pessoa. Há que compreender o poder da música, você pode não entender a língua, mas os sentimentos todos estarão lá. Por que todo mundo tem medo de ver um careca tatuado e vestido de preto? Skinhead, em inglês, cabelo cortado, não é isso? Mas eles começaram a ganhar fama de violentos porque foram pessoas também muito machucadas na vida. Talvez o que nós precisamos ver é que as mágoas são águas más, ou más águas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-weight:bold;"&gt;PAS -&lt;/span&gt; Isso é um verso de música?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-weight:bold;"&gt;CB -&lt;/span&gt; Não, tô falando assim agora. Não sei, eu falei aí…&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-weight:bold;"&gt;PAS -&lt;/span&gt; Isso é letra de música.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-weight:bold;"&gt;CB -&lt;/span&gt; E água só precisa ser limpa, e tem um processo natural de purificação.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-weight:bold;"&gt;PAS -&lt;/span&gt; Menos a do rio Tietê…&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-weight:bold;"&gt;CB -&lt;/span&gt; Menos a do rio Tietê (ri). Mas é possível, está muito mais no cuidado. São Paulo deu um exemplo de sociedade civil organizada, parecia Antônio Conselheiro, Zapata ou Padre Cícero. Foi aquele prédio que era da Camargo Corrêa, uma estrutura e organização que você não encontra nos prédios de qualquer pessoa formada por administração. É a mulher que conquistou emprego, mas foi posta pra rua, tinha que cuidar do filho que estava na rua e não podia trabalhar. O que aquela criança vai crescer? Um dia ele vai assaltar a Camargo Corrêa inteira, com todo o respeito aos Camargo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-weight:bold;"&gt;PAS -&lt;/span&gt; O skinhead só é violento por vingança?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-weight:bold;"&gt;CB -&lt;/span&gt; Exatamente, os roqueiros são figuras doces. Que motor educacional nós estamos querendo promover? É o pobre que não sabe ler ou uma classe dominante que se mal-educou? A paz não virá do sangue. Não virá, não virá.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/8578073-975330320569487946?l=pedroalexandresanches.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8578073/posts/default/975330320569487946'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8578073/posts/default/975330320569487946'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://pedroalexandresanches.blogspot.com/2011/01/chegou-hora-dessa-gente-bronzeada.html' title='chegou a hora dessa gente bronzeada mostrar seu valor'/><author><name>Pedro Alexandre Sanches</name><uri>http://www.blogger.com/profile/07131381196986635010</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-8578073.post-6525627027211794875</id><published>2011-01-06T12:39:00.000-02:00</published><updated>2011-01-06T12:39:41.179-02:00</updated><title type='text'>quem parte leva a saudade de alguém que fica chorando de dor...</title><content type='html'>Dos nossos amores, famílias, amigos, empregos etc., sabemos que despedida é igual a fim, que fim é igual a tristeza, tristeza é igual a lágrima, lágrima é igual a sofrimento, sofrimento é igual a perda e perda é igual a fim.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pela primeira vez na história pública deste país (ou no mínimo desde que me conheço por gente), temos agora de aprender a elaborar uma despedida alegre.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Lula (nosso amor, nossa família, nosso pai, nosso chapa, nosso patrão) foi embora. E este, pasmemos!, é um acontecimento mais feliz do que triste, sofrido, melodramático etc. É lacrimoso, mas não exatamente por conta de perda, dano, briga ou ruptura.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;É uma perda que não é uma perda que não é um fim que (não) é sofrimento que é lágrima que (não) é tristeza que (não) é alegria que (não) é um final (in)feliz.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A gente, queridas brasileiros e queridos brasileiras, está amadurecendo mil anos nesta virada de 2010 para 2011. Dói reconhecer, mas nunca fomos tão felizes (na história deste país).&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/8578073-6525627027211794875?l=pedroalexandresanches.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8578073/posts/default/6525627027211794875'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8578073/posts/default/6525627027211794875'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://pedroalexandresanches.blogspot.com/2011/01/quem-parte-leva-saudade-de-alguem-que.html' title='quem parte leva a saudade de alguém que fica chorando de dor...'/><author><name>Pedro Alexandre Sanches</name><uri>http://www.blogger.com/profile/07131381196986635010</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-8578073.post-3512754876341974488</id><published>2011-01-04T17:21:00.001-02:00</published><updated>2011-01-04T17:27:36.420-02:00</updated><title type='text'>sair nu em capa de revista</title><content type='html'>Pra quem ainda não quis entender: a posse de uma mulher na presidência do Brasil melhora, valoriza e emancipa não apenas as mulheres brasileiras, mas toda a sociedade brasileira, queridas brasileiras e queridos brasileiros.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A emancipação das mulheres brasileiras melhora os homens brasileiros.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A emancipação feminina É a emancipação masculina.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Se vocês, mulheres, estiverem beeeeeem emancipadas, quem sabe nós, homens, possamos confessar que, sim, também achamos o sexo chato, burocrático e obrigatório de vez em quando. Que, sim, por vezes também temos de disfarçar orgasmos (e que, não, ejaculações não são necessariamente sinônimos de orgasmos). Tipo assim.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quem sabe um dia, com o apoio de vocês, mulheres, nós, homens, tomamos coragem e dizemos umas coisas dessas... Ops, escapou, eu já disse?...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Acho que disse, ai que medo, e este é apenas um (re)começo. Nós, homens, ainda podemos dizer (e fazer) uma porção de coisas. Mas (mas-ismo?) vocês, mulheres, vão ter que querer nos ouvir (diz que vocês gostam de escutar, é vero mesmo?). &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ou, quer saber?, mesmo que vocês não queiram escutar, nós queremos falar (queremos?). Há muito tempo eu vivi calado, mas agora resolvi falar. Não vou ficar (calado), não, não, não, não, não!&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/8578073-3512754876341974488?l=pedroalexandresanches.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8578073/posts/default/3512754876341974488'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8578073/posts/default/3512754876341974488'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://pedroalexandresanches.blogspot.com/2011/01/sair-nu-em-capa-de-revista.html' title='sair nu em capa de revista'/><author><name>Pedro Alexandre Sanches</name><uri>http://www.blogger.com/profile/07131381196986635010</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-8578073.post-8525042579425373687</id><published>2011-01-03T23:34:00.000-02:00</published><updated>2011-01-03T23:34:09.650-02:00</updated><title type='text'>pegar alguém pulando o muro</title><content type='html'>Sabe qual foi o trecho do discurso de Dilma Vana em que não acreditei, por mais que ela o repetisse (e ela repetiu, oxe, como repetiu)? Foi aquele trecho sobre não guardar ressentimentos ou rancores.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Com sua licença, sra. presidenta, eu não acredito que exista uma pessoa na face do planeta Terra (planeta Água, planeta Mágoa, planeta Mágua - alô, sr. Carlinhos Brown!) que não acumule ao longo da vida rancores, ressentimentos, securas, mágoas, águas e máguas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Prefiro ficar com minha amiga Madeleine (mãe da gata Evita), para quem esse trecho do discurso da Vana é um dardinho envenenadinho endereçado com mira fina aos alvos (humanos) de seus ressentimentos e rancores.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas a gente sabe: a Vana saberá, como Silva soube, fermentar, destilar, depurar, TRANSformar e recompor seus re-sentimentos. Pois os ressentimentos de Luiz Inácio recolheram mesmo quantos milhões de almas da miséria absoluta (hein, Soninha?, #medo #coincidência #rancor #valetudo)? Como já compuseram Alice Ruiz e Itamar Assumpção, a cada milágrimas sai um milagre (e mil nem são tantas assim, em se tratando de lágrimas).&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E tu, querida brasileira, querido brasileiro, já fez limonada com seus rancores hoje?&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/8578073-8525042579425373687?l=pedroalexandresanches.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8578073/posts/default/8525042579425373687'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8578073/posts/default/8525042579425373687'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://pedroalexandresanches.blogspot.com/2011/01/pegar-alguem-pulando-o-muro.html' title='pegar alguém pulando o muro'/><author><name>Pedro Alexandre Sanches</name><uri>http://www.blogger.com/profile/07131381196986635010</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-8578073.post-8884795833756281844</id><published>2011-01-03T12:39:00.001-02:00</published><updated>2011-01-03T12:39:54.709-02:00</updated><title type='text'>bionicar o corpo inteiro</title><content type='html'>Para quem teve a cara-de-pau de retrucar o imenso simbolismo guardado na continência batida pelos militares para Dilma Rousseff: se as Forças Armadas de hoje fossem 100% diferentes das Forças Armadas de 1964, 1968 ou 1974, elas (el"a"s, as armas, as frágeis-forças) já teriam pedido desculpas desassombradas pelo que fizeram em 1980, em 1975, em 1974, em 1968, em 1964...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Do mesmo modo, já teriam pedido desculpas os banqueiros, donos de jornais e redes de TV, industriais e outros presidentes de instituições "respeitáveis" que guiaram a (gigantesca) parte civil da ditaDURA civil-militar brasileira de 1964-1984.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Há muitos esqueletos ainda escondidos em nossos armários, nem vem que não tem ventriloquar papagaísmos-de-pirata do globismo ditabrando (im)popular brasileiro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mantra para para 2011: pensa com a tua própria cabeça, faz com teus próprios braços, querido sem ouro, querida sem hora.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/8578073-8884795833756281844?l=pedroalexandresanches.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8578073/posts/default/8884795833756281844'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8578073/posts/default/8884795833756281844'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://pedroalexandresanches.blogspot.com/2011/01/bionicar-o-corpo-inteiro.html' title='bionicar o corpo inteiro'/><author><name>Pedro Alexandre Sanches</name><uri>http://www.blogger.com/profile/07131381196986635010</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-8578073.post-2188409559120711098</id><published>2011-01-03T08:29:00.000-02:00</published><updated>2011-01-03T08:32:39.871-02:00</updated><title type='text'>pixar a vida de artista</title><content type='html'>E a propensão em apontar o dedo para o quintal-espelho do vizinho, que sai da toca bem obsessivo-compulsiva nestas primeiras horas de 2011? &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Roberto Carlos DEVE assumir sua deficiência física, proclama Elio Gaspari. Dilma "pecou" (alguém sempre "peca", nessas circunstâncias) por não defender os gays em seus discursos, incomodam-se os próprios gays. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Incomodados pela performance da recém-presidenta, adolescentes Brasil afora desejam um franco-atirador para interromper em pleno voo o curso recém-iniciado de Dilma Vana (misoginia explícita, não mais concentrada em Marcela, mas em Dilma nela-em-si-propriamente-dita - adolescentes são piores, ou simplesmente mais sinceros, que adultos?).&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ou seja, todos cobram do OUTRO o que o OUTRO não fez. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E o que Elio Gaspari, como Roberto Carlos, poderia ter feito (e assumido), mas nunca fez (nem assumiu)? &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quantos gays (e bis, e heteros etc.) resmungam de abandono por parte de Dilma, de dentro de seus próprios vários armários? Nossos patrões, chefes, pais e padres sabem, por nossas próprias bocas, que somos gays? &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E os pais que "educaram" seus filhos a desejar o assassinato da presidenta? Empunhariam o fuzil para consumá-lo? Ou, melhor, teriam CORAGEM de apontar uma arma para suas próprias têmporas?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;OK, dirá você, estou aqui resmungando, MAS eu mesmo vivo apontando os dedões para, por exemplo, os jornalistas e a nossa "grande" mídia. Sim, tem razão, EU sou igual a VOCÊ. Mas... &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;MAS eu SOU jornalista, e há alguns anos não faço outra coisa senão espinafrar meus pares (ou seja, a mim mesmo, mesmo quando não uso a primeira pessoal singular explícita) e (portanto) tentar espanar poeira no meu próprio terreiro. Foi-se o tempo em que minha principal diversão ("diversão"?) era pixar a vida de artista. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu não precisava ir ao quintal-espelho do vizinho (quintal-espelho abandonado é lâmina baldia, sra. japonesa Yoko). Meu próprio quintal estava cheio de quiçaça, entulho e carrapato, e eu fingia (para mim mesmo) que não percebia.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/8578073-2188409559120711098?l=pedroalexandresanches.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8578073/posts/default/2188409559120711098'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8578073/posts/default/2188409559120711098'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://pedroalexandresanches.blogspot.com/2011/01/pixar-vida-de-artista.html' title='pixar a vida de artista'/><author><name>Pedro Alexandre Sanches</name><uri>http://www.blogger.com/profile/07131381196986635010</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-8578073.post-8663024884326689380</id><published>2011-01-02T19:39:00.001-02:00</published><updated>2011-01-02T19:39:38.853-02:00</updated><title type='text'>ser o dono da verdade</title><content type='html'>Eu fico impressionado (pessimamente impressionado) com a epidemia de jornalismo zora yonara nesta época do ano. É um tal de fazer vidência travestida de noticiário que eu vou te contar, os olhos já não podem ver.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Exemplos de jornalismo yonara, horóscopo transvestido de um pinguinho de curiosidade sobre a "vida real"? "Dilma terá um ano difícil em 2011", dãããã (como diria aquela outra pirata-cigana, vidente, taróloga, cartomante, quiroprática de meia-tigela).&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Jornalismo oscar quiroga com viés autoritário? "Dilma deve fazer isto", "Dilma deve dizer aquilo", "o Brasil deve seguir tal rumo", matraqueiam os professores-raimundos crossdresseados de jornalistas-zumbis.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Reportagem ancorada no mas-ismo, tem? Tem. "Lula tirou 2,3 pessoas da pobreza, MAS esgotos continuam a céu aberto." "Brasil melhora na era Lula, MAS nem tanto." "Cientistas descobrem a cura da aids, MAS ainda há infectados." "Posse de Dilma afasta desencanto pós-mensalão, MAS fica longe da comoção de 2002" (a-cuma???) "Cristiana Lobo, Ricardo Noblat, Monica Waldvogel &amp; Reinaldo Azevedo, Miriam Leitão, Marcelo Tas nunca foram estadistas nem fizeram discurso, MAS têm receita para tudo e sabem detectar imediatamente quando 'veem' um discurso de não-estadista (freqüentemente, antes mesmo de o discurso ser proferido)". &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;"Jornalista da Globo dá aulas de moralidade, ética e costumes políticos, MAS recebe auxílio-salário do Banco do Brasil", tem? Não tem, não, senhor, sem ouro, sem hora.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ou vai querer dizer que agora é moda achar que tudo é uma pobreza, ô, ibrahim sued do século vintage? Pseudojornalismo de oráculo mequetrefe, já não basta? Basta.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/8578073-8663024884326689380?l=pedroalexandresanches.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8578073/posts/default/8663024884326689380'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8578073/posts/default/8663024884326689380'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://pedroalexandresanches.blogspot.com/2011/01/ser-o-dono-da-verdade.html' title='ser o dono da verdade'/><author><name>Pedro Alexandre Sanches</name><uri>http://www.blogger.com/profile/07131381196986635010</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-8578073.post-7412141562829847575</id><published>2011-01-02T13:30:00.000-02:00</published><updated>2011-01-02T13:31:02.530-02:00</updated><title type='text'>chauvinista pra ser homem?</title><content type='html'>Em seu discurso no parlatório, Dilma Vana foi gentil, mas firme e certeira, com seu vice, Michel, o marido de Marcela Temer.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Citou, farta e generosamente, o vice-presidente ausente que entregava a faixa a Michel. Explicitou a grandeza de José Alencar, solicitando discretamente comportamento equivalente por parte de Michel.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Talvez não seja fácil presidir depois de Luiz Inácio, mas certamente tampouco será pequena a missão de vice-presidir depois de José. Com a palavra (ou os gestos), o marido de Marcela.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E, com a palavra, a nova presidenta, quando citou seu trans-conterrâneo Guimarães Rosa: "É isso, a vida pede, sobretudo, coragem para ser vivida e transformada". Para Luiz, Marisa, José, Marisa, Dilma, Dilma, Marcela, Michel, você e eu. Cê tá escutando?, cê tâ entendendo? Ouvido é para ouvir, ficha telefônica não é cotonete, orelha não é abajur de brinco.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/8578073-7412141562829847575?l=pedroalexandresanches.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8578073/posts/default/7412141562829847575'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8578073/posts/default/7412141562829847575'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://pedroalexandresanches.blogspot.com/2011/01/chauvinista-pra-ser-homem.html' title='chauvinista pra ser homem?'/><author><name>Pedro Alexandre Sanches</name><uri>http://www.blogger.com/profile/07131381196986635010</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-8578073.post-6866245248078700478</id><published>2011-01-02T11:54:00.001-02:00</published><updated>2011-01-02T11:55:26.083-02:00</updated><title type='text'>coroa e cara de menina (ou) a inquisição da idade média</title><content type='html'>Hum, cheio de caraminholas aqui, acho que isto vai virar tipo uma série "agora é Dilma", "agora é moda". Prosseguindo:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Uma presidenta solteira é ladeada por um vice grisalho, esticado, de braços dados com uma esposa jovem, expressiva, loura, linda, de linda trança loura.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;São traços de uma sociedade ainda extremamente machista, misógina, patriarcal? São.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Agora (é moda?), resposta à altura, ou pior, à baixeza, é uma sociedade inteira reagir à cena concentrando fuzilaria patriarcal, misógina, machista - e covarde- na moça, na Marcela Temer. Nessa hora, somos o espelho quebrado (moralista, puritano, autofóbico) do casal Michel-Marcela. Eles somos nós.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Espelho quebrado vira lâmIna, como já dizia Yoko Ono.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;"Para além da minha pessoa, a presença de uma mulher na presidência melhora e valoriza a sociedade brasileira", disse Dilma Vana, cê tá escutando?, cê tá entendendo? Ouvido é para ouvir, orelha não é cabide de molambo.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/8578073-6866245248078700478?l=pedroalexandresanches.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8578073/posts/default/6866245248078700478'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8578073/posts/default/6866245248078700478'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://pedroalexandresanches.blogspot.com/2011/01/coroa-e-cara-de-menina-ou-inquisicao-da.html' title='coroa e cara de menina (ou) a inquisição da idade média'/><author><name>Pedro Alexandre Sanches</name><uri>http://www.blogger.com/profile/07131381196986635010</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-8578073.post-4571942919382396704</id><published>2011-01-02T09:58:00.000-02:00</published><updated>2011-01-02T09:59:07.283-02:00</updated><title type='text'>do lado esquerdo do peito</title><content type='html'>Dois meses atrás, logo depois de eleita, Dilma Rousseff foi até Luiz Inácio Lula da Silva receber os cumprimentos. Abraçaram-se diante das câmeras, e Lula aninhou Dilma em seu peito.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ontem, no parlatório, quando Dilma estava empossada e enfaixada e Lula já era ex, trocaram magistralmente os papeis: abraçaram-se mais uma vez, e Dilma Vana aninhou Luiz Inácio em seu peito.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Aula magna de camaradagem, companheirismo, irmandade, igualdade, equidade, simbolismo, pois sim? Há imagens que falam mais do que 190 milhões de palavras, ou tanto quanto 190 milhões de votos (em quaisquer candidatos, pois, como ontem disse alguém, "não peço a ninguém que abdique de suas convicções", cê escutou?, cê entendeu?).&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/8578073-4571942919382396704?l=pedroalexandresanches.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8578073/posts/default/4571942919382396704'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8578073/posts/default/4571942919382396704'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://pedroalexandresanches.blogspot.com/2011/01/do-lado-esquerdo-do-peito.html' title='do lado esquerdo do peito'/><author><name>Pedro Alexandre Sanches</name><uri>http://www.blogger.com/profile/07131381196986635010</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-8578073.post-4335065999074499297</id><published>2010-11-06T01:35:00.001-02:00</published><updated>2010-11-06T01:36:25.102-02:00</updated><title type='text'>a humanidade vive a perguntar se existe vida em outro lugar</title><content type='html'>Hoje estive no município de Barueri, na região oeste da Grande São Paulo, para participar de um debate num programa educativo ancado pela prefeitura (tucana) da cidade e coordenado pelo Joul, integrante do fenomenal grupo de hip-hop Matéria Rima, do qual &lt;a href="http://pedroalexandresanches.blogspot.com/2007/08/banda-universal.html" target="_blank"&gt;já falei (pouco) por aqui&lt;/a&gt; alguns anos atrás.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A chamada cultura urbana era um dos fios condutores do debate. A plateia era de adolescentes animadíssimos, e a mesa, um bocado heterogêna. Participávamos eu (no papel de jornalista, crítico musical e, suponho, representante da "minoria branca" de que falava Claudio Lembo, aquela mesma que anda ultimamente cuspindo fogo e ódio contra NORDESTINOS por conta da eleição não de um operário NORDESTINO, mas de uma mulher economista mineira-gaúcha para a presidência da República), o escritor Ferréz, os grafiteiros Tota e Binho, o artista plástico (argentino, radicado paulistano) Balzi e representantes do poder público local. Entre esses últimos, havia três integrantes da Guarda Municipal. E foi aí que os meus olhos se encheram de lágrimas, como de hábito.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Logo de cara percebi, meio sem perceber, um relativo isolamento dos três (dois homens e uma mulher - a única presente na mesa montada no palco do Teatro Municipal de Barueri) em relação a "nosotros". Sentaram-se juntos, num extremo do palco. À esquerda deles havia um assento vazio (no qual depois o inquieto Joul se acomodaria), a seguir o meu, depois Ferréz e os demais. Somente um dos policiais falou no início dos trabalhos (e não foi a mulher, se você me entende). Seu discurso procurou distinguir grafite de pixação, em detrimento dessa última, e foi contestado por Binho, Tota e, principalmente, Ferréz. Ninguém da plateia fez perguntas aos três. Aquelas coisas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A certa altura, em meio a alguma fala, mencionei que eu era do Paraná. E percebi, meio sem perceber, um sobressalto ali nalgum lugar do meu lado direito. Mais adiante, num dos momentos em que o assento do Joul estava vazio, o policial mais próximo de mim me chamou num sussurro perguntou: "De que cidade do Paraná você é?". Maringá. "Eu também!". E me contou que não só ele (putzgrila!, nem o nome do cara eu fixei) é paranaense e policial, como também é o maestro e o regente da banda da polícia de Barueri. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quando foi fazer suas considerações finais (sem ter antes feito as iniciais), o "Maestro" (como era tratado pelo porta-voz dos três - do qual, putzgrila 2!, também não fixei o nome) contou, ainda por cima, de sua pós-graduação e dos estudos que faz sobre samba de raiz, com auxílio de Raquel Trindade - que, Ferréz explicou, é filha do folclorista, poeta, ator, pintor, teatrólogo e cineasta (PERNAMBUCANO) Solano Trindade, figura histórica da movimento negro brasileiro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nessa rápida fala, o "Maestro" mencionou também como todo mundo se afasta imediatamente de um cara como ele, quando um cara como ele está vestindo farda. Disse que, por baixo daquele uniforme, mora um pai de família, um cidadão etc. Tive a impressão que aí os olhos dele marejaram, e foi aí que minha voz embargou - ou melhor, teria embargado, se eu não estivesse calado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O debate terminou (muito bem, obrigado), e começaram apresentações artísticas da garotada de lá - e do histórico e formidável dançarino Nelson Triunfo, o "nosso" James Brown NORDESTINO-paulista-BRASILEIRO. (Nelsão, que não é besta nem nada, sabe quão legal é o Matéria Rima, do qual age como padrinho informal - ele esteve no palco dos rapazes quando se apresentaram no projeto "Prata da Casa" do Sesc Pompeia, quando eu era curador, &lt;a href="http://pedroalexandresanches.blogspot.com/2008/05/volta-ao-mundo-em-67-brasis.html" target="_blank"&gt;nem sei mais em que ano&lt;/a&gt;.)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E eis que de repente, em meio às apresentações, o porta-voz dos policiais desabotoou o coldre (é assim que fala?), abandonou as armas na poltrona da plateia, subiu de volta ao palco e... pôs-se a dançar break!!! Foi ovacionado pela meninada, apesar do corpo não de todo adaptado à agilidade desconcertante da galera da street dance.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Somo mentalmente agora as intervenções de cada um dos policiais, e as minhas, e vejo que voltei a vivenciar hoje, num registro POSITIVO, muito diferente do que estava acostumado a raciocinar, aquilo que havia aprendido em "Cães de Guarda - Jornalistas e Censores, do AI-5 à Constituição de 1988" (Boitempo, 2004), da historiadora Beatriz Kushnir. Um de meus livros-de-cabeceira, ele investiga as interligações e semelhanças sórdidas entre policiais, censores e jornalistas paulistas durante a fase de terror da ditadura militar brasileira. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas, de volta a Barueri, o evento começou debate e terminou festa. A molecada toda subiu no palco para exibir seus próprios passos de dança em meio a dançarinos, policiais, estudantes, rappers etc. A policial feminina não teve coragem de subir, muito menos eu, apesar de termos sido convocados pelo Joul.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Essas experiências de integração - ou de convergência, eu diria, usando a palavra que não me sai da cabeça desde domingo 31 de outubro - nem são uma grande novidade, como bem sabe o pessoal do AfroReggae lá no Rio de Janeiro, entre muitos outros. Mas foi a primeira vez que vi acontecer diante dos meus olhos, aqui mesmo em São Paulo, nesta terra mais tucana que petista onde, a acreditar no que se lê diariamente na "grande" mídia (e até mesmo em seu filhote rebelde Twitter), parece só existir uma elite branca escrota dominada pelo ódio aos nordestinos. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Vou te contar, eu vi de tudo um pouco lá em Barueri, menos um Brasil dividido em dois ou um estado de São Paulo pronto para aderir ao nazifascismo separatista. Terminei mais essa tarde feliz tomando café com bolachas com esse pessoal tão heterogêneo - e travando, pela primeiríssima vez em 42 anos de vida, diálogos completos, amistosos e despidos de qualquer temor com três policiais.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/8578073-4335065999074499297?l=pedroalexandresanches.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8578073/posts/default/4335065999074499297'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8578073/posts/default/4335065999074499297'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://pedroalexandresanches.blogspot.com/2010/11/humanidade-vive-perguntar-se-existe.html' title='a humanidade vive a perguntar se existe vida em outro lugar'/><author><name>Pedro Alexandre Sanches</name><uri>http://www.blogger.com/profile/07131381196986635010</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-8578073.post-423855902415926578</id><published>2010-11-03T21:41:00.003-02:00</published><updated>2010-11-03T21:58:26.378-02:00</updated><title type='text'>há uma cordilheira sob o asfalto (ou: pro dia nascer feliz)</title><content type='html'>Já nos queixamos muito dos rumos que a campanha presidencial de 2010 tomou ao longo do segundo turno, com a vinda à tona de vários instintos básicos e baixos de... todos nós. Foi misoginia, homofobia, racismo, xenofobia, um espetáculo dantesco proporcionado pelo monstro de mil cabeças que... somos nós.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas, quer saber? Cada vez mais eu acho que foi necessário, e francamente positivo. Tenho de admitir que falo isso amparado pelo resultado final, e que certamente estaria me sentindo muito deprimido se as unas tivessem dito outra coisa. Foi um pulo no vazio (mais um!), sem a menor garantia de que as asas iam conseguir se mover ou que o paraquedas se abriria na hora H. Parece que deu certo (de novo!).&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Foi bom, foi muito bom, mesmo com as atitudes filme-de-terror adotados em pique "Tea Party dos Estados Unidos (e/ou do Vaticano)" pela campanha demotucana. Aprendemos a odiar apaixonadamente José Serra, que assumiu para si o papel de vilão e de bode expiatório da eleição - nos fez um mal danado, mas nos fazendo mal acabou por nos fazer um bem tremendo. Se Freud explicá-lo, quem sabe um dia ele saiba dar a volta por cima da própria pequenez.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Serra atiçamos preconceitos e fundamentalismos, na maior parte do tempo terceirizando o serviço sujo (não raro delegando-o a &lt;a href="http://pedroalexandresanches.blogspot.com/2010/10/vamos-passear-nos-estados-unidos-do.html" target="_blank"&gt;figuras femininas&lt;/a&gt;). Tudo isso foi peçonhento, arriscado, perigoso à beça para todos nós, e afinal de contas fez com que (nosso lado) Serra morrêssemos na praia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O lado bom é que, acirramentos à parte, o Brasil escolhemos com tranquilidade, votamos serenamente, legitimamos com altivez o voto que -juravam - significava a ruína e o apocalipse do país.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O resultado? O Brasil dissemos não à TFP, à triade tradição-família-propriedade, filha do casal Casa-Grande &amp; Senzala. O Brasil dissemos não à TFP, essa primogênita do colonialismo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O Brasil desafiamos a &lt;span style="font-weight:bold;"&gt;tradição&lt;/span&gt;. Elegemos nossa primeira mulher presidente da República. De 35 presidentes, 35 foram homens. Não mais.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O Brasil desafiamos a &lt;span style="font-weight:bold;"&gt;família&lt;/span&gt;, ou melhor, aquela família falida, patriarcal, fundada num só vetor de regras e imposições. Dilma tem mãe, filha, genro, neto, ex-maridos, mas não é chefe ou cônjuge de uma família tradicional. Dilma-presidente desafiamos a família preconizada pela Igreja Católica mais fundamentalista e pelos nichos fundamentalistas encravados nas diversas religiões (ateísmos incluídos). Com muito custo, muita hesitação e muito receio, Dilma dissemos não à misoginia (e à criminalização do aborto), não à homofobia (e à satanização do casamento gay e da constituição não-&lt;span style="font-weight:bold;"&gt;tradicional&lt;/span&gt; de famílias), não ao racismo (e à xenofobia, que só foi emergir explicitada depois da eleição).&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O Brasil desafiamos a &lt;span style="font-weight:bold;"&gt;propriedade&lt;/span&gt;. Não aceitamos a demonização do MST (Movimento dos Sem-Terra). Afirmamos (muito tenuemente) que sabemos da existência da Cufa (a Central Única das Favelas) e dissemos não ao recurso medroso da da favela cenográfica (pois, ora, há favelas de verdade no Brasil). Rejeitamos o monolito da religião que pretende se sobrepor sobre o Estado laico (assim, nos posicionamos indiretamente contra a pedofilia, ainda que representada na figura para lá de ambígua de Magno Malta). Repudiamos a satanização de bolivianos e iranianos (ou seja, a xenofobia). Acima de tudo, vencemos a propriedade (paternalista, autoritária) transfigurada em coronelismo eletrônico-e-impresso encastelada na chamada "grande" mídia, ou velha mídia. Derrotamos os ímpetos egocêntricos e infantilizados do conglomerado Globo-Abril-Folha-Estado que queria-porque-queria nos impor seu ungido.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Enfim, o Brasil declaramos, solene e alegremente: não queremos mais ser TFP!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O Brasil, hoje, nos chamamos Dilma Rousseff. Com muito orgulho, muita FELICIDADE e muita gratidão pelo pau-de-arara/retirante/iletrado/operário/metalúrgico/sindicalista que nos abrimos este caminho (não devemos nos iludir, a xenofobia que o Brasil resolveram - ou resolvemos?  - externar no pós-eleição é ressentimento dirigido sobretudo contra ele, ou seja, contra nós mesmos). O Brasil, além de tudo, temos direito à FELICIDADE, quiçá como cláusula pétrea de uma Carta Magna ainda por vir.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;[O texto já acabou, mas eu ainda tenho mais a dizer, êita, cotovelos falantes! Faz de conta que daqui em diante é um P.S.]&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nos dias que se seguiram à sua eleição, Dilma deu sucessivas demonstrações de habilidade, inteligência e serenidade - as mesmas que o Brasil ofereceu nas urnas. Entre todas, quero destacar uma que me causou firme e forte boa impressão (como diriam os jornalistas que até a semana passada criam que essa mulher era a pior pessoa do mundo e, de repente, descobriram a pólvora - a pólvora, eu disse - e se puseram a elogiar os primeiros discursos da primeira-mulher do país).&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu, que fugi deste tema propositalmente durante os últimos muitos meses, me rendo: não aguento mais, agora quero falar do cabelo e da roupa da presidente!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Após uma longa campanha durante a qual José Serra usou sistematicamente gravatas vermelhas, qual um travesti de petista, no "day after" do apocalipse, digo, da eleição Dilma Rousseff apareceu na TV Record (primeiro) e na TV Globo (depois) vestida de... azul. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Dilma vestiu azul (papapapapapá!), a cor dos (demo)tucanos, como a dizer: "Agora eu sou de vocês também", "agora vocês também somos Dilma". Depois de os adversários tentarem anulá-la e excluí-la sem tréguas nem apego à verdade, ela agiu como quem já foi torturado barbaramente e como quem sabe peitar os preconceitos que sofre: estendeu a mão para incluir aqueles que queriam excluí-la e (principalmente) os sortudos 44 milhões de eleitores deles.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(P.S. do P.S.: Sobre o cabelo já andei falando no Twitter, e até &lt;a href="http://pedroalexandresanches.blogspot.com/2010/10/e-se-voce-fecha-o-olho-menina-ainda.html" target="_blank"&gt;aqui mesmo&lt;/a&gt;, quem sabe qualquer hora dessas a gente volta ao tema...)&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/8578073-423855902415926578?l=pedroalexandresanches.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8578073/posts/default/423855902415926578'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8578073/posts/default/423855902415926578'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://pedroalexandresanches.blogspot.com/2010/11/pro-dia-nascer-feliz.html' title='há uma cordilheira sob o asfalto (ou: pro dia nascer feliz)'/><author><name>Pedro Alexandre Sanches</name><uri>http://www.blogger.com/profile/07131381196986635010</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-8578073.post-389170581215553760</id><published>2010-11-01T20:15:00.000-02:00</published><updated>2010-11-01T20:16:04.876-02:00</updated><title type='text'>...da mais louca alegria que se possa imaginar...</title><content type='html'>Minha principal constatação individual, concluído o processo eleitoral, é que nunca antes na história deste país eu havia acompanhado tão intensamente uma campanha presidencial - até porque, inédita conjunção de fatores, hoje em dia há blogosfera, twittosfera, facebookosfera, orkutosfera, internetosfera...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Foi incrível, pelo aprofundamento compulsório a que isso obrigou, e também pelo desgaste e pelo cansaço que trouxe (tomara que a gente descanse e acalme um pouco nos próximos tempos, né?).&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;"Day after", fiquei com vontade de fazer este blog comemorar a linda vitória de Dilma Rousseff da forma mais descontraída possível: brincando, que tal?, de fazer um balanço livre, leve, solto e descompromissado desta longa e extenuante campanha. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu, que odeio lista de "os 10 mais" &amp; idiotices afins, proponho daqui em diante umas brincadeiras bobas, um quem-é-quem, uns palpites pessoais - quem dá mais?:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Os mais baixo-astral (Troféu Urubu): jornais (dia 1 de novembro), televisão (dia 30 de outubro), jornais, revistas e TV (a campanha inteira).&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Os maiores caras-de-tacho (Troféu Sr. Burns): William Waack e Plinio de Arruda Sampaio (noite de 30 de outubro).&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pior momento individual de Serra na campanha (Troféu Idade Média): a farsa aloprada da bolinha de papel. O tropeço foi montado em pique século XX (esqueceram que hoje em dia tudo se filma, nada se ignora!) e se deu em idioma que todo mundo entende (os sambistas deitaram e rolaram com a bolinha de papel).&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Melhor momento individual de Dilma (Troféu William Homer): o diálogo carne-e-osso com William Bonner no último debate, quando o cronômetro falhou. Saiu totalmente de qualquer script, e acabou aplaudida até pelo sr. Jornal Nacional.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pior momento da campanha de Serra (Troféu Padre Francisco de Canindé): seu encontro com o fundamentalismo religioso, via Bento XVI, Silas Malafaia, Dom Luizinho etc. Eu apostaria um dedo mindinho que Serra é ateu, e que ter de tomar as posições que tomou em relação a aborto, casamento gay etc. foi um dos fundos-de-poço da carreira e da vida dele.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pior momento da campanha de Dilma (Troféu Erenice Guerra): seu encontro com o fundamentalismo religioso, via cordas bambas em que tentava se compatibilizar com as religiões sem se incompatibilizar com os movimentos de direitos civis, e vice-versa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Melhor momento da campanha de Dilma (Troféu Dilma Rousseff): a atitude olímpica, de jamais descer ao nível rasteiro que o adversário tentava impor.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O melhor momento de Lula na campanha (Troféu Caetano Veloso): o segundo turno inteiro, quando se recolheu ao segundo plano praticamente de cabo a rabo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Prêmio Espelho Distorcido (Troféu Roberto Jefferson): um triplo empate, José Serra, Mônica Serra, Soninha Francine.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O melhor jingle (Troféu Lulalá): @dilmaboy.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O ativista virtual mais bem-humorado: José de Abreu.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A ativista virtual mais mal-humorada: Soninha.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O ativista virtual mais mal-humorado: Argh!naldo Jabor.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A ativista virtual mais bem-humorada: Pinky Wainer ("hay que enriquecer sin perder la ternura").&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ativista virtual-revelação (Troféu Seda Pura &amp; Alfinetadas): Marta Suplicy.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ativista-revelação (Troféu Hay Que Enriquecer Sin Perder La Ternura): Hildegard Angel.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O pior momento da "Veja" (Troféu InVeja): A enésima tentativa de ridicularizar Lula na última capa pré-Dilma-presidente. Pintou o presidente mais popular da história como vagabundo-pelado-com-boia-na-cintura. E ofendeu 80% do (e)leitorado brasileiro, só para variar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O pior momento do "Estado" (Troféu Tiro no Pé): o  "cortem-lhe a cabeça" a Maria Rita Kehl, porque ela fez uma avaliação óbvia (e inédita) do Bolsa-Família e, de quebra, deitou no divã a elite (i)letrada brasileira (donos de veículos de comunicação à frente).&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O pior momento da Globo (Troféu Luciano Huck): empate entre 1) a truculência-pitbull de Bonner com Dilma e Marina Silva, nas entrevistas do primeiro turno e 2) o empenho "altamente relevante" em provar que no meio do caminho havia uma fita crepe (ou seria uma bigorna?).&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O pior momento da Folha (Troféu Quero Me Matar): tristemente disperso, difundido e distribuído ao longo de todo o processo eleitoral (se alguém tiver paciência de enumerar a loooooonga lista...).&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Musa intelectual próSerra (Troféu Regina Duarte): Maitê Proença.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Musa intelectual próDilma (Troféu Tecnobrega): Chimbinha da Banda Calypso.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Musa intelectual hors-concours (Troféu Tartaruga): Oscar Niemeyer.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Trilha sonora Serra: KLB, Sandy &amp; Junior, Chitãozinho &amp; Xororó, Leo Jaime, Paula Toller, Roger Moreira, Rita Lee (esta, só após o fechamento das urnas).&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Trilha sonora Dilma: Alcione, Leci Brandão, Chico Buarque, Margareth Menezes, Gilberto Gil, Elba Ramalho, O Teatro Mágico, Mano Brown, Sandra de Sá, Netinho de Paula, Chico César, Alceu Valença, Marina Lima, Arnaldo Baptista etc. etc. etc. etc.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Os mais ambíguos 1 (Troféu O Estardalhaço Antes do Chá de Sumiço): Maria Bethânia, Caetano Veloso, Adriana Calcanhotto, Arnaldo Antunes.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Os mais ambíguos 2 (Troféu Anfíbio): Aécio Neves. Marina Silva. Ricardo Noblat.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pior dramaturgia eleitoral (Troféu José Serra): Aguinaldo Silva, Gilberto Braga, Glória Perez.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Melhor dramaturgia eleitoral (Troféu Tiririca): Tiririca.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O eleitor mais elegante: José Alencar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Melhor eleitora (Troféu Marisa Letícia): Maria Rita Kehl.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pior eleitora (troféu Weslian Roriz): Mônica Serra.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pior eleitor (Troféu FHC): José Serra.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Melhor eleitor (Troféu Lula): Luiz Inácio Lula da Silva. E nós. :-)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Que mais? Quem mais? Quem dá mais?&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/8578073-389170581215553760?l=pedroalexandresanches.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8578073/posts/default/389170581215553760'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8578073/posts/default/389170581215553760'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://pedroalexandresanches.blogspot.com/2010/11/da-mais-louca-alegria-que-se-possa.html' title='...da mais louca alegria que se possa imaginar...'/><author><name>Pedro Alexandre Sanches</name><uri>http://www.blogger.com/profile/07131381196986635010</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-8578073.post-3137161738370465493</id><published>2010-10-30T16:11:00.002-02:00</published><updated>2010-10-30T16:18:38.356-02:00</updated><title type='text'>para pedro pedro para (pra pensar)</title><content type='html'>Há um texto que estava guardado e represado aqui dentro fazia tempo - talvez uma vida inteira. Ontem, 29 de outubro de 2010, ele saiu daqui de dentro, e hoje, 30 de outubro de 2010, foi publicado, eba.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Saiu daqui de dentro instigado pela Carol Patrocínio (@carolpatrocinio) e pelo pessoal do incrível blog-site &lt;a href="http://www.perraps.com.br/" target="_blank"&gt;Per Raps&lt;/a&gt; (@per_raps). O Per Raps trata (principalmente) de rap, mas esta semana eles dedicaram inteira a escrever sobre política e eleições presidenciais, e me pediram um texto sobre esse assunto, eba.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Carol surgiu com a proposta de que eu escrevesse, livremente, algo sobre as relações entre a política e o dia-a-dia de todos nós, sobre como as escolhas políticas refletem quem a gente é no cotidiano, e vice-versa. Antes mesmo de começar, fiquei pensando: tenho 16 anos de profissão como jornalista e até hoje nunca, nunca, nunca um editor de jornal ou revista ou quem quer que seja jamais havia me pedido um texto sequer parecido com isso. E quem me pediu foi, olha só, um pessoal ligado ao rap, ao hip-hop, eba.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Por essas e por outras, eu não consigo vislumbrar uma véspera de eleição mais feliz para mim que isso. E então, pronto, o que saiu foi este texto (extremamente pessoal) que estava escondido e guardado desde sempre. Ah, e ainda ganhei o novo apelido de "Pedro Alex Sanches", eba!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Enfim, vai ele aí. O lugar mais exato e justo para lê-lo é o &lt;a href="http://www.perraps.com.br/2010/10/30/politica-e-educacao-conceitos-complementares/" target="_blank"&gt;Per Raps&lt;/a&gt;, mas também não dava para eu não querer deixar registrado e guardado para sempre aqui no meu próprio blog - que, por essas e por outras, tem voltado a ficar movimentado ultimamente, eba.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(Meu muito obrigado ao pessoal do &lt;a href="http://www.perraps.com.br/" target="_blank"&gt;Per Raps&lt;/a&gt;!)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;b&gt;Política e educação: conceitos complementares&lt;/b&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;i&gt;por Pedro Alex Sanches&lt;/i&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Meu pai nasceu numa família pobre, à beira do rio Uruguai, na zona rural de Santa Catarina. Mais tarde, conseguiu estudar se formar em ciências contábeis. Minha mãe, nascida no interior do Rio Grande do Sul, teve menos sorte (se é que se pode chamar de “sorte” a abissal diferença de condições que a sociedade dá a homens e mulheres): foi criada num orfanato de freiras que deixavam suas alunas passarem fome e as torturavam psicologicamente, e só conseguiu estudar até a quarta série.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O casal se radicou em Maringá, interior do Paraná, onde nascemos os três filhos. Meu pai virou dono de casa lotérica, seguindo o exemplo do pai dele, e pôde sustentar a família com tranquilidade. Sempre incutiu conceitos rígidos de honestidade nos filhos, mas depois de adulto eu, o caçula, não pude deixar de pensar inúmeras vezes que recebi alimento e conforto às custas da exploração do sistema lotérico mantido pelo regime militar (meu pai, embora nunca tenha sido um homem violento, era adepto entusiasmado da ditadura civil-militar brasileira).  O público preferencial das casas lotéricas, nem preciso dizer, era a parte mais pobre da população, aquela que só conseguia vislumbrar chance de melhorar na vida ganhando fortunas na loto ou na mega-sena.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A vida inteira estudei em escolas públicas. Do primeiro ano primário até a idade de entrar na faculdade, estudei no Instituto Estadual de Educação de Maringá. Depois, me formei em farmácia-bioquímica pela Universidade Estadual de Maringá e, depois, em jornalismo pela Universidade de São Paulo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A rigor, minha formação foi paga pelos governos dos estados do Paraná e de São Paulo, mais complementos bancados pelo meu pai  (uniformes, material escolar, livros, xerox, aluguel de quitinete paulistana). Mas acho que posso afirmar, simbolicamente, que fui subsidiado pelos generais da ditadura, depois pelos presidentes José Sarney, Fernando Collor, Itamar Franco e, no último ano do curso de jornalismo, Fernando Henrique Cardoso. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Estou dizendo, em outras palavras, que ganhei desses governantes a minha cota de “bolsa esmola” – que é como a playboyzada mais ignorante e socialmente insensível costuma se referir ao Bolsa-Família de Lula, que pede a permanência das crianças na escola em troca de uma ajuda de custo mensal. Vejo que hoje as escolas estão povoadas por crianças muito mais pobres do que eu fui, e isso me dá um arrepio de alegria.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Dizem que o ensino público brasileiro é fraco, e concordo em parte. Tive que complementar minha formação por aí, muitas vezes por conta própria, e muitas deficiências carrego até hoje. Nem mesmo na conceituada, cobiçada e elitizada USP, por exemplo, jamais tive aulas de cidadania, racismo, misoginia, homofobia, direitos humanos, direitos civis…&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mesmo assim, minha formação foi suficiente para eu conseguir emprego na Folha de São Paulo, antes mesmo de me formar jornalista (nossa “grande” mídia sempre criticou a falta de diploma do presidente Lula, mas em geral nunca exigiu diploma de seus funcionários, como não exige os diplomas dos vários cursos e cargos não-concluídos de seu atual candidato a presidente, José Serra). &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No meu caso, ir para a &lt;span style="font-style:italic;"&gt;Folha&lt;/span&gt; significou que indiretamente continuei a ser financiado pelos governos (tucanos) do estado e do país. É o que acontece até hoje com quem trabalha em veículos como &lt;span style="font-style:italic;"&gt;Folha&lt;/span&gt;, &lt;span style="font-style:italic;"&gt;Veja&lt;/span&gt;, &lt;span style="font-style:italic;"&gt;O Estado de São Paulo&lt;/span&gt; e amplos setores da Rede Globo, todos atualmente divididos entre a “bolsa-esmola” das polpudas publicidades do governo petista de Lula (que combateram raivosamente durante oito anos) e dos governos tucanos de São Paulo (aos quais são amplamente subservientes, a ponto de parecerem seus sócios, ou no mínimo empregados regiamente remunerados).&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No balanço disso tudo aí fui sempre, não sei bem por quê (ou será que sei?), um fã ferrenho dos partidos políticos de esquerda, especialmente o PT. Em 1989, quando eu tinha 21 anos, o Brasil promoveu sua primeira eleição direta para presidente após 29 anos sob a tirania de ditadores e semiditadores. Nesse intervalo, os militares de extrema-direita prenderam, expulsaram do país, torturaram e assassinaram milhares de cidadãos e cidadãs (inclusive a atual candidata petista a presidente, Dilma Rousseff, que dessas coisas todas “só” não foi exilada nem assassinada). &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Vivi do nascimento à maioridade sob esse clima irrespirável, altamente repressivo, mas a maioria avassaladora dessas notícias não chegava a Maringá, nem eu tinha o hábito de ler jornais. Mesmo assim, alguma coisa inexplicável (ou será que explicável?) sempre me puxou para votar à esquerda, e desde então tenho votado em Luiz Inácio Lula da Silva – em 1989, 1994, 1998, 2002 e 2006. Em 3 de outubro votei pela primeira vez num candidato que não é Lula, e repetirei o mesmo voto amanhã: vou votar em Dilma Rousseff, é óbvio. A propósito, festejo esse privilégio de que usufruo desde os 21 anos: que bom poder votar!!!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pois bem, assim fui seguindo e sigo a vida, sempre com dificuldade de ligar todos os pontos que a constituem, muitas vezes sem conseguir muito explicar os porquês das minhas opções, dos meus erros, das causas que me movem à luta. Depois de dez anos na &lt;span style="font-style:italic;"&gt;Folha&lt;/span&gt; e quatro na revista &lt;span style="font-style:italic;"&gt;CartaCapital&lt;/span&gt; (que foi minha pós-graduação informal em jornalismo, como costumo dizer), resolvi tentar viver como jornalista autônomo, sem vínculo empregatício direto com nenhuma empresa jornalística – tenho me virado legal, mas a real é que há quase dois anos vivo em regime de subemprego (sem férias remuneradas, décimo-terceiro, aquelas coisas), por ironia num tempo em que o governo Lula cria 200 mil novos empregos por mês. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Como disse, é difícil juntar os pontos dos significados de tantos dados espalhados, mas eu cheguei perto de algum entendimento maior quando fui ler &lt;span style="font-style:italic;"&gt;Lula – O Filho do Brasil&lt;/span&gt; (Editora Fundação Perseu Abramo, 2002), da jornalista e doutora em ciências humanas Denise Paraná (esse livro, bem acadêmico, originou o filme de mesmo nome, embora um pouco tenha a ver com o outro). Alguns trechos ali me impressionaram profundamente, em especial os que interpretavam como a condição de operário de Lula ajudou a moldá-lo do modo como o conhecemos hoje. Peço licença para copiar alguns deles aqui:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;i&gt;“Lula e Frei Chico (...) contam também por que aspiravam a trabalhar em empresas multinacionais: eram elas que ofereciam os mais altos salários e – aqui aparece novamente a questão da auto-estima – participar de seu quadro de funcionários era um orgulho não só pessoal como também familiar”;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“(…) pertencer ao quadro de funcionários de uma grande empresa, uma indústria que encarnasse progresso e pujança econômica, era para o trabalhador um símbolo de que ele também passava a encarnar tais qualidades, representando a figura do vencedor dentro da mais genuína lógica capitalista”;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Ao mesmo tempo em que reconhece a existência de salários privilegiados em relação à média do mercado, Sader aponta para o alto grau de controle disciplinar, para os sistemas repressivos e o tratamento despótico dispensado aos trabalhadores pelos empresários das grandes indústrias automobilísticas que tendiam a criar um clima de tensão e competição entre os trabalhadores, minando os movimentos de solidariedade e possíveis formas de organização”;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“(…) o grande sonho dos operários era assumir uma função bem remunerada e valorizada socialmente no interior das grandes empresas; assim, o caminho para a melhoria de vida e a ascensão social fazia-se através de um percurso individualista. A famosa e tão repetida expressão popular ‘vencer na vida’ traduzia-se aqui em tornar-se finalista numa corrida individual por melhor emprego, isto é, melhor condição de vida, deixando os colegas para trás”&lt;/i&gt;.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Imagino que o jornalismo possa parecer a você uma profissão legal, privilegiada, bem-remunerada (nem tanto, viu?, nem tanto…), glamurosa (no meu caso, fui ser jornalista musical, o legal dentro do legal). É meio assim mesmo, não nego, mas, nossa!, como eu me identifiquei com as palavras acima quando as li. Parecia que Denise Paraná estava descrevendo a minha vida profissional&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;Foi só a partir dessa leitura (ou seja, há pouco mais de um ano) que comecei a entender um pouco melhor a minha posição de operário dentro da grande fábrica de notícias (e ficções nada científicas) que é a nossa “grande” mídia. Certo, não lido com tijolo e cimento, e sim com tinta e papel, ou melhor, neurônios, dedos e computador. Mas, meu amigo, minha amiga, se eu fosse falar o quanto conheço, de dentro de ambientes supostamente “educados”, sobre maus tratos, assédio moral, homofobia, bullying (aliás, essas são outras “matérias” que jamais aprendi em escola nenhuma, e você?)... &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Até de racismo conheço um pouco, apesar de ser branco como papel – meu, se você soubesse quanto é difícil emplacar reportagens sobre rap nacional na “grande” imprensa brasileira…&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Estou querendo dizer que, à parte a atmosfera “civilizada” e o tal glamour, a vida de um jornalista assalariado guarda elementos hereditários, eu diria, de servidão, humilhação e escravidão, tanto quanto inúmertas outras profissões – ator de TV, cantora, operário, empregada doméstica, trabalhador de construção, babá de filhotes riquinhos, porteiro, diarista, catador de papel, taxista, secretária-executiva, bancário, professora de escola pública (ou particular), segurança, policial…&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Foi aí que deu o clique, que me veio a explicação lógica para eu ter votado tantas vezes em Lula e já ansiar, um ano atrás, pela hora de votar em Dilma. Mesmo sem carteirinha de sindicato ou ficha de filiação partidária, eu saí da barra da saia do meu pai em 1991 para virar um operário, um integrante do partido dos trabalhadores (uso em minúsculas, porque até no PSDB e no DEM existem trabalhadores), pô!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ainda não tenho certeza se a minha vida em particular melhorou ou piorou nos últimos oito anos (ah, quer saber?, acho que melhorou, sim, à beça!). Mas, concluído mais este ciclo, tenho uma certeza: sou muito, muito, muito orgulhoso dos votos que emprestei a Lula, esse meu irmão.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nesses anos todos, enquanto pelejava para cá e para lá com meus tijolos de palavras, vi muita coisa acontecer. O pré-sal e o respeito à estatal Petrobras começaram a enriquecer o Brasil como um todo, e há leis garantindo que seus lucros não sejam entregues aos Estados Unidos a preço de espelhinhos e miçangas. O Brasil, antes desprezado e humilhado na chamada comunidade internacional, goza de um respeito externo que jamais havia possuído – não era à toa, pois até pouco mais de um século atrás éramos um país oficialmente escravocrata, e só há 26 anos encerramos uma ditadura sangrenta bancada pelos supostamente “cultos” Estados Unidos. Mas qualquer hora dessas vão dizer que não somos mais um país “subdesenvolvido”, quer apostar?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Este Brasil hoje goza de respeito e admiração internacional porque tem Lula, que lidera a decisão de não baixar mais a cabeça para os países “ricos”, mas também respeita os países da África, o Haiti, Cuba, o Irã (e não só regimes tirânicos “amigos” dos EUA, como Israel, Itália – e os próprios EUA). Respeita para ser respeitado, em resumo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nesses oito anos, o Bolsa-Família (e não “bolsa-esmola”, como diz quem teve estudo e parece não tê-lo aproveitado para maiores aprendizados) começou a democratizar o ensino. O ProUni tem levado às universidades uma população crescente de estudantes mais pobres, para tomar posse das vagas que deviam ser deles desde sempre, mas eram quase sempre ocupadas por garotos como eu e por garotos muito mais ricos que eu. Universidades  novas têm sido construídas, inclusive em regiões como o Nordeste, e não só no universo-umbigo chamado São Paulo e vizinhanças. As cotas raciais vêm sendo implantadas (a USP, gerida por governos tucanos, até agora não o fez, olha que curioso). &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Assim como o Brasil cresce aos olhos do mundo, aqui empregadas domésticas, porteiros e pedreiros têm comprado carros, viajado de avião e frequentado universidades, e existe muita madame e muito marmanjo incomodados com a “inesperada” dificuldade de contratar serviçais. O fato de seus cidadãos menos favorecidos se desenvolverem aqui dentro é o que faz o Brasil crescer lá fora (e passar incólume de crises financeiras ditas “mundiais”), muito mais que o contrário. A autoestima precisa sempre vir antes da estima dos outros, senão nunca vem. Os mais ignorantes e estúpidos entre nossos patrões e patroas ficam enlouquecidos quando intuem essa profunda transformação – eles gostam mesmo é de escravidão, sem nem perceberem que também são escravos, ainda que forrados de ouro e papel-moeda.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Enquanto o Brasil atravessava essas mudanças, aqui em São Paulo o então governador Serra e seus asseclas deixavam gente sem nenhuma perspectiva de futuro estufar a cracolândia no centro da cidade – segundo línguas más e sordidamente mudas, para desvalorizar o mercado imobiliário daquela região e preparar o “futuro” (futuro de quem, caras-pálidas?) para a edificação de um pomposo centro empresarial, ou coisa que o valha. Como que perdido no tempo, o então governador Serra tratava policiais e professores do ensino público à base de cassetete e gás lacrimogênio, como se ainda estivéssemos em plena ditadura militar. Como muita gente já sabe, o modo mais eficaz de manter escrava uma população é negar-lhe condições de educação e emprego pleno. Bingo (ou eu devia dizer loto, sena, jogo do bicho?).&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Há muita coisa acontecendo no Brasil, mas a grande revolução que Lula tem promovido acontece nesse binômio, emprego-e-educação. E, curiosamente, a “grande” mídia que sustenta minha sobrevivência simplesmente ODEIA tocar nesse assunto. Em pleno processo eleitoral, prefere falar (sempre preconceituosamente) sobre religião, aborto, casamento homossexual, bolinha de papel, “terrorismo” da candidata que foi torturada pela ditadura sustentada por ela, mídia, com mão de ferro. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E cá estou eu, ligando pontinhos, tentando somar essas coisas todas. Por falar em somar, escrevi e publiquei um livro chamado &lt;span style="font-style:italic;"&gt;Como Dois e Dois São Cinco&lt;/span&gt; (Boitempo, 2004), sobre Roberto Carlos, o cantor mais popular da história do Brasil – olha só, até livros o meu “bolsa-esmola” me permitiu escrever.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A conclusão à que chego é que às vezes parece até que nem sei em quem voto ou por que voto nessa e naquele. Mas, olha, acho que eu sei, sim. Sei com quem me identifico. Sei que carrego sentimentos de culpa, mas também de injustiça, que me causam raiva, por mim mesmo e por outros muitos irmãos (neste ponto, posso chamá-lo de irmão, ou irmã?).&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sei que busco minha felicidade individual nesta vida, mas sei também que só sou feliz quando estou interagindo com um monte de gente, e que quanto mais gente feliz existe ao meu redor (ou mesmo longe de mim), maior é a minha probabilidade de ser mais feliz. Dito tudo isso, você já sabe qual é o apelido que vou dar à minha felicidade na urna amanhã. Temos uma noite inteira pela frente, pensa bastante aí que nome você quer dar à sua felicidade.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/8578073-3137161738370465493?l=pedroalexandresanches.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8578073/posts/default/3137161738370465493'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8578073/posts/default/3137161738370465493'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://pedroalexandresanches.blogspot.com/2010/10/para-pedro-pedro-para-pra-pensar.html' title='para pedro pedro para (pra pensar)'/><author><name>Pedro Alexandre Sanches</name><uri>http://www.blogger.com/profile/07131381196986635010</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-8578073.post-865200958263206429</id><published>2010-10-29T10:31:00.001-02:00</published><updated>2010-10-29T10:34:21.114-02:00</updated><title type='text'>um homem deste tamanho com tanto medo da Dilma???</title><content type='html'>Tensão pré-eleitoral é fogo, e pelo que sei ainda não se inventaram remédios eficazes para combatê-la.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ou será que inventaram?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tenho usado um remedinho aqui para a minha TPE (pensa que homem também não tem, é?!). E sabe que está ajudando imensamente, pelo menos para aliviar os sintomas externos?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Estou me referindo à coisa mais genial que apareceu nos meios culturais, em relação aos últimos dias da campanha. É o samba de partido alto "Bolinha de Papel, você sabe do que estou falando, não sabe?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;object width="480" height="385"&gt;&lt;param name="movie" value="http://www.youtube.com/v/sF39pz56-Sk?fs=1&amp;amp;hl=pt_BR"&gt;&lt;/param&gt;&lt;param name="allowFullScreen" value="true"&gt;&lt;/param&gt;&lt;param name="allowscriptaccess" value="always"&gt;&lt;/param&gt;&lt;embed src="http://www.youtube.com/v/sF39pz56-Sk?fs=1&amp;amp;hl=pt_BR" type="application/x-shockwave-flash" allowscriptaccess="always" allowfullscreen="true" width="480" height="385"&gt;&lt;/embed&gt;&lt;/object&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Faço questão de, além de ouvir, transcrever a deliciosa letra (destaque total para as duas últimas estrofes, sutis em não mencionar explicitamente aquilo que não deve ser nomeado):&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Deixa de ser enganador&lt;br /&gt;Pois bolinha de papel&lt;br /&gt;Não fere nem causa dor&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Um homem forte&lt;br /&gt;De tamanho natural&lt;br /&gt;Como pode uma bolinha lhe mandar pro hospital?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O factoide&lt;br /&gt;Ao perceber que perdeu&lt;br /&gt;Entra logo em desespero&lt;br /&gt;Foi o que aconteceu&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Cara-de-pau&lt;br /&gt;Sempre existiu por aí&lt;br /&gt;Uma bola de papel&lt;br /&gt;Lhe mandar pro CTI&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Me engana&lt;br /&gt;Já diz a rapaziada&lt;br /&gt;Foi sentir 20 minutos&lt;br /&gt;Após levar a bolada&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;É bom que saibam&lt;br /&gt;Que não estamos em guerra&lt;br /&gt;Que em 31 de outubro esta história se encerra&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pra aparecer&lt;br /&gt;Pede que a turma te filma&lt;br /&gt;Um homem deste tamanho&lt;br /&gt;Com tanto medo da Dilma&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ah, e no final do clipe ainda vem o texto-manifesto curto e direto, assinado por Martinho da Vila, Wilson Moreira, Monarco, Nelson Sargento, Delcio Carvalho, Gisa Nogueira, Noca da Portela, Tantinho da Mangueira, Moacyr Luz, Paulão Sete Cordas, Ze da Velha, Silvério Pontes, Cláudio Jorge e Wanderley Monteiro. É mole ou quer mais? O tempo passa, os anos voam, o Bamerindus muda de nome, mas o samba continua sendo um dos maiores orgulhos deste Brasilzão.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(P.S.: este texto foi publicado ao som de "Tudo Bem (Big Ben)", nova do Bebeto, gênio do samba-rock, brasileiríssimo: "Mas tudo bem/ ah, tudo bem/ eles não têm Jorge Ben/ o deles é big/ o nosso é Jorge/ mas tá tudo bem/ estamos bem." Manhã feliz!)&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/8578073-865200958263206429?l=pedroalexandresanches.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8578073/posts/default/865200958263206429'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8578073/posts/default/865200958263206429'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://pedroalexandresanches.blogspot.com/2010/10/um-homem-deste-tamanho-com-tanto-medo.html' title='um homem deste tamanho com tanto medo da Dilma???'/><author><name>Pedro Alexandre Sanches</name><uri>http://www.blogger.com/profile/07131381196986635010</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-8578073.post-8028044001565358803</id><published>2010-10-28T04:19:00.002-02:00</published><updated>2010-10-28T10:10:35.412-02:00</updated><title type='text'>...e se você fecha o olho a MENINA ainda dança</title><content type='html'>Tudo começou porque dei vazão, no Twitter, a uma fofoca que ouvi semanas atrás (e que não tenho a menor ideia se tem algum fundo de verdade). Ouvi dizer que Dilma Rousseff, eleita, pararia de tingir os cabelos e os deixaria naturalmente grisalhos. Além de ser a primeira presidente brasileira, passaria também uma presidenta grisalha. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu acho o máximo, e externei isso via @pdralex.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Para quê. Criou-se uma pequena celeuma lá, com uma maioria de manifestações de que mulher "não pode" deixar de cabelos sem tintura (ao contrário dos homens, que não só podem como são elogiados por serem grisalhos). Logo entrou também o tema da depilação feminina, em registro parecido: basta alguém tocar nesse assunto que, invariavelmente, um monte de gente grita de imediato, indignada pelo temor (fobia, eu diria) de sequer imaginar uma dama de sovacos cabeludos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Defendi lá no Twitter, e sigo defendendo aqui, que tratam-se de manifestações arraigadamente misóginas. Se o ódio à mulher é moeda corrente, que dirá o ódio à mulher grisalha, o ódio à mulher cabeluda. A geral, composta indistintamente por homens e por mulheres, repete os mesmos clichês de sempre ("não pode!", "que nojo!"), sem nem pensar sobre o assunto, sem refletir minimamente no quanto de regra, norma, prisão, discriminação, tortura psicológica e misoginia há nessas simples e amplamente obedecidas proposições.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Diz o senso comum: mulher TEM QUE tingir os cabelos. Homem NÃO PODE usar esmalte nas unhas nem batom nos lábios. Mulher que não depila pernas e axilas é NOJENTA. Homem de saia é ASQUEROSO (além de frouxo e bicha, obviamente). Mulher É OBRIGADA a furar as orelhas (não sei por quê, isso me faz pensar em cachorros com os rabos amputados, por razões "estéticas") para "poder" vesti-las de brincos, argolas e miçangas que tais.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(Em geral não aprecio escrever em MAIÚSCULAS, mas fiz isso agora para ACENTUAR o caráter AUTORITÁRIO e DITATORIAL de tais proposições - ou de ORDENS, prefiro afirmar.)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(Outra coisa que não aprecio fazer, e da qual fugi durante toda a campanha eleitoral, é ficar me detendo às roupas e aos cabelos da candidata Dilma - me parece um modo misógino de tergiversar, de deixar sem discussão as ideias e os pensamentos daquela mulher, de qualquer mulher, algo que nunca se faz com o candidato homem. Hoje baixei a guarda, pelos motivos especiais que você há de entender.)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pois bem, Dilma Rousseff vem aí, e toco aqui nesses tabus por considerá-los questões quentes e candentes do momento, assim como aborto, casamento gay e toda essa série de temas comportamentais que a campanha presidencial de 2010 tem trazido à tona - de modo bestial, mas paradoxalmente também benéfico, palpito. E se a presidenta Dilma ficar grisalha, quem aí vai fazer mimimi e trololó? O &lt;a href="http://pedroalexandresanches.blogspot.com/2010/10/vamos-passear-nos-estados-unidos-do.html" target="_blank"&gt;monstro de mil caras da misoginia&lt;/a&gt; vai arreganhar também esses dentes, se ela o fizer?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas então, volto a tocar no tabu por isso, mas também por uma outra razão, mais que nada, mas que tudo. A discussão no Twitter rapidamente me fez lembrar que em julho passado, quando a revista "Trip" propôs e eu ajudei a &lt;a href="http://revistatrip.uol.com.br//revista/192/reportagens/por-que-nao-viver-nao-viver-esse-mundo.html" target="_blank"&gt;executar&lt;/a&gt; um reencontro &lt;a href="http://revistatrip.uol.com.br/revista/192/reportagens/novos-baianos-a-versao-de-moraes-moreira.html" target="_blank"&gt;parcial&lt;/a&gt; dos velhos Novos Baianos, houve um trecho de entrevista muito emocionante para mim, e que ficou inédito até agora porque eu não soube como encaixar naquele material. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ali eu estava começando a encaficar um pouco mais com temas como esses, e quem incendiou minha imaginação foi, mais uma vez, uma cantora (e pastora evangélica) absolutamente fenomenal, antes chamada Baby Consuelo, hoje rebatizada Baby do BRASIL (este usado em maiúsculas pela grandeza, não por nostalgias de ditaduras semi-inacabadas). Finalmente achei o pretexto e a motivação para voltar a eles e ao partir agora para a transcrição me deparei, para meu espanto, com uma fileira de alguns dos mesmos assuntos que, meses mais tarde, viriam a frequentar dramaticamente a campanha presidencial.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt; Sendo assim, convido você agora a passear comigo na van que nos levava de volta à vida real, após a breve visita de Baby, Luiz Galvão, Paulinho Boca de Cantor e Dadi Carvalho ao Sítio do Vovô dos Novos Baianos, velhos cariocas. Falávamos, naqueles trechos, sobre o fato de Baby ser uma única mulher ao redor de quase uma dezena de homens no grupo. Sobre religiosidade. Mais adiante, sobre o rock-samba-frevo-etc. &lt;a href="http://www.youtube.com/watch?v=-sYkWmdmRsc" target="_blank"&gt;"O Mal É o Que Sai da Boca do Homem"&lt;/a&gt;, que Baby Consuelo e Pepeu Gomes defenderam no festival MPB 80 da Rede Globo - e que bateu de frente com a Censura da já agonizante ditadura civil-militar, por conta de versos como "você pode fumar baseado/ baseado em que você pode fazer quase tudo/ contanto que você possua/ mas não seja possuído/ porque o mal nunca entra pela boca do homem/ porque o mal é o que sai da boca do homem". E sobre Branca de Neve, e sobre cabelos coloridos, e sobre... sovacos cabeludos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Entrarão aí abaixo uns tantos temas,  a meu ver todos apetitosíssimos, e todos aperitivos da sabedoria altamente caótica dessa artista excepcional. Fala, dona Baby do BRASIL.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(Antes, uma última observação, à parte: dedico esse texto, com a maior admiração, ao também excepcional cartunista &lt;a href="http://ultimosegundo.ig.com.br/cultura/livros/laerte+em+carne+osso+e+minissaia/n1237811802611.html" target="_blank"&gt;Laerte&lt;/a&gt;, tão &lt;a href="http://moda.ig.com.br/modanomundo/ser+mulher+e+muito+caro/n1237812404702.html" target="_blank"&gt;maravilhosamente doidão&lt;/a&gt; hoje quanto sempre foram Baby &amp; os Novos Baianos.)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;*&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-weight:bold;"&gt;PAS -&lt;/span&gt; Como era ser mulher ali naquela comunidade? Era mais difícil por isso?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-weight:bold;"&gt;BB -&lt;/span&gt; É porque eu sou muito macho também, entendeu? Eu sou muito macho. Sou muito menino, e menina, "se Deus é menina ou menino", né?, somos "masculino e feminino" [&lt;i&gt;faz referência à canção homônima dela, de Pepeu Gomes e de Didi Gomes, gravada em 1983 por Pepeu&lt;/i&gt;]. Nunca fui de laço de fita invisível na cabeça. Sempre fui um ser, um ser casualmente feminino. Não gosto de determinadas frescuras femininas e não gosto de certos comportamentos femininos, e também dos masculinos. Acho que nós somos iguais em muitas coisas, e nas nossas diferenças [&lt;i&gt;faz voz charmosa&lt;/i&gt;, alongando a letra "a"] nós nos completaaaaamos. (...)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-weight:bold;"&gt;PAS -&lt;/span&gt; Baby, como você se relaciona hoje com a sua fase solo, pop, de "Cósmica" [&lt;i&gt;1982&lt;/i&gt;], "Telúrica", &lt;a href="http://www.youtube.com/watch?v=v5e2WLxerCQ" target="_blank"&gt;"Todo Dia Era Dia de Índio"&lt;/a&gt; [&lt;i&gt;ambas 1981&lt;/i&gt;]?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-weight:bold;"&gt;BB -&lt;/span&gt; Ai... Olha, que delícia isso, sabe por quê? Há muito tempo eu já não estava visitando essa área, porque comecei a compor pro gospel, e muito ligada com esse meu lado "popstora". Mas alguns convites foram feitos, eu analisei e topei fazer. E aí começa todo mundo a gritar: "'Cósmica'!", "'Telúrica'!"..., e músicas campeãs nisso, que são &lt;a href="http://www.youtube.com/watch?v=XaZtEUZobJk" target="_blank"&gt;"Brasileirinho"&lt;/a&gt; [&lt;i&gt;1976&lt;/i&gt;], &lt;a href="http://www.youtube.com/watch?v=mqcq4wwjL8o" target="_blank"&gt;"A Menina Dança"&lt;/a&gt; [&lt;i&gt;1972&lt;/i&gt;], &lt;a href="http://www.youtube.com/watch?v=PCHBpkaqM1Y" target="_blank"&gt;"Menino do Rio"&lt;/a&gt; [&lt;i&gt;1979&lt;/i&gt;]... O pessoal fica louco. E achei muito gostoso, porque, quando compus muitas dessas músicas, com Pepeu na parceria, eram coisas muito pessoais minhas. A letra de &lt;a href="http://www.youtube.com/watch?v=GHF2zBmqnsY" target="_blank"&gt;"Masculino e Feminino"&lt;/a&gt;, por exemplo, na verdade era "ser uma mulher masculina não fere o meu lado feminino", que era essa coisa de a Baby ser igual a qualquer um dos Novos Baianos. Mas aí dei pro Pepeu, porque o disco dele ia sair primeiro. Pensei: vai ser um escândalo esse negócio do Pepeu, tá dizendo que ele é gay?, não, não é isso, ele tá falando de um homem feminino. Essas letras todas eram parecidas comigo, falei: "Pô, não sei se esse povo vai entender". Aí foram entendendo, sempre teve um lado Baby meio brejeira... &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas quando chegou agora... Tenho encontrado fã que tinha nove anos de idade, apareceu um no show com Elza Soares e Ademilde Fonseca, sei lá com quantos anos, 39, dizendo: "Eu até me converti por causa de você, sou louco por você", querido, lindo, trouxe todos os discos. Tá vindo coisa de todo lado, tá tudo aparecendo, pra mim tá sendo muito gostoso. Neguinho fala: "Quero 'Cósmica'!". "Você conhece?" "Conheço, amo aquela música", olha que coisa engraçada! Porque é completamente diferente do que todo mundo tá ouvindo...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-weight:bold;"&gt;PAS -&lt;/span&gt; É uma fase sua que está sendo revalorizada de um tempo pra cá, como já tinha acontecido com a fase dos Novos Baianos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-weight:bold;"&gt;BB -&lt;/span&gt; Você já sacou isso?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-weight:bold;"&gt;PAS -&lt;/span&gt; Sim.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-weight:bold;"&gt;BB - &lt;/span&gt;Então não sou só eu que tô sacando, né?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-weight:bold;"&gt;PAS -&lt;/span&gt; "Todo Dia Era Dia de Índio" faz o maior sucesso em qualquer festa. (...) Aquelas letras todas soavam esquisitas, talvez não fosse algo que as pessoas estivessem esperando na época, mas a sonoridade era fenomenal.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-weight:bold;"&gt;BB -&lt;/span&gt; Marav... [&lt;i&gt;interrompe-se&lt;/i&gt;] O disco "Canceriana Telúrica" [&lt;i&gt;1981&lt;/i&gt;] tem oito músicas, e das oito quatro foram sucesso total, não sei se você lembra [&lt;i&gt;ô, se lembro, Baby!...&lt;/i&gt;]. (...) "Telúrica" e "Cósmica" foram duas palavras que encontrei, achei &lt;a href="http://www.youtube.com/watch?v=WvuRdZgcics" target="_blank"&gt;"Telúrica"&lt;/a&gt; uma palavra maravilhosa e tomei a liberdade, como poeta, de usar "telúrica" para ser o "terrestre", com luz. Ou seja, terrestre é terrestre, vende a mãe por um saco de dinheiro, mas telúrico não vende. Era isso que eu queria dizer. Lembro que uma vez Chico Buarque se encontrou comigo e falou: "Foi maravilhoso você ter encontrado essa palavra e a maneira que você tá usando". E em &lt;a href="http://www.youtube.com/watch?v=zdG4M0Hvp3w" target="_blank"&gt;"Cósmica"&lt;/a&gt; eu falei: "É sintonia espiritual pra ser transcendental". Era a minha definição, completamente fora do misticismo comum da época. Eu passei por muitas fases, mergulhei em muitas religiões, busquei muito, mas sempre detestei altares fora, isso sempre me deu mal estar, me incomoda. Acho que o altar é dentro, você tem que estar santa por dentro, não é ficar falando da boca pra fora.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-weight:bold;"&gt;PAS -&lt;/span&gt; A fase do guru Thomas Green Morton foi um equívoco?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-weight:bold;"&gt;BB -&lt;/span&gt; Na fase do Thomas Green me parecia que eu tinha encontrado definitivamente uma porta, uma porta estreita até, e que Deus ia se materializar pra mim a qualquer hora. Porque tudo se materializava, água transformava em óleo e perfume, papel em ouro, os metais entortavam, tudo acontecia. Demorou dez anos pra eu descobrir que aquela energia não era o que eu buscava. Imagina, você tá no meio de materialização e desmaterialização... Quando descobri que não era...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-weight:bold;"&gt;PAS -&lt;/span&gt; Essas transformações eram simulações dele?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-weight:bold;"&gt;BB -&lt;/span&gt; Não, aquilo acontecia. É uma outra energia, Rá é um principado do Egito, é Lúcifer, que tá amarrado e reconhecido em nome de Jesus - já que perguntou tem que dizer, vai fazer o quê, né? Mas isso é bíblico, conheço porque estudei e sei, está lá na escritura, cada um é um.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-weight:bold;"&gt;PAS -&lt;/span&gt; "O Mal É o Que Sai da Boca do Homem" você nunca mais vai cantar?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-weight:bold;"&gt;BB -&lt;/span&gt; Não, isso é maravilhoso, é de Jesus...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-weight:bold;"&gt;PAS -&lt;/span&gt; A música fala de baseado [&lt;i&gt;na fase evangélica, Baby faz restrições veementes ao tema drogas&lt;/i&gt;]...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-weight:bold;"&gt;BB  -&lt;/span&gt; Essa frase é de Jesus.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-weight:bold;"&gt;PAS -&lt;/span&gt; Nessa música você dizia "você pode fumar baseado, baseado em que você pode fazer quase tudo", isso você não cantaria hoje?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-weight:bold;"&gt;BB -&lt;/span&gt; É, eu não quero falar desse negócio. Não falo dessa música, a gente não pode falar dela agora.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-weight:bold;"&gt;PAS -&lt;/span&gt; Preciso dizer, eu descobri você em 1980, por causa dela...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-weight:bold;"&gt;BB -&lt;/span&gt; É, mas não é pela música, é aonde chega... [&lt;i&gt;Galvão conta que hoje não autoriza mais gravações dessa música, e Baby acaba falando sobre ela&lt;/i&gt;] A música falava de fumar, comer e beber, que eram coisas que estavam acontecendo normalmente na nação. Tudo que você fizer, você pode fazer, baseado, baseado em quê? Você pode fazer quase tudo, contanto que você possua, mas não seja possuído. O trocadilho entrou, e entrou muito bem. Fui ao Supremo Tribunal Federal com Pepeu, e quase pegamos uma cadeia de 15 anos, então não quero falar dessa música. Essa frase "contanto que você possua, mas não seja possuído, porque o mal é o que sai da boca do homem", eu peguei da Bíblia. A ideia era que a juventude entendesse o seguinte: ninguém vai ser babá de você, não. mas se você for possuído por cada droga, que é o que aconteceu, você vai dançar [&lt;i&gt;ela e Galvão divergem, discutem a letra&lt;/i&gt;].&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-weight:bold;"&gt;Galvão -&lt;/span&gt; Essa música ganhou o festival. Um cara do júri chegou pra mim: "Vocês ganharam o festival, mas aí uma pessoa lá disse que essa música tá falando de maconha, na Globo" [&lt;i&gt;o vencedor anunciado foi Oswaldo Montenegro, cantando "Agonia"&lt;/i&gt;]. (...)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-weight:bold;"&gt;BB -&lt;/span&gt; Você tá falando uma coisa que eu, como autora também [&lt;i&gt;a canção é assinada por Pepeu, Baby e Galvão&lt;/i&gt;], não vejo. Não vejo essa música mandando ninguém fumar maconha.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-weight:bold;"&gt;PAS -&lt;/span&gt; Posso te contar uma coisa? Eu tinha 12 anos quando "O Mal É o Que Sai da Boca do Homem" apareceu na Globo, morava no interior do Paraná, nunca tinha ouvido falar ou prestado atenção nos Novos Baianos. Descobri Baby e Pepeu naquela ocasião...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-weight:bold;"&gt;BB -&lt;/span&gt; Que delícia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-weight:bold;"&gt;PAS -&lt;/span&gt; ...e uma coisa que me marcou muito é que você tinha o...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-weight:bold;"&gt;BB -&lt;/span&gt; O cabelo debaixo do braço!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-weight:bold;"&gt;PAS -&lt;/span&gt; ...o sovaco peludo. Isso era muito libertário, não era?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-weight:bold;"&gt;BB -&lt;/span&gt; Maravilhoso, maravilhoso.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-weight:bold;"&gt;PAS -&lt;/span&gt; Até hoje mulher não pode deixar de raspar...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-weight:bold;"&gt;BB -&lt;/span&gt; Pode, poder pode... Eu não raspo debaixo do braço até hoje.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-weight:bold;"&gt;PAS -&lt;/span&gt; É? Não era uma coisa pra provocar?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-weight:bold;"&gt;BB -&lt;/span&gt; Não, isso é o seguinte: se você pode, por que eu não posso? Eu tinha que ficar raspando todo dia, todo dia, que saco!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-weight:bold;"&gt;PAS -&lt;/span&gt; Uma mulher masculina...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-weight:bold;"&gt;BB -&lt;/span&gt; Toda hora tem que raspar debaixo do braço, a perna, eu quero música! Eu tenho muito pouco pelo debaixo do braço, e esqueço o tempo todo disso, esqueço de unha, esqueço de tudo. Eu tô doida por guitarra, meu Deus do céu, chega! Agora, acho uma delícia quem tá sem pelo, "ai, que gracinha", "uma gracinha ela". Mas isso não muda nada pra mim.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-weight:bold;"&gt;PAS -&lt;/span&gt; Não é um machismo da sociedade, que a mulher é obrigada a raspar aqueles pelos e o homem não?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-weight:bold;"&gt;BB -&lt;/span&gt; Mas é o seguinte, agora vamos falar o lado bom disso: o pelo debaixo do braço geralmente dá cecê aquele cabeeeelo. Porque tem mulher que não é um cabelo, é um chumaço [&lt;i&gt;risos&lt;/i&gt;]. Aí descobriram tirar o cabelo, olha que maravilha, ficou sem cabelo nenhum. Acho maravilhoso também, mas acho que tem que ser livre. Acho maravilhoso a perna lisinha, mais bonito que ela cheia de cabelo, embaralhando, fazendo trança. Agora, o homem fica bem, né?...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-weight:bold;"&gt;PAS -&lt;/span&gt; Isso causou falatório em 1980, e se aparecesse hoje uma mulher de braço cabeludo na TV ia causar o mesmo falatório que 30 anos atrás, não?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-weight:bold;"&gt;BB  -&lt;/span&gt; É, teve uma época que eu pintei o cabelo debaixo de um braço de rosa e o do outro de azul. Não consegui ficar porque começaram a manchar as camisas todas [&lt;i&gt;risos&lt;/i&gt;]. As camisas ficaram azuis e rosa debaixo do braço.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-weight:bold;"&gt;PAS -&lt;/span&gt; Fez shows assim?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-weight:bold;"&gt;BB -&lt;/span&gt; Fiz, falei: "Vou pintar o cabelo colorido, esse povo vai enlouquecer quando eu tirar a primeira foto assim". Eu já tava curtindo adoidado, né?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-weight:bold;"&gt;PAS -&lt;/span&gt; Os cabelos coloridos começaram por quê?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-weight:bold;"&gt;BB -&lt;/span&gt; Porque eu era fã da Branca de Neve quando era criança, e ela tinha um cabelo azulão. Tudo que na minha infância eu quis fazer quando fosse grande, eu fiz. A primeira coisa era comer uma panela de brigadeiro. A outra era lamber e comer todo o bolo sem cozinhar ainda - a gente nunca podia comer o bolo antes, então preparei um bolo como tinha que ser e comi ele inteiro, devagarzinho. Deu uma dor de barriga! Essas duas coisas eu consegui, e a outra foi o cabelo da Branca de Neve. [&lt;i&gt;Nos Estados Unidos&lt;/i&gt;] Passou uma mulher com um cabelo meio violetado, quando ela passou debaixo do sol eu agarrei ela e falei: "Where?". Eu não sabia falar inglês, ela tomou o maior susto, eu falei: &lt;a href="http://www.youtube.com/watch?v=CUClgNs_uJU" target="_blank"&gt;"Your hair! I'm brazilian, singer, singer!"&lt;/a&gt;. Aí ela, meio assim, escreveu, Manic Panic era o nome da tinta. E eu comecei a trazer pro Brasil. Agora consigo comprar aqui mesmo uma que é italiana, mas vende aqui, violeta.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-weight:bold;"&gt;PAS -&lt;/span&gt; Nunca mais deixou de pintar desde então?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-weight:bold;"&gt;BB -&lt;/span&gt; Não. Já pintei de várias cores, já fiz aquela coisa de arara...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-weight:bold;"&gt;PAS -&lt;/span&gt; Tinha uma que era rosa...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-weight:bold;"&gt;BB -&lt;/span&gt; É, e essa violeta tem uns cinco anos. [&lt;i&gt;o roadie Zeca lembra da tinta vermelha&lt;/i&gt;] Vermelha, não, era "rose red", ficou um tempão. Era um rosa avermelhado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-weight:bold;"&gt;PAS -&lt;/span&gt; Mas peraí, foi primeiro por causa da Branca de Neve, aí você gostou e manteve?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-weight:bold;"&gt;BB -&lt;/span&gt; É, aí eu queria ficar com o cabelo colorido...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-weight:bold;"&gt;PAS -&lt;/span&gt; E aí o Pepeu ficou também...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-weight:bold;"&gt;BB -&lt;/span&gt; O Pepeu sempre gostou das coisas que eu gosto, tem uma coisa meio de irmão ali, né? E, como ele também fica superbem de cabelo colorido, não vacilou e botou também. Depois ele ficou de louro e preto. A gente geralmente tem que descolorir o cabelo pra pintar, tinha muito isso. Teve uma época que eu pintei de preto, foi quando preto pra mim era coloridíssimo. Pra pintar de preto, é quando o preto entra como uma coisa supermaravilhosa, não como "volte ao normal" - normal onde? Eu não tenho normal. Tudo meu é anormal, graças a Deus.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-weight:bold;"&gt;PAS -&lt;/span&gt; Qual é a cor original?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-weight:bold;"&gt;BB -&lt;/span&gt; É preto. Mas eu não tenho nada normal, graças a Deus. É tudo fora do normal. Normal?, eu não sei o que é normal. Normal é você ser criativo, livre, com responsabilidade, sabendo amar ao próximo como a ti mesmo. Isso seria o normal.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-weight:bold;"&gt;PAS -&lt;/span&gt; Vocês, de cabelo colorido, cantando essas músicas, eram vistos como os doidões da época, assim como os Novos Baianos tinham sido na década anterior?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-weight:bold;"&gt;BB -&lt;/span&gt; É, é... É fruto, né? &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-weight:bold;"&gt;PAS -&lt;/span&gt; Essa imagem continuou, não?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-weight:bold;"&gt;BB -&lt;/span&gt; Continua... &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-weight:bold;"&gt;PAS -&lt;/span&gt; Hoje não sei... Talvez sim, por você ser religiosa e manifestar isso...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-weight:bold;"&gt;BB -&lt;/span&gt; É, no meu caso, apesar de falar muito das coisas de Deus, o povo acha hoje isso a maior loucura. E eu fico feliz, porque isso antigamente era a maior caretice. Virou uma loucura bacana...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-weight:bold;"&gt;PAS -&lt;/span&gt; É uma coerência sua ao longo do tempo?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-weight:bold;"&gt;BB -&lt;/span&gt; Se a gente buscar ser espiritual, sempre tem que estar envolvido com alguma coisa, com algum altar. Não tem altar, vai direto pro Pai. Agora, pra fazer isso você tem que andar com ele. Esse lado eu acho o mais louco de todos, porque envolve você não perder sua identidade, não perder sua criatividade, não ficar religioso, não ficar chato careta. Pô, é um exercício.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-weight:bold;"&gt;PAS -&lt;/span&gt; Corda bamba...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-weight:bold;"&gt;BB -&lt;/span&gt; É. Mas dá. [&lt;i&gt;Nesse instante, a van chega ao endereço onde vai deixar Baby. Ela distribui beijos a todos, desce e volta para sua vida.&lt;/i&gt;]&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;*&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E aí, me conta? Conseguiu ler SEM preconceitos o que Baby Consuelo do BRASIL tem a dizer? Vamos passear nos Estados Unidos do BRASIL?&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/8578073-8028044001565358803?l=pedroalexandresanches.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8578073/posts/default/8028044001565358803'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8578073/posts/default/8028044001565358803'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://pedroalexandresanches.blogspot.com/2010/10/e-se-voce-fecha-o-olho-menina-ainda.html' title='...e se você fecha o olho a MENINA ainda dança'/><author><name>Pedro Alexandre Sanches</name><uri>http://www.blogger.com/profile/07131381196986635010</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-8578073.post-3845945108612928330</id><published>2010-10-17T14:14:00.000-02:00</published><updated>2010-10-17T14:19:04.545-02:00</updated><title type='text'>vamos passear nos Estados Unidos do Brasil</title><content type='html'>Há alguns dias, falei no Twitter que estava indo entrevistar uma artista muito especial - para uma reportagem que acaba de ser publicada pelo iG. Era &lt;a href="http://migreme.net/rwi" target="_blank"&gt;Gal Costa&lt;/a&gt;, uma das artistas mais &lt;a href="http://migreme.net/rwj" target="_blank"&gt;importantes&lt;/a&gt; da &lt;a href="http://migreme.net/rwk" target="_blank"&gt;história&lt;/a&gt; deste &lt;a href="http://migreme.net/rwl" target="_blank"&gt;Brasil&lt;/a&gt;.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A certa altura da entrevista, Gal contou um episódio que não vou detalhar aqui (estará nos links acima), sobre uma briga em que se envolveu no trânsito, no auge do frêmito tropicalista, 1968, 1969, não sei exatamente. Ornada com o cabelo black power e o figurino exuberante da época, Gal (que afirma ser exímia motorista) entrou em conflito com um homem que, a partir de um gesto (obsceno) dela, desceu do carro, perseguiu a cantora, deu um tapa na cara dela e arrematou: "Ponha-se no seu lugar de mulher!".&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Era 1968, 1969.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Como já cantou à mesma época outro tropicalista (negro, por vezes black power), muita coisa sucedeu daquele tempo pra cá. O Brasil aconteceu, é o maior, que é que há?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Hoje é 2010. Vivemos num outro século, no qual descendentes de árabes proclamam que &lt;span style="font-style:italic;"&gt;não&lt;/span&gt; somos racistas, neodefensores (defensores?) dos direitos humanos denunciam o advento da "heterofobia", neopregadores antiaborto brotam dos esgotos, neofeministas (feministas?) vencem eleições defendendo a integridade física das mulheres contra candidatos (negros) que já praticaram violência contra mulheres. &lt;span style="font-style:italic;"&gt;Não&lt;/span&gt; somos mais misóginos. Em uma mulher como Gal Costa não bateríamos nem com uma for. Agredir Dilma Rousseff?, Marina Silva?, nem pensar!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas aí acontece uma campanha eleitoral e de repente minhas vistas ficam turvas. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Na televisão, vejo a cervejaria Brahma fazer gracinha com o fato consumado (fato?, consumado?) de que homens (machos, daqueles que coçam o saco) gostam muito mais de futebol (e de outros homens) - e de cerveja, é óbvio - do que de mulheres.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Na "grande" mídia, leio uma famosa e formosa atriz convocando esses mesmos machos (que gostam de coçar o saco) a arrasar Dilma Rousseff nas urnas, quiçá violentamente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No Twitter, por fim e não menos chocante, ouço um chapa dizer que viu "uma patricinha imbecil" fazer "uma conversão tão estúpida com sua Pajero que merecia uma surra". Uma surra, entendeu? Um chapa esclarecido, percebeu? É 2010, e há gente disposta, ao menos retoricamente, a fazer com uma "patricinha estúpida" o mesmo que velhos pitbulls faziam com Gal Costa em 1969, 1968.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O monstro da misoginia mudou de cara, mudou mil caras, mas ele segue habitando o mesmo pântano em que sempre morou, e está disposto a arreganhar os dentes diante do primeiro indício de se sentir ameaçado. O monstro da misoginia odeia o sexo feminino mais que tudo na vida dele (talvez odeie ainda mais o sexo masculino, mas essa é outra parte do assunto) - e o monstro da misoginia, por ter mil caras, ocorre em forma de homem heterossexual, de mulher heterossexual, de homossexuais em geral, de minorias sexuais as mais variadas. Ocorre em todos os formatos, cores e tamanhos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No início de 2010, homens e mulheres elegeram Marcelo Dourado o herói (ignorante, tosco, misógino, homofóbico) do &lt;span style="font-style:italic;"&gt;Big Brother Brasil&lt;/span&gt;. Em outubro de 2010, mulheres (e homens) tomam, nas ruas brasileiras em campanha ensandecida, o mesmo tapa na cara que Gal tomou em 1968, 1969, multiplicado por milhões.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O monstro da misoginia tem mil faces - às vezes se disfarça de bicho-papão da homofobia, outras de dragão da xenofobia, depois de jaguadarte do racismo. O mostro de mil caras é um torturador nato, manja tudo de choque elétrico, pau-de-arara, telefone, bastão introduzido na vagina e/ou no ânus de quem ele diz mais detestar (há sempre algo de sexual no ódio do monstro de mil caras).&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O jaguadarte que venceu a Alice de Lewis Carroll (mas foi vencido pela Alice de Tim Burton) é pedófilo, mas nunca ninguém vai ficar sabendo disso. Misturando-se com a paisagem de cada ocasião, ele se traveste de fanático religioso, beata castiça,  padre ou pastor que usa e abusa de Deus para cuspir no mundo seus ódios internos e segredos guardados. Ele é a favor da vida, desde que não seja a vida da mãe que acabou de abortar um pedaço de si própria - o jaguadarte é sempre, sempre, sempre misógino.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Há poucos dias, disse a brava psicanalista &lt;a href="http://pedroalexandresanches.blogspot.com/2010/10/eu-nao-preciso-ler-jornais-mentir.html" target="_blank"&gt;Maria Rita Kehl&lt;/a&gt;, em entrevista à revista "CartaCapital": "A ONG Católicas pelo Direito de Decidir me convidou para debater, e elas pensam assim: a criminalização do aborto é uma questão contra a liberdade sexual da mulher, ponto. Não pode usar camisinha, porque a Igreja também é contra. Então é uma questão de dizer: sexo só dentro do casamento e só para ter filho. É isso, que não está escrito assim, mas é o que está dito. Se não pode usar preservativo, não pode evitar filho, não pode nem evitar infecções, epidemias como o HIV que mata milhões na África, que 'a favor da vida' é esse?".&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas, ora, se é preciso ceder à pauta do monstro de mil caras e começar pelo beabá, façamos: todo bebê é concebido por uma mulher em associação com um homem. Todo aborto é feito por uma mulher com a participação (e/ou omissão) de pelo menos um homem. Bebês abortados são utilizados para demonizar e inculcar toneladas de culpa nas mentes femininas - exclusivamente das mentes femininas, como se os homens não participassem da concepção e do nascimento, ou do aborto. O abominável homem das florestas demoniza o aborto, mas não é porque queira defender a vida - ele quer é atentar contra ela, por intermédio do controle dos corpos (e das mentes) das mulheres. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Os homens da cervejaria Brahma que gostam mais de cerveja e de futebol que de mulher são os homens que não assumem o pedaço de gente que injetam no corpo de "suas" mulheres - e preferem ir ao futebol com uma cervejinha na mão a acompanhá-las até a clínica clandestina de abortos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O dragão da misoginia (ele é macho, mas por vezes se disfarça sob o apelido de Mônica, Sônia ou, mais exótico, Weslian) não quer que ninguém saiba disto, mas todo ser humano carrega sua cota de responsabilidade pelos abortos que a humanidade comete, os físicos, ou políticos e os ecológicos. A mulher arranca um pedaço do seu corpo. O homem se omite, nos mais variados estágios: não assume o bebê, rotula de "vaca", "vagabunda", "puta" e "exploradora" a mulher que abortou, vez ou outra assassina e retalha o corpo da mulher que pariu. No mínimo, simula que o assunto não é com ele.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O religioso celibatário, que para todos os efeitos nunca entrou no corpo de uma mulher (embora tenha saído de um, de uma) nem nunca concebeu nenhum bebê (e quantas mulheres do padre e quantos rebentos-bastardos-errantes de religiosos há por aí, Nossa Senhora Desaparecida!), tenta enlouquecidamente controlar o corpo feminino e a mente feminina, demonizando a mulher que abortou, supostamente sozinha. O monstro de mil caras da misoginia adora o disfarece da batina do padre, do hábito da freira, da bíblia do pastor. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O(a) homossexual, frequentemente misógino(a), sente-se, ele(a) próprio(a), um aborto.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O dragão da homofobia é irmão gêmeo da garatuja da misoginia, e os homossexuais são, por sinal, tanto quanto as mulheres, espezinhados e refugados por diversas religiões, mesmo por sobre a evidência simplória de que TODO homosseuxal (exceto os de proveta) foi concebido por uma relação sexual, heterossexual - por um homem (geralmente homofóbico) e por uma mulher (muitas vezes misógina). Diariamente, heterossexuais concebem homossexuais, apenas para no futuro abandoná-los à deriva.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Se esses homossexuais ficarem mais propensos ao suicídio e levarem a cabo o desespero, religiosos pisarão em seus caixões, vociferando feito cães raivosos contra o "pecado" do suicídio, a infâmia da sodomia, o horror ateu do amor homossexual. Para todos os efeitos, nenhum religioso jamais tocou sexualmente o corpo de outro homem - nem o corpo de um menino (ou menina) que, menos forte do que ele, não conseguiria jamais contar lá fora o que se passou nas alcovas de território "sagrado". A cruzada antiaborto e anticasamento gay jamais aceita o desafio de debater a pedofilia e o abuso sexual.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Uma brasileira candidata a presidente tem sido apedrejada em praça pública, acusada de todos os vilipêndios - "abortista!", "lésbica!", "corrupta!", "bígama!", "assexuada!", "homofóbica!", "terrorista!", "assassina!", "inimiga da ditadura civil-militar!"... 99,99% de seus não-eleitores nem sequer suspeitam (ou será que fingem que não, qual cabeças de um monstro de milhões de bocas arreganhadas?) que são misógino(a)s praticantes, do dia da concepção até a noite que morrerão. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nalgum momento da década de 1970, essa mulher foi "barbaramente torturada" por aquela ditadura, como ela mesma já atirou no rosto liso de um político do partido que se autobatizou DEM, tantando se travestir de "democratas", mas aproximando-se em ato falho freudiano do "demo". José Serra é do bem (ou do dem, do DEM, do demo?). À fogueira, quem deve ser remetida é a BRUXA que espelha nela todas as nossas mazelas e algumas mais.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Talvez ela seja uma ou algumas ou muitas daquelas coisas que os apedrejadores a acusam de ser. Talvez nem seja.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(A propósito, aqui no Brasil artistas empenham prestígio ligando para Lula quando querem evitar o apedrejamento de uma mulher iraniana, mas não exibem nem longinquamente a mesma indignação quando o apedrejamento é na esquina ao lado, ou dentro da própria casa. Aqui e agora, onde há fumaça, não há fogo - no máximo há fogo-de-palha. Como cantava Gal Costa em 1968, 1969, atenção, menina, precisa ter olhos firmes para esta escuridão. Porque tudo é perigoso. Tudo é divino. Maravilhoso. É preciso estar atenta e forte. Não temos tempo de temer a morte.)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Talvez Dilma seja uma ou algumas ou várias das coisas de que os apedrejadores a acusam de ser. Mas não é só ela. Eu também sou. Você também é (mesmo que seu nome seja Reinaldo Azevedo ou Otavio Frias Filho). Um mundo onde os indivíduos não encaram e menos ainda enfrentam suas próprias idiossincrasias e suas próprias responsabilidades é o mundo de indivíduos que vão buscar "abrigo" nos diversos fanatismos religiosos (ou no fanatismo ateu, futebolístico, musical, televisivo, jornalístico, cinéfilo, corruptor, ladrão, matador-de-aluguel, acumulador de dinheiro - tanto faz).&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O desafio que aguarda Dilma Rousseff é gigantesco. Assim como Weslian Roriz, Mônica Serra e Soninha Francine despontam como paradigmas lastimáveis da submissão feminina aos humores machistas e misóginos de "seus" homens, maridos, patrões e chefes, cá entre nós, o mesmo perigo ronda a própria Dilma Rousseff, em relação a Luiz Inácio Lula da Silva. A postura e a atitude que ela tiver ao cabo deste magnífico (embora escabroso) segundo turno norteará seu futuro de independência (ou não) em relação ao(s) seu(s) mentor(es). E em relação a nós. E a ela mesma, Alice brasileira de 2010, acima de qualquer outro indivíduo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu votarei em Dilma Rousseff, com o mais profundo dos meus entusiasmos e das minhas convicções. E aposto todas as minhas fichas em que, ao cabo de tanta luta, tanto esforço, tanto sangue, tantas lágrimas, teremos o, ou melhor, A presidente da república mais INDEPENDENTE da história deste país. E saberemos honrar a independência dela com a nossa própria, como já começamos a fazer em relação ao seu antecessor.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Abolição de escravatura é um negócio formidável, que não tem retorno. Ao futuro (e obrigado, dona Gal, pela bela, triste e violenta história que a senhora desenterrou de seu armário de ossos, e que a ajudou a ser quem é como artista; não se canse nunca, por favor, dona Gal, nós precisamos de você).&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/8578073-3845945108612928330?l=pedroalexandresanches.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8578073/posts/default/3845945108612928330'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8578073/posts/default/3845945108612928330'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://pedroalexandresanches.blogspot.com/2010/10/vamos-passear-nos-estados-unidos-do.html' title='vamos passear nos Estados Unidos do Brasil'/><author><name>Pedro Alexandre Sanches</name><uri>http://www.blogger.com/profile/07131381196986635010</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-8578073.post-499404118374663506</id><published>2010-10-16T17:20:00.003-03:00</published><updated>2010-10-16T18:02:38.974-03:00</updated><title type='text'>eu não preciso ler jornais, mentir sozinho eu sou capaz</title><content type='html'>"80% dos brasileiros, pelas pesquisas, consideram o governo Lula bom ou ótimo. Não é curiosíssimo que a mídia não faça outra coisa senão dizer que este é o pior governo do mundo? Então que valor tem a opinião pública? Que valor têm esses 80% de opinião pública? Nenhum. A mídia não tem nenhum respeito pela verdadeira opinião pública, que é a opinião dos cidadãos." Assim falou a filósofa Marilena Chauí, num dos &lt;a href="http://www.youtube.com/watch?v=6wTIRvRLn84&amp;feature=player_embedded" target="_blank"&gt;manifestos&lt;/a&gt; que tornou públicos - coerentemente, não pela mídia tradicional, mas por intermédio do anárquico e caótico YouTube.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Entre várias das falas dela, esta foi a que calou mais fundo dentro de mim - apesar de esse tema, a manipulação por parte dos controladores daquela que é a minha profissão (o jornalismo), frequentar obsessivamente meus pensamentos e sentimentos e reflexões nos últimos muitos anos (oito, no mínimo).&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Calou fundo em mim porque o raciocínio que ela faz é muito, muito, muito simples. Essa fala de Marilena demonstra que a sanha sanguinária da "grande" mídia a que ela se refere contra Lula não é dirigida especificamente a Lula, a ao cidadão-presidente Lula. A espuma antilulista que baba da boca da "grande" mídia vem cuspida contra 80% dos brasileiros (me incluo entre eles). Dirige-se, em última instância, ao Brasil como um todo. É, pois, uma fúria suicida.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Exemplo quente e eloquente é o desenlace recente da relação entre Maria Rita Kehl e o "Estado de São Paulo", logo depois de ela ter publicado naquele jornal o texto &lt;a href="http://www.estadao.com.br/estadaodehoje/20101002/not_imp618576,0.php" target="_blank"&gt;"Dois pesos..."&lt;/a&gt;. Lúcido, sóbrio e oposicionista (quero dizer oposicionista ao Partido da Imprensa, atualmente travestido de demotucanato), o &lt;br /&gt;artigo deflagrou todo um processo freudiano no seio da "grande" imprensa paulista.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não à toa, Maria Rita Kehl é psicanalista, e não jornalista - fez por nós, jornalistas, o que não tínhamos coragem e força, sozinhos, para fazer, intimidados que somos cotidianamente diante de nossos patrões. O processo psicanalítico (sim, o Brasil está deitado no divã, se é que ainda cabe essa imagem-clichê) é tão interessante que trouxe notoriedade merecida à formidável profissional que é Maria Rita. "O que tem de legal é que, por exemplo, este meu artigo foi mais lido que qualquer outra coisa que eu jamais tenha escrito. Se ele tivesse ficado apenas no 'Estadão', ele teria sido lido, mas jamais deste jeito. Isso é uma coisa muito legal", afirmou ela em entrevista à minha querida (e dissidente) "CartaCapital", num texto denominado &lt;a href="http://www.cartacapital.com.br/politica/a-campanha-eleitoral-assumiu-um-tom-fascitoide-diz-maria-rita-kehl" target="_blank"&gt;"A campanha eleitoral assumiu um tom fascistóide, diz Maria Rita Kehl"&lt;/a&gt;.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O bonito nesse imbroglio todo é que o "Estadão" acabou por ser honesto, mesmo em querer, quando trouxe à tona, via desligamento da colunista, a ditadura que segue em vigência no interior da "grande" mídia brasileira em pleno 2010, nada menos que 25 anos após o término oficial do regime autoritário/repressivo civil/militar instalado no Brasil em 1964. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não sou nenhum especialista em Freud, mas não seria esse vacilo do "Estadão" o famosíssimo expediente do "ato falho", o mesmo que levou José Serra a cometer outro dia um "eu nunca disse que sou contra o aborto, porque eu sou favor ", quando queria dizer exatamente o oposto? O ato falho se aprofundou nos dias seguintes, porque a exposição maciça do artigo via internet levou o texto de Maria Rita (e do "Estadão") ao conhecimento de gente que se considera "informada", mas por outros expedientes jamais teria tido acesso às ideias (simplíssimas, assim como as de Marilena Chauí) nele contidas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O caso expôs nu e cru, em síntese, o estrangulamento ditatorial e a falta dramática de liberdade em que se encontra todo e qualquer jornalista, de qualquer coloração ideológica, que se encontre hoje trabalhando no conglomerado para-oficial GloboVejaFolhaEstado. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas quem milita no "Estadão" sabe que o corte sumário de Maria Rita após a publicação (e repercussão) do artigo deu origem a uma avalanche de cancelamentos de assinaturas. E quem trabalha no "Estadão" sabe o clima de caça às bruxas que vigora lá dentro por esse caso, mas também além e independentemente dele.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Em 2006, por causa da chamada "crise do 'mensalão'", eu havia feito o mesmo com minha querida "Folha", meu ninho de nascimento, desenvolvimento e ascensão como jornalista. Eu já havia saído da "Folha" para a "CartaCapital" em dezembro de 2004. Em 2006, cancelei minha assinatura após 16 anos de leitura e devoção consecutivas e ininterruptas - por muitos motivos, mas inclusive pela teimosia de não querer desembarcar, diante das primeiras adversidades, do presidente no qual eu havia votado, também ininterruptamente, desde 1989. Todo mundo sabe que o processo de cancelamento de assinaturas tem sido uma sangria constante, e maciça, desde pelo menos o malfadado "mensalão". Quem trabalha na "Folha" hoje sabe o que é viver o constrangimento de se identificar como jornalista de lá e, não poucas vezes, ser xingado de "reacionário" ou "fascista". Funcionários do antigo sonho dourado de todo jornalista hoje têm de conviver com a vergonha de trabalhar na "Folha", coisa impensável até, pelo menos, os anos tucanos de FHC.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quem trabalha na "Veja" vive os mesmos dissabores, de forma mais dramática e há muito mais tempo, a ponto de às vezes não ser possível dissociar a "Veja" (e sua editora, a Abril) de quem trabalha como jornalista lá dentro. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sobre a(o) Globo nem me atrevo a lançar palpite, tão distante é a (ex-)"vênus platinada" do meu dia-a-dia. Mas Hildegard Angel (colunista social, ex-global, mas também &lt;a href="http://www.cartacapital.com.br/politica/radical-chique" target="_blank"&gt;irmã e filha de gente assassinada pela ditadura civil-militar&lt;/a&gt;) falou, dia desses, algo sobre funcionários da rede terem de assinar contrato com cláusula impedindo-os de se pronunciarem politicamente - não posso afirmar que é verdade, mas, supondo que seja, alguém conhece forma mais explícita de ditadura que a mordaça político-ideológica?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;São, todos esses, casos exemplares de comportamento suicida. Tudo isso é suicídio. Ou, no mínimo (e aí não se espante nem se diga surpreso quem anda sangrando e perdendo assinantes por segundo), há aquela frase de Joseph Pulitzer (1847-1911), inúmeras vezes reproduzida no Twitter ultimamente: "Com o tempo, uma imprensa cínica, mercenária, demagógica e corrupta formará um público tão vil como ela mesma". &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas não entremos nesse mérito apavorante, prefiramos acreditar que essa grande tragédia se trata mais de suicídio que de mercenarismo. Se for assim, o que temos assistido no Brasil nestes anos 2000 é resultado do ódio dirigido pela "grande" mídia a si própria, espelhada em (no mínimo) 80% do Brasil, rebatida na figura-ícone de Lula.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quero dizer com isso que a "grande" mídia deveria pular para dentro do barco de Lula, tornar-se adesista, jogar a toalha, ser submissa a Lula como a imprensa paulista é subserviente a José Serra e a imprensa mineira é capacha de Aécio Neves? Não (até porque, admito meio maquiavelicamente, esse ódio todo tem sido responsável por parcela interessante do desabrochar, do desenvolvimento e do bom desempenho de Lula - e de no mínimo 80% de nós, e do Brasil perante o Brasil e perante o mundo). Bastava não espumar ódio. Bastava criticar e combater (se era mesmo o caso de a "grande" mídia ser, em peso, partido de oposição, como chegou a defender publicamente a atual presidente da Associação Nacional de Jornais, Judith Brito, egressa da "Folha") com comportamento racional, sóbrio, equilibrado, justo, coerente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O ódio contra 80% do Brasil é um ódio suicida. Os poderosos-chefões que acreditam, esúupida e ignorantemente, combater a figura de Lula estão combatendo o país que pariu a eles próprios (ou seriam esses poderosos-chefões estrangeiros camuflados, ou agentes-laranja de estrangeiros clandestinos enciumados do Brasil, ou temerosos de perder os royalties bilionários do pré-sal?). Se são brasileiros, estão combatendo a eles mesmos. Suicídio.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Faço todo esse passeio para chegar a concluir o que calou fundo em mim na fala de Marilena Chauí, essa nobre filósofa não por acaso detestada apaixonadamente (ódio É amor?) por nove entre dez poderosos-chefões (misóginos, eu ouso acrescentar) da "grande" - e envelhecida - mídia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nós, brasileiros (e especialmente nós, jornalistas), não queremos a sua morte, senhora dona persona. Não queremos o seu fim, senhora "grande", tradicional e cerimoniosa mídia. Há tempo hábil para que a senhora desperte desse sono narcotizado e entenda que não está lutando contra Lula e a candidata dele (nossa) - mas sim contra o país que pariu a senhora (ou devo excluir desse rol a poderosa-chefona Globo, fundada sob capital oculto da Time-Warner, sobre alicerces norte-americanos clandestinos?). Nós precisamos da senhora, senhora dona "grande" mídia, e não vemos a hora em que venha a merecer novamente o adjetivo, sem aspas, de Grande, quiçá nossas assinaturas de volta. Até daqui a pouco.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;P.S.: Não é por mera coincidência que Marilena Chauí e Maria Rita Kehl são mulheres, assim como a candidata Dilma Rousseff. A "grande" mídia, apesar dessa denominação feminina travestida, tem sido exclusivamente do sexo masculino, do descobrimento do Brasil até o dia de hoje. Amanhã, ninguém sabe.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/8578073-499404118374663506?l=pedroalexandresanches.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8578073/posts/default/499404118374663506'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8578073/posts/default/499404118374663506'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://pedroalexandresanches.blogspot.com/2010/10/eu-nao-preciso-ler-jornais-mentir.html' title='eu não preciso ler jornais, mentir sozinho eu sou capaz'/><author><name>Pedro Alexandre Sanches</name><uri>http://www.blogger.com/profile/07131381196986635010</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-8578073.post-6074224503436272868</id><published>2010-10-15T16:04:00.005-03:00</published><updated>2010-10-15T18:34:09.332-03:00</updated><title type='text'>escrevendo a nossa história com neon</title><content type='html'>Quando entrevistei o rapper Emicida para o iG, menos de um mês atrás, optei por produzir um &lt;a href="http://ultimosegundo.ig.com.br/aos+25+anos+emicida+inaugura+o+rap+brasileiro+com+autocritica/n1237784832706.html" target="_blank"&gt;texto corrido&lt;/a&gt;, mais um complemento em que ele comentava, &lt;a href="http://ultimosegundo.ig.com.br/cultura/musica/a+nova+mixtape+de+emicida+faixa+a+faixa/n1237784840969.html" target="_blank"&gt;faixa-a-faixa&lt;/a&gt;, sua mixtape "Emicídio".&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Entre os muitos detalhes que ficaram de fora da edição extraída de uma conversa de 2h48min, há um trecho de diálogo que permaneceu inédito, porque expunha o entrevistador (eu), e eu (o entrevistador) não sabia como encaixá-lo no texto corrido. E eu quero agora tirá-lo do ineditismo, no formato pingue-pongue, tal qual aconteceu no aqui-e-agora da entrevista.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;É o seguinte:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-weight:bold;"&gt;Emicida -&lt;/span&gt; Quando escrevi essa música ("Você Não Faz Ideia") eu tava sentado na calçada do metrô, esperando alguém. Levantei pra atravessar a rua, e aconteceu um bagulho muito louco que sempre acontece, cara: você vai atravessar uma rua, quem tá no farol já olha pra você e já começa, de uma forma sutil - os caras acham que a gente não percebe -, a fechar o vidro, tipo rezando pro farol abrir, tá ligado? Você pega um táxi e o cara te faz milhares de perguntas, e dependendo do lugar que você tá indo o cara fala que não vai. O Fióti (&lt;i&gt;irmão de Emicida&lt;/i&gt;) acabou de passar por um bagulho desses, o taxista falou que não levava o cara. Por quê? Porque o cara é preto. "Não leva por quê?" O cara não responde.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-weight:bold;"&gt;PAS -&lt;/span&gt; O cara não responde nada?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-weight:bold;"&gt;Emicida -&lt;/span&gt; Não responde. Tipo, "ah, não, não dá pra eu levar duas pessoas". É um bagulho bem comum, embora tenha uma parada que a gente brinca até, mas é bem séria: os pretos, na sociedade, eles são vistos como se fossem ratos. Você vê que tem vários ratos que são famosos, tipo Mickey Mouse (&lt;i&gt;risos&lt;/i&gt;), o Tom &amp; Jerry, o Pink &amp; Cérebro - as pessoas andam com camisa dessas coisas. Só que, se as pessoas veem um rato na rua, a primeira coisa que elas pensam é em matar e sair de perto. Com os pretos rola uma coisa muito parecida. As pessoas escutam Jimi Hendrix, andam com camisa do Bob Marley, vão a shows de rap, e quando elas encontram com a empregada, com o porteiro, com um preto na rua, a primeira coisa que fazem é pensar "mano, esse maluco vai me roubar" e atravessar a rua pro outro lado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-weight:bold;"&gt;PAS -&lt;/span&gt; Qual é o sentimento do preto quando ele tá nessa situação? Não só de ver o cara se afastando, mas... Digo, o desencontro é das duas partes, não é?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-weight:bold;"&gt;Emicida -&lt;/span&gt; É, já teve momentos de eu ficar muito mais puto. Obviamente eu fico puto, tá ligado?, acho uma situação ridícula. Mas eu fico, tipo, que idiota, se eu quisesse roubar ele eu não ia vir de frente, saca? Eu me pergunto mais por quê, pô, e quando essa porra vai mudar? O Brasil vai mudar em 50, 100 anos? Tem muitas ideias pra ser quebradas, a gente tá no começo dessa briga ainda.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-weight:bold;"&gt;PAS -&lt;/span&gt; O que eu queria te perguntar, na verdade, é outra coisa. Vou me expor um pouco. A coisa que mais odeio na vida é racismo, mas um momento muito difícil e sofrido da minha vida, recente, foi um dia que eu descobri que, se eu descuidar, eu posso ser o cara que atravessa a rua...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-weight:bold;"&gt;Emicida -&lt;/span&gt; Sim.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-weight:bold;"&gt;PAS -&lt;/span&gt; ...Eu vejo alguém lá longe e a reação automática é atravessar a rua... Aí, como eu posso dizer que não sou racista se intuitivamente eu ajo assim? Mas, quando percebo isso, o que eu fico pensando é o seguinte: e aquele cara lá do outro lado da rua, o que será que ele pensou de mim nessa hora?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-weight:bold;"&gt;Emicida -&lt;/span&gt; Total.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-weight:bold;"&gt;PAS -&lt;/span&gt; É isso que eu quero perguntar na verdade: o que você pensa quando o branco vem vindo do outro lado e... começa a se afastar? O que você pensa do branco?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-weight:bold;"&gt;Emicida -&lt;/span&gt; Cara, tem uma música do Tio Fresh, do SP Funk, que ele fala: "Desde a época da balança já havia uma matança/ olho para os brancos e às vezes eu penso em vingança". É um bagulho muito pesado, é muito ruim quando você percebeque aquela pessoa tá com medo de você, e você não é ameaça nenhuma pra aquela pessoa. Várias vezes você nem notou a presença daquela pessoa, e só nota quando tem um gesto desse tipo, sabe? &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tudo isso ainda se soma ao fato de a gente viver numa cidade muito violenta, você não sabe quem é quem, quem é o quê. Somando tudo, fortalece vários estereótipos, e aí as pessoas ficam reféns desse tipo de atitude. A minha sensação é bem mais de tristeza, sabe? Fico puto, porque, por exemplo, eu quero pegar um táxi e os taxistas não param pra mim. Fico puto mais porque eu deveria chegar num lugar em tal horário e não vou conseguir por causa desses filhos da puta que tão pensando que eu vou roubar eles, tá ligado? É uma coisa assustadora, mas a situação em si eu já começo a encarar como uma extremamente comum, "essa porra não vai mudar hoje". &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;*&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O trecho que eu queria mostrar era esse, mas a conversa prosseguiu depois disso, e transcorreu maravilhosamente, como todas as vezes em que já entrevistei esse jovem artista paulistano. A mãe dele, Jacira, chegou ao estúdio vinda da hemodiálise e passou a assistir e a participar do papo. Já tínhamos falado sobre os negros e sobre o racismo, em seguida conversamos também sobre as mulheres e a misoginia, a propósito do rap "Rua Augusta". Foi assim:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-weight:bold;"&gt;Emicida -&lt;/span&gt; Cara, essa aí cê vai ver, a gente vai fazer um vídeo dessa música que vai ser foda. A gente vai falar lá com aquelas minas da Daspu pra elas participarem, sabe? Vamos fazer um documentário. Boa parte dos shows que eu fiz em São Paulo nesses últimos tempos foi na rua Augusta, e eu fico olhando os detalhes assim calado, fico vendo as minas lá, e fico imaginando como é a vida das putas durante o dia. Imagino as minas se preparando pra ir pra lá, ficando ali, o tanto de coisa que elas tão sujeitas ali. Todo mundo tem isso aí como se fosse uma vida fácil, mas, pô, não é fácil, não. Já vi várias vezes os caras passarem zoando mesmo, jogando bagulho nas minas, ovo, pedra.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-weight:bold;"&gt;PAS -&lt;/span&gt; É muito preconceito também, né?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-weight:bold;"&gt;Emicida -&lt;/span&gt; Porra, mano, pra caralho. E eu fiz uma música que fala disso, tem um verso que fala essa parada, que todo mundo fala que é errado, mas foda-se se é erro, "quem fez o certo foi Jesus, e cês agradeceram pregando ele numa cruz".&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-weight:bold;"&gt;PAS -&lt;/span&gt; Muitas vezes quem fala que é errado usa também, né?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-weight:bold;"&gt;Emicida -&lt;/span&gt; É, então, a música fala disso também, "o homem bom que não aguentou ser solitário". Fala bem disso, mas com uma visão bem minha, não de "elas são putas", mas, tipo, de prestar atenção em todos os detalhes.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-weight:bold;"&gt;PAS - &lt;/span&gt;Também ali você é um cara que tem identidade na periferia passeando pelo centro...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-weight:bold;"&gt;Emicida -&lt;/span&gt; Passando pra lá, é, porque, vindo de lá, eu conheço várias minas que são putas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-weight:bold;"&gt;PAS -&lt;/span&gt; Você diz daqui (&lt;i&gt;a entrevista acontece na zona norte de São Paulo&lt;/i&gt;), ou de lá mesmo?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-weight:bold;"&gt;Emicida -&lt;/span&gt; Conheço de vários lugares, mas eu conheço da quebrada mesmo. Aí você vê os bastidores da coisa, sabe? Cê não vê a prostituição..., eu não consigo ver uma puta como vê, sei lá, um cara que realmente come as putas. Mano, quando eu vejo uma puta eu penso em tanta coisa, tá ligado? Penso nos filhos que ela tem pra criar, na casa de onde ela veio, se ela tá com frio. Eu penso em todos esses bagulho. A imagem de uma prostituta pra mim é um bagulho muito mais vasto. É muito simplista você ligar aquilo só ao sexo, que é um detalhe.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-weight:bold;"&gt;PAS -&lt;/span&gt; Quem vê uma puta só como uma puta não tá enxergando nada...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-weight:bold;"&gt;Emicida -&lt;/span&gt; Não tá enxergando nada, é isso aí. Então, por ter visto essas minas fora dali, eu consigo ter essa visão, da mina que o marido abandonou e ela teve que se virar de alguma forma e o que encontrou foi isso... Porque a rua abraça, né? Elas têm que ganhar dinheiro e tão ali no meio de qualquer jeito. Muitas vezes é uma vida zoada... Porque ninguém sonha em ser prostituta com oito anos de idade, tá ligado? É uma profissão que realmente você vai parar lá dentro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-weight:bold;"&gt;PAS -&lt;/span&gt; Nessa idade, certamente chega levada por outras pessoas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-weight:bold;"&gt;Emicida -&lt;/span&gt; Sim.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;*&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nesse embalo, quase imediatamente o espelho refletiu para o lado que faltava naquele triângulo: os homossexuais, a homofobia. E eu tenho certeza que todo mundo entendeu o que estava falando, mesmo que eu não tenha tido coragem de declarar ali, cândida e textualmente, que, sim, eu sou homossexual. Foi o seguinte:&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;&lt;span style="font-weight:bold;"&gt;Emicida -&lt;/span&gt; Se você abrir o leque, mano, tem tanto tipo de preconceito. Eu fico lutando, igual essa parada que você falou, "eu fico me policiando porque, se eu moscar, viro racista", e eu fico na mesma coisa comigo, porque se eu vacilar eu trato alguém diferente. Cê tem que ficar se policiando, isso aí é bem comum. Num momento tem o bagulho da proteção, puta, a gente nunca teve nada, a gente morou numa favela a vida inteira, não tinha comida, não tinha tênis, não tinha nada, e de repente você vê as coisas acontecendo. Um tênis, na favela, é a maior conquista que um cara pode ter, mano. Por isso cê vê todo mundo de tênis branco, limpinho - se é branco, limpinho, "mano, esse tênis é novo!". E com um tênis novo você é tipo Antônio Ermírio de Moraes, tá ligado? &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Então as pessoas se apegam muito a isso, mas expõe de uma forma simples uma conquista, e, se você olhar com atenção, é uma pobreza de espírito muito grande sua maior conquista ser um tênis, uma garrafa de champanhe. Isso realmente muda a sua vida? Os caras se escondem atrás disso, e é mais uma forma de preconceito: cê tá começando a ir pro lado das coisas que combatia. Embora você chame as minas de "vagabunda" ou "vadia", você não gostaria que falassem assim com a sua mãe e com sua irmã.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-weight:bold;"&gt;PAS - &lt;/span&gt;E nisso a gente acaba descobrindo que todo mundo tem preconceito, né? A diferença é que uns policiam os seus e outros não.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-weight:bold;"&gt;Emicida -&lt;/span&gt; Sim, não sei quem falou pra nós uma vez, que é prova do preconceito... Acho que foi talvez minha mãe que perguntou: sabe a diferença do homossexual e do viado? Os caras falam que viado é o filho dos outros.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-weight:bold;"&gt;Jacira -&lt;/span&gt; Acho que fui eu...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-weight:bold;"&gt;Emicida -&lt;/span&gt; É, minha mãe que falou.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;J&lt;span style="font-weight:bold;"&gt;acira -&lt;/span&gt; Eu disse, lembro que tava preocupada com a sua irmã, e um dia eu disse assim: será que ela tá vivendo lá no meio dos veado, meu Deus do céu? Aí você falou: "Mas a senhora não disse que é preconceito?". Acabou de descobrir que eu tenho preconceito... Só porque até então eles não tinham adentrado a minha casa, puta que pariu, olha, eu também penso do mesmo jeito: tem que respeitar e tudo, desde que eles se mantenham da minha porta pra fora.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-weight:bold;"&gt;PAS -&lt;/span&gt; Esse é o funcionamento do preconceito, seja qual for...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-weight:bold;"&gt;Emicida -&lt;/span&gt; Total, cê vê como que o bagulho entra?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-weight:bold;"&gt;PAS -&lt;/span&gt; E a gente só tem preconceito contra o que não conhece (&lt;i&gt;Jacira ri&lt;/i&gt;)... Você não sabe como vive uma puta, ou um gay, ou um negro, e aí não tem jeito.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-weight:bold;"&gt;Emicida -&lt;/span&gt; Tem a ideia assim: puta dá, viado é promíscuo e preto rouba. Já era. A ideia simples é essa. E aí é bem isso, cê vê como o preconceito tá ali. Quando é próximo a você, você tenta cuidar. Por exemplo, eu tenho um primo que é gay, e a mãe dele fala que ele é deficiente mental, mano.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-weight:bold;"&gt;Jacira - &lt;/span&gt;Ela trata ele.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-weight:bold;"&gt;Emicida -&lt;/span&gt; Ela trata ele com remédio!, tá ligado?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-weight:bold;"&gt;PAS -&lt;/span&gt; Como se fosse doença...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-weight:bold;"&gt;Emicida -&lt;/span&gt; Puta, mano, e ninguém assume que o cara é gay. É só falar. É só deixar o cara. O cara é gay, mano. E pior, que quanto mais cê tenta esconder mais fica aparente. Pô, todo mundo sabe, se você ficar 15 minutos na casa dele você vai se ligar que, pô, o cara é gay. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-weight:bold;"&gt;PAS -&lt;/span&gt; De deficiente mental não tem nada?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-weight:bold;"&gt;Emicida -&lt;/span&gt; Não tem nada, ele é normal, tá ligado? Mas a mãe dele vai ficar te explicando, te dá milhares de explicações inúteis. Cê vê o receio dela de assumir pro mundo que tem um filho gay, que é um receio que o filho dela não tem, tipo "foda-se, sou gay".&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;*&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Então, é mais ou menos isso que eu queria dizer, nada mais é preciso acrescentar. Aliás, sim, só uma coisa, ou duas: não é maravilhoso descobrir como mulheres, negro(a)s, homossexuais (e outras tantas ditas "minorias") podem se sentar numa mesma mesa e conversar de modo aberto, pacífico e harmonioso, se assim quiserem? A quem mesmo interessava desesperadamente nos separar e nos desunir?&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/8578073-6074224503436272868?l=pedroalexandresanches.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8578073/posts/default/6074224503436272868'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8578073/posts/default/6074224503436272868'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://pedroalexandresanches.blogspot.com/2010/10/escrevendo-nossa-historia-com-neon.html' title='escrevendo a nossa história com neon'/><author><name>Pedro Alexandre Sanches</name><uri>http://www.blogger.com/profile/07131381196986635010</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-8578073.post-4315100275123365864</id><published>2010-10-14T17:13:00.001-03:00</published><updated>2010-10-15T11:48:55.975-03:00</updated><title type='text'>osso duro de roer</title><content type='html'>Algumas coisas que eu (acho que) entendi sobre "Tropa de Elite 2":&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;a) No primeiro filme, gostei da dubiedade com que era desenhado o Capitão Nascimento. Era sempre possível dizer que o público que se identificava com ele o fazia por conta própria, de suas próprias perversidades. Agora, não, me parece óbvio que Capitão Nascimento é o herói particular de José Padilha. O cineasta defende com unhas e dentes seu sanguinário personagem. É uma postura corajosa (é preciso muito peito para defender de peito aberto e cara limpa alguém que represente a direita mais sanguinolenta). E uma postura perigosa (porque a direita é sanguinolenta, ainda que sob o pretexto repetido mil vezes por Padilha, de que a direita sanguinolenta é a direita sanguinolenta por "culpa" do "sistema"). Para variar, é uma postura catártica.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;b) Acho curioso notar, pelos comentários que tenho ouvido por aí, que "Tropa 2" se insinua bem mais unânime que "Tropa 1" - "um puta filme", já ouvi murmurar até quem dizia odiar o primeiro anos atrás. Isso me faz me indagar sobre a relação que nós, espectadores, mantemos com esse perturbador Capitão Nascimento. No primeiro filme, era possível classificar de "fascista" o vizinho do andar de baixo, caso ele vibrasse com a "ultraviolence" do personagem sufocando "bandidos" em sacos plásticos. Mas e agora, que o Capitão Nascimento volta aparentemente mais sutil, embora tão feroz e tão assassino quanto sempre? Conseguiremos gostar de alguns gestos do Capitão Nascimento, e mesmo assim reconhecer nos atos fascistas dele pedaços dos nossos próprios atos fascistas cotidianos, subterrâneos, clandestinos - e quase nunca nomeados? O Capitão Nascimento, esse espécime nada raro da direita sanguinolenta, somos nós mesmos?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;c) Acho graça das inúmeras vezes que ouvi falar que o "2" é um filme "sobre a corrupção dos policiais e dos políticos" - alôôôô, tem alguém aí?! "Tropa 2" é um filme sobre a corrupção de TODOS NÓS. Quem paga as milícias somos nós, quem elege os políticos somos nós. Milícia, polícia e político apertam o gatilho que NÓS determinamos que seja apertado, mas não temos coragem de apertar com nossos próprios dedos - assim como o fato de alguém fatiar por nós o boi que a gente come não nos faz menos assassinos de bois (e frangos, porcos, coelhos, codornas, alfaces, carvalhos, eucaliptos, cabreúvas). Quem tá na selva é para se alimentar, quem tiver de sapato não sobra.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;d) Nosso "espaço público" raramente mistura esfera pública e esfera privada com propriedade e lucidez, e José Padilha é um dos que sabem fazê-lo brilhantemente. Em "Tropa 2", ele demonstra que o imbroglio político-policial que provoca uma insuportável carnificina no Rio de Janeiro tem, como uma de suas origens centrais, um drama da vida privada - um triângulo amoroso, simples assim. Prédios, máquinas, cédulas de dinheiro, metralhadoras e instrumentos de tortura foram e são TODOS fabricados por nós. Mesmo na esfera pública, somos William Shakespeare e Nelson Rodrigues. Se Lula for o "nosso" rei Lear, Cordélia, Goneril e Regan poderiam ser Marina Silva, Dilma Rousseff e Erenice Guerra, não sei se necessariamente nessa ordem.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;e) Não entro em detalhes para não estragar o filme de quem ainda não viu, mas o mais bonito e audacioso de "Tropa 2", na minha opinião, é a aliança firmada entre a esquerda e a direita para detonar o "centro" - o verdadeiro inimigo comum, o monstro de mil caras que não ousa vir à luz nem muito menos declinar seu nome e sobrenome. Não sei em quem o Padilha vota, mas seja em quem for me parece uma aposta tudo-ou-nada, arriscada, um salto talvez suicida. Do meu ponto de vista, se for eleito o "centro" - o monstro de mil caras, José Serra, &amp; seus demistas-fundamentalistas de esgoto -, a quadrilha disfarçada de cordeira estará de volta ao poder central de que sempre desfrutou no Brasil, e Padilha terá perdido sua alta aposta, fragorosamente. Por outro lado, se vencer Dilma Rousseff, o "centro" que não ousa dizer seu nome estará exposto nu e cru à luz do dia, na vice-presidência e em seu partido, PMDB, que até agora eu não consegui decifrar em que banda toca. Nesse caso, quem sabe, o Padilha até ajuda o PT a enquadrar seus próprios monstros-de-mil-caras, e sai empatado do truco.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;f) O Padilha é bacana porque arrisca, arrisca alto, arrisca tudo. O final romântico do filme me faz não conseguir decidir se o Padilha é simplesmente um pirado romântico ou se é alguém que já enxergou uma luz no fim do túnel. A gente, Brasil, precisa se arriscar mais, não temos tempo de temer a morte, é preciso estarmos atentos e fortes.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;g) O Padilha não é bacana, porque estiliza a favela como qualquer tem feito para ganhar seus tostões qualquer cineasta tipo "estética da fome" (ó, que oásis continua sendo "Cinco Vezes Favela", esse lindíssimo filme espontaneamente nacional). O Padilha não é bacana, porque estiliza a violência como o faz qualquer filme vagabundo de Hollywood. A chuva de balas e o rio de sangue em "Tropa 2" me desestruturam, são insuportáveis para mim. Nunca assisto a filmes violentos de Hollywood, porque detesto a indústria de guerra, chumbo e sangue que os Estados Unidos vendem como "cultura" e/ou "entretenimento" supostamente inofensivo. Já está evidente que José Padilha almeja o trono de imperador da "nossa" Hollywood, de rei Lear da Renascença do cinema brasileiro - e vai ser um saco para mim ter que ficar vendo às dezenas seus filmes de carnificina - só porque sei que há conteúdo do mais massudo por baixo do vendaval de vísceras que ele exibe com prazer sadomasoquista.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;h) Não aguento mais esse papo de "sistema". Para com essa lengalenga de "sistema", seu Padilha - ou será que estou confundindo você com seu personagem-(anti-)herói, o Capitão Nascimento? Pois então, Coronel José Nascimento Padilha, o "sistema" é o teu (e o meu) sistema neuronal. O "sistema" é nervoso, é psíquico (e por vezes psicopata). Vem de dentro e sai vomitado para fora, e não vice-versa. Cidadãos corruptos elegem políticos corruptos e delegam a policiais corruptos o extermínio daqueles que eles acreditam ser o "mal" - curiosamente, o "mal" está sempre lá fora, lá longe, lá no prostíbulo, lá na boate gay, lá na favela, lá no Nordeste - nunca está aqui dentro de casa, dentro do cérebro. 99% de nós acreditam que &lt;span style="font-style:italic;"&gt;&lt;span style="font-style:italic;"&gt;não&lt;/span&gt;&lt;/span&gt; somos racistas, e 99% de nós conhecemos gente que já sofreu racismo (só para ficar no exemplo mais óbvio). Na contramão, cidadãos honestos elegem políticos (que delegam policiais) honestos, que se empenham por melhorar as condições de vida de todos nós (e não só da nossa #patotinha, de nossa #panelinha - ei, você aí, leitor!, conhece alguém que empobreceu durante o governo Lula? Se conhece, me apresente, por favor). Às vezes, o cidadão corrupto que faz tudo isso convive no mesmo corpo com o cidadão honesto que faz tudo isso ("Clube da Luta", Hollywood, misoginia, manja?) O inferno não somos os outros, o inferno é nóis, tá ligado? Starts with u, tudo começa por nós mesmos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;P.S. (em 15 de outubro de 2010): Segundo me conta no Twitter @jumontflores, José Padilha afirmou ontem num debate que votará nulo. Só consigo pensar que é o incrível caso do cineasta que não entendeu os próprios filmes. O diretor faturou R$ 28 milhões com "Tropa de Elite 2", em apenas uma semana. Para ele, que ganhou notoriedade internacional com o documentário "Garapa", sobre a miséria extrema no Nordeste brasileiro, não parece ser significativo o fato de 28 milhões de conterrâneos terem saído da miséria extrema nestes últimos oito anos. Tiremos nossas próprias conclusões, começa pela gente.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/8578073-4315100275123365864?l=pedroalexandresanches.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8578073/posts/default/4315100275123365864'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8578073/posts/default/4315100275123365864'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://pedroalexandresanches.blogspot.com/2010/10/osso-duro-de-roer.html' title='osso duro de roer'/><author><name>Pedro Alexandre Sanches</name><uri>http://www.blogger.com/profile/07131381196986635010</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-8578073.post-273154134385019055</id><published>2010-10-12T14:34:00.001-03:00</published><updated>2010-10-12T14:35:18.446-03:00</updated><title type='text'>sem lenço, sem documento (ou: a vida não se resume a festivais)</title><content type='html'>O Brasil caminha para frente a passos largos, e essa é uma constatação que os não-tolos já encampam com facilidade, sem resistências e com júbilo. No Brasil de 2010, um festival de rock que procura beliscar a mitologia de Woodstock o faz sob os discursos da ecologia e da sustentabilidade - eis um ganho indelével, indubitável. O SWU trouxe em sua embalagem um mundo de materiais recicláveis, telhados verdes, banhos de sete minutos e cápsulas para coletar cinzas de cigarro  - é um imaginário sedutor, fascinante mesmo, e não há de causar mal nenhum a uma juventude na qual não há descamisados nem caras-pintadas. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu estive lá, e aqui nos meus labirintos passei o tempo todo confrontando o SWU com o Woodstock que não conheci, e, também, com o maravilhoso filme "Aconteceu em Woodstock", do maravilhoso cineasta Ang Lee, que me fez quase morrer de nostalgia pelo que não vivi. E, tenho de confessar, na maior parte do tempo me senti mais longe de Woodstock que jamais estive. Mas tampouco posso negar: foi uma experiência perturbadora, a começar mesmo pelo termo "sustentabilidade", que esteve em todas as bocas na Itu de 9, 10 e 11 de outubro, mesmo quando em tom de zombaria salpicada de desconforto (e orégano, outro condimento onipresente no SWU).&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;De volta ao começo: o Brasil avança em passos firmes rumo ao futuro, mas por isso mesmo é preciso estar atento e forte (não temos tempo de temer a morte), é preciso processar joios e trigos (e recolher cada bago do trigo, e decepar a cana, e conhecer os desejos da terra...). É preciso (e prazeroso) reconhecer os progressos e reconhecer também os retrocessos que procuram puxar os pés dos progressos da superfície para os subterrâneos. É preciso tentar (ao menos tentar) separar o que é "novo" nesse dia que vem vindo do que é slogan, marketing, disfarce, fundamentalismo, obscurantismo, conservadorismo pintado em verniz verde-água.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Na "Revista Sustentabilidade", Silvia Dias demarcou brilhantemente o que está em jogo, no texto &lt;a href="http://www.revistasustentabilidade.com.br/blogs/pecados-verdes/swu-expoe-as-contradicoes-de-quem-ve-sustentabilidade-como-oportunidade-de-marketing/weblogentry_view" target="_blank"&gt;"SWU expõe as contradições de quem vê sustentabilidade como oportunidade de marketing"&lt;/a&gt;. Vou tentar não repetir os argumentos de Silvia, mas acho que, sim, também tenho algumas observações a acrescentar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Inclinado a certo grau de messianismo religioso, como costuma acontecer em qualquer festival (e em quase todo show) de rock, o SWU foi um espetáculo de alma branca, mesmo quando vestida sob os uniformes-padrão da multidão de camisas-pretas que cultuam as bandas mais "pauleira". Para um jornalista trabalhando na cobertura do evento, foi duro ter de passar, a cada minuto, por cordões de isolamento e paredes de segurança compostos quase sempre e quase integralmente por homens (e umas tantas mulheres de porte masculino) negros. Fernando Anitelli, d'O Teatro Mágico, declarou, perante um descampado verde, imenso e aparentemente improdutivo, que é impossível falar sobre sustentabilidade sem falar sobre agricultura familiar e reforma agrária - e eu, embriagado pelos bastidores e pelas muralhas de serviços, acrescento: é impossível falar sobre sustentabilidade sem sequer arranhar o tema da desigualdade racial brasileira. O discurso pode até ser verde, mas nós somos brancos-amarelos-negros-etc. - nós somos cor de carne.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Verde é a moda, e no SWU nem parecia que estamos no meio de uma campanha eleitoral neste país habitado por Rainhas (barbudas) da Idade da Pedra e pela Fúria Contra o Sistema (filmada pela Globo, desde que sem rebelião e, principalmente, sem o boné do Movimento dos Sem-Terra - "quem é MST?", perguntou pelo Twitter um neoverde mais afoito). Recordei minha irmã mais velha, que me repreendia quando eu tinha 16 anos, por ficar vidrado na tela global do primeiro Rock in Rio, poucos dias antes da (des)aprovação da emenda pelas eleições diretas. Em 2010, à beira da alternância de poder no Brasil, esse foi um tema-tabu no SWU - pouco ou nada se falou sobre eleição, não houve camisetas de Dilma Rousseff (eu trouxe a minha, mas não tive coragem de usar), nem de José Serra (existem camisetas de José Serra?), nem de voto nulo, nem nada. Nem da verdejante Marina Silva.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas, ah, sim, nós somos cor de carne -  negra, amarela ou branca. O rock'n'roll é um fenômeno pálido, louro e atlético, se tomarmos como parâmetro a escalação ideológica do SWU - longe vai o tempo em que Jimi Hendrix, negro como as noites que não têm luar, se despedia do rock e da vida lambendo as guitarras lamacentas de Woodstock. O ecopopcapitalismo autossustentável ensaia um "novo" discurso, mas no backstage (e mesmo sob os holofotes) flerta, namora e trepa com o velho status quo de sempre - aquele que clama que bolsa-família é esmola assistencialista, que cotas universitárias para negros são racismo ao contrário, que a mulher presidenciável é reencarnação abortiva do satanás, que homossexuais assacam heterofobicamente o pobre Marcelo Dourado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O status quo pode vociferar contra as cotas, mas é praticamente contumaz das cotas. No panteão de estrelas do SWU, houve cotas mínimas para negros (BNegão - quem mais?), mulheres (a "doce" Regina Spektor, a "sensual" Joss Stone), minorias sexuais (Cansei de Ser Sexy - quem mais?), nordestinos (Mombojó), minorias etárias e/ou de porte físico (Pixies), gente "independente" (O Teatro Mágico, o palco Oi - oi? - praticamente inteiro). &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Existe algo mais selvagemente capitalista que um festival feito por e para machos-adultos-brancos-sempre-no-comando? O que significa à vera o verniz verde-Marina (mulher, negra, nortista, evangélica), diante de tanto hambúrguer, tanta latinha, tanto copinho de plástico, tanta "very important people", tanto óleo diesel na estradinha vicinal de poeira, tanta mais-valia? No camping "premium", as mulheres tinham oito chuveiros, dos quais quatro funcionavam; no camping "ralé", o self-service do refeitório começou custando R$ 40 e terminou custando R$ 20), e assim a roda-gigante girava...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas o que significa à vera o "movimento" liderado por Eduardo Fischer se, como bem lembrou Flávia Durante, o megaempresário ultracapitalista autossustentável atende também pela conta transgênica da Monsanto? O que aqui é Marina Silva (o que em Marina Silva é Marina Silva?), o que aqui é "Avatar"? Quanto do discurso verde é verde mesmo, quanto é cobertor para mais e mais autoritarismo, capitalismo, clientelismo, patrimonialismo, TFPismo?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;São perguntas complexas à espera de ser respondidas, e certamente serão intrincadas e estratificadas as respostas. Sob graus maiores ou menores de cinismo e pragmatismo, é preciso voltar ao ponto de início: pode até parecer que não, mas temos avançado, crescido e amadurecido, sim, a passos fortes. Se você chegou até o último parágrafo deste texto, mesmo depois de se rebelar contra a chatice desse discursinho "politicamente correto" pró-negro/mulher/homossexual/nordestino/sem-teto/sem-terra, acrescento umas últimas afirmações. Uma nação fraca, enrustida, é feita por cidadãos mal-assumidos - por serem índios, negros, mulheres, homossexuais, gordos, magros, viralatas etc. etc. etc. Uma nação que se ama e se respeita é construção de um festival de indivíduos que se (auto)amam e se (auto)respeitam, se (auto)aceitam e se (auto)sustentam. Começa por nós mesmos. Ou, como disse BNegão, você é parecido com aquilo que critica. Ou, mais ou menos como disse Fernando Anitelli: Com você... Você mesmo!!! Ou ainda, como disse eu outro dia ali no Twitter, eu sou sempre parte daquilo que critico. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(P.S.: Dedico este texto a mim mesmo e a muitas pessoas que saberão se reconhecer - entre elas, à educadora @GabiDioguardi.)&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/8578073-273154134385019055?l=pedroalexandresanches.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8578073/posts/default/273154134385019055'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8578073/posts/default/273154134385019055'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://pedroalexandresanches.blogspot.com/2010/10/sem-lenco-sem-documento-ou-vida-nao-se.html' title='sem lenço, sem documento (ou: a vida não se resume a festivais)'/><author><name>Pedro Alexandre Sanches</name><uri>http://www.blogger.com/profile/07131381196986635010</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-8578073.post-4195408746670456801</id><published>2010-09-01T19:04:00.001-03:00</published><updated>2010-09-01T19:05:25.996-03:00</updated><title type='text'>triste cuíca, saudosa maloca</title><content type='html'>Cacilda, tem mais teia de aranha aqui no blog que na minha coleção de CDs... Mas tentemos reanimar o moribundo, já que tenho recebido pedidos nesse sentido - e porque, na real, nunca foi minha intenção abandoná-lo (é a luta diária pela sobrevivência autônoma, que se choca com o prazer - gratuito - de escrever blog).&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas é isso aí. Reportagem recém-saída dos miolos, da "CartaCapital" 611, de 1 de setembro de 2010 (hoje!):&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-weight:bold;"&gt;A encruzilhada dos batutas&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Entre o túmulo e a celebração do morro, o samba dos centenários Noel Rosa e Adoniran Barbosa forjou uma identidade para o País&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;POR PEDRO ALEXANDRE SANCHES&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ambos eram sambistas. E completariam 100 anos neste 2010, se estivessem vivos. Terminam aí as semelhanças entre dois dos mais importantes edificadores da música brasileira, o carioca Noel Rosa e o paulista Adoniran Barbosa. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Filho de migrantes italianos, Adoniran nasceu em Valinhos, no interior paulista, em 6 de agosto de 1910. Só aos 41 anos conquistou o primeiro êxito como compositor, quando &lt;span style="font-style:italic;"&gt;Saudosa Maloca&lt;/span&gt; ficou popular na gravação dos Demônios da Garoa. Morreu em 1982, aos 72 anos, após sucessivas ondas de ostracismo e sem adquirir plena notoriedade como intérprete dos próprios sambas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Noel nasceu poucos meses depois de Adoniran, em 11 de dezembro de 1910. E morreu muito antes, em 1937, aos 26 anos. Carioca do bairro de Vila Isabel e descendente de portugueses migrados para o interior fluminense,  começou a se firmar como autor aos 19 anos, quando lançou em sua própria voz o samba &lt;span style="font-style:italic;"&gt;Com Que Roupa?&lt;/span&gt; (1930). Foi logo adotado como fornecedor crucial de composições para os cantores Francisco Alves e Mário Reis, mas também traçou trajetória de intérprete, num tempo em que a própria música nacional ainda lutava por forjar sua identidade.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A história do samba carioca é tão perene quanto foi breve a vida de Noel, e ele é reconhecidamente um dos definidores da solidez do gênero. As dificuldades que Adoniran sofreu para se consolidar como músico de respeito são as mesmas que fustigam até hoje o “túmulo do samba”, para adotar os dizeres jocosos do bossanovista carioca Vinicius de Moraes.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O Rio vivia, ao final da década de 1920, a efervescência da linhagem de samba amaxixado de Sinhô e do bairro proletário da Cidade Nova. Moço branco de classe média baixa, Noel preferiu subir os morros para conhecer e absorver outros saberes, da Mangueira de Cartola ou especialmente do samba percussivo do Estácio de Sá de Ismael Silva. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A parceria Noel-Ismael floresceria. Francisco Alves passou a lhes comprar sambas e a se inserir nos rótulos dos discos como suposto coautor. Assim nasceram &lt;span style="font-style:italic;"&gt;Adeus&lt;/span&gt;, &lt;span style="font-style:italic;"&gt;Gosto mas Não É Muito&lt;/span&gt; (1931), &lt;span style="font-style:italic;"&gt;A Razão Dá-Se a Quem Tem&lt;/span&gt; e &lt;span style="font-style:italic;"&gt;Assim, Sim!&lt;/span&gt; (1932), esta uma das poucas canções de Noel gravadas pela maior estrela feminina de então, Carmen Miranda. Segundo relatam João Máximo e Carlos Didier em &lt;span style="font-style:italic;"&gt;Noel Rosa – Uma Biografia&lt;/span&gt; (Linha Gráfica/UNB, 1990), ele não apreciava a cantora, porque ela preferia as marchinhas aos sambas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O jovem Noel conviveu com Francisco Alves, Carmen Miranda, Mário Reis, Pixinguinha (orquestrador de boa parte de suas gravações), Cartola (que passaria quatro décadas desaparecido, após essa fase), Ismael Silva, Orestes Barbosa (autor da letra de &lt;span style="font-style:italic;"&gt;Positivismo&lt;/span&gt;, de 1933). No Rio, os fundadores escreviam em conjunto a história do samba, que ganhava corpo pelo interesse de amalgamar uma identidade brasileira, instigado pelo governo Getúlio Vargas, plantado no Palácio do Catete.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não aconteceria o mesmo com Adoniran, nem com os músicos de São Paulo de modo geral. João Rubinato (seu nome de batismo) precisou primeiro radicar-se na capital do estado, militar em empregos subalternos, participar de programas de calouros (um dos sambas que tentou cantar foi &lt;span style="font-style:italic;"&gt;Filosofia&lt;/span&gt;, de André Filho e... Noel Rosa) e ouvir de diretor de rádio que sua voz era “boa para acompanhar defunto”. Até hoje se disputa se Vinicius falou ou não que São Paulo era o túmulo do samba, mas de todo modo a expressão tinha antecedentes bem mais próximos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-style:italic;"&gt;Dona Boa&lt;/span&gt; foi a primeira composição gravada de Adoniran. Aos 25 anos, ele venceu com essa marchinha um concurso para o carnaval paulistano de 1935, participando do trio Mosqueteiros da Garoa, com Alvarenga e Ranchinho. A canção sairia em disco na voz de Raul Torres, paulista de Botucatu, mais identificado com cateretês e modas de viola que com o samba. Não se tem notícia de que Noel tenha tomado conhecimento da existência de Adoniran. Se tivesse, provavalmente implicaria com o colega, do mesmo modo como implicava com Carmen Miranda.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;As canções compostas por Adoniran na década de 1930 não foram conhecidas por Noel nem por mais ninguém. Viraram insucessos de um músico que não conseguia crescer e aparecer. Mambembe qual artista circense, ele não desistiu do cobiçado ambiente do rádio. Enquanto a elite paulista tentava apear Getúlio do poder e transformava a Rádio Record na “voz da revolução” (no Movimento Constitucionalista de 1932), o aprendiz de artista foi se virando entre locutores, radioatores e humoristas, vários deles de fato egressos do ambiente do circo, que fora a mídia dos tempos em que a mídia não existia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Celso de Campos Jr. conta no relançado &lt;span style="font-style:italic;"&gt;Adoniran – Uma Biografia&lt;/span&gt; (Globo, 2003) que Alvarenga e Ranchinho almejavam ser intérpretes sérios de tangos e valsas, “mas bastava eles abrirem a boca para o público cair na gargalhada”. O jeitão caipira da dupla soava como engraçado para seus patrícios, e o mesmo aconteceu com Adoniran. Sob a pena do roteirista (e futuro parceiro musical, e futuro suicida) Osvaldo Moles, ele foi encarnar tipos cômicos na Record. Com personagens como Zé Conversa, Giuseppe Pernafina e Barbosinha Mal-Educado da Silva, o humorista virou coqueluche nos anos 1940 por zombar daquilo que realmente era, um moço interiorano de falar acaipirado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Noel já era morto quando Adoniran encontrou sucesso na autodepreciação. Sambas forrados de sátira e crítica social, como &lt;span style="font-style:italic;"&gt;São Coisas Nossas&lt;/span&gt;, &lt;span style="font-style:italic;"&gt;Fita Amarela&lt;/span&gt; (1932), &lt;span style="font-style:italic;"&gt;Três Apitos&lt;/span&gt;, &lt;span style="font-style:italic;"&gt;Feitio de Oração&lt;/span&gt;, &lt;span style="font-style:italic;"&gt;Não Tem Tradução&lt;/span&gt;, &lt;span style="font-style:italic;"&gt;O Orvalho Vem Caindo&lt;/span&gt; e &lt;span style="font-style:italic;"&gt;Onde Está a Honestidade?&lt;/span&gt; (1933), haviam feito mais que lhe dar fama e abastecer a garganta e os bolsos de Francisco Alves.  Ajudaram a moldar intérpretes de excelência, como as duas cantoras favoritas de Noel, a doce Marília Baptista e a indomável Aracy de Almeida, futura jurada rabugenta dos programas (paulistas) de calouros de Silvio Santos. E deram combustível até mesmo de desafetos, como o sambista Wilson Baptista.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Jovem brilhante e à procura de reconhecimento, esse último entabulou em 1934 uma polêmica musical com seu influenciador, da qual nasceram &lt;span style="font-style:italic;"&gt;Rapaz Folgado&lt;/span&gt;, &lt;span style="font-style:italic;"&gt;Feitiço da Vila&lt;/span&gt;, &lt;span style="font-style:italic;"&gt;Palpite Infeliz&lt;/span&gt; e J&lt;span style="font-style:italic;"&gt;oão Ninguém&lt;/span&gt;, por parte de Noel, e &lt;span style="font-style:italic;"&gt;Mocinho da Vila&lt;/span&gt;, &lt;span style="font-style:italic;"&gt;Conversa Fiada&lt;/span&gt; e &lt;span style="font-style:italic;"&gt;Frankenstein da Vila&lt;/span&gt;, por Wilson. Essa referia-se a uma pronunciada deformação no queixo adquirida por Noel durante o parto, de implicações psicológicas provavelmente subestimadas por seus biógrafos. A briga musical se encerraria de modo surpreeendente, com &lt;span style="font-style:italic;"&gt;Terra de Cego&lt;/span&gt;, assinada por ambos em parceria.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Noel foi um jovem boêmio e desregrado. O diagnóstico de tuberculose aconteceu em 1934, pouco antes do casamento forçado com a namorada Lindaura, do suicídio do pai e do fracasso do romance com Ceci, tida como seu grande amor. Atormentado pelo medo de loucura e suicídio serem hereditários, Noel viveria dali em diante como um romântico típico, à moda de Lord Byron. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sua caudalosa produção diminuiu bastante. A fase final até somou alguns temas mais vibrantes, como &lt;span style="font-style:italic;"&gt;O X do Problema&lt;/span&gt; (1936), mas rendeu sobretudo sambas rasgados, autopiedosos, de fibra autodestrutiva, como &lt;span style="font-style:italic;"&gt;Triste Cuíca&lt;/span&gt; (1934), &lt;span style="font-style:italic;"&gt;Conversa de Botequim&lt;/span&gt;, &lt;span style="font-style:italic;"&gt;Pierrô Apaixonado&lt;/span&gt;, &lt;span style="font-style:italic;"&gt;Silêncio de Um Minuto&lt;/span&gt; (1935), &lt;span style="font-style:italic;"&gt;Eu Sei Sofrer&lt;/span&gt;, &lt;span style="font-style:italic;"&gt;Pra Que Mentir?&lt;/span&gt; e &lt;span style="font-style:italic;"&gt;Último Desejo&lt;/span&gt; (1937). Todas atravessariam as décadas e romperiam o século XXI sem perder o charme.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Em 1945, Adoniran virou ator em filmes-chanchada da Cinédia. O máximo de seriedade que conquistou foi interpretar na Vera Cruz um integrante do bando do personagem-título de &lt;span style="font-style:italic;"&gt;O Cangaceiro&lt;/span&gt; (1953), de Lima Barreto. A veia cômica prevaleceu, inclusive em paralelo algo tenso com o caipira por excelência inventado por um Mazzaroppi em plena ascensão de popularidade.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Só voltou a tentar a lida de compositor no final dos anos 1940. Em 1951 aconteceu &lt;span style="font-style:italic;"&gt;Saudosa Maloca&lt;/span&gt;, que nada guardava de carnavalesco ou humorístico. Era a história de três paulistanos que viam seus barracos serem demolidos para a construção de um edifício e concluíam que &lt;span style="font-style:italic;"&gt;os homes tá com a razão, nós arranja outro lugar&lt;/span&gt;. Conseguiu gravá-la, e de novo nada aconteceu. Só seria notada quando relançada pelos Demônios da Garoa, no ano seguinte.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A veia humorística contagiaria a música naquele mesmo 1952, com &lt;span style="font-style:italic;"&gt;O Samba do Arnesto&lt;/span&gt;, conhecido só em 1955, outra vez na interpretação clássica (e sublinhada na pronúncia acaipirada) dos Demônios. Devagar, o sucesso esquentava a chama do autor, que se sentiu mais seguro para moldar um samba à paulista, entristecido mesmo quando puxado na graça, e sempre movido por referências interioranas e/ou caipiras.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Surgiram &lt;span style="font-style:italic;"&gt;Joga a Chave&lt;/span&gt; (1952), &lt;span style="font-style:italic;"&gt;As Mariposas&lt;/span&gt; (1955), &lt;span style="font-style:italic;"&gt;Apaga o Fogo Mané&lt;/span&gt;, &lt;span style="font-style:italic;"&gt;Iracema&lt;/span&gt; (1956), &lt;span style="font-style:italic;"&gt;Abrigo de Vagabudo&lt;/span&gt; (1958), &lt;span style="font-style:italic;"&gt;No Morro da Casa Verde&lt;/span&gt; (1959), &lt;span style="font-style:italic;"&gt;Tiro ao Álvaro&lt;/span&gt; e &lt;span style="font-style:italic;"&gt;Prova de Carinho&lt;/span&gt; (1960). O mais melancólico dos sambas, &lt;span style="font-style:italic;"&gt;Bom-Dia, Tristeza&lt;/span&gt;, foi lançado por Aracy de Almeida em 1957. Tinha letra de outro carioca, o poeta e diplomata Vinicius de Moraes, em momento pré-bossa nova e pré-túmulo do samba.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O início de êxito musical não alterou a rota. Em 1956, surgiu o programa de rádio &lt;span style="font-style:italic;"&gt;Histórias das Malocas&lt;/span&gt;, dedicado a transformar em graça a tragédia narrada na &lt;span style="font-style:italic;"&gt;Saudosa Maloca&lt;/span&gt;. Ali nasceu seu personagem mais famoso, o matuto Charutinho, em dupla com a Pafunça da comediante Mariamélia. O músico Adoniran voltaria ao pódio no fatídico 1964, quando os Demônios da Garoa emplacaram seu &lt;span style="font-style:italic;"&gt;Trem das Onze&lt;/span&gt;.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;À melancolia e ao humor acrescentava-se outra característica que tornaria perenes Adoniran e o samba paulista. A letra citava o distante bairro do Jaçanã e fortificava a vocação do autor em circular por sua cidade e fazer a crônica musical de suas paisagens, de Jaçanã ao Bexiga, da Casa Verde ao viaduto Santa Ifigênia. A gaúcha Elis Regina encantou-se com Adoniran e levou-o ao seu &lt;span style="font-style:italic;"&gt;O Fino da Bossa&lt;/span&gt;, na TV Record (em 1980, registraria com ele um antológico dueto de &lt;span style="font-style:italic;"&gt;Tiro ao Álvaro&lt;/span&gt;).&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A locomotiva dos Demônios produzia mais sucessos de sua lavra, mas Adoniran, bom paulista, se dedicava a remoer mágoas e sofrer de inadaptação. Egresso do rádio, não se encontrava na televisão. Em 1966, compôs &lt;span style="font-style:italic;"&gt;Já Fui uma Brasa&lt;/span&gt;, de queixa algo conformada pela voga da jovem guarda: &lt;span style="font-style:italic;"&gt;Lembro que o rádio que hoje toca iê-iê-iê o dia inteiro/ tocava Saudosa Maloca/ eu gosto dos meninos desse tal de iê-iê-iê/ porque eles cantam a voz do povo/ e eu, que já fui uma brasa,/ se assoprar eu posso acender de novo&lt;/span&gt;.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No início dos anos 1970, Adoniran afinal aportou no novo destino preferencial de circenses, mambembes e errantes. Virou ator de novelas da TV Record. Em 1972, o produtor Fernando Faro levou a seu programa &lt;span style="font-style:italic;"&gt;MPB Especial&lt;/span&gt;, da TV Cultura, o Adoniran compositor, e cantor. Em 1974, 37 anos após a morte de Noel, &lt;span style="font-style:italic;"&gt;Adoniran Barbosa&lt;/span&gt; chegou ao mercado para ser o primeiro LP da história do humorista que queria cantar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nesse e no disco seguinte, fez um apanhado da própria história, em versões sentidas de seus sambas, de &lt;span style="font-style:italic;"&gt;Saudosa Maloca&lt;/span&gt; a &lt;span style="font-style:italic;"&gt;Já Fui uma Bras&lt;/span&gt;a. Em 1980, Faro lhe propiciou nova homenagem, na forma do terceiro e derradeiro LP, feito de duetos com fãs então em evidência, como Elis, Clara Nunes (numa versão matadora da trágica &lt;span style="font-style:italic;"&gt;Iracema&lt;/span&gt;), Roberto Ribeiro, Clementina de Jesus, Djavan, Gonzaguinha. Dentro de três anos, às vésperas da redemocratização do país, estariam mortos Adoniran, Elis e Clara (os dois primeiros, no túmulo do samba).&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Havia mesmo mais diferenças que semelhanças entre “o poeta da Vila” e “o poeta do Bexiga”. O carioca expectorou com pressa o orgulho que tinha de sua “modernidade”, cidade e país, e ajudou a construí-los. O paulista ruminou por décadas antes de sussurrar, quase para si mesmo, a vergonha que tinha de ser quem era e a vontade represada de se orgulhar da dita “caipirice”, e mesmo assim ajudou a construir sua cidade, seu estado, seu país.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas, não, tinham mais duas coisas em comum, que explicam sua importância equânime e colossal. Criavam mobilizados por um desejo nunca consumado de liberdade, um buscando e fugindo do xis do problema, outro seguindo o exemplo das mariposas e dando “vortas” em terno da “lâmpida”, enquanto o sol brilhava lá fora. E, sobretudo, exprimiam os sentimentos dos estratos subalternos aos quais nunca deixaram de pertencer. Afinal, eram sambistas, ambos.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/8578073-4195408746670456801?l=pedroalexandresanches.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8578073/posts/default/4195408746670456801'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8578073/posts/default/4195408746670456801'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://pedroalexandresanches.blogspot.com/2010/09/cacilda-tem-mais-teia-de-aranha-aqui-no.html' title='triste cuíca, saudosa maloca'/><author><name>Pedro Alexandre Sanches</name><uri>http://www.blogger.com/profile/07131381196986635010</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-8578073.post-4079170264755070482</id><published>2010-07-27T16:23:00.001-03:00</published><updated>2010-07-27T16:23:43.521-03:00</updated><title type='text'>o pão, a farinha, o feijão, carne seca, quem é que carrega?</title><content type='html'>Andava hoje pela terra seca que virou a seção de CDs da Fnac da av. Paulista, e fiquei pensando: é irônico, mas o tempo presente tem sido generoso com aquilo que antigamente chamávamos (e ainda chamamos) jabaculê.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Como me disse em entrevista outro dia o cearense Emanuel Gurgel, inventor da banda-e-marca forrozeira Mastruz com Leite, CD não é mais comércio. É cartão de apresentação. Serve para divulgar o produto (como Emanuel gosta de chamar as músicas dos artistas, e talvez os próprios artistas). Mas não é mais o produto em si.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E de repente me pareceu que, se ele está certo (e está, não está?), aquelas poucas caixetas de plástico com música dentro nas prateleiras não são hoje menos nobres do que eram, e sim o contrário.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quando a indústria fonográfica era um império, eu recebia pilhas dessas caixetas toda semana, de graça - quem ia à Fnac comprar seus próprios CDs pagava por eles e por parte dos meus também. VEJA bem, era para que eu, talvez, as avaliasse (as músicas?, ou as caixetas?), mas, ora, esse escambo se chamava jabá.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Continuo recebendo pilhas (um pouco menores) de CDs toda semana, e acredito que isso continua se chamando jabá. Mas é tudo bastante diferente agora. Não se trata mais de algo de valor simbólico acondicionado dentro de algo com determinado valor material, negociado entre gravadoras (&amp; seus empregados) e veículos de comunicação (&amp; seus empregados). Trata-se de um cartão de visitas. Uma apresentação emitida por alguém que gostaria que eu conhecesse o seu trabalho - e desse notícia dele aos meus (quais?) leitores.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A caixeta hoje é muito valor simbólico, e pouquíssimo valor material. Ainda custa caro para quem a faz - ainda é um jabá, mas é um jabá mais Frankenstein, mais desengonçado, menos vagabundo e robótico do que já foi. Ainda somos cínicos, mas hoje nos alimentamos mais de símbolos que de consumismo compulsivo. Não me admira que Fausto Silva esteja tão mais magro ultimamente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas, ah, voltando à música, essa que parece tão escassa nas Fnacs de hoje: quando ela não vem em caixetas, mas sim em MP3, links de internet etc., ela é 100% valor simbólico (ok, estou ingenuamente desconsiderando a grana que todos pagamos à informática e às telecomunicações - quais são os jabás desses novos sertões?). &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;De vez em quando, quando tudo fica tão simbólico, chego a achar que estamos no tempo em que ainda não éramos nascidos.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/8578073-4079170264755070482?l=pedroalexandresanches.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8578073/posts/default/4079170264755070482'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8578073/posts/default/4079170264755070482'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://pedroalexandresanches.blogspot.com/2010/07/o-pao-farinha-o-feijao-carne-seca-quem.html' title='o pão, a farinha, o feijão, carne seca, quem é que carrega?'/><author><name>Pedro Alexandre Sanches</name><uri>http://www.blogger.com/profile/07131381196986635010</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-8578073.post-5499357273588144587</id><published>2010-06-25T18:22:00.001-03:00</published><updated>2010-06-25T18:22:20.168-03:00</updated><title type='text'>rockin' robin</title><content type='html'>De modo geral, acho tristonha essa avalanche de textos e reportagens sobre Michael Jackson a propósito do primeiro aniversário da morte dele. Parece quase tão onipresente quanto a Copa (e sempre que vejo me pergunto: quem quer saber de MJ a esta altura dos acontecimentos?).&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas, por contraste e contradição, graças à boda de um ano de morte dele o iG (&lt;a href="http://ultimosegundo.ig.com.br/michaeljackson/o+homem+no+espelho+e+nos/n1237669109454.html" target="_blank"&gt;16 de junho de 2010&lt;/a&gt;) me proporcionou fazer um texto que estava preso aqui na garganta há cerca de 365 dias, ou mais. E eu me contradigo e republico e faço aqui a mesma coisa que insinuei me causar tédio e aversão no início deste tópico. Saudades de você, Michael Jackson.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;b&gt;O homem no espelho e nós&lt;/b&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Já faz um ano. O mundo ficou em estado de choque quando soube da morte de um dos heróis pop que mais lhe ofereceram alegria, diversão e prazer nas três últimas décadas do século passado. Mas sejamos francos: fazia anos que a humanidade esperava que, qualquer hora dessas, acontecesse alguma tragédia com Michael Jackson. Sejamos ainda mais transparentes: fomos cúmplices impassíveis, quando não exultantes, de uma das mais prolongadas histórias de agonia pública de que se tem notícia. As transformações, deformações e mutilações físicas eram apenas a face mais visível do processo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Michael era um gênio musical, muitos correram a reconhecer a obviedade quando ele morreu. Mais embaraçoso foi, é e será reconhecer que grande parte da genialidade brotava justamente do sofrimento brutal que ele vivenciou (quase) publicamente desde que era o garotinho-prodígio do grupo Jackson 5, dirigido e tiranizado por um pai violento e abusivo (e pela indústria musical que sustentava o “fenômeno”). Entre as ofensas praticadas rotineiramente por Joe Jackson, sobressaíam aquelas relacionadas à cor da pele e à aparência física do filho, como Michael relatou pela primeira vez em 1993, no programa de Oprah Winfrey. Pode ser um exercício elucidativo rever suas músicas e letras após um ano, à luz não da festa e da farra, mas de tudo que o menino que nunca cresceu vivia enquanto cantava.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Aos 8 anos ele começou a se tornar a atração principal entre os Jackson 5, e aos 13 iniciou uma carreira solo paralela à trajetória de sucesso do grupo. No primeiro disco individual, &lt;span style="font-style:italic;"&gt;Got to Be There&lt;/span&gt; (1972), havia uma canção infantil chamada "Rockin’ Robin", cujo protagonista era um melro roqueiro às voltas com outros pássaros, entre eles um “grande corvo preto”. O melro tomava aulas de “hop” e “bop” de um “corvo pequenino”, enquanto Michael disparava a trinar, “tweet, tweet, tweet”.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O personagem-título do segundo LP, &lt;span style="font-style:italic;"&gt;Ben&lt;/span&gt; (1972), era um ratinho abandonado (e negro, também, como exibia a capa deletada em reedições posteriores), cujo único amigo era o intérprete-narrador. “Você sente que não é bem-vindo em lugar nenhum”, lamentava o pré-adolescente de cabelo black power que apenas iniciava a escalada épica para ser adorado, desejado e idolatrado pelas multidões.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Em 1973, lançou &lt;span style="font-style:italic;"&gt;Music &amp; Me&lt;/span&gt;, entre funks chamados "Johnny Raven" (“eu sou Joãozinho Corvo”) e "Euphoria". O narrador dessa última é um garoto que “vê o arco-íris brilhar” e “repousa numa cama de flores”, “sem conhecer doenças” e “sem tomar pílulas”. Podia parecer euforia (era?), e Michael não escrevia suas próprias canções naquela época, mas o recado era pesado para um garoto de 14 anos que mais tarde faria pós-graduação em “pílulas” e “doenças”.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Michael estava a duas semanas de completar 21 anos em agosto de 1979, quando lançou o esboço emancipatório Off the Wall, recheado de proposições eufóricas como “não pare até conseguir o suficiente”, em "Don’t Stop ‘Til You Get Enough", o primeiro cartão de visita para que o “corvinho” se convertesse em um dos donos do mundo. Algumas letras do disco pareciam falar mais de um operário na meia idade que de um vigoroso pós-adolescente. Em "Workin’ Day and Night", escrita por Michael em pessoa, o narrador trabalhava “do nascer do sol à meia-noite”, sentia dor nas costas e ao final exclamava, como quem não quer nada: “Estou tão cansado”.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Em "Off the Wall" (composta por Rod Temperton), gritos fantasmagóricos anunciavam a chegada do monstro pop que carregava “o mundo nas costas”, mas preconizava uma vida devotada à música e à diversão: “Somos os ‘party people’ noite e dia/ o único jeito é viver malucos”. Uma frase solta era ouro para bons entendedores: “A vida não é tão ruim assim”.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A emancipação de fato (ou a escravidão definitiva?) viria três anos depois, com &lt;span style="font-style:italic;"&gt;Thriller&lt;/span&gt; (1982), que viraria de ponta-cabeça não só a vida do artista, mas toda a história do pop e da indústria musical. A importância crucial do disco reside no fato de Michael ter encontrado ali a pedra filosofal da fusão entre o funk-soul negro e o rock’n’roll branco – o “black and white”, a mestiçagem, o acasalamento que o mundo aclamaria de pronto, mas não perdoaria jamais a partir do momento em que percebesse que o menino negro supostamente desejava se metamorfosear em homem (ou mulher?) branco(a). Não desejava – só queria deixar de ser ele mesmo, mas isso a massa não quis ou não soube perceber.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-style:italic;"&gt;Thriller&lt;/span&gt; condecorou a humanidade por sua própria “viralatice”, mas para Michael era a materialização dos pesadelos mais íntimos. O desabafo, esse sim emancipador, permeia cada linha da faixa-título, obra-prima máxima do funk de terror, do rock de arrepio, do pop de lobisomem: “você está paralisado”, “há demônios por todo lado”, “ninguém vai salvá-lo da besta à espreita”, “este é o final da sua vida”. Seria Joe Jackson um dos nomes da besta? “Se você não pode alimentar um bebê, não tenha um bebê”, diz um verso de "Wanna Be Startin’ Somethin’", parente próximo do drama de (não-)paternidade de "Billy Jean" (“o garoto não é meu filho”).&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Se em &lt;span style="font-style:italic;"&gt;Thriller&lt;/span&gt; Michael queria estar começando alguma coisa (o começo era o fim?), o resto de sua vida seria gasto na busca obsessiva (nunca alcançada) da autossuperação. Se em 1979 a vida era ruim, em 1987 ele tomaria para si o rótulo de &lt;span style="font-style:italic;"&gt;Bad&lt;/span&gt;. “Sua fala é ordinária/ você não é um homem/ você atira pedras para esconder suas mãos”, dizia o autor-narrador da faixa-título, como de hábito usando “você” em vez de “eu”. "Man in the Mirror" (composta não por ele, mas por Glen Ballard e Siedah Garrett) continha o maior conselho que nosso Peter Pan deu a si mesmo, mas não quis ouvir (ou ouviu de modo plástico, deturpado): “Se você quer fazer do mundo um lugar melhor/ dê uma olhada em si mesmo e comece aí a mudança”.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Michael não conseguiu superar &lt;span style="font-style:italic;"&gt;Thriller&lt;/span&gt; ou a si próprio nos discos da década de 90, mas eles guardam vários dos mais belos, pungentes e dramáticos depoimentos de dor e desespero da história da música, sempre recebidos por nós com ouvidos moucos. Primeiro, veio &lt;span style="font-style:italic;"&gt;Dangerous&lt;/span&gt; (1991), quando o autor já se sentia “perigoso”. “Confusões contradizem a identidade/ sabemos distinguir o certo do errado?”, pergunta "Jam". “Eu sou o amaldiçoado/ eu sou o morto/ eu sou a agonia dentro da cabeça moribunda”, declara "Who Is It", mais transparente que H2O. “Todo mundo me controla/ (...) estou tão confuso”, diz "Will You Be There". “Agora faremos um juramento, vamos manter tudo dentro do armário”, deseja "In the Closet", em dueto com a princesinha branca Stéphanie de Mônaco.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Lançada dois anos após as primeiras acusações de que o ex-abusado tivesse virado ele próprio um abusador de crianças, a coletânea &lt;span style="font-style:italic;"&gt;HIStory&lt;/span&gt; (1995) foi compreendida como um esforço de automitificação, o que abafou o fato prosaico de que ela continha um disco inteiro inédito, e profundamente revelador. “Parem de me pressionar”, “parem de me foder”, “estou cansado de golpes e tramoias”, começava "Scream", em duo com a irmã Janet Jackson. “Aqui abandonado em minha fama/ armageddon da mente”, declarava-se em "Stranger in Moscow". “Você viu minha infância?/ estou procurando pelo mundo do qual eu vim”, “é minha sina compensar a infância que nunca tive”, confessava em "Childhood", já num pique de autovitimização. “Mike é mau, eu sou mau, quem é você?”, provocava o jogador de basquete Shaquille O’Neal em "2 Bad".&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Dois momentos eram especialmente eloquentes em &lt;span style="font-style:italic;"&gt;HIStory&lt;/span&gt;. Um era "Tabloid Junkie", em que Michael direcionava sua ira e revolta contra a mídia sensacionalista refestelada em popularidade e dinheiro à custa de seus apuros. “Especulem para ferir quem vocês odeiam/ circulem a mentira que confiscam/ assassinem e mutilem”, cuspia na cara da “mídia canina histérica”. “Só porque você lê numa revista ou vê numa tela de TV não significa que seja real, factual”, tentava ensinar, anotando que “comprar é alimentar”, mas esquecendo-se de que ele próprio era uma das muitas faces do dragão chamado “mídia”. “Mas todo mundo quer acreditar em tudo”, acabava por desabafar, espalhando o próprio desabafo para os fãs que, afinal, também são abusadores em potencial.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O outro instante em que o “rei do pop” estava nu em HIStory era a valsa "Little Susie", sobre uma garotinha abusada, espancada e assassinada por um monstro não nomeado (poderia ser Joe Jackson?). “Todo mundo veio ver a menina que agora está morta”, “ela sabia que ninguém se importava”, “abandono pode matar como uma faca”, gemiam versos que pareciam a consumação dos pesadelos inconsequentes de &lt;span style="font-style:italic;"&gt;Thriller&lt;/span&gt;.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Em 1997, o álbum de remixes &lt;span style="font-style:italic;"&gt;Blood on the Dance Floor&lt;/span&gt; trazia algumas poucas faixas inéditas, quase todas referentes a fantasmas, gente assustada, sangue na pista de dança. Musicalmente pálido, dizia tudo sobre o estado de espírito do (ex-)herói, se quiséssemos ouvir. "Morphine", por exemplo, era um drama funkeado de dor e anestesia: “um ataque cardíaco, baby/ preciso do seu corpo”, “outra droga, baby/ você deseja tanto”, “confie em mim/ você está tomando morfina”, “você odeia sua raça, baby/ você é só um mentiroso”. “Demerol/ Demerol/ oh, Deus, ele está tomando Demerol”, cantava o funk hospitalar, em referência ao medicamento analgésico e sedativo que em 2009 seria apontado como o causador de sua morte.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;"Ghosts" falava sobre “um demônio embaixo da cama” e confrontava mais um sujeito oculto (ou a vários): “Quem lhe deu o direito de mexer com minha família/ de assustar minha família/ de machucar minha família?”.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;"It’s Scary" abria o jogo mais do que nunca. “Estou divertindo ou apenas confundindo você?/ sou a besta que você vê e quer ver?/ excentricidades/ serei grotesco para seus olhos”, começava. “Você veio a mim para ver suas fantasias encenadas diante de seus olhos?/ se veio para ver a verdade e a pureza/ aqui está um coração solitário/ deixe a performance começar”, anunciava a tormenta. “Fico assustado no seu lugar?/ estou cansado de ser abusado/ você sabe que me assusta também/ vejo que o demônio é você/ é assustador para você, baby?”, vomitava, desta vez falando a um “você” que poderia ser ele mesmo, o pai, eu ou você. No derradeiro &lt;span style="font-style:italic;"&gt;Invincible&lt;/span&gt; (2001), “invencível”, o mesmo tema seria reelaborado na ressentida faixa-testamento "Threatened", “ameaçado”: “Eu sou o seu pior pesadelo”, “vou desaparecer, e então voltarei para assombrar você”.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Essa era a voz que poucos de nós ainda queríamos ouvir. O pacto ilusionista estava se quebrando, Michael estava indo além dos limites tradicionalmente permitidos. A pergunta deixada no ar, desde muito antes de sua morte, era se tínhamos gostado tanto dele só porque era um gênio, ou também porque nos confortava secretamente vê-lo se destroçando diante de nossos olhos e ouvidos e fígados. Ora, se o cara mais famoso do planeta era mais desgraçado do que nós...&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/8578073-5499357273588144587?l=pedroalexandresanches.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8578073/posts/default/5499357273588144587'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8578073/posts/default/5499357273588144587'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://pedroalexandresanches.blogspot.com/2010/06/rockin-robin.html' title='rockin&apos; robin'/><author><name>Pedro Alexandre Sanches</name><uri>http://www.blogger.com/profile/07131381196986635010</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-8578073.post-8098703348934435841</id><published>2010-05-19T13:59:00.000-03:00</published><updated>2010-05-19T13:59:39.593-03:00</updated><title type='text'>tudo que é de bom pro figueiredo e que se beba</title><content type='html'>Só para concluir esse assunto do Tinhorão, copio abaixo o diálogo que tive com o &lt;a href="http://cafeescuro.wordpress.com/" target="_blank"&gt; Jaime Filho&lt;/a&gt; por e-mail, dias antes de ir, eu próprio, entrevistar o famigerado crítico e historiador. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Já estava presente na matéria dele e, indiretamente, no meu tópico anterior, mas deu vontade de deixar registrado e armazenado também aqui neste meu acervo público-particular. Porque é mais ou menos fácil um entrevistador se proteger embaixo de uma capa de relativa neutralidade, mas acho importantes e ilustrativos esses momentos em que, entrevistado, um entrevistador é levado a sair do armário e expressar pontos de vista sem subterfúgios.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Porque, todo mundo sabe, NINGUÉM é neutro - nem entrevistado, nem leitor, nem entrevistador, nem quem acha que não tem nada a ver com isso.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-weight:bold;"&gt;Jaime Filho -&lt;/span&gt; Como crítico musical, como você analisa o trabalho de Tinhorão? Ele influenciou, de alguma forma, no teu trabalho?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-weight:bold;"&gt;Pedro Alexandre Sanches - &lt;/span&gt;Eu não era influenciado pelo Tinhorão nos meus primeiros anos de jornalista, simplesmente porque, ignorância total minha, eu não conhecia absolutamente nada do que ele escrevia. Ele ainda é marginalizado hoje, mas acredito que era bem mais nos anos 1990, quando era bastante raro sequer ouvir falar dele. Fui tomando consciência aos poucos, depois o entrevistei, hoje acompanho tudo que posso, porque é evidentemente uma referência central, daquelas de a gente usar como norte tanto para pegar as coisas legais como para fugir dos erros, preconceitos e enganos que cometia. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ele fala muita coisa de que eu discordo, então é sempre um exercício de ler concordando e discordando ao mesmo tempo e aprendendo a separar umas partes das outras. Apesar de as críticas do Tinhorão parecerem às vezes maniqueístas, ler o que ele escreve hoje me parece por si só um exercício de não ser maniqueísta - se quiser levar a coisa a sério, você não pode aceitar tudo que ele fala, menos ainda rejeitar a priori toda e qualquer coisa que ele diga.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Por sinal, uma coisa de que eu gosto no Tinhorão é saber que ele tem uma metodologia muito definida de análise (coisa que eu, por exemplo, nunca tive, pelo menos conscientemente), entender que ele segue preceitos do marxismo para criticar a música popular, e pronto. A gente sempre pode discutir se são métodos datados ou se ainda podem ter validade, mas eu acredito que muito do preconceito que existe contra ele se deve menos aos folclores sempre citados (de ele se opor à bossa nova, acusar Tom Jobim de plágio etc.) do que à leitura que ele faz da música a partir da luta de classes. Ainda que eu discorde das conclusões a que ele chega num grande número de vezes, acho há uma parte desse método que é muito, muito atual. Por exemplo, acredito que a má vontade atual contra o rap se deve muito menos a razões propriamente musicais que a preconceitos de classe social e discriminação racial. Tinhorão já cutucava essa ferida 50 anos atrás, quando implicava com os almofadinhas e as "aventuras de apartamento" da bossa nova.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-weight:bold;"&gt;JF - &lt;/span&gt;Uma suposta ‘conivência’ entre os veículos de imprensa e a indústria fonográfica seria uma das razões para os críticos mais ‘agressivos’ terem deixado os veículos?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-weight:bold;"&gt;PAS -&lt;/span&gt; Acho bem provável que pudéssemos falar isso a respeito do Tinhorão, porque ele de fato parece ter ficado isolado, marginalizado, rejeitado pelos que criticou e pelos que não criticou. Mas eu tenderia a atribuir esse tipo de isolamento muito mais ao próprio crítico que a fatores externos (como a imprensa ou a indústria fonográfica) - acho que não teria sido assim se ele assim não quisesse ou não agisse, propositalmente ou não, no sentido de se isolar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Agora, quanto ao presente, eu não acredito nessa razão que você cita para o afastamento de críticos dos veículos, não. No meu caso, tomei a decisão de sair da "Folha", entre outros motivos, porque eu não tinha mais qualquer interesse em continuar desempenhando aquele papel do palhaço "agressivo" da crítica musical. Acho que a Folha gostava e gosta muito dessa figura do crítico agressivo (hoje mesmo há toda uma série de profissionais dessa categoria lá, embora não na crítica musical), e acredito que é uma postura que o jornal sempre incentivou subliminarmente. Acho até que se eu não tivesse me desviado desse curso muito possivelmente poderia estar lá até hoje... &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O que acredito hoje, sinceramente, é que a figura do "crítico agressivo" que sai ofendendo e desrespeitando todo mundo é algo absolutamente em crise, o que explica em grande medida o estado de decadência em que se encontram nossos maiores veículos, quase todos aprisionados até hoje nesse modelo opressivo da agressividade passiva.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-weight:bold;"&gt;JF - &lt;/span&gt;Em relação ao estilo, você enxerga ‘seguidores’ de José Ramos Tinhorão na imprensa cultural?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-weight:bold;"&gt;PAS - &lt;/span&gt;Em primeiro lugar, precisamos nos perguntar se a sociedade ainda precisa desse modelo de crítica que ele fazia (e que eu, por exemplo, imitei em grande parte dos meus dez anos de Folha, sem saber nem ter teoria por trás). Acredito que não precisamos, e nesse sentido me parece que perdeu muito sentido aquele estilo de escrita que o Tinhorão tinha e depois continuou com o Pepe Escobar, o Luís Antônio Giron, mesmo eu (aliás, se formos pensar, esse modelo nas últimas décadas ficou muito circunscrito ao núcleo "Folha"-"Veja", não é mesmo? Nunca foi muito a cara dos jornais cariocas, nem mesmo do "Estado", pelo menos no que se refere à crítica cultural).&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas aí há um ponto importante: isso não quer dizer que morreu o modelo de crítico ácido, que fala pelo fígado e cospe bile verde quando se expressa. O que eu acho que acontece nos últimos anos é que a internet virou tudo de ponta-cabeça. Se antes uma parte do público leitor aplaudia secretamente e se identificava em silêncio com o crítico ranzinza, amargo, recalcado etc., enquanto outra parte adorava usar essa mesma figura como bonequinho de vodu, hoje toda e qualquer pessoa tem a oportunidade de ir pessoalmente para um blog, um Orkut, um Twitter ou o que seja destilar suas próprias doses de veneno e amargura. É só olhar nas caixas de comentários dos sites e blogs, os Tinhorões (ou melhor, as características mais amargas e folclóricas do modelo Tinhorão) estão todos lá, fazendo por eles próprios o que antes esperavam que um Tinhorão fizesse para representá-los. Afinal, quem não tem sua própria dose de agressividade e rancor? Tenho certeza absoluta que até a Sandy e o Padre Marcelo têm. E, se tem tanto crítico feroz por aí, quem ainda precisa de seguidores dessa linha na grande imprensa, não é mesmo? Ninguém, e de fato, pelo menos na crítica musical, eles me parecem felizmente em extinção (na crítica política ainda há um monte - Diogo Mainardi, Arnaldo Jabor, Clovis Rossi, Reinaldo Azevedo -, mas estão cada vez mais falando sozinhos).&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pessoalmente, confesso que da minha ida para a "CartaCapital" para cá, me sinto bastante aliviado e contente de ter desembarcado da fantasia de palhaço desse personagem de mal com o mundo, vociferante, supostamente sabedor de todos os defeitos da humanidade (menos dos dele próprio) e das receitas "certas" para corrigi-los. Acredito que o Tinhorão, ao modo dele e ao tempo dele, percebeu a armadilha e fez esse mesmo caminho de libertação - se despiu do personagem do lobo bobo e foi ser um historiador sério, consistente e sóbrio, que os chapeuzinhos vermelhos não têm qualquer razão para temer.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/8578073-8098703348934435841?l=pedroalexandresanches.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8578073/posts/default/8098703348934435841'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8578073/posts/default/8098703348934435841'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://pedroalexandresanches.blogspot.com/2010/05/tudo-que-e-de-bom-pro-figueiredo-e-que.html' title='tudo que é de bom pro figueiredo e que se beba'/><author><name>Pedro Alexandre Sanches</name><uri>http://www.blogger.com/profile/07131381196986635010</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-8578073.post-6160491538557957801</id><published>2010-05-07T17:07:00.000-03:00</published><updated>2010-05-07T17:07:46.522-03:00</updated><title type='text'>"O tinhorão está nos livros, não está no tinhorão"</title><content type='html'>A entrevista com o sempre loquaz José Ramos Tinhorão saiu grandona no iG cultura, &lt;a href="http://ultimosegundo.ig.com.br/cultura/musica/um+critico+linhadura+chamado+tinhorao/n1237608813177.html" target="_blank"&gt;aqui&lt;/a&gt;, &lt;a href="http://ultimosegundo.ig.com.br/cultura/musica/o+historiador+explica/n1237608970604.html" target="_blank"&gt;aqui&lt;/a&gt; e &lt;a href="http://ultimosegundo.ig.com.br/cultura/musica/petardos+do+critico+irascivel/n1237609009222.html" target="_blank"&gt;aqui&lt;/a&gt;, mas na real era muito mais grandona ainda - apesar de não ter durado mais que 1 hora. Vai aí, portanto, a versão "tala larga", sem edições e condensações.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(Ah, e uma curiosidade. Quando eu estava lendo a biografia do Tinhorão e me preparando para entrevistá-lo, fui procurado pelo Jaime Filho, jornalista do Rio de Janeiro, que também estava escrevendo sobre o velho crítico e queria me entrevistar a respeito. O material dele saiu algumas semanas antes em seu blog &lt;a href="http://cafeescuro.wordpress.com/" target="_blank"&gt;Café Escuro&lt;/a&gt;, e, como eu disse agora ao Jaime, ajudou a guiar e inspirar minha perguntas e meu texto. O trabalho do Jaime está &lt;a href="http://cafeescuro.wordpress.com/2010/04/14/o-critico/" target="_blank"&gt;aqui&lt;/a&gt;, &lt;a href="http://cafeescuro.wordpress.com/2010/04/14/a-escrivinhadora/" target="_blank"&gt;aqui&lt;/a&gt; e &lt;a href="http://cafeescuro.wordpress.com/2010/04/14/aquele-outro/" target="_blank"&gt;aqui&lt;/a&gt; - nessa terceira parte, eu solto minha língua comprida diante das perguntas dele sobre Tinhorão. E, depois da publicação da minha entrevista pelo iG, o Jaime ainda fez mais &lt;a href="http://cafeescuro.wordpress.com/2010/05/06/va-agora-ainda-da-tempo/" target="_blank"&gt;esta&lt;/a&gt;, extremamente generosa - e que baita jogo de espelhos isso tudo, hein?)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas... O Tinhorão estaria então fora do Tinhorão?...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-weight:bold;"&gt;José Ramos Tinhorão -&lt;/span&gt; Foi você que me entrevistou uma vez, anos atrás, para a &lt;br /&gt;&lt;span style="font-style:italic;"&gt;Folha de São Paulo&lt;/span&gt;, aquela célebre entrevista em que eu falava da morte da canção, não foi?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-weight:bold;"&gt;Pedro Alexandre Sanches -&lt;/span&gt; Pois é (&lt;span style="font-style:italic;"&gt;Tinhorão havia dito a frase de que “a canção acabou” em entrevista ao caderno Mais! de 29 de agosto de 2004, disponível &lt;a href="http://www1.folha.uol.com.br/fsp/mais/fs2908200404.htm" target="_blank"&gt;aqui&lt;/a&gt;&lt;/span&gt;). Teve uma antes também. Fui uma vez na sua casa na Maria Antônia, e essa que você está falando foi na Barão de Limeira.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-weight:bold;"&gt;JRT - &lt;/span&gt;E agora tá todo mundo... Tem os &lt;span style="font-style:italic;"&gt;profiteurs&lt;/span&gt; da canção, Luiz Tatit (&lt;span style="font-style:italic;"&gt;o compositor lançou uma música chamada Quando a Canção Acabar no disco recém-lançado Sem Destino&lt;/span&gt;)... Hoje mesmo eu estava falando com a minha mulher, ela estava cantando &lt;span style="font-style:italic;"&gt;Nel Blu Dipinto di Blu&lt;/span&gt;, do Domenico Modugno, eu disse “isso deve ser década de 70”, ela falou “não, é fins de 60”. Você vê, a tal canção italiana, que era a chamada canção napolitana, depois veio uma mais internacionalizante, que é essa do período dos festivais da canção italiana, que revelaram Modugno... acabou tudo, rapaz! Não tem. No ano passado eu estava em Lisboa e estava aquele negócio de festival internacional europeu. Por exemplo, a mulher cantando na Grécia, cortava, dava para outro número em outro país, rapaz, era tudo igual! Tudo igual! Eu fiquei olhando aquilo e vi o seguinte: a chamada criação não interessa mais, porque a indústria cultural é feita para vender produtos. E a canção o que é? Um som. Mas a indústria não vende um som, ela vende a base em que o som se assenta, seja fita, disco, hoje em dia pela moderna tecnologia você tem imagem no seu telefone, em todo lugar. Isso é gerado por alguma coisa... O que vende não é a coisinha do telefone que toca (&lt;span style="font-style:italic;"&gt;cantarola Pour Elise, de Beethoven&lt;/span&gt;), não. O que vende é o telefone.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-weight:bold;"&gt;PAS - &lt;/span&gt;Acho que eu nem ia lhe perguntar isso, mas já que você tocou no assunto: como encarou a controvérsia sobre a morte da canção por causa daquela entrevista?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-weight:bold;"&gt;JRT -&lt;/span&gt; É normal, rapaz, porque as pessoas tentam se agarrar àquilo que pertencem, ao seu tempo. E a minha visão é de historiador. Como sou um cara que vejo a história do ponto de vista do materialismo histórico dialético, eu vejo a história como um processo que se desenvolve no tempo, com todas as suas contradições internas. Ora, o que a gente vê é que no processo histórico a história está sempre mudando. E, claro, no que ela muda, ela tem uma parte da coisa vivida, uma parte do que está acontecendo naquele momento e, para o futuro, apenas uma perspectiva. São o hoje e o antes projetados num futuro que você não conhece.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-weight:bold;"&gt;PAS -&lt;/span&gt; Na época o Chico Buarque se apropriou dessa ideia sem citar seu nome, ou então foi o jornalista que o entrevistou (&lt;span style="font-style:italic;"&gt;Fernando de Barros e Silva&lt;/span&gt;) que não citou.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-weight:bold;"&gt;JRT - &lt;/span&gt;É aquilo que eu falo, o Tinhorão só é citado &lt;span style="font-style:italic;"&gt;apud&lt;/span&gt;. Sabe o que é &lt;span style="font-style:italic;"&gt;apud&lt;/span&gt;? É quando você cita um cara que citou alguém. Por que eu só sou citado &lt;span style="font-style:italic;"&gt;apud&lt;/span&gt;? Porque certos documentos em que eu me baseio, se os caras forem sacar e falar, vão dizer assim: “Bem, mas cadê esse documento?”. “Não, não tem, isso aí foi o Tinhorão que falou, citou e deu a página.” Então, para eles não serem apanhados de saia justa, citam o que eu citei e eles não podem deixar de lembrar, porque senão eles não têm como comprovar. O resto, não, o que o Tinhorão diz não tem importância, rapaz.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-weight:bold;"&gt;PAS - &lt;/span&gt;Mas o Chico Buarque parecia concordar com você, embora não citasse seu nome.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-weight:bold;"&gt;JRT - &lt;/span&gt;Claro, ele nunca ia dizer “eu li isso na &lt;span style="font-style:italic;"&gt;Folha&lt;/span&gt;, o Tinhorão tem razão, numa entrevista para fulano de tal ele disse isso”. Nunca que ele vai dizer isso.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-weight:bold;"&gt;PAS - &lt;/span&gt;Também não tenho muita certeza se ele concordou mesmo com você. Qual foi sua impressão?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-weight:bold;"&gt;JRT - &lt;/span&gt;É, falou da morte da canção, e tal... Na verdade, não é que a canção acabou. Nada acaba inteiramente, rapaz. Quando o cinema apareceu, no fim do século XIX, disseram que ele ia acabar com o teatro. Não acabou com o teatro. Aí o cinema era mudo, de repente apareceu o cinema sonoro, disseram que ia acabar com o rádio. Nada acaba. O que acontece é que cada momento histórico tem a sua mídia. A mídia do momento hoje é a internacionalização, a globalização de um ritmo da década de 50 nos Estados Unidos, que é o rock. Então, qualquer lugar que você vá aqui no Brasil, na Argentina, no Chile, na Europa, Espanha, França, no mundo ocidental, onde você ligar são os mesmos caras, rapaz. São as mesmas bandas de rock que tocam no mundo todo. Então a verdade do século XXI em termos de música de massa é o rock e seus derivados, com uma vertente mais ou menos autônoma que é o rap, né? Pronto, isso quer dizer que as outras formas desapareceram? Não. Mas elas vivem em nichos. Se você gosta de ópera, haverá uma vez no ano em que vem uma companhia de ópera ao Teatro Municipal, você vai lá, vai ver uma ária famosa da ópera tal cantada por um cara grande que estiver em moda na época, como esteve o Pavarotti. Morreu a ária de ópera, que é uma forma de canção? Morreu? Não. Mas liga o rádio para ver se você ouve. O que é que você ouve quando liga o rádio? Ouve o que está estabelecido para ser ouvido naquele momento pela indústria cultural. Nesse sentido, já houve um tempo em que você ligava uma rádio e tinha programa de tango, de tango. Ora, é sinal de que havia na época dentro da mídia um espaço para o tango argentino. Como a colônia de portugueses era muito grande no Brasil, tinha programa de fado, rapaz! Eu, quando era garoto, ouvi programa de fado no Rio de Janeiro! Tinha patrocinador, aqueles portugueses donos de padaria. Você ligava na rádio tal no horário tal, tinha fado. Hoje você não ouve fado nem em Portugal, rapaz.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-weight:bold;"&gt;PAS - &lt;/span&gt;Mas essa morte virou um produto industrial também, porque é tão em voga, “a morte da canção”, “a morte do CD”, “a morte dos jornais”, “a morte da indústria fonográfica”...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-weight:bold;"&gt;JRT - &lt;/span&gt;Pois é, e hoje, por exemplo, você tem matéria falando que já tem uns caras querendo reviver o disco de vinil, porque o DJ não deixou morrer o disco, pelo interesse de fazer aquele negócio quando ele mexe para fazer sons pro negócio do baile. Mas não vai voltar, rapaz. É assim, num momento há um revival. Houve o revival do jazz nos Estados Unidos na década de 40, foram buscar para gravar uns velhinhos que andavam pelos Estados Unidos, que não tinham voltado a ser engraxates. Significou apenas um momento de revival, mas o próprio nome está dizendo, se é revival é reviver uma coisa que já viveu. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-weight:bold;"&gt;PAS - &lt;/span&gt;Me pergunto se a esta altura o próprio rock já não morreu e está lá estagnado, fazendo sempre a mesma coisa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-weight:bold;"&gt;JRT - &lt;/span&gt;Sim, exatamente. Alguma coisa deve vir por aí, a realidade mostra que não existe uma coisa permanente para todo o sempre. Então claro que vem coisa por aí, a gente não sabe o quê.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-weight:bold;"&gt;PAS - &lt;/span&gt;Vou voltar à pergunta com que eu ia começar a entrevista...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-weight:bold;"&gt;JRT - &lt;/span&gt;Claro, desculpa se eu me intrometi.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-weight:bold;"&gt;PAS - &lt;/span&gt;Imagina, foi ótimo. Eu queria perguntar sobre o livro biográfico (&lt;span style="font-style:italic;"&gt;Tinhorão – O Legendário, de Elizabeth Lorenzotti, editado pela Imprensa Oficial de São Paulo&lt;/span&gt;), como você se sente virando objeto de uma biografia?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-weight:bold;"&gt;JRT - &lt;/span&gt;Eu me sinto objeto (&lt;span style="font-style:italic;"&gt;ri&lt;/span&gt;). Você usou a palavra certa. Agora mesmo a menina vai me pegar (&lt;span style="font-style:italic;"&gt;é dia do lançamento em São Paulo&lt;/span&gt;), o que é que eu vou fazer lá com ela vendendo o livro? A dona do livro é ela, eu sou o objeto em torno do qual gira a história de que ela é autora.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-weight:bold;"&gt;PAS - &lt;/span&gt;Se você vai lá junto é sinal de que aprovou o resultado...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-weight:bold;"&gt;JRT - &lt;/span&gt;Sim, senão haveria aquele negócio do cara que faz uma biografia e o biografado fica bravo. Hoje em dia, com o modelo americano de advogado tomar dinheiro das famílias, a biografia tem que ser autorizada. No meu caso nem foi preciso, “vou fazer, tudo bem?”, “tudo, como eu devo fazer?”, “eu entrevisto você todo sábado durante uma hora”, “tudo bem”.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-weight:bold;"&gt;PAS - &lt;/span&gt;Mas é bom se sentir objeto, ser exposto dessa maneira?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-weight:bold;"&gt;JRT - &lt;/span&gt;Olha, como ela fez direitinho o que eu falei, tudo bem. É a mesma coisa, junto com a minha sai a do Paulo Francis, que está morto, tudo bem. Vai falar o quê? Vai falar coisas que o Paulo Francis fez na imprensa, como ele era, qual era a repercussão que ele tinha, se era controvertido. É a mesma coisa eu. Como eu vivi o suficiente para ser objeto de curiosidade de alguém, pronto. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-weight:bold;"&gt;PAS - &lt;/span&gt;Digo exposição porque, por exemplo, tem umas fotos muito doces, você criança, muito contrastantes com a imagem de crítico que você adquiriu depois...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-weight:bold;"&gt;JRT - &lt;/span&gt;Pois é, se isso pretendia ser uma biografia, se subentende que vai contar a história do cara desde quando era pequenininho, que estudou na escola tal, foi aluno de colégio de freira, “tem uma foto de quando você era de colégio de freira?”,  “tem”, publica a foto. Agora, para mim, eu acho que, quando o personagem é um cara que escreve livros, o personagem só tem importância para essas coisas de atender à curiosidade. Porque, na verdade ele não tem interesse nenhum. O interesse é quem ele produz. O Tinhorão está nos livros, não está no Tinhorão.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-weight:bold;"&gt;PAS - &lt;/span&gt;Mas parece que o livro está sendo bem aceito, o que indica que existe uma curiosidade pelo Tinhorão que está dentro do Tinhorão.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-weight:bold;"&gt;JRT - &lt;/span&gt;Existe, mas pela velha razão que você como jornalista conhece muito bem: “Entrevista aí o Tinhorão, que ele esculhamba todo mundo e isso ajuda a vender”. Nunca houve um cara que dissesse assim: “Tinhorão, eu vou ler os seus livros e vou te entrevistar para dizer ‘em tal livro você diz isso assim, assim, isso me parece original’”. Nunca ninguém falou isso, rapaz! &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-weight:bold;"&gt;PAS - &lt;/span&gt;Então espera aí, deixa eu tentar fazer isso um pouco, na medida que eu consiga. Aí tem o outro livro (&lt;span style="font-style:italic;"&gt;Crítica Cheia de Graça, editado pelo Empório do Livro, com uma seleção de críticas, ensaios e entrevistas publicadas por Tinhorão na imprensa nas décadas de 60, 70 e 80&lt;/span&gt;)...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-weight:bold;"&gt;JRT - &lt;/span&gt;(&lt;span style="font-style:italic;"&gt;Ele interrompe.&lt;/span&gt;) Mas não tem só esse, também tem o da editora 34, &lt;span style="font-style:italic;"&gt;A Música Popular Que Surge na Era da Revolução&lt;/span&gt; (&lt;span style="font-style:italic;"&gt;livro inédito, lançado pelo Tinhorão de hoje, aos 82 anos&lt;/span&gt;). Nesse livro, por exemplo, há uma parte em que examino o século XVIII francês e digo que foi marcado pela influência da música militar, e portanto não poderia ter herdado uma música popular no sentido de produto para ser gostado por pessoas que cantam e tocam e ouvem alguém tocar um instrumento, conversas românticas, não existia. Aí venho para Portugal. Há dois gêneros que aparecem em Portugal, mas não são portugueses: a modinha e o lundu, que foram levados por um mulato brasileiro chamado Domingos Caldas Barbosa (&lt;span style="font-style:italic;"&gt;tema de seu livro O Poeta da Viola, da Modinha e do Lundu, publicado pela Editorial Caminho de Lisboa em 2004&lt;/span&gt;).&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-weight:bold;"&gt;PAS - &lt;/span&gt;São dois ritmos brasileiros na origem, segundo você.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-weight:bold;"&gt;JRT - &lt;/span&gt;Isso, e eu faço uma coisa absolutamente original nesse livro. Os principais países da Europa eram França e Inglaterra, naturalmente, e Alemanha. Então por que é que logo dois gêneros de uma colônia de um país europeu, Portugal, que era um dos países não mais importantes da Europa, vão surgir dois gêneros que vão persistir no tempo e chegarão a ser gravados depois na colônia do Brasil, de onde eles foram para lá, no século XX? Veja que o primeiro disco gravado na Casa Edison foi &lt;span style="font-style:italic;"&gt;Isto É Bom&lt;/span&gt;, que é um lundu. Ora, o mesmo lundu que foi lançado no século XVIII em Portugal por um mulato brasileiro chamado Domingos Caldas Barbosa. Eu te pergunto: por que se deu esse fato?, o que explica esse fato? Aí o Tinhorão, na segunda parte do seu livro que está aí na sua mão, explica: Portugal tinha se fechado para a Europa, com medo da Revolução Francesa, que estava pondo abaixo as cabeças coroadas e trazia a república, transformava o cara em cidadão, e isso acabava com os privilégios da nobreza. Como Portugal tinha um regime absolutista que preservava exatamente as garantias que eram conferidas à nobreza, ele tinha horror às chamadas ideias sediciosas, ou seja, revolucionárias. Então Portugal se fecha para a Europa. Mas como um país não pode viver culturalmente fechado, ele tinha que se abrir para algum lugar. Se se fechava para a Europa, se abria para a sua colônia americana. E por que se abria para a sua colônia americana? Porque era da sua colônia americana no século XVII que estava chegando o ouro das Minas Gerais que salvava aquele país das suas dificuldades econômicas. Essa relação nunca ninguém fez, e está aí.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-weight:bold;"&gt;PAS - &lt;/span&gt;Você está dizendo que a música brasileira, num longo espaço de tempo, nasceu de ideias contrarrevolucionárias, conservadoras?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-weight:bold;"&gt;JRT - &lt;/span&gt;Não, aí você está tirando uma conclusão. Não nasceu de ideias contrarrevolucioárias, mas sim surgiu num período explicável pelo fato de Portugal ter se fechado para a Europa, que vivia um momento revolucionário, e acabou se tornando acessível a formas que chegavam da sua colônia distante da América. Não há essa correlação que você estabeleceu, modinha e lundu não têm nada que ver com o que Portugal pensava na época. Mas teve que ver por que é que chegou lá. Vamos supor que a França estivesse tão bem com Portugal que estivesse exportando para Portugal um monte de gêneros de música. Nunca que modinha e lundu iam poder chegar, porque o espaço da cultura portuguesa estaria ocupado pela música dos mais desenvolvidos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-weight:bold;"&gt;PAS - &lt;/span&gt;E aí a história da música brasileira seria completamente outra também?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-weight:bold;"&gt;JRT - &lt;/span&gt;Também, porque talvez tivesse começado mais cedo a dominação do mercado musical pelos gêneros vindos de fora. Os gêneros vindos de fora sempre foram muito fortes no Brasil? Foram. No século XIX, com o aparecimento do teatro musicado, vieram para o Brasil a valsa, o schottische, a polca, a mazurca. Mas elas conviveram com os gêneros nacionais. O modinheiro, o mulato que ia cantar uma modinha debaixo da janela da namorada, não cantava nenhum gênero europeu. Ele cantava uma modinha. Quando apareceu o disco, no início do século XX, você pega os discos da Casa Edison – estão lá para você ouvir no Acervo Tinhorão (n&lt;span style="font-style:italic;"&gt;o Instituto Moreira Salles&lt;/span&gt;) –, tem valsa, schottische, quadrilha, mazurca... Mas tem também a modinha, o lundu, gêneros aqui do mundo rural que eventualmente eram lançados em disco. Porque a indústria cultural ainda não existia como uma indústria impositiva. Ela produzia difusamente gêneros que coexistiam no mercado. Esse é que é o grande problema. Quando a indústria cultural ganha, do ponto de vista capitalista, um peso em termos de dólares, um peso econômico tão grande, ela exclui o mais. Por que, como estávamos falando, quando você liga a televisão e o rádio em qualquer parte do mundo ocidental hoje está tocando rock? Porque a evolução da tecnologia ligada ao processo capitalista da produção de sons se tornou tão forte que escolhe um produto para globalizar. Por que ela globaliza um gênero só? Porque é mais econômico. Você já pensou se uma multinacional ficasse tocando na Argentina os vários gêneros argentinos, no Chile os vários gêneros chilenos, no Brasil os vários gêneros brasileiros? Não haveria rendimento, do ponto de vista capitalista. Mas se ela criar uma média de som que serve, que ela impõe para todo o mundo e depois não precisa mais impor porque todo mundo aceita, ótimo. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-weight:bold;"&gt;PAS - &lt;/span&gt;No Brasil, então, a imposição vai se dar na época da bossa nova e nos anos 60?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-weight:bold;"&gt;JRT - &lt;/span&gt;Antes da bossa nova, porque antes você já tinha o bolerão. Depois você tem o iê-iê-iê do Roberto Carlos, não é?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-weight:bold;"&gt;PAS - &lt;/span&gt;E aí não para nunca mais.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-weight:bold;"&gt;JRT - &lt;/span&gt;Não para nunca mais. O que para é a existência no mercado de alguma coisa que não seja aquilo ditado pela indústria cultural.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-weight:bold;"&gt;PAS - &lt;/span&gt;Então, mas antes eu ia perguntar sobre o livro das críticas reunidas (&lt;span style="font-style:italic;"&gt;ele começa a interromper&lt;/span&gt;), deixa só eu orientar uma pergunta específica que eu queria fazer: queria que você falasse um pouco sobre a origem do que você escreveu quando escrevia na imprensa, sobre sua metodologia a partir da luta de classes, do marxismo, do materialismo dialético.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-weight:bold;"&gt;JRT - &lt;/span&gt;Pois é, quando você lê um artigo do Tinhorão na década de 70 no &lt;span style="font-style:italic;"&gt;Jornal do Brasil&lt;/span&gt;, o que você nota? O disco que saía era um pretexto para uma análise que não era apenas crítica, ele canta bem, não canta bem, fulano é melhor, gostei, não gostei, este é bom, este é não. Não era. Eu pegava o fenômeno e procurava interpretar do ponto de vista histórico e sociológico. Por exemplo, “ah, o Tinhorão não gosta de nada que é novo”, não é que eu não gosto do que é novo. É que o que é que é novo? Num país subdesenvolvido, não há o novo. O novo é do país desenvolvido, rapaz. Eu te pergunto: existe automóvel brasileiro? Não. Existe automóvel ou da Fiat, italiana, ou da Wolksvagen, alemão, ou da Ford e Chevrolet, americanos. Não existe, não existe. Aqui se montam automóveis. Existe avião brasileiro? Não, a Embraer faz a casca.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-weight:bold;"&gt;PAS - &lt;/span&gt;Ciro Gomes outro dia na televisão estava dizendo o mesmo que você, que tudo isso que você fala existe na China e foi criado nos últimos 20 anos, e no Brasil ainda não.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-weight:bold;"&gt;JRT - &lt;/span&gt;Através do desenvolvimento de tecnologia. O Japão fez isso depois da Segunda Guerra, imitando. Evidentemente que imitava até o desenho industrial dos artigos. Quer dizer, não há um desenho de aparelho japonês de televisão que não pareça americano. Mas usou isso como boa política, eu não vou tentar fazer uma cara de televisão em estilo oriental, se quero vender no Ocidente faço com cara de Ocidente. Mas o miolo dela é japonês, ele detém os royalties do que ele faz. O Brasil paga royalties pelo que faz. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-weight:bold;"&gt;PAS - &lt;/span&gt;Tanto que quase toda a música brasileira é de propriedade das gravadoras multinacionais.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-weight:bold;"&gt;JRT - &lt;/span&gt;É claro, rapaz, como você quer ter uma música brasileira num país em que nada que se produz culturalmente é brasileiro?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-weight:bold;"&gt;PAS - &lt;/span&gt;Voltando àquele ponto, qual é a importância da questão luta de classes no que você escrevia?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-weight:bold;"&gt;JRT - &lt;/span&gt;O conceito de luta de classes fica muito restrito, você restringe muito a um período, de partido comunista, luta de classes... Existe é uma coisa, isto sim é materialismo histórico e eu sustento: o mundo ocidental é um mundo que vive sob o modo de produção capitalista. Não é verdade? No modo de produção capitalista, o que se chama de cultura com “C” maiúsculo é a soma das culturas com “c” minúsculo. Essa cultura com “c” minúsculo é uma cultura de classes. Toda cultura com “C” maiúsculo é uma cultura de classes. Vou te dar um exemplo. Os caras simplificam as coisas porque interessa ao sistema e dizem assim: “Vamos discutir o problema da mulher”. Não há um problema da mulher. Porque a mulher é apenas um ser, um ser do gênero feminino. Mas de que mulher você está falando? Te dou um exemplo. O problema da mulher pobre é saber como vai almoçar. O problema da mulher rica é saber como vai ter um orgasmo. Então, quando você fala do problema da mulher, você está falando de quem? Daquela cujo problema é ter um orgasmo ou daquela cujo problema é saber como vai almoçar?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-weight:bold;"&gt;PAS - &lt;/span&gt;Da segunda.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-weight:bold;"&gt;JRT - &lt;/span&gt;Ahá, então pronto. Não existe o problema. Existem os problemas da mulher, que dependem de que mulher você está falando. Essa mulher pertence a que classe? Essa vai ter os seus problemas conforme a sua posição dentro da sua classe. Não há problema do jovem. Quando houve aquele negócio em 68 na França, o “poder jovem”... Não há poder jovem. Todos aqueles jovens envelheceram. O que eu denunciei na época? Você estava substituindo o problema de geração por problema de classe. Não eram os nossos pais, o problema não são os nossos pais. O problema é o seguinte: o jovem envelhece, de que jovem você está falando? O jovem universitário que ia para a rua dizer “é proibido proibir”, ou o jovem sem emprego, sem educação, sem escola? Aaaah... É por isso que o Tinhorão não foi assimilado. E é mais fácil esculhambar do que procurar entender na verdade o que ele está dizendo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-weight:bold;"&gt;PAS - &lt;/span&gt;Eu perguntei isso pela hipótese de que, sim, foi o fato de você defender esses pontos de vista que foi o afastando do dia-a-dia dessa profissão, que não queria discutir luta de classes de modo algum.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-weight:bold;"&gt;JRT - &lt;/span&gt;É, por quê? Eu, quando assumo a posição, a soma dos meus escritos ganha o status de coisa a ser discutida. Mas no Brasil se convencionou que problema que envolva história, ciência social, cultura, só pode ser discutido dentro da universidade, e eu não pertenço à universidade. Então como em meus livros todos que você conhece você vai lá no pé de página e está citada direitinho a fonte, os caras pegam os meus livros e não podem dizer: “Não, isso é besteira, ele falou besteira”. Como eu dou a fonte, o cara, para dizer que não tem razão o que eu estou dizendo, tem que dizer de outra maneira, baseado em outras citações que não as minhas, citações que digam o contrário do que eu estava afirmando. Como não conseguem isso, preferem me ignorar, o que me levou a dizer uma vez: a academia lê Tinhorão e arrota Mário de Andrade.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-weight:bold;"&gt;PAS - &lt;/span&gt;E há um fenômeno equivalente a esse na imprensa, nos artigos de 1981, quando você saiu do Jornal do Brasil, você estava falando sobre cantadores nordestinos, duplas caipiras, coisas que imagino que não interessavam à imprensa da época, talvez nem hoje.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-weight:bold;"&gt;JRT - &lt;/span&gt;Claro, quando eles tinham o Tárik de Souza falando de Rita Lee, por que ia ter o Tinhorão falando de Zé Coco do Riachão? Então, qual foi o motivo que me deram quando acabaram com a coluna? Mandaram a informação, “Tinhorão, a tua coluna vai acabar”, “qual o motivo?”, “motivos econômicos”.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-weight:bold;"&gt;PAS - &lt;/span&gt;E eram mesmo, não?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-weight:bold;"&gt;JRT - &lt;/span&gt;(&lt;span style="font-style:italic;"&gt;Ele gargalha.&lt;/span&gt;) Quer dizer, não vende. Ou melhor, até vendia, porque eu vejo agora, pelo lançamento dos meus livros, aparece cara querendo autógrafo em livro editado pela Vozes em 1972. Mas só que não era, o jornal não foi feito para vender boas ideias de minorias. Ele foi para vender qualquer coisa das maiorias.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-weight:bold;"&gt;PAS - &lt;/span&gt;Mas, Tinhorão, não tinha uma contradição em você também? Você falava dos cantadores, mas quando as multinacionais lançavam discos deles.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-weight:bold;"&gt;JRT - &lt;/span&gt;Porque eu era pago para escrever sobre o que saía em disco. Se eu fosse falar do cantador não gravado em disco, eu não estaria escrevendo a seção de discos do &lt;span style="font-style:italic;"&gt; Jornal do Brasil&lt;/span&gt;, eu seria um folclorista.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-weight:bold;"&gt;PAS - &lt;/span&gt;Mas era uma contradição que você tinha que vivenciar...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-weight:bold;"&gt;JRT - &lt;/span&gt;Não era uma contradição, não, porque eu partia do fato da indústria. O disco é um produto da indústria cultural. Me pagavam para escrever sobre o disco, portanto eu colocava em discussão tudo que aparecia em termos de cultura envolvendo música na esfera da indústria cultural. Eu não fui fazer pesquisa de cantador na Paraíba, isso quem fazia eram os folcloristas da época, Câmara Cascudo, Edson Carneiro, não eu.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-weight:bold;"&gt;PAS - &lt;/span&gt;Mas você ficou num meio termo entre as duas coisas...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-weight:bold;"&gt;JRT - &lt;/span&gt;Aí de repente o Zé Coco do Riachão aparecia sendo gravado pela multinacional, aí pronto. Se a indústria ia buscar no campo da criação rural um artista para transformá-lo, para vendê-lo na cidade em forma de disco, aí eu ia analisar, aí é que entrava o Tinhorão com a sua formação. Eu ia analisar isso do ponto de vista dessa realidade. Olha aí, a indústria acaba de gastar dinheiro para produzir um disco de um cara que normalmente lá na terra dele só é conhecido na cidadezinha dele. Isso é um fenômeno cultural ligado à indústria cultural, então eu examinava esse fenômeno, e então aí, sim, cabia a mim dizer: foi interessante a gravadora descobrir o Zé Coco do Riachão?, por que é importante? Aí eu ouvia esse cara do ponto de vista histórico. Me lembro bem que disse que ele era uma surpresa porque de repente você revelava um artista que parecia saído do século XVI, da Renascença. Zé Coco do Riachão cantava, compunha, dançava a música que fazia e principalmente, rapaz, ele era luthier. Ele fazia com as mãos dele a viola em que ele cantava, tocava o que compunha ao som do que ele dançava. No momento em que eu ligava essa figura a uma figura só comparável a um artista da classe média, eu estava dando no &lt;span style="font-style:italic;"&gt;Jornal do Brasil&lt;/span&gt; uma dimensão cultural àquele artista que a própria gravadora não tinha dado. Eu tinha um background cultural que me permitia apreciar o fenômeno de um ponto de vista tal.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-weight:bold;"&gt;PAS - &lt;/span&gt;Não ficava como se esse fosse um dado da realidade que você aceitava, que era um pedacinho muito pequeno da indústria cultural, e a imagem geral era que você rejeitava todo o resto? Mas não deixava de ser um pedacinho da indústria cultural também.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-weight:bold;"&gt;JRT - &lt;/span&gt;Mas sim, claro, eu só conheci o Zé Coco do Riachão porque a gravadora produziu um disco do Zé Coco do Riachão, porque eu não era pesquisador de folclore. Você só sabe que o teu país é sujeito a terremoto ou não depois que vem o terremoto. Não é?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-weight:bold;"&gt;PAS - &lt;/span&gt;O que fico sentindo ao ler suas críticas tantos anos depois é que consigo concordar com muitos argumentos seus, com as bases do que afirma sobre a bossa nova ou sobre a música como produto de mercado. Mas não concordo que eu precise rejeitar toda a música que se faz por conta dessas restrições – até porque eu não conseguiria.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-weight:bold;"&gt;JRT - &lt;/span&gt;Mas eu não rejeito! Eu não rejeito, rapaz, eu não rejeito. Aquilo que eu falava eu dava uma explicação para dizer. A minha implicância com a bossa nova, por exemplo, era por quê? Porque a bossa nova é música americana montada no Brasil. Eu sempre sustentei, você pode ver meus primeiros textos. A única coisa original do que se chama de bossa nova é a batida de violão do João Gilberto. Não é nem o que ele canta, é a ba-ti-da. Se você comparar o que existe gravado até o aparecimento de João Gilberto, ouça o som dos violões, como era tocado o violão? Aí de repente aparece a batida do João Gilberto. Use o seu ouvido, não precisa saber música. Tinha alguma coisa antes tocada desse jeito? Não. Ora, se não tinha o cara inventou. Se inventou, para mim, o cara criou uma coisa. Agora, o que se montou em cima do que se convencionou chamar de bossa nova? Se montou harmonia e até melodia de música americana, rapaz! Se você quiser um exemplo, vá ao seu computador quando você largar o telefone e procure no YouTube a Judy Garland cantando &lt;span style="font-style:italic;"&gt;Mr. Monotony&lt;/span&gt;, anota aí.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-weight:bold;"&gt;PAS - &lt;/span&gt;Antes de ouvir o que você vai falar: você gosta dela cantando?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-weight:bold;"&gt;JRT - &lt;/span&gt;Mas o problema não é...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-weight:bold;"&gt;PAS - &lt;/span&gt;Você indivíduo, não o crítico.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-weight:bold;"&gt;JRT - &lt;/span&gt;Não, o universo da coisa musical é tão grande que gostar ou não gostar é bobagem. Essa pergunta remonta ao seguinte: na sua opinião quais são as dez músicas mais importantes? Não há dez músicas mais importantes, não há gostar. Para eu dizer se gosto ou não da Judy Garland, eu teria 10 mil cantoras na mesma época e teria de te dizer minha opinião sobre as 10 mil, e eu não tenho essa opinião.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-weight:bold;"&gt;PAS - &lt;/span&gt;Então desculpe, eu interrompi, você ia falar algo sobre a gravação da Judy Garland.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-weight:bold;"&gt;JRT - &lt;/span&gt;Muito bem. Eu te disse que bossa nova é música americana montada no Brasil, não falei? Pois bem, eu não vou dizer o que é. &lt;span style="font-style:italic;"&gt;Surprise&lt;/span&gt;. Ligue a internet, procure no YouTube Judy Garland cantando &lt;a href="http://www.youtube.com/watch?v=rZ59J7EDdxs" target="_blank"&gt;&lt;span style="font-style:italic;"&gt;Mr. Monotony&lt;/span&gt;&lt;/a&gt;, de 1942. Quando você ouvir você vai dizer: “Opa! Mas isso aqui é do fulano de tal!”. É de um grande compositor de bossa nova brasileiro, gravado em 1942 nos Estados Unidos pela Judy Garland. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-weight:bold;"&gt;PAS - &lt;/span&gt;Quando esse compositor nem era atuante ainda...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-weight:bold;"&gt;JRT - &lt;/span&gt;Era criança. Você quer uma outra? Já que você está na internet, pegue a &lt;span style="font-style:italic;"&gt;Overture&lt;/span&gt; da &lt;span style="font-style:italic;"&gt;Ópera dos Três Vinténs&lt;/span&gt;, de Kurt Weill. Os versos são de Bertolt Brecht, mas não interessa, é só a &lt;span style="font-style:italic;"&gt;Overture&lt;/span&gt;, que não tem letra, evidentemente, é uma abertura musical. &lt;a href="http://www.youtube.com/watch?v=qJhVUHEGJuQ" target="_blank"&gt;A abertura musical da &lt;span style="font-style:italic;"&gt;Ópera dos Três Vinténs&lt;/span&gt;, do Kurt Weill&lt;/a&gt;, de 1928, ligue que você vai reconhecer um tema de um grande compositor de bossa nova brasileiro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-weight:bold;"&gt;PAS - &lt;/span&gt;É o mesmo daquele outro?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-weight:bold;"&gt;JRT - &lt;/span&gt;É o mesmo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-weight:bold;"&gt;PAS - &lt;/span&gt;Então, mas não haveria um meio termo? A gente sabe dessas coisas, está consciente delas, mas pode conviver com a bossa nova mesmo assim.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-weight:bold;"&gt;JRT - &lt;/span&gt;Mas é claro que pode! Você não vai matar a bossa nova, você tem que conviver.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-weight:bold;"&gt;PAS - &lt;/span&gt;Você ficou marcado como o cara que queria matar, que não aceitava nada disso.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-weight:bold;"&gt;JRT - &lt;/span&gt;Mas eu não queria matar nada. Eu nunca disse “isto tem que acabar”. Eu quereria matar se alguma vez tivesse escrito “isto não se admite”. Eu duvido que você veja alguma vez eu falando coisas nesses termos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-weight:bold;"&gt;PAS - &lt;/span&gt;Sim, mas é que foi interpretado como se fosse.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-weight:bold;"&gt;JRT - &lt;/span&gt;Aaah, mas cada um interpreta como quer!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-weight:bold;"&gt;PAS - &lt;/span&gt;Talvez interpretassem assim por que também não gostavam daquela sua metodologia de marxismo, luta de classes...?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-weight:bold;"&gt;JRT - &lt;/span&gt;Cada um interpreta como quer. Agora, a minha interpretação levava uma vantagem desses que não gostam. Os que não gostam só dizem que não gostam. Eu defendo a minha interpretação, não estou te dando exemplos aqui? “Não, Tinhorão, você diz que era música americana montada no Brasil, mas eu não vejo isso, acho até muito brasileiro aquilo dele.” Ah, é? Vai lá e ouve. E eu te deixo de surpresa, não vou dizer porque você mesmo ouvindo vai saber.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-weight:bold;"&gt;PAS - &lt;/span&gt;Já desconfio de quem seja...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-weight:bold;"&gt;JRT - &lt;/span&gt;Não vai desconfiar, você vai comprovar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-weight:bold;"&gt;PAS - &lt;/span&gt;Mas e aí, hoje, século XXI. Você trata isso como plágio, e o sampler é uma linguagem corrente...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-weight:bold;"&gt;JRT - &lt;/span&gt;Não, não, não. Não diga que eu chamei de plágio. Legalmente, nunca ninguém definiu o que é plágio. É uma anterioridade que demonstra o quê? Que aquelas pessoas que são consideradas os grandes da bossa nova eram ouvintes muito atentos de música americana. Quando eles começam a produzir uma coisa chamada de bossa nova, nela se revela o quê? A atenção que essas pessoas tinham por um tipo de música importada dos Estados Unidos, que às vezes não era nem americana, porque o Kurt Weill era alemão. Não é verdade?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-weight:bold;"&gt;PAS - &lt;/span&gt;Mas esse tempo em que você escrevia isso se preocupava muito com fronteiras. Isso não mudou?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-weight:bold;"&gt;JRT - &lt;/span&gt;Não, esse negócio de coisa, rapaz, ih, já vi que a tua cabeça... Você é um homem do sistema que fizeram coisa...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-weight:bold;"&gt;PAS - &lt;/span&gt;É, isso eu ia te explicar, eu sou um cara que vive dentro da indústria cultural, não tenho como negar isso.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-weight:bold;"&gt;JRT - &lt;/span&gt;Não tem esse negócio de fronteira, rapaz. Olha, foi bom você me falar isso. Não existe globalização nesse sentido em que você aceita, rapaz. A única globalização é porque hoje a tecnologia, a transmissão é instantânea, o mundo está globalizado (&lt;span style="font-style:italic;"&gt;arremeda&lt;/span&gt;). Não está globalizado. Os Estados Unidos não são um país globalizado. Os Estados Unidos são os Estados Unidos. Se você for aos Estados Unidos, você vai ouvir o rock deles, vai ver os filmes deles, com a violência deles, compreendeu? Por quê? Os enlatados americanos não são enlatados brasileiros. Mas os enlatados brasileiros não enlatados americanos. Logo, o que se chama de globalização é a força do poder capitalista americano que coloca no mundo todo os seus produtos. E como tem força para colocar os seus produtos no mundo todo, você diz que o mundo está globalizado. Mas o mundo não está globalizado, o mundo está comprando produtos culturais como compra geladeira, automóvel, avião.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-weight:bold;"&gt;PAS - &lt;/span&gt;Concordo com você, mas qual é a solução? Fechar as fronteiras do Brasil para os Estados Unidos?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-weight:bold;"&gt;JRT - &lt;/span&gt;Mas eu não discuto soluções! Essa é outra coisa, rapaz. Não vou dizer que é o teu caso, mas na argumentação contra o Tinhorão chega a ser desonesto, porque aí você começa a pedir a ele coisas que ele não diz.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-weight:bold;"&gt;PAS - &lt;/span&gt;Você me percebe como alguém que não é contra o Tinhorão, eu espero.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-weight:bold;"&gt;JRT - &lt;/span&gt;Sim, sim, mas que está absolutamente imerso nisso. Quando você me cobra isso, como é que faz?, a minha análise não é feita para dizer como as coisas devem ser. É para dizer como elas me parecem que são, dentro do meu método.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-weight:bold;"&gt;PAS - &lt;/span&gt;Claro, mas tento discutir com você se o mundo não está mudando. Por exemplo, via YouTube o funk carioca é exportado para a Europa, será que o Brasil também não exporta cultura?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-weight:bold;"&gt;JRT - &lt;/span&gt;Mas exatamente, o que chega do Brasil é o funk carioca. O que é o funk carioca? É uma diluição da música de massa norte-americana imposta a partir do dancin’ days, sei lá.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-weight:bold;"&gt;PAS - &lt;/span&gt;Mas, Tinhorão, não há nem um grau de originalidade inserido pelos meninos da favela do Rio de Janeiro nesse processo?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-weight:bold;"&gt;JRT - &lt;/span&gt;O menino da favela, rapaz, é um menino submetido ao que ele ouve. Ele é exatamente como ele sai no terceiro ano primário para ir trabalhar. Ele é semi-analfabeto.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-weight:bold;"&gt;PAS - &lt;/span&gt;Mas isso não quer dizer que ele não tenha criatividade dentro dele.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-weight:bold;"&gt;JRT - &lt;/span&gt;Sim, ele tem criatividade, mas fica só dentro dele, rapaz. Como é que ele vai desenvolver a criatividade de uma forma original, se tudo que é dado a ele não tem originalidade – ou melhor, tem, uma originalidade importada. Isso é que é preciso conpreender, rapaz. Não vai caber na sua matéria, esses meninos são meninos brasileiros expostos ao que eles ouvem. E eu acabei de te dizer, o que se ouve é a mesma coisa hoje em todas as partes do mundo, porque a indústria cultural está de tal forma, representa um peso econômico, que ela dita o que vai ser ouvido no mundo, o que vai ser globalizado. Esse menino está sujeito a isso. Você quer que ele faça o quê? Que ele vá gostar de quê?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-weight:bold;"&gt;PAS - &lt;/span&gt;Concordo de novo, mas não consigo achar que esse menino não tenha uma originalidade dele e não esteja mostrando isso, através dos recursos dele.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-weight:bold;"&gt;JRT - &lt;/span&gt;Sim, ele tem. Mas ela está sujeita ao seu tempo histórico, à sua cultura no momento, que é a cultura de um país subdesenvolvido. O Brasil é um país subdesenvolvido.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-weight:bold;"&gt;PAS - &lt;/span&gt;O que você acha que ia achar se os meninos pobres do início do século passado tivessem feito alguma música que fosse parecida com o rap ou com o funk carioca, e não o samba?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-weight:bold;"&gt;JRT - &lt;/span&gt;Não tinha funk, não podia ser parecido. Podia ter um cara lá, um menino que tentasse fazer uma valsinha, que não era brasileira, mas era uma música da época, então ele ia fazer uma valsinha. Como haveria os jovens que tocavam choro, e sob forma de choro eles tocavam valsa, &lt;span style="font-style:italic;"&gt;schottische&lt;/span&gt;, polca. Claro, claro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-weight:bold;"&gt;PAS - &lt;/span&gt;O que estou tentando perguntar é se a passagem do tempo não faz a gente aceitar coisas que não aceitava na hora em que estavam acontecendo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-weight:bold;"&gt;JRT - &lt;/span&gt;Mas não se trata de aceitar ou não aceitar, rapaz. Se eu acabo de te dizer que não existe isso de aceitar ou não aceitar. A realidade só pode ser aceita. Não há como não aceitar uma coisa que é do teu tempo, é a realidade do teu tempo. A única forma de controvérsia é a revolução.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-weight:bold;"&gt;PAS - &lt;/span&gt;O problema é que quando eu ouvir um funk carioca gostando, sentindo prazer, eu vou lembrar que o Tinhorão acha que eu sou um colonizado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-weight:bold;"&gt;JRT - &lt;/span&gt;Não, não. Você é um colonizado, quando você gosta você é um colonizado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-weight:bold;"&gt;PAS - &lt;/span&gt;Mas a alternativa é não gostar de nada?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-weight:bold;"&gt;JRT - &lt;/span&gt;Há uma explicação para você gostar: é o fato de ser colonizado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-weight:bold;"&gt;PAS - &lt;/span&gt;E aceitar essa realidade não é um passo para superar ela?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-weight:bold;"&gt;JRT - &lt;/span&gt;Sim. Não. Você não vai superar. Porque o americano não supera nada, ele é americano, rapaz.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-weight:bold;"&gt;PAS - &lt;/span&gt;Mas mudando radicalmente de assunto então: você não acha que o Brasil está mudando, está melhorando nos últimos anos?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-weight:bold;"&gt;JRT - &lt;/span&gt;O que que está melhorando? Estão melhorando as condições, é claro que se você aumenta a capacidade econômica você começa a fazer coisas que antes a falta de dinheiro não permitia. Então o Brasil hoje exporta muito mais a soja, a grande propriedade no mundo rural faz com que haja commodities que rendem muito no mercado internacional. Então esse dinheiro entra, e com esse dinheiro o governo passa a fazer coisas que não fazia quando tinha o dinheirinho dele, dependia do café, 70% da renda do Brasil era que os Estados Unidos compravam café do Brasil. Hoje não compram só café. Então, se você tem mais dinheiro, qualquer um de nós, se triplicarem o seu salário você passará a comprar mais coisas porque você tem dinheiro para comprar mais coisas. Mas que coisas você vai comprar? Vai se tornar mais brasileiro porque tem mais dinheiro? Não, vai comprar mais coisas que o mercado de oferecer.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-weight:bold;"&gt;PAS - &lt;/span&gt;Mais produtos da Apple.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-weight:bold;"&gt;JRT - &lt;/span&gt;Claro. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-weight:bold;"&gt;PAS - &lt;/span&gt;Mas aí é um beco sem saída, não dá para acreditar que o Brasil melhore?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-weight:bold;"&gt;JRT - &lt;/span&gt;Então escreva isso: o Tinhorão é um cara que deixa as pessoas num beco sem saída.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-weight:bold;"&gt;PAS - &lt;/span&gt;Você é?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-weight:bold;"&gt;JRT - &lt;/span&gt;Você mesmo está dizendo, estou dizendo o que você disse, “eu, quando ouvir um funk, vou me sentir até um pouco coisa porque ouvi falar isso de você, eu vou me achar um pouco boboca”. Não, você não é boboca, você foi feito assim. A tua cabeça é essa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-weight:bold;"&gt;PAS - &lt;/span&gt;Mas aí vou te falar uma outra coisa que também acho que é uma contradição: quando vou de vez em quando num show de rap, aqueles meninos falam coisas muito parecidas com o que o Tinhorão falava em 1960 e tantos. Não é legal isso? Eles têm essa consciência.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-weight:bold;"&gt;JRT - &lt;/span&gt;Eles usam uma linguagem musical de menino de Nova York da década de 70.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-weight:bold;"&gt;PAS - &lt;/span&gt;Com camisa verde-amerela com a bandeira do Brasil e fazendo sampler de Dorival Caymmi.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-weight:bold;"&gt;JRT - &lt;/span&gt;Isso, pronto, é isso. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-weight:bold;"&gt;PAS - &lt;/span&gt;Mas não é isso que quero dizer, eles falam abertamente de luta de classes, criticam a elite...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-weight:bold;"&gt;JRT - &lt;/span&gt;Sim, isso eles podem falar, mais isso os livros também falam.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-weight:bold;"&gt;PAS - &lt;/span&gt;Os sambistas dos anos 30 talvez não falassem...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-weight:bold;"&gt;JRT - &lt;/span&gt;Porque eles tinham suas razões, na década de 30, para sequer ventilar isso, porque a realidade do cara do povo na década de 30 estava sujeita às condições brasileiras da década de 30. Compreendeu? Casa com o que eu te falei no início da nossa conversa: tudo se prende a uma realidade do momento, a história se faz no presente. A história que se fez no passado se fez no passado. A história que se fará no futuro será feita pelo futuro. Mas a história que se faz no presente é a história do presente. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-weight:bold;"&gt;PAS - &lt;/span&gt;E você, que se afastou da indústria cultural, é até um cara ouvido e respeitado hoje, não? Tem todos esses livros e eventos acontecendo, tem gente que te cita sem falar seu nome. Às vezes acho que você ficou incompatível com a indústria jornalística, mas foi algo recíproco – estava rejeitando tudo que era da indústria, e a indústria devolveu rejeitando você também.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-weight:bold;"&gt;JRT - &lt;/span&gt;Não é, aí é que está, eu não rejeitava. Eu fazia uma análise que não era a que eles desejavam. Não estávamos acabando de contar que quando o&lt;span style="font-style:italic;"&gt; Jornal do Brasil&lt;/span&gt; perdeu o interesse econômico em ter um cara que falava em Zé Coco do Riachão, demitiu o cara, pronto. Pronto, me demitiu.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-weight:bold;"&gt;PAS - &lt;/span&gt;E o cara está até hoje aí, vivíssimo, com a cabeça a mil.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-weight:bold;"&gt;JRT - &lt;/span&gt;A mil (&lt;span style="font-style:italic;"&gt;ri&lt;/span&gt;). Tá bom, doutor?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-weight:bold;"&gt;PAS - &lt;/span&gt;Ó, não sei se esse papo foi estranho, eu adorei. Lamento que não tenha sido pessoalmente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-weight:bold;"&gt;JRT - &lt;/span&gt;Como eu gostei muito do que você... do seu jeito de escrever daquela vez, eu acho que você vai fazer uma boa matéria, até contra muita coisa que você acha de bom em você mesmo. É para onde?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-weight:bold;"&gt;PAS - &lt;/span&gt;Para o iG. Agora é internet, não tem mais essa de jornal.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-weight:bold;"&gt;JRT - &lt;/span&gt;Ah, pensei que você estava na &lt;span style="font-style:italic;"&gt;CartaCapital&lt;/span&gt;.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-weight:bold;"&gt;PAS - &lt;/span&gt;Estou, como colaborador, mas essa entrevista estou fazendo para o iG. Você frequenta internet, YouTube?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-weight:bold;"&gt;JRT - &lt;/span&gt;Via minha mulher. Ela é que brinca nas ondas. Mas vê se você faz uma pauta daí para a &lt;span style="font-style:italic;"&gt;CartaCapital&lt;/span&gt;, tá bom?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-weight:bold;"&gt;PAS - &lt;/span&gt;Por falar nisso, aquele jornalista da &lt;span style="font-style:italic;"&gt;Veja&lt;/span&gt; que não aceitou sua entrevista com (&lt;span style="font-style:italic;"&gt;o radialista&lt;/span&gt;) Ademar Casé não era o Mino Carta, era?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-weight:bold;"&gt;JRT - &lt;/span&gt;Não, não.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-weight:bold;"&gt;PAS - &lt;/span&gt;Não pode falar quem era?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-weight:bold;"&gt;JRT - &lt;/span&gt;Não, é um imbecil que escreve até hoje artigos assinados n’O Globo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-weight:bold;"&gt;PAS - &lt;/span&gt;Ai, meu Deus, como vou saber quem é?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-weight:bold;"&gt;JRT - &lt;/span&gt;Ele disse: “Ah, Tinhorão, não vou dar a entrevista”. “Mas por quê?” Eu fui ao Rio pago por eles, páginas amarelas da &lt;span style="font-style:italic;"&gt;Veja&lt;/span&gt;, “ah, a entrevista ficou muito anedótica”. Anedótico é esse monte de coisas que nunca ninguém tinha dito e que torna essa entrevista do Ademar Casé atualíssima até hoje (&lt;span style="font-style:italic;"&gt;a entrevista, inédita, está publicada no livro Crítica Cheia de Graça&lt;/span&gt;).&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/8578073-6160491538557957801?l=pedroalexandresanches.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8578073/posts/default/6160491538557957801'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8578073/posts/default/6160491538557957801'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://pedroalexandresanches.blogspot.com/2010/05/o-tinhorao-esta-nos-livros-nao-esta-no.html' title='&quot;O tinhorão está nos livros, não está no tinhorão&quot;'/><author><name>Pedro Alexandre Sanches</name><uri>http://www.blogger.com/profile/07131381196986635010</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-8578073.post-8732551422634287172</id><published>2010-04-26T19:49:00.001-03:00</published><updated>2010-04-26T20:23:37.427-03:00</updated><title type='text'>ai, a solidão vai acabar comigo...</title><content type='html'>Ando falando muito pouco por aqui, acho que porque ando falando muito em outros lugares, não sei. E, em outros lugares, ando falando muito sobre compositoras - além de Dona Ivone Lara, há a &lt;a href="http://ultimosegundo.ig.com.br/cultura/musica/o+talento+discreto+e+silencioso+de+nara/n1237590162848.html" target="_blank"&gt;Nara Leão&lt;/a&gt;, e agora a Dolores Duran. Como foi maravilhosa, no brevíssimo prazo que teve, a Dolores Duran...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Texto do caderno "Outlook", do jornal "Brasil Econômico", de 24 de abril de 2010. (E, por falar em compositoras, no mesmo caderno há, por sinal, uma belíssima entrevista da Phydia de Athayde com a Teresa Cristina, Dona Ivone Lara versãos anos 2000. Um trecho? "Lembro de chegar em casa, chorar muito e questionar: por que tem preto no mundo? Por que não é todo mundo de uma cor só? Era uma revolta tão envergonhada...".)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-weight:bold;"&gt;O que aprontou esta penetra no clube do Bolinha&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Caixa reúne a quase-íntegra do legado de Dolores Duran, que influenciou desde Bethânia até Marina Lima&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;TEXTO PEDRO ALEXANDRE SANCHES&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Dolores Duran era um ET na época em que se afirmou definitivamente como artista da música brasileira, na segunda metade da década de 1950. A última (e provavelmente primeira) vez que uma mulher conseguira se impor como compositora no Brasil havia sido 80 anos antes, em 1877, no advento de Chiquinha Gonzaga. Foi em 1957 que Dolores gravou em voz própria pela primeira vez uma composição sua, &lt;span style="font-style:italic;"&gt;Por Causa de Você&lt;/span&gt;. Somava 17 anos de carreira (fora cantora-mirim revelada no programa de calouros de Ary Barroso) e 27 de idade. Dois anos mais tarde, sairia da vida para entrar na história, antes de completar 30 anos. Revelada pouco depois de Dolores, Maysa seguiria rota errática de autora-cantora, e ainda não seria ela quem arranharia a brutal reserva masculina de mercado no campo da composição.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Foram-se mais 51 anos desde a morte de Dolores, até que viesse à tona, agora, em versão reunida, a quase-íntegra do legado deixado por ela, na caixa histórica &lt;span style="font-style:italic;"&gt;Os Anos Dourados de Dolores Duran&lt;/span&gt; (EMI, cerca de R$ 120). O pesquisador Rodrigo Faour agrupou ali, em oito volumes, os quatro álbuns que a moça gravou em vida, mais dois volumes agrupando gravações avulsas no antigo formato 78 RPM e um CD duplo com outras vozes interpretando composições de Dolores, a maioria delas reveladas pós-morte.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O trabalho minucioso de compilação permite mirar de perto o ET que ousou afrontar com delicadeza o clube do Bolinha e morreu precocemente (por problemas cardíacos e/ou abuso de barbitúricos) deixando meras 35 composições prontas, apenas sete delas registradas em sua própria voz. Contavam-se aí canções de dor-de-cotovelo hoje plenamente integradas ao imaginário nacional, como &lt;span style="font-style:italic;"&gt;Solidão&lt;/span&gt;, &lt;span style="font-style:italic;"&gt;Castigo&lt;/span&gt;, &lt;span style="font-style:italic;"&gt;Fim de Caso&lt;/span&gt;.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não nasceu de parto normal a Dolores autora. Incorporada ao mercado de trabalho como mão-de-obra infantil em radioteatro, tornou-se crooner adolescente de boates cantando sucessos da época, aprendidos e repetidos por instinto em inglês, francês, espanhol, italiano e alemão. Essa verve algo exótica foi aproveitada pela gravadora Continental num primeiro LP no formato precursor de 10 polegadas, batizado &lt;span style="font-style:italic;"&gt;Dolores Viaja&lt;/span&gt; (1955) e constituído de sete faixas em línguas estrangeiras (uma delas em esperanto) e uma &lt;span style="font-style:italic;"&gt;Canção da Volta&lt;/span&gt; no encerramento em português.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nos álbuns seguintes, &lt;span style="font-style:italic;"&gt;Dolores Duran Canta para Você Dançar&lt;/span&gt;, volumes 1 (1957) e 2 (1958), manteve-se o coquetel de idiomas e a variedade de gêneros musicais (até um rock, &lt;span style="font-style:italic;"&gt;Love Me Forever&lt;/span&gt;, fazia parte do cardápio), entremeadas com canções brasileiras matreiras como &lt;span style="font-style:italic;"&gt;Coisas de Mulher&lt;/span&gt; (de Chico Baiano), &lt;span style="font-style:italic;"&gt;Estatuto de Boite&lt;/span&gt; e &lt;span style="font-style:italic;"&gt;Se Papai Fosse Eleito&lt;/span&gt; (de Billy Blanco). No volume 1 estava sua estreia como intérprete da própria obra, &lt;span style="font-style:italic;"&gt;Por Causa de Você&lt;/span&gt;, com melodia de um Tom Jobim ainda desconhecido.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A Dolores autora brotou, portanto, no contexto desenvolvimentista da era Juscelino Kubitschek e de Brasília, de João Gilberto e da bossa nova. Ela desde sempre ostentou voz macia como veludo, mas isso não impediu que sua música ficasse represada no pelotão atropelado pela novidade da bossa. O movimento, de resto, jamais foi propriamente acolhedor a mulheres autônomas, fossem mortas ou vivas (como Nara Leão).&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sobretudo o derradeiro LP da artista, &lt;span style="font-style:italic;"&gt;Este Norte É Minha Sorte&lt;/span&gt; (1959), renasce das cinzas (e do mundo maravilhoso dos downloads) com sabor de surpresa. É um suculento álbum de baiões e temas nordestinos, vários deles compostos por um rapaz cearense mais tarde conhecido como Chico Anysio. Talvez ali Dolores selasse seu divórcio com a porclamada modernidade, pois &lt;span style="font-style:italic;"&gt;Este Norte É Minha Sorte&lt;/span&gt; tendia bem mais a Luiz Gonzaga que a João Gilberto, algo que o senso comum pós-bossa não perdoaria. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O que a caixa traz de mais sensacional são as canções só lançadas em compacto, entre as quais se amontoam raridades como &lt;span style="font-style:italic;"&gt;A Fia de Chico Brito&lt;/span&gt; (1956), de Anysio, &lt;span style="font-style:italic;"&gt;Manias&lt;/span&gt; (1956), do futuro apresentador de TV Flávio Cavalcanti, Na Asa do Vento (1956), de Luiz Vieira e João do Vale, as pândegas &lt;span style="font-style:italic;"&gt;Pano Legal&lt;/span&gt; (1956) e &lt;span style="font-style:italic;"&gt;A Banca do Distinto&lt;/span&gt; (1959), de Billy Blanco, e &lt;span style="font-style:italic;"&gt;A Noite do Meu Bem&lt;/span&gt;, êxito autoral que ela não testemunharia, pois morreu três meses após o lançamento.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Dessas faixas avulsas emerge uma evidência que há, mas costuma ficar abafada, como se ainda vivêssemos nos idos de Chiquinha Gonzaga: mesmo com tão curta trajetória, Dolores foi tremendamente influente sobre a próxima geração de artistas brasileiros, que despontaria nos anos 1960. Maria Bethânia indicaria sua filiação gravando uma versão semitropicalista de &lt;span style="font-style:italic;"&gt;Pano Legal&lt;/span&gt;, em 1968. Caetano Veloso resgataria &lt;span style="font-style:italic;"&gt;Na Asa do Vento&lt;/span&gt; do esquecimento em 1975. Elza Soares sacudiria &lt;span style="font-style:italic;"&gt;A Banca do Distinto&lt;/span&gt;, em 1963.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Em 1974, o ex-roqueiro Roberto Carlos, já então convertido ao romantismo, registraria uma versão de &lt;span style="font-style:italic;"&gt;Ternura Antiga&lt;/span&gt;, composição póstuma de Dolores – podia até parecer estranho, mas Roberto passara a adolescência amando as canções de fossa de Tito Madi e de Dolores. Além dele, Nara Leão, Elis Regina, Gal Costa e Clara Nunes também resgatariam, nos anos 1970, a pena compositora de Dolores, regravando &lt;span style="font-style:italic;"&gt;Estrada do Sol&lt;/span&gt;. Já em 1979, uma nova autora-cantora surgia apresentando como faixa 1 de seu primeiro LP uma versão agressiva de &lt;span style="font-style:italic;"&gt;Solidão&lt;/span&gt; – era Marina Lima. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A influência de Dolores Duran se mantinha como um rio submerso, algo assim como um amor que não se pode pronunciar. Mas nunca mais deixaria de existir, e essa artista desbravadora abriria enorme sorriso se visse, hoje, a caixa em sua homenagem e a quantidade impressionante de autoras-cantoras que não param de aparecer no Brasil de 2010.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/8578073-8732551422634287172?l=pedroalexandresanches.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8578073/posts/default/8732551422634287172'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8578073/posts/default/8732551422634287172'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://pedroalexandresanches.blogspot.com/2010/04/ai-solidao-vai-acabar-comigo.html' title='ai, a solidão vai acabar comigo...'/><author><name>Pedro Alexandre Sanches</name><uri>http://www.blogger.com/profile/07131381196986635010</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-8578073.post-1783547460713053557</id><published>2010-04-14T21:19:00.000-03:00</published><updated>2010-04-14T21:19:47.730-03:00</updated><title type='text'>serrinha custa, mas vem</title><content type='html'>Fala a verdade, não é um luxo completo a gente ser brasileira(o) e ter uma Dona Ivone Lara no horizonte, como referência?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Texto da "CartaCapital" 590, de 7 de abril de 2010.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-weight:bold;"&gt;Senhora majestade&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A modéstia acompanha Dona Ivone Lara, nome maior da música brasileira que, aos 89 anos, lúcida e ativa, é tema de DVD com participação de convidados&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;POR PEDRO ALEXANDRE SANCHES&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ivone Lara foi a primeira mulher a assinar seu nome na coautoria de um samba-enredo carioca. Aconteceu em 1965, quando o Império Serrano desfilou &lt;span style="font-style:italic;"&gt;Os Cinco Bailes da História do Rio&lt;/span&gt;, composição dividida por ela com dois homens, Silas de Oliveira e Bacalhau. Naquele ano, quem ganhou foi o Salgueiro, mas já na estreia a compositora Ivone Lara chegou a vice-campeã. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Hoje conhecida pelo Brasil como Dona Ivone Lara, ela completa 89 anos em 13 de abril, e ao longo das últimas décadas não viu essa situação muito se modificar, pelo menos não no ambiente das escolas de samba. Da segunda colocação, nunca passou. Outra autora que se aventurou nessas competições, Leci Brandão, por seis vezes emplacou sambas finalistas nos concursos da Mangueira, mas nenhum deles jamais chegou à avenida ou ao sambódromo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Dona Ivone deprecia o próprio talento ao explicar como conseguiu furar o bloqueio masculino em 1965. “Meus primos eram diretores de harmonia, faziam parte das diretorias, eram maiorais na escola de samba. Eu quebrei esse tabu sendo parente deles”, explica, numa manhã paulistana, após um fim-de-semana de shows na cidade. Não diz que antes disso um primo criado como irmão, o futuro Mestre Fuleiro, chegou a mostrar sambas dela como sendo dele, supostamente para driblar a não-aceitação de uma compositora mulher.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ivone já tinha 43 anos quando contou “em sonho” &lt;span style="font-style:italic;"&gt;Os Cinco Bailes da História do Rio&lt;/span&gt;. &lt;span style="font-style:italic;"&gt;Alegremente sorria/ algo acontecia/ era o fim da monarquia&lt;/span&gt;, diziam os versos finais, sob a obrigação, estendida a todas as escolas, de se debruçar sobre temas históricos da pátria brasileira. A demora não é particularidade dela. Mais ou menos à mesma época, a empregada doméstica Clementina de Jesus era revelada cantora, já sexagenária, e Cartola, autor de canções gravadas por Carmen Miranda nos anos 1930, era resgatado do trabalho como flanelinha para o samba.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O pai de Ivone, João da Silva Lara, ajudante de caminhoneiro, morreu quando ela era muito pequena. “Nasci em Botafogo, num lugar bonito, uma avenida. Meu pai faleceu, fui morar num lugar completamente diferente. O conforto já não era igual”, conta. A mãe, Emerentina Bento da Silva, foi empregada doméstica. “Ela trabalhava em casa de família e tinha necessidade de me levar com ela. A família era rica, mas não tão rica para ter mais de uma empregada. Embora com pouca idade, eu era bem serviçal. Ia comprar jornal, fazia trabalhos miúdos.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Foi para um internato, onde estudou canto orfeônico com Lucília Villa-Lobos, esposa de Heitor Villa-Lobos. E trabalhou, desde muito cedo. “Eu criança, com 11 anos, tive que procurar emprego. Fui ser auxiliar de copeira, lavava muita louça, trabalhava em pensão. Já mocinha, lendo jornal, vi que as matrículas estavam abertas na escola técnica de enfermagem.” Tornou-se enfermeira, trabalhou em hospital, estudou serviço social. Deve ter salvado algumas vidas, não, Dona Ivone? “Muitas”, responde. “Trabalhei em berçário, e ali a gente aprende muito. Criança pequenininha dá muito trabalho, e corre muito risco também. Sem querer a gente às vezes tem gestos que salvam uma criança com coqueluche, à noite, passando mal. Sem querer, não, que a gente vai para salvar das crises.” &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mais tarde, cuidou de adultos. Aposentou-se após 40 anos de profissão, 32 deles cumpridos no Serviço Nacional de Doentes Mentais, fase em que conheceu e trabalhou com a psiquiatra Nise da Silveira. “Me habituei, era a coisa mais natural lidar com eles, mesmo em período de agitação. Para mim era a mesma coisa que não houvesse nada de mais. Ficavam internados seis meses, um ano. Às vezes a família abandonava um e ele passava a ter a residência dele em hospital psiquiátrico.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ainda jovem, Ivone compôs a primeira melodia que sobreviveria à passagem do tempo (e seria registrada em disco por Alcione, em 1976), chamada &lt;span style="font-style:italic;"&gt;Tiê&lt;/span&gt;. Falava de um pássaro que ela ganhara de presente. “Era a minha boneca. É preto e vermelho, um pássaro muito bonito, com um canto muito bonito.” &lt;span style="font-style:italic;"&gt;Representava pra mim carinho, amor e paixão/ lembrar do tiê despertou meu coração&lt;/span&gt;, dizia a letra.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Em 1947, casou-se com Oscar Costa, filho do presidente da escola de samba Prazer da Serrinha, para a qual compôs, já àquela época, um samba chamado &lt;span style="font-style:italic;"&gt;Nasci para Sofrer&lt;/span&gt;. A Império Serrano surgiria naquele mesmo ano, como dissidência da escola comandada a mão de ferro por seu sogro, Alfredo Costa. Ivone foi fundadora da nova escola, ao lado de Silas de Oliveira e Mano Décio da Viola.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Enquanto Ivone se firmava como integrante garbosa da ala das baianas da Império, a escola vivia momentos de glória com sambas-enredos como &lt;span style="font-style:italic;"&gt;Aquarela Brasileira&lt;/span&gt; (1964), de Silas, &lt;span style="font-style:italic;"&gt;Heróis da Liberdade&lt;/span&gt;, dele e de Mano Décio (que em pleno 1969 gritava os versos &lt;span style="font-style:italic;"&gt;passava noite, vinha dia/ o sangue do negro corria dia-a-dia/ de lamento em lamento, de agonia em agonia/ ele pedia o fim da tirania&lt;/span&gt;) ou o alegre &lt;span style="font-style:italic;"&gt;Bumbum Paticumbum Prugurundum&lt;/span&gt; (1982), de Aluísio Machado e Beto Sem Braço. Nestes anos 2000, a escola  tem amargado sucessivos rebaixamentos. “Fico triste, sou Império até hoje.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Dona Ivone mostra-se arisca a falar sobre discriminação racial: “Não me preocupo com isso, não. Porque tem uma coisa, até a presente data, graças a Deus, sempre fui bem recebida em qualquer ambiente”. Isso não a impediu de cantar temas afirmativos criados por outros autores, como &lt;span style="font-style:italic;"&gt;Sorriso Negro&lt;/span&gt;, gravado por ela em 1981 em duo com o sambista impuro Jorge Ben, ou &lt;span style="font-style:italic;"&gt;Lamento do Negro&lt;/span&gt; (1982). &lt;span style="font-style:italic;"&gt;Um sorriso negro, um abraço negro/ traz felicidade/ negro sem emprego/ fica sem sossego/ negro é a raiz da liberdade&lt;/span&gt;, manifesta-se a primeira. &lt;span style="font-style:italic;"&gt;O negro veio de Angola/ fazendo sua oração/ na promessa da riqueza/ só ganhou a escravidão/ canto do negro é o lamento/ na senzala do senhor&lt;/span&gt;, aprofunda a segunda.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Se em 1965 Ivone foi finalmente notada pelo mundo do samba, demorariam ainda mais 13 anos para que pudesse lançar seu primeiro disco individual. Tinha 57 anos quando saiu &lt;span style="font-style:italic;"&gt;Samba Minha Verdade, Samba Minha Raiz&lt;/span&gt; (EMI-Odeon), creditado não a Ivone, mas a Dona Ivone, e até hoje não reeditado em CD. Naquele mesmo 1978, contou com duas madrinhas midiáticas de peso, Maria Bethânia e Gal Costa. Antes mesmo que Dona Ivone o fizesse, elas gravaram &lt;span style="font-style:italic;"&gt;Sonho Meu&lt;/span&gt;, no álbum &lt;span style="font-style:italic;"&gt;Álibi&lt;/span&gt;, de Bethânia. Dulcíssimo, o samba é um de seus grandes marcos, sob letra não tão doce assim do parceiro preferencial, Delcio Carvalho. &lt;span style="font-style:italic;"&gt;Vai matar esta saudade, sonho meu,/ com a sua liberdade, sonho meu (...) a madrugada fria/ só me traz melancolia sonho meu&lt;/span&gt;, dizem os versos insones que seriam registrados pela autora em 1979, em dueto com ninguém menos que Clementina de Jesus.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Bethânia repetiu a reverência (e o sucesso) em 1980, cantando &lt;span style="font-style:italic;"&gt;Alguém Me Avisou&lt;/span&gt; em trio com Caetano Veloso e Gilberto Gil. Por intermédio das vozes dos rebeldes da Bahia, a letra de Dona Ivone afrontava mansamente a resistência sempre calada a tudo que ela representava (e representa): &lt;span style="font-style:italic;"&gt;Foram me chamar/ eu estou aqui, o que é que há?/ (...) eu vim de lá, eu vim de lá pequenininho/ alguém me avisou pra pisar nesse chão devagarinho/ (...) sempre fui obediente, mas não pude resistir/ foi numa roda de samba que juntei-me aos bambas pra me divertir&lt;/span&gt;.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Dona Ivone lançou poucos discos, mas apresentou muitos sambas de grande qualidade, vários deles revelados por outros intérpretes. As mágoas amorosas (além de outras mais, provavelmente) conduziram canções desalentadas como &lt;span style="font-style:italic;"&gt;Alvorecer&lt;/span&gt; (lançada por Clara Nunes em 1974), &lt;span style="font-style:italic;"&gt;Amor sem Esperança&lt;/span&gt; (Beth Carvalho, 1975), &lt;span style="font-style:italic;"&gt;Acreditar&lt;/span&gt; (Roberto Ribeiro, 1976), &lt;span style="font-style:italic;"&gt;Resignação&lt;/span&gt; (Cristina Buarque, 1976), &lt;span style="font-style:italic;"&gt;Tendência&lt;/span&gt; (1981), &lt;span style="font-style:italic;"&gt;Mas Quem Disse Que Eu Te Esqueço?&lt;/span&gt; (Nana Caymmi, 1981, e Paulinho da Viola, 1983), &lt;span style="font-style:italic;"&gt;Enredo do Meu Samba&lt;/span&gt; (Grupo Fundo de Quintal, 1983, e Sandra de Sá, 1984)...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ainda em 1982, Dona Ivone amenizou as dores de &lt;span style="font-style:italic;"&gt;Nasci para Sofrer&lt;/span&gt; em uma das mais suaves e ternas gravações que o samba conhece, batizada de &lt;span style="font-style:italic;"&gt;Nasci para Sonhar e Cantar&lt;/span&gt;. &lt;span style="font-style:italic;"&gt;O que trago dentro de mim preciso revelar/ eu solto o mundo de tristeza que a vida me dá/ me exponho a tanta emoção/ nasci pra sonhar e cantar&lt;/span&gt;, canta, quase num sussurro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Dona Ivone tem revisitado tais canções, as mais e as menos alegres. Por estes dias de 2010, está lançando um DVD (o primeiro de sua história) com participações de Caetano, Gil, Beth Carvalho, Zeca Pagodinho, Arlindo Cruz e Jorge Aragão. Outro CD, gravado com Delcio Carvalho, apresenta somente composições inéditas da dupla. No fim-de-semana que passou, ela dividiu o palco do Teatro Fecap com o grupo paulista Samba Esporte Fino. Fêmur fraturado e voz frágil, cantou a ponto de não querer parar, mesmo com as cortinas se fechando à sua revelia. “Trabalho até hoje por esporte, porque gosto”, explicaria depois, serena, mas admitindo que a empreitada lhe custa esforço (“a gente sempre se cansa, né, porque só a tensão que a gente fica...”) e que cantar, é, sim, um trabalho: “É trabalho, tanto que fazem cachê. Mas eu sempre aproveito...”. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No palco, cantou os maiores sucessos, privilegiando os de autoria própria. Não apareceu, por exemplo, um samba de terreiro que ela aprendeu na Serrinha, de Carlinhos Bem-Te-Vi. &lt;span style="font-style:italic;"&gt;Serra dos meus sonhos dourados, onde nós fomos criados/ lá eu hei de morrer/ não desfazendo de ninguém/ Serrinha custa, mas vem&lt;/span&gt;, afirma a letra do compositor-passarinho que diz tudo e mais um pouco sobre o jeito de ser da cantora-compositora-sonhadora. (Dona) Ivone Lara custa, mas vem.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/8578073-1783547460713053557?l=pedroalexandresanches.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8578073/posts/default/1783547460713053557'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8578073/posts/default/1783547460713053557'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://pedroalexandresanches.blogspot.com/2010/04/serrinha-custa-mas-vem.html' title='serrinha custa, mas vem'/><author><name>Pedro Alexandre Sanches</name><uri>http://www.blogger.com/profile/07131381196986635010</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-8578073.post-8999963369684158880</id><published>2010-03-30T16:07:00.002-03:00</published><updated>2010-03-30T16:11:04.798-03:00</updated><title type='text'>lá no sertão, quem tem coragem pra suportar?</title><content type='html'>Sobre aquela tal de tropicália, uma reportagem publicada na revista "CartaCapital" 586, de 10 de março de 2010. Sabe que, até ler o livro do Christopher Dunn, eu NUNCA tinha prestado atenção nessa passagem do Gilberto Gil em "Questão de Ordem"? Até me diria estarrecido pela descoberta demorada - se não estivesse entusiasmadíssimo com o jardim (de brutalidade) escondido atrás da repulsa do público de 1968 por Gilberto Gil.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;b&gt;Reorientar o movimento&lt;/b&gt;&lt;br /&gt;Christopher Dunn diz que o comportamento rebelde, mais do que a política, tirou público da Tropicália&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;POR PEDRO ALEXANDRE SANCHES&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Um dos episódios mais emblemáticos da música brasileira sob a ditadura militar foi o da vaia fragorosa a Caetano Veloso em 1968, três meses antes da instauração do Ato Institucional No 5, quando cantava &lt;span style="font-style:italic;"&gt;É Proibido Proibir&lt;/span&gt; no III Festival Internacional da Canção (FIC). Fora de si, o músico entrou em confronto verbal com a plateia que o rejeitava e, em seguida, desafiou nervosamente o júri: “Me desclassifiquem junto com o Gil, tá entendendo?”.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Hoje poucos lembram qual era a canção de Gilberto Gil a que o parceiro se referia. Chamava-se &lt;span style="font-style:italic;"&gt;Questão de Ordem&lt;/span&gt;, e fora desclassificada na eliminatória anterior. “Gil fundiu cuca de vocês, hein?”, bradou Caetano no calor da hora. E &lt;span style="font-style:italic;"&gt;Questão de Ordem&lt;/span&gt; não sobreviveu ao calor da hora. Costumamos nos lembrar do rififi de &lt;span style="font-style:italic;"&gt;É Proibido Proibir&lt;/span&gt; tantas vezes quantas nos esquecemos da apresentação do rockinho tropicalista no qual Gil antecipava o exílio que viria: &lt;span style="font-style:italic;"&gt;Daqui por diante fica decidido/ quem ficar vigia/ quem sair demora&lt;/span&gt;.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Essa cena esquecida volta ao palco brasileiro 41 anos mais tarde, sob o olhar estrangeiro de Christopher Dunn, professor e pesquisador do departamento de espanhol e português da Tulane University e autor do ensaio &lt;span style="font-style:italic;"&gt;Brutalidade Jardim – A Tropicália e o Surgimento da Contracultura Brasileira&lt;/span&gt; (273 págs. R$ 37). Publicado nos Estados Unidos em 2001, em meio a uma onda de valorização do movimento tropicalista por críticos e fãs norte-americanos e europeus, o livro demorou nove anos para ganhar edição brasileira, consumada por iniciativa da editora Unesp e mediação do encenador teatral Zé Celso Martinez Corrêa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Dunn leva vantagem sobre intérpretes locais do fenômeno musical dos anos 1960 por abordá-lo à distância e alheio à perene relação de conflito entre os tropicalistas e seu Brasil natal. A leitura faz compreender que a tropicália atraiu vaias à direita e à esquerda menos por seu conteúdo propriamente político que pela revolução comportamental que propunha. Se a postura sexualmente ambígua de Caetano motivou em parte a rebelião contra &lt;span style="font-style:italic;"&gt;É Proibido Proibir&lt;/span&gt;, Dunn reconstrói a imagem de Gil amparado por uma túnica de motivos africanos, barba, bigode e cabelo &lt;span style="font-style:italic;"&gt;black power&lt;/span&gt; e musicalidade próxima à do roqueiro negro Jimi Hendrix.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O autor transcreve trechos de um artigo-discurso que Gil enviou à época do exílio para &lt;span style="font-style:italic;"&gt;O Pasquim&lt;/span&gt;, com o propósito de recusar um prêmio que o Museu da Imagem e do Som carioca queria lhe outorgar, pelo samba &lt;span style="font-style:italic;"&gt;Aquele Abraço&lt;/span&gt; (1969). “E que fique claro para os que cortaram minha onda e minha barba que &lt;span style="font-style:italic;"&gt;Aquele Abraço&lt;/span&gt; não significa que eu tenha me ‘regenerado’, que eu tenha me tornado ‘bom crioulo puxador de samba’ como eles querem que sejam todos os negros que realmente ‘sabem qual é o seu lugar’”, escreveu um Gil muito menos brando que aquele com que nos acostumamos mais tarde. “Eu não sei qual é o meu, e não estou em lugar nenhum; não estou mais s&lt;span style="font-style:italic;"&gt;ervindo à mesa dos senhores brancos&lt;/span&gt;, e nem estou mais triste na senzala em que eles estão transformando o Brasil. Por isso talvez Deus tenha me tirado de lá e me colocado numa rua fria e vazia onde pelo menos eu possa cantar como o passarinho. As aves daqui não gorjeiram como as de lá, mas &lt;span style="font-style:italic;"&gt;ainda&lt;/span&gt; gorjeiam.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Segundo o registro de Dunn, o jornalista Nelson Motta (que décadas mais tarde evocaria o rancor racial como elemento da derrocada do ídolo &lt;span style="font-style:italic;"&gt;black&lt;/span&gt; pré-tropicalista Wilson Simonal) foi um dos que se voltaram contra Questão de Ordem. “Gil derivou para uma linha mais africana, mais identificada com a moderna música negra internacional, mas não está sendo entendido nem pelo público nem por mim”, queixou-se o crítico em 1968, no jornal &lt;span style="font-style:italic;"&gt;Última Hora&lt;/span&gt;.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Minha leitura é especulativa, mas acho que a performance da africanidade e negritude de Gil incomodou boa parte do público”, afirma em português fluente o autor, numa entrevista por e-mail. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Seu interesse por esse aspecto tem relação com o fato de ele atuar no Programa de Estudos da África e Diáspora Africana da Tulane. Não chega a ser o fio condutor do livro, mas o componente racial, sempre escamoteado por aqui, vem se somar à afronta sexual-comportamental proposta por Caetano, Gal Costa e Mutantes, bem como ao intricado xadrez político que indispôs os tropicalistas tanto com artistas de esquerda quanto com a ditadura de direita.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Norte-americano de descendência irlandesa e alemã, Dunn diz que seu interesse pela música daqui foi despertado por um professor especialista em história brasileira. “Meu interesse pelo Brasil não é porque seja ‘exótico’ em relação aos Estados Unidos, mas porque é similar, comparável, e ao mesmo tempo diferente”, diz. “Como os Estados Unidos, o Brasil é um país social, étnica e culturalmente complexo e heterogêneo, com traços distintivos devido a seu legado lusitano, africano e indígena. A cultura afrobrasileira é para mim especialmente impressionante na forma em que concilia a tradição (penso, por exemplo, em candomblé, capoeira, formas tradicionais de fazer música) com a modernidade globalizada.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;É eloquente que a tropicália só tenha despertado o interesse nos norte-americanos mais de duas décadas após o nascimento e morte do movimento – bem diferente do que acontecera antes com a bossa nova, bem mais embranquecida e elitizada, e prontamente capturada por plateias primeiro-mundistas. “Ao longo de muitos anos, a música brasileira era ouvida no exterior como um grande desdobramento da bossa nova, que está longe da questão terceiro-mundista”, observa Dunn. “Essa situação muda um pouquinho com o surgimento dos blocos afro e a expansão internacional da capoeira, mas em geral o consumo de música brasileira no exterior não passa por aí. E muito menos no caso da tropicália, que foi reconhecida tardiamente como mais um som interessante a ser citado como referência, e não como discurso político insurgente.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A identificação tardia se consolidou nos anos 1990, quando o músico David Byrne descobriu a obra de Tom Zé, um tropicalista iconoclasta que, por aqui mesmo, andava redondamente esquecido. A tropicália almejou conduzir a música brasileira ao mercado de massas, e, ironicamente, foi o menos comercial de seus participantes quem inseriu a tropicália no mercado dito “global”. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“A música de Tom Zé abriu nossos ouvidos para uma tradição experimental e vanguardista na música brasileira que tinha sido ignorada, salvo algumas exceções como a música instrumental de Hermeto Pascoal”, diz o autor. “A coletânea dele (l&lt;span style="font-style:italic;"&gt;ançada pelo selo de Byrne&lt;/span&gt;) foi uma revelação para o público norte-americano e europeu, e preparou o terreno para a apreciação tardia da música tropicalista no exterior. Na época, tive várias conversas com pessoas que não sabiam nada da música brasileira, mas adoravam Tom Zé.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Dunn coloca foco na dimensão política em &lt;span style="font-style:italic;"&gt;Brutalidade Jardim&lt;/span&gt;, como quando procura defender o movimento, apenas parcialmente, de acusações de que operasse uma “modernização conservadora” no cenário local. “(&lt;span style="font-style:italic;"&gt;José Ramos&lt;/span&gt;) Tinhorão interpretou a tropicália simplesmente como a vanguarda cultural do regime militar”, menciona, afirmando discordar de tal leitura.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Detém-se, por exemplo, no gesto tropicalista pioneiro do filme &lt;span style="font-style:italic;"&gt;Terra em Transe&lt;/span&gt; (1967), de Glauber Rocha, na cena em que o intelectual Paulo Martins tapa a boca do personagem que alegoriza o “povo” e esbraveja: “Você vê o que é o povo? Um imbecil, um analfabeto, um despolitizado! Vocês já pensaram Jerônimo no poder?”. Dunn mostra como se tratava de uma (auto)crítica de Glauber ao paternalismo “nacionalista-participante” de esquerdistas mais ortodoxos (como Geraldo Vandré), desenvolvida e aprimorada em seguida pelos tropicalistas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Curioso é testemunhar como Caetano ainda hoje ecoa aquele momento histórico, como na crítica recente a Luiz Inácio Lula da Silva (Jerônimo) em termos do tipo “analfabeto” e “grosseiro”. É como se Jerônimo houvesse ido ao poder e Paulo Martins cedesse, ainda hoje, ao cacoete de querer calar a boca de Jerônimo. É como se Caetano, jovem vilipendiado de 1968, cansasse por ora de nos tantar fazer entender por que seu corpo queria ficar &lt;span style="font-style:italic;"&gt;Odara&lt;/span&gt; e agora se alinhasse, simultaneamente, aos paternalistas de esquerda e aos autoritários de direita que tanto combateu quatro décadas atrás.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Não vejo a analogia, porque o insulto de Caetano é coerente com a posição antipopulista que ele sempre defendeu”, discorda Dunn. Mas, em seguida, ele cita uma possível perda de espaço e poder do artista-intelectual (“ou do ‘intelectual pop star’, para citar a autodenomincação de Caetano”): “É uma figura que há muito deixou de ter relevância nos Estados Unidos, mas resistiu por mais uma geração no Brasil. Pode até indicar a decadência do intelectual público, seja artista ou não, na sociedade brasileira”.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Se aqui e ali o discurso de Dunn chega a soar cético quanto às conexões entre política da arte, seu próximo livro pode demonstrar que as coisas não são bem assim. Prepara, em parceria com o brasileiro Idelber Avelar, seu colega em Tulane, um livro de ensaios sobre cidadania na música brasileira. “Constatamos que algumas das músicas mais interessantes do ponto de vista de invenção formal também são ‘engajadas’ no sentido de abordar questões sociais e políticas com um olhar crítico. Quem vai dizer que a música de artistas como Tom Zé, Nação Zumbi, Nega Gizza, Racionais MC’s, Pedro Luís e A Parede, Titãs ou Bezerra da Silva é chata ou panfletária?”, pergunta, em permanente diálogo com as tradições e contradições dos antropófagos tropicalistas.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/8578073-8999963369684158880?l=pedroalexandresanches.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8578073/posts/default/8999963369684158880'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8578073/posts/default/8999963369684158880'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://pedroalexandresanches.blogspot.com/2010/03/sobre-aquela-tal-de-tropicalia-uma.html' title='lá no sertão, quem tem coragem pra suportar?'/><author><name>Pedro Alexandre Sanches</name><uri>http://www.blogger.com/profile/07131381196986635010</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-8578073.post-4057874677346032746</id><published>2010-03-25T19:45:00.000-03:00</published><updated>2010-03-25T19:45:44.408-03:00</updated><title type='text'>o tabu-Mallu, 2</title><content type='html'>Eu não sabia, mas está rolando um debate muito bacana lá no &lt;a href="http://ow.ly/1qREQ" target="_blank"&gt;blog do Alexandre Matias&lt;/a&gt; (http://ow.ly/1qREQ), a partir do texto que escrevi sobre a Mallu Magalhães. Não acho que caiba muito eu ficar contestando, tem bastante coisa sensata dita ali, inclusive de gente discordando do que escrevi.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;As únicas coisas que eu (@pdralex) falei pro Matias (@trabalhosujo) lá no Twitter, e que quero repetir aqui, são as seguintes:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;@pdralex Ô, @trabalhosujo... O Michael Jackson é justamente o exemplo "perfeito" pro tipo de preocupação que eu quis exprimir...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;@pdralex @trabalhosujo O mundo ganhou um gênio, o gênio ganhou toneladas de Demerol. A gente deve fingir que isso não existe?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quanto a esse último ponto, eu adoro e respeito o Matias, mas esse papo de deixar a Mallu pra lá porque o Michael Jackson e o Bob Dylan também foram crianças precoces... É essa mesma retórica do calaboca, do deixa-como-está, que anda muito em voga em diversos setores, do BBB à relação entre o governo e a mídia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Da minha parte, eu acho que "the times they are a-changing"... &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E, porque the times they are a-changing, deixo um outro pitaco aqui, do blog do Luiz Carlos Azenha, pertencente à retórica do não-calaboca, nada a ver com a Mallu Magalhães (ou algo a ver com a Mallu Magalhães? existe terrorismo midiático?). É um texto chamado &lt;a href="http://www.viomundo.com.br/voce-escreve/rose-nogueira-estou-viva.html" target="_blank"&gt;Rose Nogueira: prisão&lt;/a&gt;, e contém trechos que os ditabrandos (aqueles mesmos que estão muito "indignados" com a greve de fome de ativistas políticos cubanos) adorariam manter sepultados para sempre, como os seguintes:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;"– Vocês estão presos. E o bebê vai para o Juizado de Menores.&lt;br /&gt;– O bebê não vai. E eu só vou com vocês se puder deixá-lo com a minha família.&lt;br /&gt;– Terrorista não tem família, não tem que ter filho. E eu sou curador de menores – ironizou.&lt;br /&gt;– Não sou comunista.&lt;br /&gt;– Olha, moça, eu posso usar violência."&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;"O leite que eu tirava do seio ainda insistia em vazar e minha blusa cheirava a azedo. A febre aparecia todo dia. O leite me fazia pensar que, enquanto estivesse ali, brotando, eu estaria ligada ao meu filho. Dias depois veio o diminutivo do dia me buscar para depoimento. Empurrava-me pela escada, enquanto gritava: 'ai, miss Brasil! Sobe essa escada logo, sobe!'&lt;br /&gt;Miss Brasil era o nome de uma vaca leiteira que havia sido premiada. E na sala para onde me levou, o 'inho' chamava os outros: 'Olha a miss Brasil, pessoal! Tá cheia de leite! É a vaca terrorista!'. Eles riam e me beliscavam nas coxas, nas nádegas. Eu gritava e perguntava pelo bebê.&lt;br /&gt;– Pergunta quem faz aqui sou eu. E vamos ver se o nenê chora mais do que você quando a gente for buscar ele de novo.&lt;br /&gt;Era o que eles queriam: que eu soubesse que o bebê esteve lá, que poderiam fazer qualquer coisa. Meu Deus, eles não tinham limites! Ao voltar para a cela, o homem me olhou com ironia e disse: 'Mas esse leitinho esse nenê não vai ter mais, não'."&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;"Ao buscar, agora, nos arquivos da Folha de S. Paulo a minha ficha funcional, descubro que, em 9 de dezembro de 1969, quando estava presa no DEOPS, incomunicável, 'abandonei' meu emprego de repórter do jornal. Escrito à mão, no alto: ABANDONO. E uma observação oficial: Dispensada de acordo com o artigo 482 – letra ‘i’ da CLT – abandono de emprego'. Por que essa data, 9 de dezembro? Ela coincide exatamente com esse período mais negro, já que eles me 'esqueceram' por um mês na cela. &lt;br /&gt;Como é que eu poderia abandonar o emprego, mesmo que quisesse? Todos sabiam que eu estava lá, a alguns quarteirões, no prédio vermelho da praça General Osório. Isso era e continua sendo ilegal em relação às leis trabalhistas e a qualquer outra lei, mesmo na ditadura dos decretos secretos. Além do mais, nesse período, caso estivesse trabalhando, eu estaria em licença-maternidade."&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/8578073-4057874677346032746?l=pedroalexandresanches.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8578073/posts/default/4057874677346032746'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8578073/posts/default/4057874677346032746'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://pedroalexandresanches.blogspot.com/2010/03/o-tabu-mallu-2.html' title='o tabu-Mallu, 2'/><author><name>Pedro Alexandre Sanches</name><uri>http://www.blogger.com/profile/07131381196986635010</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-8578073.post-2395974475922745551</id><published>2010-03-21T22:23:00.004-03:00</published><updated>2010-03-24T11:22:48.687-03:00</updated><title type='text'>encaremos o tabu Mallu?</title><content type='html'>Sobre &lt;a href="http://musica.ig.com.br/noticias/2010/03/20/chapeuzinho+vermelho+passa+nervoso+na+floresta+do+ibirapuera+9434507.html" target="_blank"&gt;Mallu Magalhães&lt;/a&gt;.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;P.S. em 24 de março. Copio abaixo e faço minhas as palavras que o &lt;span style="font-weight:bold;"&gt;Bernardo&lt;/span&gt; deixou registradas na caixa de comentários:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;"Minha angústia com a Malu é a de ver uma refém da necessidade da gente (mídia, pensadores dos novos tempos) em achar uma ilustração brasileira pra umas ideias que a gente entende e compra antes de averiguar. Tipo fenômeno de internet, artista que amadurece em tempo real sob as câmeras, artista do quarto pro mundo, e outras mais.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ao mesmo tempo, pouca gente se identifica com ela nesse sentido que você pescou bem: imaginar-se na pele dela aos 17 na frente de 800. E não são 800 quaisquer, curiosos, né? São 800 com uma opinião já pronta só esperando o ok do show ao vivo pra assinar embaixo. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Enfim, tá na chuva não vai sair seca, mas um pouco menos de crueldade da gente só faz bem, eu acho".&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/8578073-2395974475922745551?l=pedroalexandresanches.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8578073/posts/default/2395974475922745551'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8578073/posts/default/2395974475922745551'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://pedroalexandresanches.blogspot.com/2010/03/encaramos-o-tabu-mallu.html' title='encaremos o tabu Mallu?'/><author><name>Pedro Alexandre Sanches</name><uri>http://www.blogger.com/profile/07131381196986635010</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-8578073.post-4012465045749197546</id><published>2010-03-15T19:48:00.000-03:00</published><updated>2010-03-15T19:48:16.204-03:00</updated><title type='text'>meu coração bate (e apanha) num teleco-teco...</title><content type='html'>Dizia assim aquela música de Skowa e A Máfia no longínquo 1989: "Tem dias que tudo dá errado. Se chove eu pego resfriado. Se faz calor, fico desidratado. Tem dias que tudo dá errado". A letra era de Arnaldo Antunes, quando a música dele ainda não era tão otimista.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tem dias que nem tudo dá errado, só metade das coisas. Deixa eu contar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Algumas horas antes de ir para o show do &lt;a href="http://ultimosegundo.ig.com.br/cultura/2010/03/13/otto+e+um+retrato+da+musica+brasileira+do+seu+tempo+9426814.html" target="_blank"&gt;Otto&lt;/a&gt;, lá fui eu, na sexta-feira passada, ao encontro de três das maiores figuras femininas da história da música brasileira. Iam se apresentar (quase) juntas Ademilde Fonseca, Elza Soares e Baby do Brasil. É mole?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Fui para o camarim, que a ideia era &lt;a href="http://musica.ig.com.br/entrevistas/2010/03/15/elza+baby+e+ademilde+brasil+e+um+pais+de+cantoras+9427935.html" target="_blank"&gt;entrevistá-las&lt;/a&gt; para o iG, onde ando fazendo umas &lt;a href="http://musica.ig.com.br/noticias/2010/03/15/show+das+tres+cantoras+e+episodio+historico+da+mpb+9427939.html" target="_blank"&gt;críticas&lt;/a&gt; e reportagens especiais. Só Elza havia chegado, e ela se pôs a conversar com disposição à beça, bem maior que a que eu conhecia de outros carnavais. Emocionante.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Baby do Brasil foi a segunda a chegar. Logo vi que ela está inspiradíssima, e também bem mais serena e pé-no-chão que na longínqua vez anterior que me lembro de tê-la entrevistado ao vivo, em 1997, a propósito do disco "Um". Intensa e cheia de coisa para contar. Emocionante ao quadrado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E de repente apareceu Ademilde Fonseca, rainha do choro cantado, incríveis 89 anos de idade e de elegância. Essa eu nunca havia entrevistado, que coisa incrível. Nunca tinha visto e ouvido ao vivo, nunca tinha chegado perto. Emocionante ao cubo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Foi, para mim, um momento único, histórico, seguramente uma das entrevistas mais sensacionais que fiz nestes quase 16 anos de jornalista. O show, na noite seguinte, só veio confirmar essa impressão.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas por que estou dizendo que tem dias que metade de tudo dá dramaticamente errado? É que saí lá do camarim eletrizado, doido para transcrever a longa conversa na íntegra, suspiro por suspiro, tinindo trincando. E só aqui em casa fui descobrir que, por alguma bisonha trapalhada minha, apenas um minuto e 38 segundos de tudo que aconteceu ali ficou registrado no meu tecnologiquíssimo gravadorzinho.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Foi tudo espetacular, literalmente. com exceção desse "pequeno" detalhe que me faz passar o dia inteiro desde então com um nó na garganta e uma bruta vontade de chorar. Tipo criança que perde a figurinha que faltava para completar o álbum, sabe? Ee só não chorei até agora, acho, porque a raiva é ainda maior que o desconsolo. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tem dias que quase tudo dá certo - mas vá explicar isso para o seu fígado...&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/8578073-4012465045749197546?l=pedroalexandresanches.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8578073/posts/default/4012465045749197546'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8578073/posts/default/4012465045749197546'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://pedroalexandresanches.blogspot.com/2010/03/meu-coracao-bate-e-apanha-num-teleco.html' title='meu coração bate (e apanha) num teleco-teco...'/><author><name>Pedro Alexandre Sanches</name><uri>http://www.blogger.com/profile/07131381196986635010</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-8578073.post-6583496153694923178</id><published>2010-03-06T10:36:00.003-03:00</published><updated>2010-03-06T13:26:53.868-03:00</updated><title type='text'>madame diz que a raça não melhora</title><content type='html'>E aí o Ruy Castro quer homenagear o Johnny Alf.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E aí escreve um texto quase totalmente concentrado em provar que não, não houve racismo ("racismo", entre aspas, ele diz) comtra Johnny Alf.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Cita o êxito de Baden Powell, Jorge Ben, Paulo Moura e Gilberto Gil para demonstrar que Johnny Alf não amargou racismo. Tipo assim, a existência do Pelé prova que não existe racismo no brasil, manja?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Conclusão do Ruy Castro? Johnny Alf não foi reconhecido em vida como merecia por culpa... dele próprio!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Única e exclusivamente por conta de si próprio foi que Johnny Alf morreu sozinho num asilo modesto num subúrbio da "grande" São Paulo. (A propósito, registre-se aqui o nome de um cara que fazia assessoria de imprensa e foi crucial para ele no final da vida: &lt;span style="font-weight:bold;"&gt;Nelson Valencia&lt;/span&gt;.)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E não é que Ruy Castro, nesta manhã chuvosa, se converte no DEMóstenes Torres da bossa nova?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;P.S.: Além de negro, Johnny Alf era homossexual. Ao que consta, não havia muitos na bossa nova.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/8578073-6583496153694923178?l=pedroalexandresanches.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8578073/posts/default/6583496153694923178'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8578073/posts/default/6583496153694923178'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://pedroalexandresanches.blogspot.com/2010/03/madame-diz-que-raca-nao-melhora.html' title='madame diz que a raça não melhora'/><author><name>Pedro Alexandre Sanches</name><uri>http://www.blogger.com/profile/07131381196986635010</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-8578073.post-8854518697831927696</id><published>2010-03-04T20:21:00.002-03:00</published><updated>2010-03-04T20:23:48.182-03:00</updated><title type='text'>johnny alf (1929-2010)</title><content type='html'>&lt;a onblur="try {parent.deselectBloggerImageGracefully();} catch(e) {}" href="http://3.bp.blogspot.com/_-QmIbP1qLeY/S5BAdK1kcbI/AAAAAAAAAZ0/CAM0aEAaSkw/s1600-h/Johnny+Alf.jpg"&gt;&lt;img style="display:block; margin:0px auto 10px; text-align:center;cursor:pointer; cursor:hand;width: 400px; height: 367px;" src="http://3.bp.blogspot.com/_-QmIbP1qLeY/S5BAdK1kcbI/AAAAAAAAAZ0/CAM0aEAaSkw/s400/Johnny+Alf.jpg" border="0" alt=""id="BLOGGER_PHOTO_ID_5444922819360354738" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;Muito simbólico que ele, príncipe negro da bossa branca (e/ou branqueada), tenha morrido justamente quando o Supremo Tribunal Federal discutia a ação &lt;b&gt;afirmativa&lt;/b&gt; de instituir cotas para estudantes negros nas universidades brancas do Brasil. Não haverá parentes para velar seu corpo.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/8578073-8854518697831927696?l=pedroalexandresanches.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8578073/posts/default/8854518697831927696'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8578073/posts/default/8854518697831927696'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://pedroalexandresanches.blogspot.com/2010/03/johnny-alf-1929-2010.html' title='johnny alf (1929-2010)'/><author><name>Pedro Alexandre Sanches</name><uri>http://www.blogger.com/profile/07131381196986635010</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://3.bp.blogspot.com/_-QmIbP1qLeY/S5BAdK1kcbI/AAAAAAAAAZ0/CAM0aEAaSkw/s72-c/Johnny+Alf.jpg' height='72' width='72'/></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-8578073.post-7845662884432073172</id><published>2010-02-27T19:27:00.000-03:00</published><updated>2010-02-27T19:35:19.849-03:00</updated><title type='text'>zumbi é o senhor das demandas</title><content type='html'>Estava aqui lendo na (excelente) revista "Fórum" uma entrevista com o antropólogo Kabengele Munanga. Como o nome pode sugerir, ele é negro, nigérrimo, veio do antigo Zaire e milita na branquíssima USP desde 1975.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Muitos trechos da fala do Kabengele (que nome mais lindo, meu Zeus!) me fizeram remeteram à polêmica recente sobre o(s) homofóbico(s) do "Big Brother Brasil", que muito me agrediu e ofendeu.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Copio esses trechos abaixo, e proponho sua cumplicidade de lê-los não só sob a ótica crucial do racismo e da discriminação racial, mas também sob as óticas-irmãs-gêmeas da homofobia e da discriminação por orientação sexual, da misoginia e da discriminação por gênero. Quase sempre bate, é tudo muito semelhante. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Levando Kabengele ao BBB (onde ele já está, via USP ou o que for), "racismo" pode virar "homofobia". Onde se lê "negro" pode-se&lt;br /&gt;ler "homossexual" ou "bissexual", onde se vê "branco (macho adulto sempre no comando)" pode-se ver "heterossexual (homem e mulher)". A insinuação de que racistas são os que se queixam de racismo você pode substituir por esse papo furado tétrico sobre "heterofobia".&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas, onde o Kabengele fala "educação", pode ler "educação" mesmo, em qualquer caso.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;1&lt;br /&gt;"Lembro que meu filho mais velho, que hoje é ator, quando comprou o primeiro carro dele, não sei quantas vezes ele foi parado pela polícia. Sempre apontando a arma para ele para mostrar o documento. Ele foi instruído para não discutir e dizer que os documentos estavam no porta-luvas, senão podiam pensar que ele ia sacar uma arma. Na realidade, era suspeito de ser ladrão do próprio carro que ele comprou com o trabalho dele. Meus filhos até hoje não saem de casa para atravessar a rua sem documento. São adultos e criaram esse hábito, porque até você provar que não é ladrão... A geografia do seu corpo não indica isso. Então essa coisa de pensar que a diferença é simplesmente social, é claro que o social acompanha, mas e a geografia do corpo? Vai junto com o social, não tem como separar as duas coisas."&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;2&lt;br /&gt;"Cada vez que se toca nas políticas concretas de mudança, vem um discurso. Mas você não resolve os problemas sociais somente com a retórica. Quanto tempo se fala da qualidade da escola pública? Estou aqui no Nrasil há 34 anos. Desde que cheguei aqui, a escola públca mudou em algum lugar? Não, mas o discurso continua. 'Ah, é só mudar a escola pública.' Os mesmos que dizem isso colocam os seus filhos na escola particular e sabem que a escola pública é ruim. Poderiam eles, como autoridades, dar melhor exmplo e colocar os filhos deles em escola pública e lutar pelas leis, bom salário para os educadores, laboratórios, segurança. Mas a coisa fica só na retórica."&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;3 (e aqui entra o "BBB")&lt;br /&gt;"O racismo é uma ideologia. A ideologia só pode ser reproduzida se as próprias vítimas aceitam, a introjetam, naturalizam essa ideologia. Além das próprias vítimas, outros cidadãos também, que discriminam e acham que são superiores aos outros, que têm direito de ocupar os melhores lugares na sociedade. (...) Há negros que introjetaram isso, que alienaram sua humanidade, que acham que são mesmo inferiores e o branco tem todo o direito de ocupar os postos de comando. (...) A educação é um instrumento muito importante de mudança de mentalidade e o brasileiro foi educado para não assumir seus preconceitos. (...) O brasileiro nunca vai aceitar que é preconceituoso. Foi educado para não aceitar isso. Como se diz, na casa de enforcado não se fala de corda. Quando você está diante do negro, dizem que tem que dizer que é moreno, porque se disser que é negro, ele vai se sentir ofendido. O que não quer dizer que ele não deve ser chamado de negro. Ele tem nome, tem identidade, mas quando se fala dele, pode dizer que é negro, não precisa branqueá-ló, torná-lo moreno. O brasileiro foi educado para se comportar assim, para não falar de corda em casa de enforcado. &lt;b&gt;Quando você pega um  brasileiro em flagrante de prática racista, ele não aceita, porque não foi educado para isso. Se fosse um americano, ele vai dizer: 'Não vou alugar minha casa para um negro'. No Brasil, vai dizer: 'Olha, amigo, você chegou tarde, acabei de alugar'. Porque a educação que o americano recebeu é pra assumir suas práticas racistas, pra ser uma coisa explícita. (...) Muitas vezes o brasileiro chega a dizer ao negro que reage: 'Você que é complexado, o problema está na sua cabeça'.&lt;/b&gt;"&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;4&lt;br /&gt;"Mas qual é o problema desse jogador de futebol? São pessoas vítimas do racismo que acham que agora ascenderam na vida e, para mostrar isso, têm que ter uma loira que era proibida quando eram pobres? Pode até ser uma explicação. Mas essa loira não é uma pessoa humana que pode dizer não ou sim e foi obrigada a ir com o King Kong por causa de dinheiro? Pode ser, quantos casamentos não são por dinheiro na nossa sociedade? A velha burguesia só se casa dentro da velha burguesia. Mas sempre tem pessoas que desobedecem as normas da sociedade. Essas jovens brancas, loiras, também pulam a cerca de suas identidades para casar com um negro jogador. Por que a corda só arrebenta do lado do jogador de futebol? No fundo, essas pessoas não querem que os negros casem com suas filhas. É uma forma de racismo. (...) São seres humanos que, pelo próprio processo de colonização, de escravidão, a essas pessoas foi negada sua humanidade. Pra poder se recuperar, ele tem que assumir seu corpo como negro. Se olhar no espelho e se achar bonito ou se achar feio. É isso o orgulho negro. E faz parte do pocesso de se assumir como negro, assumir seu corpo que foi recusado. (...) &lt;b&gt;O branco não tem motivo para ter orgulho branco porque ele é vitorioso, está lá em cima. O outro que está lá baixo que deve ter orgulho, que deve construir esse orgulho para poder se reerguer.&lt;/b&gt;"&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;5&lt;br /&gt;"Em outros países, não teria essa conversa de que no campo de futebol vale. O pessoal pune mesmo. Mas aqui, quando se trata do negro... Já ouviu caso contrário, de negro que chama branco de macaco? Quando aquele delegado prendeu o jogador argentino [&lt;i&gt;por racismo&lt;/i&gt;] no caso do Grafite, todo mundo caiu em cima. Os técnicos, jornalistas, esportistas, todo mundo dizendo que é assim no futebol. Então a gente não pode educar o jogador de futebol, tudo é permitido? Quando há violência física, eles são punidos, mas isso aqui é uma violência também, uma violência simbólica. Por que a violência simbólica é aceita e a violência física é punida?"&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;6&lt;br /&gt;"A imprensa faz parte da sociedade. Acho que esse discurso do mito da democracia racial é um discurso também que é absorvido por alguns membros da imprensa. Acho que há uma certa tendência na imprensa pelo fato de ser contra as políticas de ação afirmativa, sendo que também não são muito favoráveis a essa questão da obrigatoriedade do ensino da história do negro na escola. Houve (...) a II Conferência Nacional de Promoção da Igualdade Racial. Silêncio completo da imprensa brasileira. Não houve matérias sobre isso. O silêncio faz parte do dispositivo do racismo brasileiro. Como disse Elie Wiesel, o carrasco mata sempre duas vezes. A segunda mata pelo silêncio."&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/8578073-7845662884432073172?l=pedroalexandresanches.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8578073/posts/default/7845662884432073172'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8578073/posts/default/7845662884432073172'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://pedroalexandresanches.blogspot.com/2010/02/zumbi-e-o-senhor-das-demandas.html' title='zumbi é o senhor das demandas'/><author><name>Pedro Alexandre Sanches</name><uri>http://www.blogger.com/profile/07131381196986635010</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-8578073.post-9134790920657006263</id><published>2010-02-23T19:14:00.000-03:00</published><updated>2010-02-23T19:14:51.420-03:00</updated><title type='text'>caminhando e cantando e carregando caixa</title><content type='html'>Esta foi a estreia da minha coluna "Paçoca" na "Caros Amigos", na edição 154, de janeiro de 2010. A segunda já está nas bancas, a terceira já está escrita. E eu confesso que estou adorando essa história!!!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;b&gt;PAÇOCA&lt;br /&gt;Pedro Alexandre Sanches&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;"Caminhando e cantando e carregando caixa"&lt;/b&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;b&gt;O palco&lt;/b&gt; está montado sob uma lona de circo, e a estrutura de picadeiro borra a distinção entre palco e plateia. O palco ainda fica um nível acima (seriam semideuses os astros pop?), mas a plateia a todo momento parece que vai subir, tomar de assalto a ribalta, raptar a esposa do palhaço, roubar o show.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Uma moça de pele escura, aspecto hippie e graciosos gestos de bailarina oriental dança concentrada diante do palco, um degrau abaixo, não importa que estilo musical esteja passando ali por cima. Tece evoluções com o auxílio de uma canga, e na canga que dança mais que a moça está inscrita em letras garrafais a palavra Brasil.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;*&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;b&gt;O circo&lt;/b&gt; está armado na cidade de Vitória, e o que evolui no palco é um festival de rock, integrado à programação do II Fórum de Mídia Livre. No picadeiro e nos auditórios da Universidade Federal do Espírito Santo, onde acontece o encontro, alternam-se músicos sem-gravadora, jornalistas sem-jornalão, fazedores de mídia sem Globo. Um globo da morte faria as vezes de cabine para os DJs, mas, que pena, os circenses donos da lona precisaram dele para outro evento.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Jards Macalé sobe ao palco para se apresentar com um jovem grupo capixaba, Sol na Garganta do Futuro. Macalé gosta da molecada, é daqueles artistas que preferem atravessar fronteiras geracionais a morar isolados em globos blindados no centésimo andar. Põe seu clássico “Vapor Barato” na garganta do futuro e retribui com uma versão bem peculiar de “Diz Que Fui por Aí”, sucesso antigo na voz da carioca nascida no Espírito Santo Nara Leão. Para espanto de meus ouvidos e olhos acostumados com São Paulo, a plateia, formada majoritariamente por jovens, canta em coro os versos do samba de 1964.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;*&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;b&gt;“Anti-arte”&lt;/b&gt; é o negócio da banda Vitrola de 3, segundo um de seus integrantes, Felipe Costa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Sempre ouvi música árabe na casa do meu pai e da minha avó, porque eles são libaneses. A percussão é quebrada, é uma música nômade, de cigano, essa coisa toda de circo”, afirma o músico, esmiuçando o número circense-musical de sua trupe.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A Vitrola de 3 vem do interior do Espírito Santo, mais precisamente de Cachoeiro do Itapemirim. É a cidade onde nasceu um tal de Roberto Carlos – que, a propósito, cantava em circos no início de sua mais tarde platinada carreira. Também capixaba, de Alegre, era o ex-alfaiate Paulo Sérgio, que se tornou ídolo seguindo os passos bregapop de Roberto e morreu precocemente em 1980, aos 36 anos, após um derrame sofrido durante um show num... circo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ao final da apresentaçao da Vitrola de 3, pergunto a Felipe sobre o fantasma de Roberto Carlos. "Eu esculacho ele um pouquinho... Mas é bom saber que ele é de Cachoeiro." "Esculacha por que, em quê?", "não sei, isso mesmo de o cara... se acovardar talvez... de repente começa a achar que está bom, que vai pro céu, o cansaço que deve dar... Mas acho o som dele gostoso, quando ouço".&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;*&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;b&gt;Rock e homofobia&lt;/b&gt; costumam ser primos em primeiro grau, mas cá em Vitória uma travesti subirá ao palco e conquistará no muque um público rock’n’roll. Angela Jackson canta no duro, em geral paródias do tipo transformar o refrão de “A Lua Me Traiu”, da excelente Banda Calypso, em “a peruca caiiiiiiu”. “Eu nunca vi ainda uma travesti médica”, dispara a loirísisma cantora, ensaiando breve atitude de protesto em meio a um show de gargalhadas e aplausos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;*&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;b&gt;No auditório&lt;/b&gt;, o debate é sobre “a morte do pop star”. À mesa (da qual eu também participo), o produtor Pablo Capilé elabora belas imagens sobre os artistas “midialivristas” espalhados em rizomas horizontais, contra a árvore centenária e decadente chamada indústria musical. E eu penso nas Torres Gêmeas quando o vejo desenhar com as mãos a estrutura vertical caduca, demolida, pisoteada pelo presente efervescente que vivemos. Pablo, tez de índio mato-grossense, celebra o “artista-pedreiro” (“o artista-pedreiro entende que sucesso é pagar as contas”) e rega sua fala com uma frase genial: "Hoje o engajamento não é mais 'caminhando e cantando e seguindo a canção'. É 'caminhando e cantando e carregando caixa'”.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;*&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;b&gt;Paranaense&lt;/b&gt; radicado em São Paulo há 18 anos, me assombro com a constatação recorrente de que lugares que tenho visitado, como Vitória e Belém, respiram um vigor cultural esquecido pelo eixão Rio-São Paulo. Quando um roqueiro do Sol na Garganta do Futuro empunha de repente um violão, entendo que o pop e o rock, em Vitória, são moldados em MPB. Romperam diques e preconceitos que certas capitais tentam atravessar ainda constrangidas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Entendo em Vitória e em Belém que a adversidade é a grande riqueza brasileira. E torço para que, por isso, a cultura paulista volte em breve a ficar interessante. Afinal, São Paulo se isola cada vez mais e é vista de fora com desprezo e pena, e essas são as condições adversas de que terá de se safar, se não quiser submergir de vez no leito imundo do pobre rico rio Tietê.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;*&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;b&gt;Um garoto&lt;/b&gt; de 18 anos de idade quebra o barraco no picadeiro dos DJs. André Paste é um mestre precoce na arte do mashup – justaposição caótica de estilos, batidas e músicas que, em meia hora de som, se desenvolvem como se tudo fosse uma música só, feita de um milhão de deliciosos farelos. André recombina referências tão diversas quanto Djavu, Michael Jackson, funk carioca, kuduro africano, tecnobrega paraense, Cansei de Ser Sexy, Daniela Mercury, Novos Baianos, Fábio Jr. (a melô “Só Você”, dentro da qual se ouve o grito funkeiro “pau no cu do mundo!”), o hoje cult Luiz Caldas (“Haja Amor”), Wando, Olodum misturado com Guns n’Roses... Nenhuma toca do modo ortodoxo, começo-meio-fim; todas deixam gosto de quero-mais, no refrão que não chega ou passa rápido demais. O espetáculo não pode parar: depois do palhaço virão a trapezista, o domador, a cabra ciclista, a girafa seresteira.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Converso com André ao final de sua sensacional aparição. Seu sorriso se estende de orelha a orelha quando explica que, sem exagero, gosta de tudo, de todo tipo de música. Mas ele acha que, não, não tem futuro na música, não. Eu duvido, mas deixo-o partir na velocidade da luz – afinal é madrugada e amanhã André tem de acordar cedo para as provas do Enem.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O mais surpreendente é que a música para esse menino já não se divide em brasileira e estrangeira, “brega” e “chique”, binômios assim. André desliza numa explosão simultânea de excesso de liberdade e completa ausência de preconceitos. E esta, acredite, é a receita infalível para a grande música brasileira que virá nestes promissores anos 2010.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/8578073-9134790920657006263?l=pedroalexandresanches.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8578073/posts/default/9134790920657006263'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8578073/posts/default/9134790920657006263'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://pedroalexandresanches.blogspot.com/2010/02/caminhando-e-cantando-e-carregando.html' title='caminhando e cantando e carregando caixa'/><author><name>Pedro Alexandre Sanches</name><uri>http://www.blogger.com/profile/07131381196986635010</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-8578073.post-5194208020296903307</id><published>2010-02-19T18:34:00.002-02:00</published><updated>2010-02-20T10:48:14.613-02:00</updated><title type='text'>céu vermelho é o sangue das cores vistas nos arredores salpicadas de sol (*)</title><content type='html'>Estávamos aqui discutindo Luiz Gonzaga versus João Gilberto, então veio o carnaval e o Arnaud Rodrigues morreu afogado lá em Tocantins. Nada mais longe, mas repare só se não podemos continuar mais ou menos dentro de um mesmo macroassunto.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pelo que pude ver, "o humorista" Arnaud Rodrigues até que foi bem pranteado na "grande" mídia, mas em geral sobraram notas discretas para "o músico", "o compositor", "o cantor" Arnaud Rodrigues. O inverso parece acontecer na internet - é só você conferir, o blogspot está um jardim florido de lembranças musicais do Arnaud.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu fico com a blogosfera: ok, o humorista, mas Arnaud, pernambucano de Serra Talhada, foi um músico, compositor e cantor desconcertantemente original, em especial ao longo dos anos 1970.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Com seu conterrâneo nordestino (do Ceará) Chico Anysio, atravessou boa parte daquela década inventando música no conjunto de araque Baiano &amp; Os Novos Caetanos. Empenhados em tirar um barato de Caetano Veloso &amp; Gilberto Gil, Baiano (Chico) e Paulinho (Arnaud) faziam chanchada pura, mas a musicalidade por trás da chanchada, meu Deus do céu.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Houve um sujeito chamado Durval Ferreira, um carioca integrado às fileiras da bossa nova nos anos 1960. Liderou o conjunto samba-jazz Os Gatos, tocou com o Tamba Trio, acompanhou Leny Andrade, compôs com Maurício Einhorn e Bebeto Castilho, foi gravado por Claudette Soares. Participou da controversa apresentação da bossa nova no Carnegie Hall, em 1962. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nos anos 1970, trabalhou com Aloysio de Oliveira no disco "O Som Brasileiro de Sarah Vaughan" e foi diretor criativo de LPs de Nana Caymmi e do primeiro encontro discográfico entre Tom Jobim e Miúcha. É que tinha passado para o lado de trás das cortinas da criação musical - virou um diretor artístico de extração popular e orientou discos de "cafonas" (Odair José, Diana), emepebistas (Joanna), sambistas "puros" (Zé Keti, Aparecida, Beth Carvalho, Cartola, Martinho da Vila), sambistas "impuros" (Antonio Carlos &amp; Jocafi, Cesar Costa Filho, Eliana Pittman, Emílio Santiago), samba-soulzeiros (Silvio Cesar, Banda Black Rio) e forrozeiros (sim, ele mesmo, Luiz Gonzaga).&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Durval foi diretor artístico e produtor do espetacular LP de estreia de Baiano &amp; Os Novos Caetanos, "E?" (1974). A primeira faixa era "Vô Batê pa Tu", de Arnaud e Orlandivo (outro bossa-novista de pernas quebradas pelo excesso de identificação com a música mais popular). À época, era citação cifrada aos &lt;a href="http://pedroalexandresanches.blogspot.com/2009/06/simonal-e-ditabranca.html" target="_blank"&gt;episódios policiais protagonizados por Wilson Simonal&lt;/a&gt; ("deduração/ um cara que louco que dançou com tudo/ entregação do dedo de veludo"). Hoje, é clássico do samba-rock. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O "humor" ficou em primeiro plano, mas musicalmente o disco recombinava, de modo brilhante, forró, soul, funk, samba, samba-rock, samba-jazz, ciranda, folia de rei, toada, música caipira, canção cafona, modinha, MPB, faroeste, oração, rock, rock psicodélico... "Tributo ao Regional" fazia o que o título sugeria, sob a carpintaria de profundo lirismo. "Dendalei" encerrava o disco entre o cangaço e o faroeste, totalmente fora das leis (da bossa e da MPB universitária).&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sua sequência, "2" (1975), era tão brilhante quanto o primeiro, ou mais ainda. Era nova fornada de híbridas e suingadas canções (não-)nordestinas, como "Yo No Quiero Saber", "Sete Luas", "Entardecer na Fazenda", "Ciranda",  "Violamania" e a faixa de abertura, a supostamente humorística (e altamente samba-roqueira) "Perereca". Em "Ameriqueiro", o hibridismo musical se casava com seu oposto, o conservadorismo nacionalista, em versos como "não sou americano/ com meu pouco dinheiro/ eu sou brasiliano e se não me engano sou ameriqueiro", e "ave, ave, ave, música brasileira!".&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Os discos dos B&amp;NC ficam devendo no quesito informativo, mas a lista de músicos acompanhantes na contracapa do subproduto "Azambuja &amp; Cia" (1975) dá pistas sobre quem fazia o sustentáculo musical do "humorístico" conjunto. Trata-se de um verdadeiro quem-é-quem do lado mais suingado e suingueiro da pós-bossa nova: Durval Ferreira, Vitor Assis Brasil, Maurício Einhorn, o trio Azymuth (José Roberto Bertrami, Alex Malheiros e Mamão)... &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Bertrami é um dos arranjadores desse LP - o outro, José Menezes, fez história como herói modesto do frevo pernambucano. Ou seja, sem maiores ambições ou pretensões, os B&amp;NC buscavam reconciliar a bossa e o baião, 15 anos após "Bim Bom".&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O embate amoroso, por sinal, se estilhaçava em uma porção de outros equivalentes, Nesse "Azambuja &amp; Cia", uma faixa como "Negra Brechó", de Arnaud &amp; Anysio, faz-se elo improvável entre a psicodelia, a bossa nova, o samba-joia, a canção caipira e o candomblé. Sob as asas do Azymuth, ergue-se a ponte sobre-humana entre João Donato, Marcos Valle, Hyldon e Odair José. João Gilberto? Em algum lugar ele deve estar. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A proposta musical de Anysio &amp; Arnaud jamais se concretizou, e uma das imagens musicais derradeiras do futuro professor Raimundo talvez seja a dele indo à prisão, desconsolado, consolar Wilson Simonal (descendente improvável de africanos e judeus, como demonstra Ricardo Alexandre no livro "Nem Vem Que Não Tem", esse era o híbrido dos híbridos).&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Os discos com Chico Anysio deram asas à criatividade de Arnaud Rodrigues como nunca antes ou depois ele voaria, mas nas duas pontas ele construiu trabalhos solo no mínimo intrigantes. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Estreou solo em 1970, num disco de nome enigmático ("Sound &amp; Pyla ou Homenagem do 'A' ao 'Z'), todo trabalhado na influência da pilantragem de Simonal. Aí mesmo ele talvez definisse, desde o princípio, uma posição à margem da MPB "vencedora". Dizem que Tom Jobim era fã de Simonal, mas durante décadas pareceu que ele fosse talvez o único.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Em seguida veio "Murituri" (1974), de capa altamente psicodélica, conteúdo aveludado em black music indígena e parceria com outro quase-bossa-novista favorito da blogosfera, Arthur Verocai, em "Conscachá, Fimará (Magnífico)".&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No pós-B&amp;NC, vieram "Som do Paulinho" (1976), em que Arnaud se declarava "Índio do Uraguai", e ""Redescobrimento" (1979), em que a Banda Black Rio comandava os metais e os Azymuth ganhavam a companhia samba-funk sintetizada de Lincoln Olivetti &amp; Robson Jorge, antiJobins espetados de vodu dos anos 1980. Os B&amp;NC ainda voltaram e fizeram dois discos menos reluzentes, em 1982 e 1985, mas é muita história pra dar conta aqui.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Aqueles que não apreciam mirar a música popular pela ótica da briga dirão que resta aí, provada nos discos do duo Anysio &amp; Arnaud, a tese da harmonia entre gêneros musicais diferentes como água &amp; óleo. De fato, na obra de gente como Arnaud Rodrigues, óleo &amp; água se misturaram e desceram redondos pelas gargantas de quem bebadosamba. Mas, repito, a proposta de ambos jamais se concretizou, ou pelo menos não se traduziu em aceitação de suas qualidades, muito pelo contrário.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Como se sabe, um muro de Berlim ergueu-se bem no meio do ofício que Arnaud dominava como quem masca um trevo de quatro folhas (tal muro foi, diga-se, em grande medida cimentado pela minha classe, a dos jornalistas plantados no coração - ou nos calcanhares e nas botas - da "grande" mídia). Até hoje, Antonio Brasileiro Jobim é maestro soberano. E Arnaud Rodrigues é mais lembrado como humorista cearense (embora nascido em Pernambuco), ou como o cantor cego (o assum preto) que pedia esmola na porta da igreja global de "Roque Santeiro".&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(*) O título deste tópico é um verso de "Entardecer na Fazenda" (1975), tudo a ver com um índio mestiço que um dia iria morrer nas águas do Tocantins, bem longe do concreto bandeirante que matou por asfixia o Anhangabaú, o Tietê e o Aricanduva.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;P.S. em 20 de fevereiro de 2010: acaba de surgir um P.S. no tópico lá de baixo, &lt;a href="http://pedroalexandresanches.blogspot.com/2010/02/furaro-os-oio-do-assum-preto.html" target="_blank"&gt;furaro os óio do assum preto&lt;/a&gt;, espia.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/8578073-5194208020296903307?l=pedroalexandresanches.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8578073/posts/default/5194208020296903307'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8578073/posts/default/5194208020296903307'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://pedroalexandresanches.blogspot.com/2010/02/ceu-vermelho-e-o-sangue-das-cores.html' title='céu vermelho é o sangue das cores vistas nos arredores salpicadas de sol (*)'/><author><name>Pedro Alexandre Sanches</name><uri>http://www.blogger.com/profile/07131381196986635010</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-8578073.post-8994675910981253398</id><published>2010-02-19T01:50:00.004-02:00</published><updated>2010-02-22T15:49:19.289-03:00</updated><title type='text'>sinal fechado, fio maravilha 2: quem é do mar não enjoa</title><content type='html'>P.S. de 22 de fevereiro de 2010: o &lt;span style="font-weight:bold;"&gt;Lauro&lt;/span&gt; levantou a lebre, eu fiquei aqui batendo cabeça sobre como emendar e o óbvio logo ficou ululante. Não tem remendo, o jeito é dizer que, abaixo, onde você lê "Paulinho da Viola", o que deveria estar escrito era "Martinho da Vila". Não foi o PdaV, mas sim o MdaV, que disse o que disse sobre o governo Lula. (Já a frase "não quero ser aceito, eu sou o que sou, negro", está certa, foi dita mesmo pelo Paulinho da Viola.)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A escorregada no sabão está dada, não há perdão, e onde os jornais diriam "erramos" eu digo "ERREI!!!". E o erro não diminui com o "ERREI", mas pelo menos o "ERREI" fica na cabeça do texto, e não no pé da página, como os "erramos" tradicionais. E eu já começo a lembrar o canto de Ataulfo Alves: "Venho ao tribunal da minha consciência/ como réu confesso, peço clemência/ o meu erro é bem humano, é um crime que não evitamos/ esse princípio alguém jamais destrói/ errei, erramos".&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(fim do P.S.)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E olha só, não é que um e outro artista da música brasileira andam saindo da toca e demonstrando em público pitadas daquilo que pensam politicamente?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No jornal "Brasil Econômico" de 6 de fevereiro de 2010, a Phydia de Athayde conduziu um encontro histórico entre Paulinho da Viola e Martinho da Vila - não me lembro de ter lido isso antes em qualquer lugar que seja. E Paulinho, não só formulou uma formidável frase: "Não quero ser aceito, eu sou o que eu sou, negro". Como também respondeu o seguinte à Phydia, quando ela perguntou se o Brasil melhorou com Lula:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;"O Brasil deu um salto histórico que nunca havia dado. O Lula é tão forte que ninguém consegue bater. Pegam uma história aqui, outra alli, mas a verdade e que a pobreza diminuiu, o Brasil avançou e, internacionalmente, hoje é outra coisa. Antes, não havia ministro negro no Brasil. Com o Lula, já tivemos o Gilberto Gil, o Orlando Silva, mulheres ministras. Fizemos uma revolução, como também os Estados Unidos ao colocar um negro na Presidência, só que a nossa foi tão grande ou maior: colocamos um operário nordestino na Presidência. Acho, inclusive, que ele foi grande ao não aceitar o terceiro mandato. Adorei - até porque, se ele quisesse, teria -, mas, se eu fosse ele, não interfifiria na eleição. Deixaria a campanha correr".&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E ontem em seu &lt;a href="http://www.revistaforum.com.br/sitefinal/blog/" target="_blank"&gt;blog&lt;/a&gt; o Renato Rovai, editor da revista "Fórum", contou a seguinte historinha:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;"Na sexta à noite, Jorge Ben Jor vai fazer um show para os petistas que participam do Congresso do partido, que acontece desde hoje pela manhã no auditório Ulisses Guimarães, em Brasília. A negociação que o levou a aceitar o convite foi bastante inusitada. Alguns músicos recusaram a 'distinção' porque não queriam ter seus nomes associados a um partido político. Com Ben Jor foi diferente. Ele aceitou, mas impôs uma condição: ter 15 minutos de prosa a sós com o presidente Lula".&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E aquele chavão velho como Matusalém e repetido à náusea, de que engajamento na arte é igual a arte panfletária, chata, sorumbática? Não me engana que eu não gosto.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/8578073-8994675910981253398?l=pedroalexandresanches.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8578073/posts/default/8994675910981253398'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8578073/posts/default/8994675910981253398'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://pedroalexandresanches.blogspot.com/2010/02/sinal-fechado-fio-maravilha.html' title='sinal fechado, fio maravilha 2: quem é do mar não enjoa'/><author><name>Pedro Alexandre Sanches</name><uri>http://www.blogger.com/profile/07131381196986635010</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-8578073.post-6782459830623506978</id><published>2010-02-11T20:27:00.001-02:00</published><updated>2010-02-20T10:46:32.477-02:00</updated><title type='text'>furaro os óio do assum preto</title><content type='html'>Ultimamente, não há nada que eu ouça mais e com maior prazer que Luiz Gonzaga. Graças à internet (e ao roubo, diria a Sony, que guarda e não reedita o baú do Gonzagão), sua obra completa voltou à ampla, geral e irrestrita circulação para quem se interesse por ela. E ouvir Gonzagão de fiá pavi só tem feito me maravilhar, espantar e deixar boquiaberto.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas o que me traz até aqui agora é que se abriu uma controvérsia lá no blog do Luis Nassif, sobre a relevância ou não do "Bim Bom" do João Gilberto, aquele tum-tum que diz assim que "é só isso meu baião/ e não tem mais nada, não..." Acabou que dei pitaco no &lt;a href="http://colunistas.ig.com.br/luisnassif/2010/02/11/bim-bom-a-celebracao-de-uma-bobagem/comment-page-1/#comment-951555" target="_blank"&gt;"Bim Bom" do Nassif&lt;/a&gt;, e quero trazer a história aqui pra casa também.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O texto do Nassif me fez sedimentar algo que andava boiando meio perdido por aqui: eu apostaria, com razoável chance de errar, que a voz macia de João Gilberto em "Bim Bom" estava mais era espetando uma farpa bem pontuda no coração do Luiz Gonzaga, com esse negócio de "é só isso meu baião/ e não tem mais nada, não" batucado em seu discreto e depois mitológico violão.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quase nunca se fala isto abertamente, mas a bossa nova ODIAVA o baião personificado à perfeição na figura de "rei" Gonzagão. Ruy Castro, na biografia da bossa "Chega de Saudade", vem em meu socorro para demonstrá-lo, como se não houvesse milhares de outros indícios.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Primeiro, Ruy afirma que o baião era "aquele ritmo que, para alguns, só servia como coreografia para se matar uma barata no canto da sala". Esse "para alguns", se você não sabe, é cacoete muito utilizado por jornalistas quando querem(os) defender uma posição, mas não podem(os) ou não tem(os) coragem de afirmar pela própria boca. Daí até Tom Jobim, João Gilberto, Bden Powell, Johnny Alf e João Donato concordarem, vai longa distância, mas não dá pra negar que o livro do Ruy Castro exprime bastante bem um conjunto de sensos comuns sobre a bossa nova.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Páginas depois, ele volta à carga e ataca, dessa vez frontalmente, o pobre baião. E começa por celebrar "Chega de Saudade" como o disco que, "de passagem, acabou também com aquela infernal mania nacional pelo acordeão".&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(É verdade: se você viu "O Homem Que Engarrafava Nuvens", filme do Lírio Ferreira sobre Humberto Teixeira, certamente notou aquela cena impagável em que uma pequena multidão de senhoritas do café soçaite se apresenta em grupo, cada uma delas empunhando uma garbosa sanfoninha.)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E Ruy Castro dá a martelada final: "Hoje parece difícil de acreditar, mas vivia-se sob o império daquele instrumento. E o pior é que não era o acordeão de Chiquinho, Sivuca e muito menos o de Donato - mas as sanfonas cafonas de Luiz Gonzaga, Zé Gonzaga, Velho Januário, Mário Zan, Dilu Melo, Adelaide Chiozzo, Lurdinha Maia, Mário Gennari Filho e Pedro Raimundo, num festival de rancheiras e xaxados que parecia transformar o Brasil numa permanente festa junina".&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Como comentei lá no Nassif, os "cafonas" citados por ele são gente do, er, povo, fazendo música do e para o povo. E, de fato, suas sanfonas foram erradicadas como baratas pelo detefon chamado bossa nova. Na mesma borrifada foram triângulos e zabumbas, e quase se foi também Gonzagão em pessoa. Ele, no entanto, perdurou mais três décadas, lançando um milhão de discos até morrer em 1989.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Taí, alguém ainda vai algum dia estudar a sério esse cisma de classes sociais que a bossa instalou (ou aprofundou?) na música brasileira, e que persistiu longas e cansativas décadas (ainda persiste?).&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Era um movimento essencialmente carioca, de apartamento, como todo mundo sempre repete. Mas a bossa trazia em seu fulcro João Gilberto, um baiano (há quem diga - ops, olha eu usando o cacoete! - que o nome "baião" era uma corruptela de "baiano"), um baiano do sertão, de Juazeiro, quase Pernambuco. Lula Gonzaga, é notório, nasceu sertanejo pernambucano (quase no Ceará, mas ainda pernambucano).&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E foi esse João, baiano do interior entrosado entre civilizados cariocas, quem intensificou a guerra de classes sociais naquilo que ainda viria a se chamar MPB - para designar a música "fina" e bem menos popular que o pop de baiões, sambas, rancheiras, guarânias, xaxados, cocos, bregas, cafonas etc. etc. etc.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pois se um dia alguém ainda vai ou não vai estudar essa estranha história a fundo é questão de aguardar (ou quem sabe faz a hora?). Mas, hoje mesmo, no presente, tem gente enfrentando na prática essa pinimba. Temos aqui o Marcelo Jeneci se esbaldando com muita elegância na sanfona, mas, só pra variar, o grosso tem vindo de dentro pra fora, com David Byrne cantando "Asa Branca" em inglês, paramentado com chapéu gonzaguiano de cangaceiro. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;É lá em Niuorque que se formou o grupo Forró in the Dark, de brasileiros exilados que se dedicam exclusivamente a reler o baião (mas sem sanfona, por razões que tento beliscar num texto escrito para a revista da "Gol"; em breve colo ele aqui) - é em companhia deles que Byrne desempenha o cangaceiro primeiro-mundista.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E, mais, Bebel Gilberto também participa do levante do Forró in the Dark, cantando uma versão meio bossa de "Juazeiro", em português e em inglês. "Juazeiro, meu destino tá ligado junto ao teu", diz a letra de Humberto Teixeira que se refere à árvore, e não à cidade natal do pai de Bebel.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E ainda por cima ela canta, em seu disco mais recente (o excelente "All in One"), o (não-)baião "Bim Bom" de pai João. Estaria a filha do enlace da bossa com a MPB tentando reconciliar o pai e vovô Gonzagão?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eita, que tem assunto pra mode Freud se refestelar aí!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;P.S. em 20 de fevereiro de 2010: para apimentar um pouco mais o debate, olha só o que chegou até aqui!, trazido pelo &lt;span style="font-weight:bold;"&gt;Airthon&lt;/span&gt;:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;object width="425" height="344"&gt;&lt;param name="movie" value="http://www.youtube.com/v/hYjYi4H78p8&amp;hl=pt_BR&amp;fs=1&amp;"&gt;&lt;/param&gt;&lt;param name="allowFullScreen" value="true"&gt;&lt;/param&gt;&lt;param name="allowscriptaccess" value="always"&gt;&lt;/param&gt;&lt;embed src="http://www.youtube.com/v/hYjYi4H78p8&amp;hl=pt_BR&amp;fs=1&amp;" type="application/x-shockwave-flash" allowscriptaccess="always" allowfullscreen="true" width="425" height="344"&gt;&lt;/embed&gt;&lt;/object&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/8578073-6782459830623506978?l=pedroalexandresanches.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8578073/posts/default/6782459830623506978'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8578073/posts/default/6782459830623506978'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://pedroalexandresanches.blogspot.com/2010/02/furaro-os-oio-do-assum-preto.html' title='furaro os óio do assum preto'/><author><name>Pedro Alexandre Sanches</name><uri>http://www.blogger.com/profile/07131381196986635010</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-8578073.post-2465807072060924763</id><published>2010-02-08T17:58:00.000-02:00</published><updated>2010-02-08T17:58:17.141-02:00</updated><title type='text'>o divã</title><content type='html'>Na madrugada de despedida do cruzeiro "Emoções em Alto Mar", eu tive um baita pesadelo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não foi o mais bonito que eu tive em toda a minha vida, mas foi um desses sonhos transparentes feito água, daqueles que Freud explica tintim por tintim (oba, tenho assunto à beça pra conversar com minha terapeuta na próxima sessão!).&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sonhei que estava sozinho no convés e avistava na popa do navio, lá longe..., em osso e osso..., Ela..., a Morte.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A Famigerada me aparecia no figurino pop-clássico, de animador de crianças na Disney fanstasiado em túnica preta da cabeça aos pés, mais a célebre máscara tipo "Pânico" ("Pânico na TV", não "Pânico" no cinema).&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu olhava na cara branca dEla, Ela olhava na minha, mais pálida que nunca apesar do sol escaldante no convés. Ela virava de costas e subia as escadas para o deck de cima. Me vinha a certeza de que Ela ia me alcançar, e eu morria de pânico. Mas ia atrás dela mesmo assim.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Subia as escadas, a cena se repetia, eu via a Moléstia lá de longe, a Peste outra vez me encarava ameaçadora, eu ao mesmo tempo congelava, me sentia atraído e esboçava o gesto de fugir.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas agora Ela falava, sei lá eu com que voz: "Desta vez não é a Gal C. Desta vez é a Elis R.".&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(Gal C. e Elis R., no caso, são pseudônimos de duas pessoas - mulheres - da minha família, muito amadas e importantíssimas para mim.)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Vinha um corte hollywoodiano e eu via, qual num cinemão drive-in a bordo, minha adorada Elis R. tendo um ataque cardíaco e morrendo fulminada pelo poder da sentença da Dona da Foice. E eu me punha a correr pelas ruas (uai, mas eu não estava num navio?), chorando feito menino correndo que via o tempo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nem preciso contar que acordei de imediato, coração descompassado, suando e assustado, preciso?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Afora o toque histriônico da morte com máscara de "Pânico", esse parque de diversões em forma de pesadelo foi o que bastou pra tombar as máscaras de tudo que eu não estava querendo ver nos dias todos de emoções à beira-mar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;São muitas, as imagens da Morte, dentro de um cruzeiro atlântico ou transatlântico.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Desde os naufrágios cinematográficos no infame "Titanic", com a trilha sonora tumular de Whitney H., e no fantasmagórico "O Destino do Posseidon", mito total da minha infância. Até o fato de ser uma representação de tumba em si propriamente dita a experiência de estar confinado num navio, ainda que seja um de 14 andares, gigantesco, feérico e habitado por quase 4 mil almas, como era o caso desse Costa Concordia. O conforto e o glamour são consideráveis, mas a gente não esquece um só minuto que pode afundar a qualquer segundo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(Parece até o planeta Terra, um navio, não parece?)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Fazendo lé com cré deitado na cama macia, fui vendo que mais imagens mortíferas me perseguiram aos bandos nesses dias de quase-férias. Coincidência ou subconsciência, levei a bordo para ler nas horas vagas a biografia de uma morta, Clarice Lispector (essa nova, do genial título "Clarice," - Clarice-vírgula-sem-continuação), e uma edição compacta do Teatro Completo de Nelson Rodrigues, todo ele repleto de falecidas, natimortas, mórbidas, anjas negras e mulheres penadas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(Afinal, por que é que a Morte, do modo como a mitificamos, é invariavelmente uma Mulher, hein? &lt;b&gt;Não&lt;/b&gt; somos machistas?)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Chegando mais perto dos motivos e arabescos da viagem, ribombava também atrás dos olhos a parcela preponderante de passageiros: mulheres (e alguns homens) de meia ou alta idade unida(o)s pela paixão avassaladora por seu ídolo, Roberto Carlos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sabe aquele muxoxo meio de escárnio que as pessoas esboçam (eu próprio acalento esse preconceito, tenho de admitir) quando se fala num show do "Rei", pela presença maciça de senhorinhas e velhinhas? Pois no navio era isso promovido à décima terceira potência e acrescido do vasto repertório de trajes de gala empunhados por idosas, jovens senhoras e mocinhas (além de um e outro mancebo). &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Na cereja do bolo, muitos tititis sobre saúde: cadeiras de roda, mal-estares, palpitações, artroses, esposas falecidas, paralisias, cirurgias, cânceres etc. Por esse ângulo quase me senti numa novela de Manoel Carlos (com a breve diferença de que o cruzeiro era divertido e não se passava dentro de um hospital).&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Diante do pesadelo da Morte, fui forçado a reconhecer quão escandalizado eu tinha estado, o tempo todo, pela simples presença de tantas e tantas e tantas personagens rodrigueanas que desfilvam seus cabelos brancos, amarelos e acajus diante de mim. Aqui fora, é fácil a gente se segregar por critérios de faixa etária; lá dentro, a boate Lisbona era triste e solitário reduto onde se asilavam "jovens" assustadiços, daqueles que "não gostam" de velhos pelo prosaico fato de &lt;b&gt;não&lt;/b&gt; saberem que serão iguais a eles depois de amanhã (nos meus indecisos 41 anos, me vejo na pinguela de não me adaptar nem ali, nem acolá, o que pode ser mais indigesto e causar mais pesadelo que comer bacon na ceia...).&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Logo vi que o detonador imediato do sonho aparentemente ruim foi uma cena que tinha ficado admirando pouco antes de ir dormir, num parapeito do alto do pátio da piscina onde se aguardava a presença carnavalesca da Beija-Flor. Esquentando os tamborins, uma jovem negra cantava (bem) sambas de Zeca P., Clara N. e Beth C. E, no chão, uma única senhora idosa sambava, as costas levemente encurvadas, o vestido longo roxo (e discreto, e elegante, e bonito), uma bolsinha prateada pendendo numa das mãos. Dançava e rodava, nem aí pra saber se tinha ou não mais alguém sambando ao redor. Sambava do jeitinho dela, mas a dancinha dela era das coisas mais fofas que já vi nesta Vida.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não sei se sei explicar, mas foi ela que me despertou do "país de maravilhas" em que eu, Alice C., estava vivendo até então no navio.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas, voltando à última madrugada. O sonho da Desgraçada acabou, e com ele também o sono. Rolei na cama até decidir, ora bolas, ir dar umas últimas voltas pelo navio. Como seria o navio às 3 horas da madrugada da noite de despedida?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Saí zonzo zanzando feito zumbi pelos muitos espaços do navio. Senti o vento frio da madrugada marítima paulista (engraçado, em alto mar não choveu uma vez sequer, por que será que chove tanto no túmulo-do-samba?). Escorreguei pelo chão pastoso do pátio da piscina, agora quase vazio. Me diverti com os bêbados e bêbadas que sassaricavam cambaleando rumo às últimas horas de sono nas cabines. Encontrei as passistas e os ritmistas da Beija-Flor reunidos em torno do rango tardio do restaurante Milano. Vi empenhados na limpeza alguns dos mesmos muitos filipinos que trabalham como camelos no casco da Concordia (aterrorizante como os navios negreiros continuam a existir e como os africanos embarcados têm, hoje em dia, olhos puxadinhos, senão feições indianas ou outras que tais). Ainda no Milano, senti a plenos pulmões o cheiro de pano de chão cujos resquícios me acompanharam a cada viçoso café da manhã.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A essa altura, quase zumbizei de vez e voltei para o quarto, mas então me perguntei: e o quinto andar, região do cassino e das boates, como estará a estas horas? Zarpei no primeiro elevador panorâmico que encontrei e fui conferir.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Vi a parafernália do show de RC sendo desmontada no teatro, &lt;i&gt;o show já terminou... vamos voltar à realidade...&lt;/i&gt; Mas não é que, dos bares em diante, me encontrei no ambiente mais cheio de Vida de todo o navio?!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Casais zanzando daqui pra lá e de lá pra cá. Senhorinhas e senhoronas empetecadas vibrando suas notas de dólar à boca dos caça-níqueis. Gatos pingados "jovens" rebolando na Lisbona. Senhores empedernidos tilintando potes de pipoca cheios não de pipocas, mas de moedas. Velhinhas sorridentes, risonhas, hiperativas, sedentas de Vida (Vida, aliás, foi o que mais vi nesses dias todos, com a módica diferença de que era outro tipo de Vida, não a Vida sovina que acostumei a consumir nos rostos e corpos malhados de Giselle B., Ronaldo F., Ivete S., Ayrton S., Adriane G. etc. e tal). Luzes, cores, exageros. Máquinas fotográficas disparando flashs frenéticos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Opa...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;...Máquinas fotográficas disparando flashs frenéticos?... Sim.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;É que, última coisa que eu esperava encontrar no meu giro insone, eis que me vejo frente a frente com Ele, Roberto Carlos, em carne e osso (e, pela primeira e única vez em toda a viagem, a pouquíssimos metros de distância).&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Cercado de senhoras radiantes que balbuciavam "deixa eu falar com você, Roberto" e faiscavam olhares apaixonados, Ele apostava na roleta do cassino, de semblante bonachão, sereno, divertido e satisfeito. Tava na cara dEle o quanto Ele adora esses indescritíveis cruzeiros.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Então. Resumindo a epopeia, do sonho à realidade? Foi uma experiência imensa, ótima pra eu tentar me convencer de que, como dizem os sábios, a Morte só existe onde a gente não deixa a Vida entrar (o que pode acontecer... dentro... da gente... mesmo...). E pra eu parar de moleza e peitar a tarefa filipina de começar a quebrar alguns dos 4 mil preconceitos e tabus que continuam morando dentro de mim. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(Por falar em preconceito - essa coisinha estúpida que &lt;b&gt;não&lt;/b&gt; existe -, não comentei aqui neste diário de bordo o  show do grupo Calcinha Preta, até porque meio me desanimei com um clima de choque cultural entre eles e a moçada vivíssima da plateia. Mas sabe que seus forrós bisnetos de Luiz Gonzaga são pra lá de interessantes? Acho que o "Rei" sabe muito bem quem coloca nas suas redondezas.)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E foi mais ou menos isso. E esquece aquele papo do outro tópico, de que não havia lençóis macios no transatlântico de RC. Era engano, mentira, miragem, ou ilusão.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(P.S.: minha querida Madeleine L., eu infelizmente não consegui trazer aquilo que você me pediu... continuo envergonhado demais pra ter coragem de erguer as mãos e pedir uma rosa ao Comandante dos Nossos Corações pan-Brasileiros...)&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/8578073-2465807072060924763?l=pedroalexandresanches.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8578073/posts/default/2465807072060924763'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8578073/posts/default/2465807072060924763'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://pedroalexandresanches.blogspot.com/2010/02/o-diva.html' title='o divã'/><author><name>Pedro Alexandre Sanches</name><uri>http://www.blogger.com/profile/07131381196986635010</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-8578073.post-7983372527417341826</id><published>2010-02-07T09:27:00.000-02:00</published><updated>2010-02-07T09:43:13.736-02:00</updated><title type='text'>e até os erros do meu português ruim...</title><content type='html'>E assistimos ao show (falarei mais sobre isso em situação e lugar mais apropriados), e então houve o surreal "karaokê do Rei", no mesmo teatro, er, "grego" que abrigara antes o espetáculo principal.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Por duas horas senhorinhas e senhorzinhos de sotaques vários desafinaram ao microfone, acompanhados pela banda de RC e animados pelo eterno Miéle. Ao meu lado, dona Zilka S. suava frio e torcia fervorosamente para não ser chamada, enquanto decorava num trêmulo caderninho de notas a letra de "Despedida" ("já está chegando a hora de ir... venho aqui me despedir e dizer..."). Não foi chamada.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O terceiro lugar foi conquistado pela jovem senhorinha Elke M., talvez nordestina, quem sabe mineira ou capixaba. No segundo lugar ficou um angolano, Luiz Inácio da S., que cantou "Detalhes" sem conseguir terminar a letra, tão emocionado estava.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A propósito, não houve frase mais repetida nesses dias que "são muitas emoções..." e suas variáveis. Você senta ao lado de dona Hebe C., e ela imediatamente olha pra você, abre o maior sorriso da eurásia, suspira fundo e manda: "Aaaaah... É muita emoção, né?...".&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Voltando ao karaokê. Em primeiro lugar ficou Erasmo C., um jovem senhor de cabelos levemente grisalhos e feições orientais, segundo Miéle misto (quente) de japonês, alemão, italiano, austríaco etc. Cantou uma versão realmente abrasiva, verdadeiramente segura, de "Canzone per Te", uma das mais lindas canções jamais interpretada por RC. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ah, só pra não dizer que não falei de canções: nesta madrugada, quando saí zanzando insone pelo convés, tocava pomposa nos alto-falantes a clássica "O Show Já Terminou", outra das mais belas criações musicais do cara. "O show já terminou... vamos voltar à realidade..." (uma vez Miriam Batucada fez uma lindíssima versão dessa, você já viu?". Agora há pouco, no café da manhá, RC deu um refresco. O que tocava nas caixinhas de som era "Romaria", com Elis R.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E, lógico, ele, Robert C., veio em pessoa fazer as premiações. Pois você acredita que depois de tudo o mestre-de-cerimônias ainda deu cancha e interpretou, pela enésima quinta vez, "Emoções" e "Como É Grande o Meu Amor por Você", para delírio dos embarcados?). &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Então. RC, em mais uma aparição, distribuiu medalhas, abraços fartos e beijocas à morena senhorinha panamericana, ao negro africano de belíssimo português, ao japonês italiano de trovejante vozeirão. Eu não digo sempre que Roberto Carlos é o mais brasileiro de todos os brasileiros?, seja no céu, no mar, na terra ou num navio italiano de Las Vegas que respira "Canzone per Te"? É, ele é.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/8578073-7983372527417341826?l=pedroalexandresanches.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8578073/posts/default/7983372527417341826'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8578073/posts/default/7983372527417341826'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://pedroalexandresanches.blogspot.com/2010/02/e-ate-os-erros-do-meu-portugues-ruim.html' title='e até os erros do meu português ruim...'/><author><name>Pedro Alexandre Sanches</name><uri>http://www.blogger.com/profile/07131381196986635010</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-8578073.post-991195910837361041</id><published>2010-02-05T23:12:00.000-02:00</published><updated>2010-02-05T23:55:02.027-02:00</updated><title type='text'>o que foi que aconteceu com a música popular brasileira?</title><content type='html'>E então hoje 65 jornalistas brasileiros (mais uma moçambicana) subiram a bordo para a já tradicional entrevista coletiva de Roberto Carlos em ritmo de mar aberto.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O que ele falou você vai ver, ouvir e ler em todo canto, mas só umas poucas coisas que me chamaram atenção:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A jornalista Greta G. perguntou o que ele pensa sobre a MPB. E ele: "MPB pra mim é tudo que é popular e que é brasileiro. Acho que MPB não se restringe simplesmente... [&lt;i&gt;pausa, hesitação&lt;/i&gt; ...Embora não seja muito visto assim, né?... Mas, na minha cabeça, MPB é tudo que é popular e que é brasileiro".&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pode parecer uma declaração meio pro vazio, sem conteúdo, mas vê bem. Algum grupo puxou pra si, só pra si, o rótulo todo, e não foi o grupo mais popular. E não é nessa turma que RC se vê.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ele já tinha explicitado isso no início, quando o jornalista Michael J. (ou foi a Marilyn M.?) perguntou sobre a música sertaneja e os músicos sertanejos: "As nossas músicas se entendem. Porque elas são diretas ao povo". Populares. Brasileiras. Portanto.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E citou, da época dele, Alvarenga &amp; Ranchinho, Tonico &amp; Tinoco. E arrematou, gênio direto, musical, popular &amp; brasileiro que é: "Certamente o cenário da música sertaneja era bastante diferente de hoje. Luiz Gonzaga, o Gonzagão, eras grande referência de músico sertanejo".&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Luiz Gonzaga é o rei do baião. Roberto Carlos é o rei do iê-iê-iê. (E Chico Science é o rei do manguebit.)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E então o jornalista Elvis P. perguntou o que Roberto C. anda achando da economia brasileira. A plateia (sim, havia plateia) chiou, e Roberto C. gaguejou - mas respondeu:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;"Com certeza Sou otimista, e confio no Brasil, e vejo que o Brasil tá numa situação que deixa a gente muito contente. Muitas coisas tão acontecendo, o Brasil lá fora tem tido uma importância e um respeito cada vez maior pelos estrangeiros. No meu entender de compositor e cantor, acho que a gente estamos... [&lt;i&gt;pausa, risada envergonhada&lt;/i&gt;] 'A gente estamos' é besteira, né? [&lt;i&gt;risos&lt;/i&gt;], a gente está numa situação boa. Com certeza a gente vai melhorar mais ainda, pelo otimismo que eu tenho".&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;De novo, a resposta parece prosaica, previsível. Mas, de novo, vê bem.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(p.s.: dia de celular sem serviço nos mares de Búzios e Angra, eu queria twittar o show logo mais, mas acho que não vai dar...)&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/8578073-991195910837361041?l=pedroalexandresanches.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8578073/posts/default/991195910837361041'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8578073/posts/default/991195910837361041'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://pedroalexandresanches.blogspot.com/2010/02/o-que-foi-que-aconteceu-com-musica.html' title='o que foi que aconteceu com a música popular brasileira?'/><author><name>Pedro Alexandre Sanches</name><uri>http://www.blogger.com/profile/07131381196986635010</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-8578073.post-7283448478640997322</id><published>2010-02-04T20:33:00.000-02:00</published><updated>2010-02-04T20:33:00.680-02:00</updated><title type='text'>eu te amo, meu brasil, eu te amo</title><content type='html'>Ontem, fui dormir quando o Exaltasamba exaltava a plateia à beira da piscina. Hoje, à tarde, o Exaltasamba cantava à beira da piscina. Como trabalham, esses rapazes!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Cantaram uma versão batuqueira de "Não Quero Dinheiro (Só Quero Amar)", e poucas coisas teriam mais a ver com um cruzeiro temático sobre Roberto Carlos que uma homenagem samba-funk a... Tim Maia!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Hoje é a vez do Calcinha Preta, sensacional, e do Tom Cavalcanti -desse, eu estava sonolento, mas juro que ouvi o speaker do navio, Clint E., gritar: "Você não pode deixar de perder!". De fato, eu perdi. Mas que interessante esse séquito cearense ao redor de RC (Tom, Calcinha Preta).&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Por falar no speaker, um microfone entra com tudo no quarto da gente, bem invasivo, anunciando as próximas atrações. Nos vários canais de TV, é onipresente o diretor de cruzeiro e repórter de bordo Naim José Ayub, Naim, não o Nahim, do "Melô do Tacka-Tacka), entrevistando fãs e sósias do "Rei".&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Num dos meus delírios mareosos, juro que vi o Silvio Santos zanzando de calção acaju pelo convés.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas, não, esse cruzeiro é de outro rei da popularidade. E também à tarde, diante da praia de Copacabana, Arnold S., outro porta-voz em forma de alto-falante, celebrava aos berros o "nosso Cristo Redentor", a "nossa Copacabana", o "nosso Corcovado", o "nosso Roberto Carlos". Eu não vivo falando que RC é o brasileiro mais brasileiro de todos os brasileiros? mais brasileiro que banana, Copacabana e o Cristo. Pessoal aqui também acha.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E eu duvido que alguém esteja aqui sem ser fã contumaz de RC, mas confesso que a onipresença (não em carne e osso) dele volta e meia chega a oprimir um tico. Em todo canto - TV, convés, som ambiente de bares e restaurantes, até no gogó dos passageiros -, toca Roberto Carlos o tempo inteiro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Prevalece o RC baladão, romântico, ronanticão, mas de vez em quando escapa um iê-iê-iê ou uma "Ana".&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Só que não tem jeito: o verso que mais ouço, o tempo todo, no meu grilo falante interno e nas gargantas dos colegas, é "nos lençóis macios amantes se dão...". Ironicamente, na cabine é tão frio que não tem lençol, só edredon.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O show, no duro, "real",  é amanhã. A janelinha ex-vermelha do blog, por custo nenhum, consigo fazer funcionar aqui no celular - portanto, não consigo ver o que vocês estão falando daí. Daqui, só consigo mesmo ouvir "nosso Rei",e uma ou outra Dusty Springfield, via iPod.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E aqui dentro é uma multidão tão, tão, mas tão grande. Dá até medo.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/8578073-7283448478640997322?l=pedroalexandresanches.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8578073/posts/default/7283448478640997322'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8578073/posts/default/7283448478640997322'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://pedroalexandresanches.blogspot.com/2010/02/eu-te-amo-meu-brasil-eu-te-amo.html' title='eu te amo, meu brasil, eu te amo'/><author><name>Pedro Alexandre Sanches</name><uri>http://www.blogger.com/profile/07131381196986635010</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-8578073.post-7316734668473132570</id><published>2010-02-03T18:36:00.000-02:00</published><updated>2010-02-03T18:35:16.151-02:00</updated><title type='text'>lá nesse lugar o entardecer é lindo</title><content type='html'>Barra limpa, o porto de Santos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O Costa Concordia é um navio italiano.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Os tripulantes falam com sotaque italiano, espanhol, português (do Brasil), português (de Portugal).&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A comissária Christiane F., simpaticíssima, contou que até hoje não viu Roberto Carlos de perto. Só viu na chegada (no triciclo, será?), e num trechinho de show. "Não é permitido, mas eu sou brasileira, nós fomos dar uma espiada mesmo assim."&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;hoje tem show dele, ele está a bordo. Não é meu dia, meu dia é sexta. Eu vou mais é no show do Exaltasamba à beira da piscina. Chance única, não perco por nada.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E o sol começa a se pôr na baía. Será que só da água (saudades máximas de Belém) que a gente vê direito o pôr-do-sol?&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/8578073-7316734668473132570?l=pedroalexandresanches.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8578073/posts/default/7316734668473132570'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8578073/posts/default/7316734668473132570'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://pedroalexandresanches.blogspot.com/2010/02/la-nesse-lugar-o-entardecer.html' title='lá nesse lugar o entardecer é lindo'/><author><name>Pedro Alexandre Sanches</name><uri>http://www.blogger.com/profile/07131381196986635010</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-8578073.post-6887727060168645996</id><published>2010-02-02T20:55:00.000-02:00</published><updated>2010-02-02T20:55:33.893-02:00</updated><title type='text'>entrei de gaiato no navio</title><content type='html'>Pois então. Soa mais ou menos surreal aos meus próprios ouvidos dizer isso, mas dentro de poucas horas estarei embarcando no navio Costa Concórdia, para participar pela primeiríssima vez de uma experiência que muitos conhecem como "Projeto Emoções em Alto Mar". É, o cruzeiro do Roberto Carlos, isso mesmo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Entrarei de gaiato no navio, mas sob convite direto da Léa Penteado, que trabalha com RC em pessoa (além de ser autora de uma interessantíssima biografia do Flávio Cavalcanti - com quem também trabalhou -, até onde eu sei totalmente desaparecida do mercado editorial). O convite é honroso por si só, mas Léa me deixou feliz como pinto no lixo ao dizer que me chamava não como jornalista, mas como "robertólogo". Preciso falar mais nada, né?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas o diabo é que onde eu vou o jornalista vai junto... E então a comichão maior do momento é fazer um diário de bordo em formato de blog, twittar, inventar sei lá o que para descrever o (...aposto...) indescritível. Não é uma promessa juramentada, porque vai depender das condições telefônicas e internéticas do bonde do rolê, mas pode saber: só não vai acontecer algo por aqui (e por acolá) se os deuses da informática e da telefonia fizerem greve.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Então fui, quase fui.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(Mas, ah, não: e o Roberto Carlos, hein? &lt;a href="http://robertocarlos.globo.com/html/home/home.php?pagina=12&amp;id=535" target="_blank"&gt;Chegando de triciclo ao navio&lt;/a&gt;? E passando o dia devotado a Iemanjá embarcado em alto-mar? Hein?)&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/8578073-6887727060168645996?l=pedroalexandresanches.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8578073/posts/default/6887727060168645996'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8578073/posts/default/6887727060168645996'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://pedroalexandresanches.blogspot.com/2010/02/entrei-de-gaiato-no-navio.html' title='entrei de gaiato no navio'/><author><name>Pedro Alexandre Sanches</name><uri>http://www.blogger.com/profile/07131381196986635010</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-8578073.post-4344681631037687822</id><published>2010-02-01T20:56:00.000-02:00</published><updated>2010-02-01T20:56:17.962-02:00</updated><title type='text'>um mundo novo é possível?</title><content type='html'>Lula não foi a Davos. Mas o discurso (em agradecimento ao prêmio Estadista Global) que faria foi lido lá no fórum dos tubarões por seu (nosso) chanceler, Celso Amorim.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E, lendo agora o dito cujo, concluo que a crise hipertensiva do presidente foi uma crise de auto-sabotagem. Porque, em crise, não pôde ir. E,não tendo ido, tirou peso e simbolismo das palavras que foram lidas de todo modo. Se tivesse ido, esse discurso fenomenal, em sua boca, soaria bem mais significativo. E ainda mais supimpa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Segue aí o discurso, só para adicionar a minha (nossa) cotinha minúscula na tarefa de sabotar a auto-sabotagem dele (nossa). Dá-lhe que dá:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Minhas senhoras e meus senhores,&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Em primeiro lugar, agradeço o prêmio “Estadista Global” que vocês estão me concedendo. Nos últimos meses, tenho recebido alguns dos prêmios e títulos mais importantes da minha vida. Com toda sinceridade, sei que não é exatamente a mim que estão premiando – mas ao Brasil e ao esforço do povo brasileiro. Isso me deixa ainda mais feliz e honrado. Recebo este prêmio, portanto, em nome do Brasil e do povo do meu país. Este prêmio nos alegra, mas, especialmente, nos alerta para a grande responsabilidade que temos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ele aumenta minha responsabilidade como governante, e a responsabilidade do meu país como ator cada vez mais ativo e presente no cenário mundial. &lt;b&gt;Tenho visto, em várias publicações internacionais, que o Brasil está na moda. Permitam-me dizer que se trata de um termo simpático, porém inapropriado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O modismo é coisa fugaz, passageira. E o Brasil quer e será ator permanente no cenário do novo mundo. O Brasil, porém, não quer ser um destaque novo em um mundo velho.&lt;/b&gt; A voz brasileira quer proclamar, em alto e bom som, que é possível construir um mundo novo. O Brasil quer ajudar a construir este novo mundo, que todos nós sabemos, não apenas é possível, mas dramaticamente necessário, como ficou claro, na recente crise financeira internacional – mesmo para os que não gostam de mudanças.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Meus senhores e minhas senhoras,&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O olhar do mundo hoje, para o Brasil, é muito diferente daquele, de sete anos atrás, quando estive pela primeira vez em Davos. Naquela época, sentíamos que o mundo nos olhava mais com dúvida do que esperança. O mundo temia pelo futuro do Brasil, porque não sabia o rumo exato que nosso país tomaria sob a liderança de um operário, sem diploma universitário, nascido politicamente no seio da esquerda sindical. Meu olhar para o mundo, na época, era o contrário do que o mundo tinha para o Brasil. Eu acreditava, que assim como o Brasil estava mudando, o mundo também pudesse mudar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No meu discurso de 2003, eu disse, aqui em Davos, que o Brasil iria trabalhar para reduzir as disparidades econômicas e sociais, aprofundar a democracia política, garantir as liberdades públicas e promover, ativamente, os direitos humanos. Iria, ao mesmo tempo, lutar para acabar sua dependência das instituições internacionais de crédito e buscar uma inserção mais ativa e soberana na comunidade das nações. Frisei, entre outras coisas, a necessidade de construção de uma nova ordem econômica internacional, mais justa e democrática. E comentei que a construção desta nova ordem não seria apenas um ato de generosidade, mas, principalmente, uma atitude de inteligência política.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ponderei ainda que a paz não era só um objetivo moral, mas um imperativo de racionalidade. E que não bastava apenas proclamar os valores do humanismo. Era necessário fazer com que eles prevalecessem, verdadeiramente, nas relações entre os países e os povos. Sete anos depois, eu posso olhar nos olhos de cada um de vocês – e, mais que isso, nos olhos do meu povo – e dizer que o Brasil, mesmo com todas as dificuldades, fez a sua parte. Fez o que prometeu. Neste período, 31 milhões de brasileiros entraram na classe média e 20 milhões saíram do estágio de pobreza absoluta. Pagamos toda nossa dívida externa e hoje, em lugar de sermos devedores, somos credores do FMI.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;b&gt;Nossas reservas internacionais pularam de 38 bilhões para cerca de 240 bilhões de dólares. Temos fronteiras com 10 países e não nos envolvemos em um só conflito com nossos vizinhos.&lt;/b&gt; Diminuímos, consideravelmente, as agressões ao meio ambiente. &lt;b&gt;Temos e estamos consolidando uma das matrizes energéticas mais limpas do mundo&lt;/b&gt;, e estamos caminhando para nos tornar a quinta economia mundial. Posso dizer, com humildade e realismo, que ainda precisamos avançar muito. Mas &lt;b&gt;ninguém pode negar que o Brasil melhorou&lt;/b&gt;.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O fato é que Brasil não apenas venceu o desafio de crescer economicamente e incluir socialmente, como provou, aos céticos, que a melhor política de desenvolvimento é o combate à pobreza. &lt;b&gt;Historicamente, quase todos governantes brasileiros governaram apenas para um terço da população. Para eles, o resto era peso, estorvo, carga.&lt;/b&gt; Falavam em arrumar a casa. Mas como é possível arrumar um país deixando dois terços de sua população fora dos benefícios do progresso e da civilização?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;b&gt;Alguma casa fica de pé, se o pai e a mãe relegam ao abandono os filhos mais fracos, e concentram toda atenção nos filhos mais fortes e mais bem aquinhoados pela sorte?&lt;/b&gt; É claro que não. &lt;b&gt;Uma casa assim será uma casa frágil, dividida pelo ressentimento e pela insegurança, onde os irmãos se vêem como inimigos e não como membros da mesma família.&lt;/b&gt; Nós concluímos o contrário: que só havia sentido em governar, se fosse governar para todos. E mostramos que aquilo que, tradicionalmente, era considerado estorvo, era, na verdade, força, reserva, energia para crescer.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Incorporar os mais fracos e os mais necessitados à economia e às políticas públicas não era apenas algo moralmente correto. Era, também, politicamente indispensável e economicamente acertado. Porque &lt;b&gt;só arrumam a casa, o pai e a mãe que olham para todos, não deixam que os mais fortes esbulhem os mais fracos, nem aceitam que os mais fracos conformem-se com a submissão e com a injustiça&lt;/b&gt;. Uma casa só é forte quando é de todos – e nela todos encontram abrigo, oportunidades e esperanças.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Por isso, apostamos na ampliação do mercado interno e no aproveitamento de todas as nossas potencialidades. Hoje, há mais Brasil para mais brasileiros. Com isso, fortalecemos a economia, ampliamos a qualidade de vida do nosso povo, &lt;b&gt;reforçamos a democracia, aumentamos nossa auto-estima&lt;/b&gt; e amplificamos nossa voz no mundo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Minhas senhoras e meus senhores,&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O que aconteceu com o mundo nos últimos sete anos? Podemos dizer que o mundo, igual ao Brasil, também melhorou? Não faço esta pergunta com soberba. Nem para provocar comparações vantajosas em favor do Brasil. Faço esta pergunta com humildade, como cidadão do mundo, que tem sua parcela de responsabilidade no que sucedeu – e no que possa vir a suceder com a humanidade e com o nosso planeta. Pergunto: podemos dizer que, nos últimos sete anos, o mundo caminhou no rumo da diminuição das desigualdades, das guerras, dos conflitos, das tragédias e da pobreza?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Podemos dizer que caminhou, mais vigorosamente, em direção a um modelo de respeito ao ser humano e ao meio ambiente? Podemos dizer que interrompeu a marcha da insensatez, que tantas vezes parece nos encaminhar para o abismo social, para o abismo ambiental, para o abismo político e para o abismo moral? Posso imaginar a resposta sincera que sai do coração de cada um de vocês, porque sinto a mesma perplexidade e a mesma frustração com o mundo em que vivemos. E nós todos, sem exceção, temos uma parcela de responsabilidade nisso tudo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nos últimos anos, continuamos sacudidos por guerras absurdas. Continuamos destruindo o meio-ambiente. &lt;b&gt;Continuamos assistindo, com compaixão hipócrita, a miséria e a morte assumirem proporções dantescas na África.&lt;/b&gt; Continuamos vendo, passivamente, aumentar os campos de refugiados pelo mundo afora. E &lt;b&gt;vimos, com susto e medo, mas sem que a lição tenha sido corretamente aprendida, para onde a especulação financeira pode nos levar.&lt;/b&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sim, porque &lt;b&gt;continuam muitos dos terríveis efeitos da crise financeira internacional, e não vemos nenhum sinal, mais concreto, de que esta crise tenha servido para que repensássemos a ordem econômica mundial, seus métodos, sua pobre ética e seus processos anacrônicos.&lt;/b&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pergunto: quantas crises serão necessárias para mudarmos de atitude? Quantas hecatombes financeiras teremos condições de suportar até que decidamos fazer o óbvio e o mais correto? Quantos graus de aquecimento global, quanto degelo, quanto desmatamento e desequilíbrios ecológicos serão necessários para que tomemos a firme decisão de salvar o planeta?&lt;br /&gt;Meus senhores e minhas senhoras,&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;b&gt;Vendo os efeitos pavorosos da tragédia do Haiti, também pergunto: quantos Haitis serão necessários para que deixemos de buscar remédios tardios e soluções improvisadas, ao calor do remorso?&lt;/b&gt; Todos nós sabemos que a tragédia do Haiti foi causada por dois tipos de terremotos: o que sacudiu Porto Príncipe, no início deste mês, com a força de 30 bombas atômicas, e o outro, lento e silencioso, que vem corroendo suas entranhas há alguns séculos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;b&gt;Para este outro terremoto, o mundo fechou os olhos e os ouvidos. Como continua de olhos e ouvidos fechados para o terremoto silencioso que destrói comunidades inteiras na África, na Ásia, na Europa Oriental e nos países mais pobres das Américas.&lt;/b&gt; Será necessário que o terremoto social traga seu epicentro para as grandes metrópoles européias e norte-americanas para que possamos tomar soluções mais definitivas?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;b&gt;Um antigo presidente brasileiro dizia, do alto de sua aristocrática arrogância, que a questão social era uma questão de polícia. Será que não é isso que, de forma sutil e sofisticada, muitos países ricos dizem até hoje, quando perseguem, reprimem e discriminam os imigrantes&lt;/b&gt;, quando insistem num jogo em que tantos perdem e só poucos ganham? Por que não fazermos um jogo em que todos possam ganhar, mesmo que em quantidades diversas, mas que ninguém perca no essencial?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O que existe de impossível nisso? Por que não caminharmos nessa direção, de forma consciente e deliberada e não empurrados por crises, por guerras e por tragédias? Será que a humanidade só pode aprender pelo caminho do sofrimento e do rugir de forças descontroladas? Outro mundo e outro caminho são possíveis. Basta que queiramos. E precisamos fazer isso enquanto é tempo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Meus senhores e minhas senhoras,&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Gostaria de repetir que a melhor política de desenvolvimento é o combate à pobreza. Esta também é uma das melhores receitas para a paz. E aprendemos, no ano passado, que é também um poderoso escudo contra crise. Esta lição que o Brasil aprendeu, vale para qualquer parte do mundo, rica ou pobre. Isso significa ampliar oportunidades, aumentar a produtividade, ampliar mercado e fortalecer a economia. Isso significa mudar as mentalidades e as relações. Isso significa criar fábricas de emprego e de cidadania.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Só fomos bem sucedidos nessas tarefas porque recuperamos o papel do Estado como indutor do desenvolvimento e não nos deixamos aprisionar em armadilhas teóricas – ou políticas – equivocadas sobre o verdadeiro papel do estado. Nos últimos sete anos, o Brasil criou quase 12 milhões de empregos formais. Em 2009, quando a maioria dos países viu diminuir os postos de trabalhos, tivemos um saldo positivo de cerca de um milhão de novos empregos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O Brasil foi um dos últimos países a entrar na crise e um dos primeiros a sair. Por que? Porque tínhamos reorganizado a economia com fundamentos sólidos, com base no crescimento, na estabilidade, na produtividade, num sistema financeiro saudável, no acesso ao crédito e na inclusão social. E quando os efeitos da crise começaram a nos alcançar, reforçamos, sem titubear, os fundamentos do nosso modelo e demos ênfase à ampliação do crédito, à redução de impostos e ao estímulo do consumo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;b&gt;Na crise ficou provado, mais uma vez, que são os pequenos que estão construindo a economia de gigante do Brasil.&lt;/b&gt; Este talvez seja o principal motivo do sucesso do Brasil: acreditar e apoiar o povo, os mais fracos e os pequenos. Na verdade, não estamos inventando a roda. Foi com esta força motriz que Roosevelt recuperou a economia americana depois da grande crise de 1929. E foi com ela que o Brasil venceu preventivamente a última crise internacional.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas, nos últimos sete anos, nunca agimos de forma improvisada. A gente sabia para onde queria caminhar. Organizamos a economia sem bravatas e sem sustos, mas com um foco muito claro: crescer com estabilidade e com inclusão. &lt;b&gt;Implantamos o maior programa de transferência de renda do mundo, o Bolsa Família, que hoje beneficia mais de 12 milhões de famílias. E lançamos, ao mesmo tempo, o Programa de Aceleração do Crescimento, o PAC, maior conjunto de obras simultâneas nas áreas de infra-estrutura e logística da história do país, no qual já foram investidos 213 bilhões de dólares e que alcançará, no final do ano de 2010, um montante de 343 bilhões.&lt;/b&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Volto ao ponto central: estivemos sempre atentos às politicas macro-econômicas, mas jamais nos limitamos às grandes linhas. Tivemos a obsessão de destravar a máquina da economia, sempre olhando para os mais necessitados, aumentando o poder de compra e o acesso ao crédito da maioria dos brasileiros. Criamos, por exemplo, grandes programas de infra-estrutura social voltados exclusivamente para as camadas mais pobres. É o caso do programa Luz para Todos, que levou energia elétrica, no campo, para 12 milhões de pessoas e se mostrou um grande propulsor de bem estar e um forte ativador da economia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Por exemplo: &lt;b&gt;para levar energia elétrica a 2 milhões e 200 mil residências rurais, utilizamos 906 mil quilômetros de cabo, o suficiente para dar 21 voltas em torno do planeta Terra. Em contrapartida, estas famílias que passaram a ter energia elétrica em suas casas, compraram 1,5 milhão de televisores, 1,4 milhão de geladeiras e quantidades enormes de outros equipamentos.&lt;/b&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;As diversas linhas de microcrédito que criamos, seja para a produção, seja para o consumo, tiveram igualmente grande efeito multiplicador. E ensinaram aos capitalistas brasileiros que não existe capitalismo sem crédito. Para que vocês tenham uma idéia, apenas com a modalidade de “crédito consignado”, que tem como garantia o contracheque dos trabalhadores e aposentados, chegamos a fazer girar na economia mais 100 bilhões de reais por mês. As pessoas tomam empréstimos de 50 dólares, 80 dólares para comprar roupas, material escolar, etc, e isto ajuda ativar profundamente a economia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Minhas senhoras e meus senhores,&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Os desafios enfrentados, agora, pelo mundo são muito maiores do que os enfrentados pelo Brasil. Com mudanças de prioridades e rearranjos de modelos, o governo brasileiro está conseguindo impor um novo ritmo de desenvolvimento ao nosso país. O mundo, porém, necessita de mudanças mais profundas e mais complexas. E elas ficarão ainda mais difíceis quanto mais tempo deixarmos passar e quanto mais oportunidades jogarmos fora. O encontro do clima, em Copenhague, é um exemplo disso. Ali a humanidade perdeu uma grande oportunidade de avançar, com rapidez, em defesa do meio-ambiente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Por isso cobramos que cheguemos com o espírito desarmado, no próximo encontro, no México, e que encontremos saídas concretas para o grave problema do aquecimento global. &lt;b&gt;A crise financeira também mostrou que é preciso uma mudança profunda na ordem econômica, que privilegie a produção e não a especulação.&lt;/b&gt; Um modelo, como todos sabem, onde o sistema financeiro esteja a serviço do setor produtivo e onde haja regulações claras para evitar riscos absurdos e excessivos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas tudo isso são sintomas de uma crise mais profunda, e da necessidade de o mundo encontrar um novo caminho, livre dos velhos modelos e das velhas ideologias. É hora de re-inventarmos o mundo e suas instituições. Por que ficarmos atrelados a modelos gestados em tempos e realidades tão diversas das que vivemos? O mundo tem que recuperar sua capacidade de criar e de sonhar. Não podemos retardar soluções que apontam para uma melhor governança mundial, onde governos e nações trabalhem em favor de toda a humanidade.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;b&gt;Precisamos de um novo papel para os governos. E digo que, paradoxalmente, este novo papel é o mais antigo deles: é a recuperação do papel de governar. Nós fomos eleitos para governar e temos que governar. Mas temos que governar com criatividade e justiça.&lt;/b&gt; E fazer isso já, antes que seja tarde. Não sou apocalíptico, nem estou anunciando o fim do mundo. Estou lançando um brado de otimismo. E dizendo que, &lt;b&gt;mais que nunca, temos nossos destinos em nossas mãos&lt;/b&gt;. E toda vez que mãos humanas misturam sonho, criatividade, amor, coragem e justiça elas conseguem realizar a tarefa divina de construir um novo mundo e uma nova humanidade.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Muito obrigado.”&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/8578073-4344681631037687822?l=pedroalexandresanches.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8578073/posts/default/4344681631037687822'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8578073/posts/default/4344681631037687822'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://pedroalexandresanches.blogspot.com/2010/02/um-mundo-novo-e-possivel.html' title='um mundo novo é possível?'/><author><name>Pedro Alexandre Sanches</name><uri>http://www.blogger.com/profile/07131381196986635010</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-8578073.post-2117672390685903001</id><published>2010-01-28T17:03:00.001-02:00</published><updated>2010-01-28T17:04:25.619-02:00</updated><title type='text'>colecionando répteis</title><content type='html'>Um belisco meu nos territórios da literatura, publicado na revista "Gol" 91, de outubro de 2009:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;b&gt;O horror, o humor e o escritor adulto&lt;/b&gt;&lt;br /&gt;COM 32 ANOS E QUATRO LIVROS LANÇADOS, O PAULISTANO &lt;b&gt;SANTIAGO NAZARIAN&lt;/b&gt; BRINCA DE SER POP&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;POR PEDRO ALEXANDRE SANCHES&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O ESCRITOR PAULISTANO SANTIAGO NAZARIAN guarda bem expostos na sala de seu apartamento de adulto alguns dos brinquedos prediletos de quando era criança. Um morceguinho. Um macaco de boca aberta e feições de horror, que quando pequeno chamava de “monstro do pântano”. Uma cobra de borracha. “Fui uma criança gótica”, ele se diverte. Mais resguardado, na área de serviço, fica Araki, um iguana, este vivo e de verdade, não de plástico ou borracha.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O cenário ajuda a introduzir o imaginário norteador de um autor que acaba de publicar seu quarto romance, &lt;span style="font-style:italic;"&gt;O Prédio, o Tédio e o Menino Cego&lt;/span&gt; (ed. Record): algumas doses de terror, morbidez e atmosfera “dark”, mas maciamente embalados em bom humor e encharcados da pura cultura pop imaginadora e inventora de cobras, lagartos, King Kongs e monstros do lago Ness.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No novo livro, as asas à imaginação dão voo a serial killers e zumbis. A um prédio inclinado que costuma “ejetar” seus moradores mais marginalizados. A uma versão mais tenebrosa (ainda) da fábula de Branca de Neve e os Sete Anões, na qual os anões são substituídos por um septeto de adolescentes às voltas com o conflito inevitável de crescer.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Santiago já passou da adolescência – tem 32 anos –, mas elege a transparência ao explicar que o rito de passagem esmiuçado no texto lhe serve para alegorizar outra transição, bem mais próxima: “Comecei a escrever esse livro com 29 anos, num momento de passagem, de transição, de me aceitar como homem, como adulto”. Em meio ao ritual, foi ao Chile conhecer sua xará Santiago, a cidade (onde passou, sozinho, a virada para os 30 anos), e o deserto do Atacama, certamente um santuário para colher referências cinematográficas pop e ultrapop. “Acho que tenho postura e ritmo de vida de acordo com minha idade”, reflete, talvez com certo temor, e ciente do impacto de sua produção junto a camadas mais jovens de público. Assim era, por exemplo, &lt;span style="font-style:italic;"&gt;Mastigando Humanos&lt;/span&gt; (ed. Nova Fronteira, 2006), sobre um jacaré que foge do campo para viver de aventura nos esgotos da “grande” São Paulo. Na escrita de Santiago, a cultura pop faz pano de fundo e várias vezes toma conta da cena, mas existe não para preencher espaços vazios, e sim para obrigar o autor a mergulhos em profundezas duras, nuas e cruas como as habitadas por seu jacaré fictício. Ele diz possuir algo que chama de “apelo extraliterário”, que gerencia de modo consciente. “Minha imagem, o universo pop, o apelo com o público adolescente”, enumera, “sem isso não estaria indo ao programa do Jô Soares pela terceira vez”.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;ROTINA CONHECIDA&lt;br /&gt;Pop à parte, estilhaços da personalidade do autor se espalham pelos sete garotos do novo livro, identificados por traços-estereótipos: narcisista, andrógino, atleta, junkie, negro, gordo e cego, todos em conflito com as próprias inclinações ao isolamento (ou “tédio”, como traduz o título). Conexões são perceptíveis quando Santiago descreve o modo como administra e-mails, blog (www.santiagonazarian.blogspot.com), comunidades na internet, fãs virtuais etc. “Tirei os comentários do blog. As pessoas entram para aloprar, dizer ‘ah, você é péssimo’”, lamenta, admitindo-se suscetível às críticas. “Por e-mail, ninguém me ‘chocha’. Quando a pessoa quer ‘chochar’, ela quer que os outros saibam que está ‘chochando’.” [&lt;i&gt;na edição final da reportagem, os jargões "chocha", "chochar" e "chochando" foram trocados por "detona", "detonar" e "detonando"&lt;/i&gt;]&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Por um lado, admite sentir culpa por não responder a todos os apelos, muitos deles pedidos de ajuda para emplacar na literatura. “Digo que eu não tive padrinho, que eu pus meu texto em concurso.” Por outro, vale-se das frestas virtuais para se comunicar: “Meu namorado é um leitor que me escrevia. A gente também precisa de amigos e de amor”, constata, em tom entre debochado e doce. A sexualidade é outro tema que aborda com foco e objetividade. “Não gosto daquela história de escritor dizer ‘não falo que sou gay porque senão viro autor gay’”, toca numa das molas propulsoras dos (auto-)preconceitos.&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;Para lá da literatura, Santiago leva uma rotina bem conhecida de escritores não nascidos em berço esplêndido. Além do ofício principal, tem de se virar fazendo traduções, pareceres para que editoras se decidam por traduzir (ou não) obras estrangeiras, roteiros variados (no dia da entrevista, estava às voltas com textos internos para uma companhia telefônica), artigos na imprensa. “Gosto de fazer parecer. Tem a parte mercadológica, ter que dizer ‘este livro é ruim, mas vai vender bem’”, diverte-se com esse outro tipo de brinquedo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Santiago formou-se em publicidade, e antes de fixar uma identidade de escritor trabalhou como redator de agência em Porto Alegre (RS). Perambulou pela Europa, trabalhou como barman em Londres. Em São Paulo também teve rápida experiência de barman, na boate gay SoGo.  “Com 25 anos tinha voltado para a casa da minha mãe. Não ia pedir dinheiro para ela para ir à [&lt;i&gt;boate&lt;/i&gt;] A Loca”, diz, com humor semelhante ao que habita os livros.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;ALÉM DA MERA IMAGEM&lt;br /&gt;Nesses vaivéns escreveu e manteve inéditos os dois primeiros romances, &lt;span style="font-style:italic;"&gt;A Morte sem Nome&lt;/span&gt;, escrito entre os 22 e os 23 anos, e &lt;span style="font-style:italic;"&gt;Olívio&lt;/span&gt;, aos 23. “Sinceramente, não fazia para publicar. Não escrevia porque queria ser reconhecido.” Mais ou menos simultaneamente, inscreveu-se num concurso literário e atendeu a um classificado que buscava roteiristas para o Disk-Sexo, “para textos eróticos e esotéricos”. Venceu o primeiro, foi contratado para o segundo. Ao concurso enviou o segundo livro, &lt;span style="font-style:italic;"&gt;Olívio&lt;/span&gt;, que acabou sendo publicado em 2003.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“No começo, não saiu nenhuma resenha. Escrevi a todos os jurados do concurso, agradecendo e perguntando ‘o que eu faço?’. Não dava para ficar esperando as coisas caírem do céu. Beatriz Rezende foi a única que respondeu, e falou de um amigo de uma editora grande, à procura de jovens autores”, lembra. Era a Planeta, que se estabelecia no Brasil e buscava ações para atrair atenção na Flip, a feira literária de Paraty, então também em seus primeiros passos. Santiago foi um dos escolhidos. “Só aí começaram a sair resenhas do primeiro livro”, conta, expondo mecanismos que governam a indústria literária. Seus livros têm vendido quantidades modestas, mas expressivas para a média local. “Saem com tiragens de 3 mil exemplares. Vendem duas edições facilmente, na terceira começa a dificultar. Mas dizem que sou o escritor jovem que mais vende no Brasil”, espanta-se.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pop, mórbido, humorado ou gótico, ele demonstra manejar habilmente uma qualidade que o destaca e o leva além da mera imagem. Seja falando ou escrevendo sobre sexualidade, solidão, estratégias mercadológicas, síndrome de Peter Pan, os morcegos da infância ou o temor de se relacionar, Santiago Nazarian brinca, o tempo todo, de ser transparente. Deve ser isso, além da imagem, que adolescentes (e também adultos) vislumbram em suas entrelinhas.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/8578073-2117672390685903001?l=pedroalexandresanches.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8578073/posts/default/2117672390685903001'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8578073/posts/default/2117672390685903001'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://pedroalexandresanches.blogspot.com/2010/01/colecionando-repteis.html' title='colecionando répteis'/><author><name>Pedro Alexandre Sanches</name><uri>http://www.blogger.com/profile/07131381196986635010</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-8578073.post-3268472298083966819</id><published>2010-01-20T12:37:00.000-02:00</published><updated>2010-01-20T12:37:35.549-02:00</updated><title type='text'>briga no brega</title><content type='html'>Agora, recolhida da "Billboard Brasil" número 2, de novembro de 2009, uma reportagem nos arredores do apaixonante Pará, e do apaixonante tecnobrega.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;b&gt;BRIGA NO BREGA&lt;/b&gt;&lt;br /&gt;Cópia? Antropofagia? Pilantragem? Salve-se quem puder: a Bahia vai na cola do melody, som brega que o Pará inventou, e causa polêmica, barraco... e reflexão&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;POR PEDRO ALEXANDRE SANCHES&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Da Bahia de Dorival Caymmi, da tropicália e da axé music, surgiu neste ano de 2009 uma nova e explosiva moda musical, que percorre o Brasil com velocidade de raio: o melody, mais comumente difundido sob o nome de tecnobrega.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O estado do Pará não tem poder para exportar maciçamente músicas e músicos para o resto do Brasil, mas há décadas a população local tem concedido sucesso e apoio maciço a ritmos nativos pulsantes como carimbó, sirimbó, lambada, merengue, guitarrada, boi bumbá, calipso, brega, brega-calipso. A linha de invenções musicais é contínua e ininterrupta, e o ritmo que há mais de dez anos comanda a massa atende pelo apelido unificador de tecnobrega ou, mais recentemente, melody.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Reúna as duas partes da equação acima e encontre no resultado da remistura o maior quiproquó armado este ano na música (realmente) popular brasileira. Baiana de Capim Grosso, a trupe Banda Djavú e DJ Juninho Portugal (ou simplesmente Banda Djavú, com acento ortograficamente incorreto no “u”, e pronunciada “dejavu”) tornou-se líder de sucesso nacional com hits melody como “Rubi”, “Meteoro”, “Soca Soca”, “Maciota Light” e, acima de todas, “Me Libera”. De quebra, provocou sem querer comoção e revolta generalizadas no Pará, onde nasceram, muito antes, “Me Libera” (composta por Ale Max), “Rubi” (de Marlon Branco) e uma infinidade de outros quitutes tecnobregapop.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“O tecnobrega é do Pará!, não é da Bahia nem do Rio de Janeiro! Mas não é novidade a Bahia vir aqui e levar nossos ritmos, né?”, explodiu do alto do palco, em 10 de outubro passado, o cantor (e drag queen) Eloy Iglesias, mestre-de-cerimônias da profaníssima Festa da Chiquita, encravada no coração dos festejos religiosos do Círio de Nossa Senhora de Nazaré. A multidão que apinhava as cercanias do Teatro da Paz, na Praça da República de Belém, urrou uníssona, em apoio à queixa de Eloy. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Longe de ser fato isolado, o grito de raiva ecoa sem parar pelo Pará, a ponto de virar assunto hegemônico em comunidades virtuais como o portal Brega Pop e mobilizar inclusive setores locais que, até o advento baiano da Djavú, sempre foram hostis a esse estilo musical simples, direto, caboclo, popular, periférico. “Todo mundo me aborda na rua para prestar solidariedade, até quem não gostava do tecnobrega”, surpreende-se a belenense (do bairro popular de Jurunas) Gabi Amarantos, líder da banda Tecno Show, uma das iniciadoras da associação do velho “brega” paraense com sons eletrônicos gerados por sintetizadores e computadores. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Gabi expressa o sentimento provocado pela apropriação do tecnobrega pela Djavú: “A princípio nós todos estávamos muito magoados e revoltados, porque eles estavam dizendo que o tecnobrega é da Bahia. A gente luta pelo ritmo há mais de dez anos, isso criou uma indignação muito grande aqui. A gente se sentiu meio que roubado, como se tivesse semeado e regado uma planta desde o início, aí outro colheu os frutos e ainda disse que são dele”.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas a disputa acabou em barraco promovido pelo programa televisivo de Luciana Gimenez, e a partir de então a Djavú moderou o discurso e passou até a afirmar na TV que o tecnobrega não é baiano, e sim paraense. “Acho que sentiram que estavam se prejudicando com isso e começaram a falar a verdade”, avalia o DJ de tecnobrega Dinho do Tupinambá, que mesmo assim mantém erguida a queixa: “É uma deslealdade, todo mundo sabe que é uma música originária daqui. Não tiveram a hombridade de dizer isso em público nos programas nacionais. Até ao contrário, disseram que era música da Bahia”.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;São mesmo enormes as semelhanças entre o som da Djavú e o de nomes paraenses como Banda Ravelly, Viviane Batidão, DJ Maluquinho, Banda Richter, Banda 007 e Os Brothers, entre uma avalanche impressionante de artistas. A Djavú adota, por exemplo, o hábito paraense de os artistas se autoanunciarem dentro da própria música gravada. “Banda Djavú e DJ Juninho Portugal, é show!!!”, proclama em tom radiofônico a cantora do grupo, antes mesmo de entoar o primeiro verso do disco &lt;span style="font-style:italic;"&gt;O Furacão É Show&lt;/span&gt;, que por sobre o cenário de terra arrasada da MPB de 2009 já vendeu mais de 500 mil exemplares, segundo a imprensa local. A exemplo do que acontece nos CDs de coletânea distribuídos pelos camelôs e pirateiros de Belém, a autopropaganda inserida na gravação se repete a cada faixa, e a banda chega a anunciar em meio à música seu telefone de contato (o mesmo número pelo qual tentei contactar a Djavú por dias consecutivos, sem sucesso).&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Também nos passos baianos de dança se mistura o código genético paraense. “Dançam tecnobrega como se fosse axé, parecem o Xandy, do grupo baiano Harmonia do Samba, dançando”, zanga-se Gabi. “Não dançam nada certo, parece mais Banda Calypso, que deve ser a referência que eles têm, mas é outra parada”, diz, referindo-se à popularíssima banda liderada por Joelma e Chimbinha, que assumiram as origens paraenses (ela nasceu em Almeirim e ele, em Oeiras do Pará) e foram os primeiros a nacionalizar o tecnobrega. E se tornaram milionária [&lt;i&gt;erro meu, eu queria dizer "milionários"&lt;/i&gt;] por isso.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Codiretor do documentário “Brega S/A”, sobre a exuberante indústria informal ao redor do tecnobrega, o jornalista belenense (de Jurunas) Vladimir Cunha contextualiza o caldo de cultura que fermentou o estilo. “Belém é um lugar de passagem e um ponto onde várias culturas se encontram. É entrada da Amazônia e saída para o sul do país e para a Europa, para quem está no norte do Brasil. Uma cidade portuária onde o tráfego de informações sempre foi muito intenso, onde desde os anos 50 se contrabandeavam discos de rock dos Estados Unidos e discos de cumbia, soca e merengue do Caribe e das Guianas. Foi o que possibilitou, por exemplo, a criação da guitarrada e da lambada”, diz.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Antes de criar a Banda Calypso, Chimbinha tocava em bares de Creedence Clearwater Revival a Pink Floyd e de Odair José a disco music. Como o sujeito cresce ouvindo todo tipo de música, aprende na hora a tocar, criar e combinar esses diversos estilos”, continua. “Essa confusão sensorial e de inputs de informação sempre existiu aqui em Belém e se intensificou ainda mais com a pirataria e o acesso à internet.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Gabi adiciona mais caldo no tacacá e dá aula de tecnobrega: “Agora usam o termo ‘melody’, mas na verdade é tudo a mesma coisa, é tudo tecnobrega. O pessoal tem vergonha de assumir a palavra, mas é o nosso ritmo, alguém colocou esse nome, paciência. Sempre tive a cara de me assumir. E o que é o brega? É o que você conhece como calipso, e a própria Banda Calypso não assumiu a palavra ‘brega’. Tecnobrega é a versão eletrônica do brega. Para fazer disco de brega calipso era muito caro, precisava pagar estúdios, músicos, instrumentos acústicos. Para baratear, a gente começou a usar guitarra, teclado e baixo dos teclados”. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pronto, estava criado o ritmo robotizado que nasceu de sintetizadores e computadores caseiros, circula nos camelódromos em cópias piratas sem versão original oficial por trás e alimenta uma indústria informal de equipes de som (Tupinambá, Rubi, Superpop, Vetron, Príncipe Negro e assim por diante) e vertiginosas, ricas, superproduzidas e multicoloridas “festas de aparelhagem”.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O DJ Dinho procura explicar o abandono e o autoabandono dos músicos locais. “As pessoas aqui não levam nada muito a sério, deixam de registrar as músicas. É uma coisa muito amadora, cai logo nas mãos dos pirateiros, que são os únicos que ganham dinheiro com os discos”, afirma, sabedor, no entanto, de que os piratas são os divulgadores primordiais e indispensáveis do tecnobrega.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A líder da Tecno Show sublinha reiteradamente que a terra queixosa não quer desdenhar do sucesso da Djavú. “Não é dor de cotovelo porque eles fazem sucesso, eles têm seus méritos. Os baianos fazem as micaretas, estão anos-luz à frente da gente, admito. Mas fico incomodada porque sou compositora, sou registrada, tenho direito autoral”.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Aqui, chega-se ao ponto nevrálgico da pinimba Pará versus Bahia. Não é possível negar que o incômodo atual nasce, sim, do megassucesso da Djavú, e não do “roubo” propriamente dito. Pois cópia e reciclagem sempre foram elementos inerentes do processo todo. Outro dos refrões paraenses do momento, por exemplo, chama-se “Você Vacilou” (“cabô, cabô/ bobeou, dançou/ você vacilou/ eu tô falando grego?, não tô”) e é apropriação tecnobrega de um hit pé-de-serra pertencente à banda cearense Forró do Muído.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Vladimir se posiciona, definindo o cenário como “caótico, informal e confuso”: “A Djavú roubou músicas de autores paraenses, é um fato. Mas, ao mesmo tempo, uma série de músicas do tecnobrega é roubada. ‘No More Lonely Nights’, do Paul McCartney, virou ‘Galera GDK’. ‘Beat It’, do Michael Jackson, virou ‘O Rei do Pop’, cujo refrão, no lugar de ‘beat it, beat it’, diz ‘é firme, firme!’. Existe uma via de mão dupla, na qual as bandas de forró roubam músicas paraenses e as bandas paraenses roubam forrós que são transformados em tecnobrega”.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Gabi admite a mão dupla. “Existe, sim, isso de alguém vir e gravar um forró em melody. O pessoal faz versão de Roxette, Bee Gees”. No CD &lt;span style="font-style:italic;"&gt;Reacender a Chama Vol. 2&lt;/span&gt; (2004), de sua Tecno Show, ela própria é atribuída como autora de “Quero Te Amar”, na verdade uma versão de “La Isla Bonita”, de Madonna. “Já fiz isso de pegar música dos outros, não posso negar. Mas não gosto, prefiro compor as minhas.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pelo lado Djavú, a Bahia se vê na condição incomum e incômoda de decalcar um estilo em vez de inventar moda, como fazia ao revelar o samba-reggae de Olodum, a axé music de Daniela Mercury ou o samba duro do É o Tchan. Mas o Pará conhece há muito tempo a pilhagem de suas riquezas. “Os estrangeiros já patentearam o açaí, o Japão patenteou o cupuaçu”, começa Gabi. “Com a lambada foi a mesma coisa de agora, só que naquela época a gente não tinha tecnologia, até para fazer uma ligação telefônica para São Paulo era difícil. Luiz Caldas veio, pegou a lambada e disse que era da Bahia. Depois o [&lt;span style="font-style:italic;"&gt;paraense&lt;/span&gt;] Beto Barbosa retomou um pouco, mas ele não tinha aquela coisa que o pessoal da Banda Calypso teve, de assumir que é do Pará. Acho que Beto tinha medo, porque o paraense sofria muita discriminação. Para o Brasil, Norte e Nordeste eram a mesma coisa, era tudo ‘paraíba’.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas, diferentemente de vezes passadas, o caso Djavú teve o condão de mexer profundamente com os brios, o orgulho e a autoestima paraenses. “Agora que a mágoa está passando, começo a ver que o mercado está aberto para esse estilo e para novos artistas. Foi bom, porque as pessoas agora estão vendo e dizendo que o ritmo é do Pará. Estou achando muito bacana a reação do paraense”, constata Gabi. “A gente tira proveito também, porque eles deram um boom muito grande para nossa música. Estão divulgando o tecnobrega. Abriram uma janela de divulgação, uma oportunidade para os cantores daqui do Norte”, percebe o DJ Dinho.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Gabi vai direto a outro nervo (quase) exposto da disputa: “É como se fossem ainda os portugueses desembarcando na Amazônia, dando presentinhos. Os indígenas recebendo eles com carinho, a ingenuidade indígena. Depois levam nossas coisas embora e a gente fica ao Deus-dará”.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Vladimir desenvolve raciocínio semelhante: “A elite local tem como hábito escamotear certos aspectos que constituem a identidade do povo paraense. Não gosta de ser ligada ao índio, ao negro, ao povo ribeirinho, ao morador de periferia. Nega seus traços índios, pinta o cabelo de loiro, sonha passar frio e usar casaco. O tecnobrega, a lambada e o melody lembram que existe uma gente ‘feia’, de pele escura,  ‘maleducada’, ‘malvestida’ e que ouve essa música dura, sexual, rude e que fere os ouvidos”.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O que parece acontecer de diferente hoje no Pará é que músicos populares e fazedores de tecnobrega descobrem, talvez de modo ainda rudimentar, sua própria responsabilidade em sempre deixar seus pássaros irem piar garbosos em outras freguesias. E começam a tratar-se a si e à sua música de modo inédito, como demonstra, mais uma vez, a fala de Gabi: “O tecnobrega é autêntico. E é uma coisa tão simples, tão idiota, que qualquer pessoa podia ter inventado. Mas não foi ninguém que inventou, foram os papa-xibés.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ela tem de decifrar para mim, sulista do Paraná, o que são “papa-xibés”. Pelo que compreendo, são papadores de açaí com farinha, ou seja, paraenses legítimos, pássaros da terra, músicos vigorosos, revolucionadores até hoje mais ou menos silenciosos de modelos caducos da indústria musical brasileira. Parecem começar a se dar conta de que, como cantavam em 1981 o carioca Jorge Ben e a niteroiense Baby Consuelo, antigamente todo dia era dia de índio cá no Brasil. E que, sim, podemos voltar a ser assim, por que não?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;b&gt;O REI DO CARIMBÓ&lt;/b&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Foi uma carioca chamada Eliana Pittman quem fez o Brasil conhecer, nos anos 70, o ritmo paraense do carimbó. O país foi embalado por algum tempo pelos animadíssimos sacolejos de “Sinhá Pureza” (“olelê, olalá/ misturei carimbó, siriá/ carimbó, sirimbó é gostoso/ é gostoso em Belém do Pará”) e “Tia Luzia, Tio José” (“a ‘bença’, tia Luzia/ a ‘bença’, tio José/ minha mãe mandou comprar um pouquinho de café”), que tinham como autor um tal de Pinduca. Paraense de Igarapé-Mirim, ainda vivo e atuante, ele está praticamente desconhecido fora da Amazônia, e hoje é cultivado com certa displicência mesmo na terra natal. Se CDs piratas de tecnobrega são encontráveis em cada esquina de Belém, é preciso queimar sola de sandália para encontrar títulos de carimbó.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pinduca não consta como verbete da “Enciclopédia da Música Brasileira”, mas está em atividade desde 1957, lançou três dezenas de álbuns desde 1973 e é um músico de inventividade e habilidade excepcionais, algo assim como um jazzista à maneira amazônica. Sempre paramentado com um grande chapéu de palha de pescador ornado com miniaturas de artesanato paraense, ele esbanja musicalidade em arranjos tão simples e diretos quanto minuciosos e elaborados de pedras preciosas pop como “Farinhada”, “Dona Maria”,  “O Pinto” e “A Dança do Carimbó”. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas, tal como ocorre na recente descoberta de um orgulho paraense dentro do tecnobrega, emitem-se agora sinais de um início de revalorização de Pinduca, dentro e fora do Pará. A cantora e compositora Fernanda Takai, da banda Pato Fu, incluiu em show e DVD solo uma versão para “Sinhá Pureza”, possivelmente em diálogo com o fato de, apesar de mineira, ter nascido no Amapá. E neste novembro, entre os dias 13 e 15, acontece o festival musical belenense Se Rasgum, no qual caberá uma homenagem a Pinduca. Ele será uma das atrações do dia 14, e deve ser chamado novamente ao palco para uma versão rock-carimbó de “Sinhá Pureza” ao lado do Pato Fu [&lt;i&gt;p.s.: o Pato Fu tocou mesmo o carimbó, mas o encontro musical acabou não acontecendo&lt;/i&gt;].&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Já tradicional no circuito roqueiro, o Se Rasgum 2009 vem especialmente diversificado, unindo um sem fim de bandas indies locais a Pinduca, ao Tecno Show de Gabi Amarantos, ao virtuoso Trio Manari [&lt;i&gt;que na hora H cancelou a participação&lt;/i&gt;], ao funk paranaense do Bonde do Rolê, ao rock pernambucano de Nação Zumbi...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A mistureba faz lembrar o próprio Pará, e dialoga com as seguintes palavras do diretor de “Brega S/A”, Vladimir Cunha, sobre as intensas trocas musicais a partir do porto de Belém: “Fico pensando o que sentiria um pós-punk metido a sebo ao saber que em Cametá, no baixo rio Tocantins, lavradores, estivadores e pescadores dançavam as mesmas músicas que ele dançava no [&lt;span style="font-style:italic;"&gt;clube paulistano&lt;/span&gt;] Madame Satã ou no [&lt;span style="font-style:italic;"&gt;carioca&lt;/span&gt;] Crepúsculo de Cubatão”. O que o pós-punk sentiria não se sabe, mas é bem possível que levasse um baita susto ao ouvir a brasilidade mais-que-perfeita do som do veterano Pinduca.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/8578073-3268472298083966819?l=pedroalexandresanches.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8578073/posts/default/3268472298083966819'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8578073/posts/default/3268472298083966819'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://pedroalexandresanches.blogspot.com/2010/01/briga-no-brega.html' title='briga no brega'/><author><name>Pedro Alexandre Sanches</name><uri>http://www.blogger.com/profile/07131381196986635010</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-8578073.post-3256663766532228839</id><published>2010-01-15T13:47:00.001-02:00</published><updated>2010-01-15T13:48:14.639-02:00</updated><title type='text'>você me deu adeus, como, se nós somos de Deus?</title><content type='html'>&lt;a href="http://pedroalexandresanches.blogspot.com/2010/01/sou-da-jovem-samba-minha-linha-e-de.html" target="_blank"&gt;Mais uma&lt;/a&gt; do "Brasil Econômico", caderno "Outlook" número 11, 19 de dezembro de 2009. Amanhã tem mais (nas bancas, não aqui).&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;b&gt;Malandro velho não tem nada com isso&lt;/b&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No precioso &lt;i&gt;Loki&lt;/i&gt;, que acaba de sair em DVD, Mutantes machos (e os diretores do documentário) soam indelicados ao pintar Rita Lee como a bruxinha má que estragou tudo&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;TEXTO &lt;b&gt;PEDRO ALEXANDRE SANCHES&lt;/b&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A história que une e desune Rita Lee e Arnaldo Baptista está entre as mais charmosas e pungentes deste Brasil. É uma espécie de Romeu &amp; Julieta pop-rock-tropicalista, em que a tragédia de envenenamento e morte dos dois amantes foi substituída por um distanciamento artístico até aqui intransponível entre ambos. Recém-editado em DVD, o documentário &lt;span style="font-style:italic;"&gt;Loki&lt;/span&gt;, de Paulo Henrique Fontenelle, é o documento precioso e comovente da fábula, sob o ponto de vista de Arnaldo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O filme é todo ouvidos para ele, que aproveita a oportunidade com tocante doçura e fala abundantemente, sobre tudo, sem freios. No trecho de maior impacto, dramaticidade e passionalismo, vai direto ao trauma e ao tabu e diz mais ou menos assim: “Eu tinha sido internado quatro vezes antes, por diversas razões. Então, plenamente consciente e cansado de falar com os médicos, cansei disso, e pensei: ‘Eu vou me ver livre’. Me joguei da janela. A noite que me atirei era réveillon, eu vi o réveillon e pensei: ‘Eu vou comemorar o aniversário de quem me internou pela primeira vez e me botou no arquivo médico’. Então me joguei”. Rita nasceu no dia 31 de dezembro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ela não aparece para dar sua versão. Como ocorreu na recente volta dos Mutantes, Rita tem se recusado a participar desses movimentos de revisão, não se sabe em que medida por desinteresse ou porque, lá no fundo, ela não seja lá muito bem-vinda entre “meninos” que a chamam meio pró-forma. Um mesmo teatro dramático se repete, sempre e sempre. Uma das discussões persistentes é sobre se a menina da banda saiu por vontade própria ou porque foi expulsa pelos rapazes. Em &lt;span style="font-style:italic;"&gt;Loki&lt;/span&gt;, todos se unem na versão de que ela saiu porque quis. Pode ser, e pode ser que ela se recuse a depositar em território “inimigo” sua versão. Mas, em termos práticos, mais uma vez os Mutantes machos (e a direção do documentário) soam indelicados em pintá-la como a bruxinha má que estragou tudo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Aí está o xis da questão, o ponto nevrálgico que o merecido sucesso do filme não deixou até agora vir à tona. Por embarcar numa única versão (ainda que seja real), &lt;span style="font-style:italic;"&gt;Loki&lt;/span&gt; se apresenta, por obra retórica da corte mutante masculina, como uma obra misógina, palco preservado de um antigo e perturbador cenário de guerra dos sexos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O trunfo é que a fala de Arnaldo, Dom Quixote brasileiro, é 100% transparente. Ele não diz uma frase insignificante sequer ao longo da narrativa. De suas linhas e entrelinhas brota o drama duro, objetivo, acima das dores, paixões e opiniões subjetivas de cada um. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Noutro ponto, ele diz: “Os Beatles e Rolling Stones não tinham mulher no conjunto, que dava o lado circense. A Rita trazia um lado de roupas, Theremins, instrumentos malucos. Era interessante esse lado colorido, circense”. Ou seja, a única mulher na turma seria responsável única pelo teor circense, picaresco, talvez exótico, do projeto – por sinal um projeto que encanta o mundo 40 anos após sua criação, como demonstra o emocionante depoimento de Sean Lennon, filho de Yoko Ono e John Lennon, peças essenciais de outra turma da pesada no quesito guerra dos sexos, os shakespearianos Beatles.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Soa assim eloquente um recorte de jornal da época da ruptura, que passa de relance pelo filme. Dizia o título: “Rita Lee largou os Mutantes e agora vem aí muito louca numa banda só de mulheres”. A banda não se concretizou, mas Rita Lee foi lutar contra os moinhos, ser roqueira feminista dentro de uma MPB e de um Brasil para lá de machistas. E Romeu &amp; Julieta seguem vivos, charmosos e fascinantes, morando aqui no Brasil.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/8578073-3256663766532228839?l=pedroalexandresanches.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8578073/posts/default/3256663766532228839'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8578073/posts/default/3256663766532228839'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://pedroalexandresanches.blogspot.com/2010/01/voce-me-deu-adeus-como-se-nos-somos-de.html' title='você me deu adeus, como, se nós somos de Deus?'/><author><name>Pedro Alexandre Sanches</name><uri>http://www.blogger.com/profile/07131381196986635010</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-8578073.post-6548029717033755817</id><published>2010-01-13T17:11:00.000-02:00</published><updated>2010-01-13T17:11:52.966-02:00</updated><title type='text'>sou da jovem samba, minha linha é de bamba</title><content type='html'>E, como que arrematando a &lt;a href="http://pedroalexandresanches.blogspot.com/2010/01/o-homem-da-gravata-florida.html" target="_blank"&gt;entrevista da "Trip"&lt;/a&gt;, segue um texto sobre a recém-lançada caixa de CDs de Jorge Ben. Saiu na edição de 5 de dezembro de 2009, no caderno "Outlook" do "Brasil Econômico" (jornal interessantíssimo, além de lindo graficamente, você já espiou?). Salve Jorge, viva Jorge.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;b&gt;Salve Jorge e seu Movimento Solo&lt;/b&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Caixa com 14 CDs confere a Ben Jor o trono nunca reconhecido de artista mais influente da música brasileira dos anos 70 em diante&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;TEXTO &lt;b&gt;PEDRO ALEXANDRE SANCHES&lt;/b&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Em 1967, aconteceu um congestionamento de movimentos musicais no Brasil. A tropicália foi o rótulo vencedor do acirrado campeonato, mas até que essa definição se consumasse o futuro da música pop brasileira hesitou entre apelidos como pilantragem, som universal, samba jovem, jovem samba, samba brasinha, toada moderna. Se tantas vertentes (tropicália incluída) pudessem ser somadas, resumidas e transfiguradas em gente, o movimento teria um só nome: Jorge Ben.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Figura referencial de todos aqueles balões de ensaio, esse músico carioca ímpar saltaria dos bastidores, onde se encontrava em 1967, para o trono nunca largamente reconhecido de artista mais influente da música brasileira dos anos 1970 adiante. Com 14 CDs recheados de música pop brasileira de primeiríssima qualidade, a caixa &lt;span style="font-style:italic;"&gt;Salve, Jorge!&lt;/span&gt; (R$ 250, em média) reconstitui a travessia do tímido cantor de samba-jazz do início dos anos 1960 ao desenvolto alquimista musical da década de 1970. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ironicamente, fica de fora justamente o ano de 1967, quando Jorge testava a tal “jovem samba” como evolução abrasileirada da roqueira jovem guarda. O disco &lt;span style="font-style:italic;"&gt;O Bidu&lt;/span&gt; não entra no pacote porque foi editado pela hoje extinta gravadora pernambucana Rozenblit, num intervalo de ruptura com a multinacional Philips (hoje Universal), detentora de sua obra no intervalo 1963-1976.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ben (hoje Ben Jor) surgira em 1963 como um originalíssimo, mas ainda retraído misturador de bossa nova, samba tradicional e jazz, uma amálgama que já ensaiava virar nome de movimento (e virava nome de disco), em &lt;span style="font-style:italic;"&gt;Samba Esquema Novo&lt;/span&gt;. Não virou porque a bossa nova ainda era dona do pedaço e porque o movimento era um homem só. Mas fincou na misturança sua primeira e definitiva marca, oriunda dos genes recombinados de africanos e europeus [&lt;i&gt;e americanos-ameríndios, arriscaria eu a complementar a redação original do texto, se pudesse&lt;/i&gt;].&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Embora seguisse para sempre como solitário homem-movimento, tudo seria diferente em 1967. Ali despertou a ira e a hostilidade da MPB “militante”, por assimilar e respeitar os roqueiros “alienados” do iê-iê-iê e, possivelmente, por pretender miscigenar samba e rock. Ensaiou lançar a jovem samba com Erasmo Carlos, sob influência e artimanhas do produtor, agitador e marqueteiro Carlos Imperial. E, mais que nada, configurou-se em fornecedor musical e eminência parda do músico brasileiro mais popular daqueles dias (ao lado de Roberto Carlos), Wilson Simonal, que converteria seu &lt;span style="font-style:italic;"&gt;País Tropical&lt;/span&gt; em hino extraoficial do Brasil.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Simonal era quem tinha então o toque de Midas, e em sua garganta a jovem samba amadureceu até a forma comercial batizada de pilantragem, uma entidade impura por excelência, híbrida de samba, bossa, jazz, rock, MPB, iê-iê-iê etc., e constituída por um elenco extenso de talentos musicais, Jorge Ben entre eles. A disputa foi ferrenha. Caetano Veloso e Gilberto Gil quiseram chamar a pilantragem de som universal e gravaram com Jorge a emblemática &lt;span style="font-style:italic;"&gt;Queremos Guerra &lt;/span&gt;(1968). Infelizmente, o precioso encontro de três futuros gigantes não consta entre as 28 faixas do CD duplo de raridades adicionado à caixa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A tropicália incorporaria ao menos metade do know-how da pilantragem, e Imperial até tentou inventar a “pilantrália” em contra-ataque. Mas a pilantragem seria atirada ao ostracismo como movimento e como turma, primeiro pela antipatia despertada por Simonal no status de “negro poderoso”, e a seguir pela derrocada polítco-policial do cantor. Há quem pense que a pilantragem morreu com o ocaso de Simonal, mas não. O cenário político fechou o tempo para novos levantes raciais e movimentos batizados, mas a pilantragem seguiu em frente sob o nome de... Jorge Ben.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Se Simonal havia consolidado e hipertrofiado a hibridez de Ben, coube a este agora passar às cegas por cima dos traumas e depurar, aperfeiçoar e aprofundar o avanço musical trazido pelo parceiro. Jorge encolheu-se de novo, eliminou qualquer traço “pilantra”, suavizou o black power e... pôs-se a misturar e experimentar mais que nunca. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Com o Trio Mocotó, plantou as sementes do que viria a ser conhecido nos bailes de periferia como samba-rock e criou três álbuns essenciais,&lt;span style="font-style:italic;"&gt; Jorge Ben&lt;/span&gt; (1969), o tristíssimo &lt;span style="font-style:italic;"&gt;Força Bruta&lt;/span&gt; (1970) e &lt;span style="font-style:italic;"&gt;Negro É Lindo&lt;/span&gt; (1971), sua versão aveludada e amedrontada para o lema “black is beautiful”). Com Os Originais do Samba, abriu alas para a repopularização do samba em ambientes livres dos dogmas e amarras da MPB, rumo às invenções setentistas do “samba joia” (Benito di Paula) e da música dita “cafona”.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sua própria obra se embebeu desse espírito simultaneamente pop, popular, culto, anárquico e desbravador, numa sequência matadora de discos de cabeceira para todo mundo que fez e faz música no Brasil desde então: &lt;span style="font-style:italic;"&gt;Ben&lt;/span&gt; (1972), &lt;span style="font-style:italic;"&gt;A Tábua de Esmeralda&lt;/span&gt; (1974), &lt;span style="font-style:italic;"&gt;Ogum Xangô&lt;/span&gt; (uma tábua de esmeralda de improvisos musicais ao lado de Gil), &lt;span style="font-style:italic;"&gt;Solta o Pavão&lt;/span&gt; (1975) e o heavy-samba-funk &lt;span style="font-style:italic;"&gt;África Brasil&lt;/span&gt; (1976). &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Jorge produziu pirações nesse período, como os textos de exaltação aos alquimistas medievais e a crença na transmutação de metais em ouro. Acontece que os metais que transformava em ouro eram um panelão de gêneros musicais aparentemente incompatíveis, mas amalgamados por seu condão em algo mais valioso que ouro: a pedra filosofal-musical que ensina com sutileza ao Brasil a fusão de raças, origens e identidades que o país é.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/8578073-6548029717033755817?l=pedroalexandresanches.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8578073/posts/default/6548029717033755817'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8578073/posts/default/6548029717033755817'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://pedroalexandresanches.blogspot.com/2010/01/sou-da-jovem-samba-minha-linha-e-de.html' title='sou da jovem samba, minha linha é de bamba'/><author><name>Pedro Alexandre Sanches</name><uri>http://www.blogger.com/profile/07131381196986635010</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-8578073.post-6125859381532063710</id><published>2010-01-12T15:32:00.003-02:00</published><updated>2010-01-12T15:37:37.238-02:00</updated><title type='text'>o homem da gravata florida</title><content type='html'>Para iniciar a retrospectiva, segue abaixo o texto de introdução da entrevista "O homem patropi", publicada na "Trip" 183 (novembro 2009), seguida de uma versão maior do &lt;a href="http://revistatrip.uol.com.br/revista/183/paginas-negras/o-homem-patropi.html#comments" target="_blank"&gt;pingue-pongue&lt;/a&gt; com (meu ídolo) Jorge Ben (Jor). (Do tamanho como vai abaixo, n!ão haveria revista ou jornal que desse conta do pingue-pongão, mas, como aqui é a internet...)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;b&gt;O HOMEM PATROPI&lt;/b&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;a onblur="try {parent.deselectBloggerImageGracefully();} catch(e) {}" href="http://4.bp.blogspot.com/_-QmIbP1qLeY/S0yy3Yf03FI/AAAAAAAAAZk/1cVh-NJdUtY/s1600-h/Trip+Jorge+Ben+Jor.jpg"&gt;&lt;img style="float:left; margin:0 10px 10px 0;cursor:pointer; cursor:hand;width: 150px; height: 200px;" src="http://4.bp.blogspot.com/_-QmIbP1qLeY/S0yy3Yf03FI/AAAAAAAAAZk/1cVh-NJdUtY/s400/Trip+Jorge+Ben+Jor.jpg" border="0" alt=""id="BLOGGER_PHOTO_ID_5425908315613092946" /&gt;&lt;/a&gt;NA MAIOR ENTREVISTA DE SUA CARREIRA, JORGE BEN JOR MOSTRA POR QUE, NOS ÚLTIMOS 40 ANOS, NUNCA DEIXOU DE SER UMA DAS MAIS COMPLETAS E TRANSPARENTES TRADUÇÕES DO BRASIL. ELE ABRE O JOGO SOBRE A MÃE DE FAMÍLIA ETÍOPE E O PAI DESCENDENTE DE AUSTRÍACOS, SOBRE A FUSÃO DO SAMBA COM O ROCK, A PONTE AÉREA RIO-FLÓRIDA, O FUTEBOL, O GOLFE E A TRANSMUTAÇÃO DE METAIS EM OURO. NAS PRÓXIMAS PÁGINAS, RELAXE E CURTA O SUINGUE DO MAIOR ALQUIMISTA DA MÚSICA BRASILEIRA&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;POR PEDRO ALEXANDRE SANCHES&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Há quase cinco décadas Jorge Ben Jor tem oscilado entre fases de superexposição e outras de relativo sumiço. Mesmo nessas últimas, desde 1963 nunca deixou, nem um minuto sequer, de ser uma das mais completas e transparentes traduções de Brasil.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Idêntico ao Brasil, Jorge é uma usina produtora de sambas. Mas são sambas tortos, sacudidos, impuros, exuberantes, miscigenados, sacudidos por influência norte-americana do funk e da soul music. Iguaizinhos ao Brasil, são sambas mestiços de europeus e indígenas, de quando todo dia era dia de índio, e black music total, música negra brasileira.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Historicamente, é criador de letras de imediato poder comunicativo e contundente simplicidade. Sob linguagem direta, sem rebuscamentos nem medo de derrapar nas normas cultas da língua, conta histórias simples e não raro tortuosas, mas que todo brasileiro (e mesmo um punhado de gringos) entende num piscar de olhos – o trio formado por “País Tropical”, “Fio Maravilha” e “Taj Mahal” é suficiente para provar e para mover a massa, onde e quando for repetido. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Suas musas inspiradoras não são garotas bossa-nova de Ipanema (mas podem até ser, que elas o adoram). Estão mais para meninas do subúrbio, negras, louras, morenas e mulatas de nomes Domingas, Jesualda, Aparecida, Bebete, Berenice, Katarina, Ana Tropicana, Xica da Silva. O próprio Jorge sempre esteve menos para Tom Jobim que para, bem... para Jorge Ben (Ben Jor ele só virou em 1989). Quando está aparecido, Jorge é sucesso simultâneo de público e de, digamos, crítica – não há músico suingado dos anos 90 ou 2000 que não goteje influência de sua matriz sonora (e filosófica), dos mangueboys a Seu Jorge, de Fernanda Abreu a Leandro Lehart, de Marisa Monte a Mano Brown.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Jorge andava sumido outra vez, e ressurgiu no último dia 19 de setembro, numa das maiores casas paulistanas de shows – abarrotada como se ele fosse tema de abertura da novela das nove. Iniciada a apresentação, ficou imediatamente que o homem baile não apenas está de volta, mas que alguma coisa muito nova está acontecendo com ele. Ao longo da noite, mostrou que fez as pazes com o adorado disco &lt;span style="font-style:italic;"&gt;A Tábua de Esmeralda&lt;/span&gt;, marco na história da música brasileira ao qual permaneceu reticente por muitos anos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Concebido em 1974, era todo forrado de referências à alquimia, a arte quimérica de transformar metais diversos em ouro. Naquele ano, por sinal, não era só Jorge que andava a toda. Tim Maia se convertera ao Universo em Desencanto e fazia propaganda religiosa da organização nos maluquíssimos LPs &lt;span style="font-style:italic;"&gt;Tim Maia Racional&lt;/span&gt;. Raul Seixas cortejava a magia negra e alardeava aos quatro ventos a Sociedade Alternativa. A exemplo do que fez Tim com a fase Racional, Jorge trancou no baú parte substancial daquele capítulo. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A entrevista abaixo dá mais uma pista de que algo se move em seu peculiar imaginário. Jorge é desafio árduo para qualquer entrevistador. Geralmente muito reservado, gosta de responder perguntas com monossílabas e de acordo com uma lógica interna bem particular. Pois não foi assim desta vez. Atendeu à reportagem de &lt;b&gt;&lt;i&gt;Trip&lt;/i&gt;&lt;/b&gt; em condições de alta temperatura e pressão, tipicamente “benjorianas”, mas, fato raríssimo, falou pelos cotovelos – sobre alquimia, a vida de seminarista, a também discretíssima família, suas relações com rap e funk carioca.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A primeira etapa do encontro aconteceu no dia do show paulistano. Viajamos ao Rio de Janeiro apenas para encontrá-lo no aeroporto Santos Dumont e então embarcar a seu lado para São Paulo. Durante o voo, aconteceu a maior parte da entrevista. Num segundo encontro, a convite dele, a &lt;b&gt;&lt;i&gt;Trip&lt;/i&gt;&lt;/b&gt; conheceu a atual menina dos olhos de Jorge, um sarau chamado Corujão da Poesia, do qual ele é padrinho e mestre de cerimônia. Às terças-feiras, numa livraria 24 horas do Leblon, um Ben Jor assíduo (e notívago, talvez insone) faz vezes de MC e conduz jam como fundo musical para declamações madrugada adentro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Confirmou-se ali a impressão de que o cantor cultiva apaixonadamente o hábito de permanecer eterna criança. O mesmo Jorge galante que no avião apanhou um punhadão de balas toffee do cesto da aeromoça (“Ah, aceito, essas balinhas me deixam maluco!”) reaparece no Corujão, distribuindo presentinhos para poetas: às moças, sacolinhas de São Cosme e Damião; aos rapazes, pipas (ou papagaios, bariletes, pandorgas, como listava em “Olha a Pipa”, outra música que depois ficou perdida no tempo).&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;À maranhense Lília Diniz, que cantou e declamou Patativa do Assaré com voz de trovão, deu de presente uma boneca (“Faz muito tempo que não ganho uma”, ela se espantou). Maravilhou-se quando o jovem poeta e palhaço Lucas Castelo Branco encenou com furor um enorme poema de Fernando Pessoa [&lt;i&gt;trecho suprimido por falta de espaço: , e mais tarde, no balcão de uma padaria para a qual também nos convidou, perguntou a ele, feito menino: “Quantos livros você consegue ler por mês? O professor (João Luiz de Souza, organizador do Corujão) acha que, pra eu memorizar tudo, tenho que ler no mínimo cinco por mês”&lt;/i&gt;]. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Num dia em que o menino chamado Jorge estava a toda, ele ainda cedeu à sugestão da produção para uma suada sessão de fotos, e então o inesperado aconteceu: às 3h30 da manhã, Jorge Ben (Jor) tornou-se o que sempre foi, o homem da gravata florida. Tal qual o país em que nasceu e que canta em dez de cada dez canções que compõe, parece viver um momento de intenso reencontro consigo mesmo. Se por acaso você estranhar suas palavras sobre alquimia e transmutação, experimente escutá-lo não no sentido literal, mas sim no simbólico, no poético. Afinal é disso, de poesia, que o homem verde-negro-amarelo da gravata florida vive em tempo integral. Voa, Jorge, voa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;a onblur="try {parent.deselectBloggerImageGracefully();} catch(e) {}" href="http://4.bp.blogspot.com/_-QmIbP1qLeY/S0yzMJdVuKI/AAAAAAAAAZs/YQvTlcmLU7E/s1600-h/Trip+Jorge+Ben+Jor+2.jpg"&gt;&lt;img style="display:block; margin:0px auto 10px; text-align:center;cursor:pointer; cursor:hand;width: 348px; height: 400px;" src="http://4.bp.blogspot.com/_-QmIbP1qLeY/S0yzMJdVuKI/AAAAAAAAAZs/YQvTlcmLU7E/s400/Trip+Jorge+Ben+Jor+2.jpg" border="0" alt=""id="BLOGGER_PHOTO_ID_5425908672353384610" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;[&lt;i&gt;Foto de Marcelo Naddeo.&lt;/i&gt;]&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(NO SAGUÃO DO AEROPORTO, ELE COMEÇA CONTANDO, EMPOLGADO, SOBRE O CORUJÃO DA POESIA.) VOCÊ LÊ POESIA?&lt;br /&gt;Leio. Mês passado comemoramos lá os 102 anos de Jorge Luis Borges, o poeta argentino. Fizemos uma hora só de Jorge Luis Borges. Levei um livro, todo mundo leu Jorge Luis Borges, uma coisa maravilhosa. Só pra ficar nos Jorges, já fizemos Jorge de Lima, grande poeta brasileiro, alagoano, médico que se apaixonou pelo Rio de Janeiro. Era médico e poeta ao mesmo tempo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;VOCÊ SEMPRE GOSTOU DE LER? NOS ANOS 70, CITAVA DOSTOIÉVSKI EM LETRA DE MÚSICA.&lt;br /&gt;Sempre, sempre. Ganhei um livro de sonetos traduzidos de William Shakespeare que é a coisa mais linda, rapaz. O cara era fodaço, fodaço, genial. Os sonetos são todos amorosos, têm umas coisas meio sarcásticas, mas é todo amoroso, todo, todo. Demais. Ele devia ter uma musa maravilhosa. Leio as biografias dos meus musos, os poetas brasileiros. Oswald de Andrade, puta que pariu!, os versos dele, sonetos, tudo malandreado, ele já era moderno naquele tempo, estava na frente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;LÊ DESDE MOÇO? SUA OBRA SE INSPIRA NA LITERATURA?&lt;br /&gt;Sim, na minha adolescência eu já lia coisas difíceis, que o pessoal não entendia. Sabia ler e decorava textos em latim. Sabia São Tomás de Aquino, a &lt;span style="font-style:italic;"&gt;Suma Teológica&lt;/span&gt;, coisas que aprendi no seminário.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;VOCÊ FOI SEMINARISTA?&lt;br /&gt;Fui, fiz dois anos de seminário, aqui no Rio. Aprendi latim por causa da literatura do São Tomás de Aquino [&lt;i&gt;pronuncia “Aqüino”, com trema&lt;/i&gt;]. Ele tem uns textos lindos, a &lt;span style="font-style:italic;"&gt;Suma Teológica&lt;/span&gt;... Saber que um santo, São Tomás de Aquino, era um alquimista famoso... Ele e o professor dele, Santo Alberto, grande médico. É demais, pra você ver, São Tomás de Aquino escreveu uma coisa tão simples, bonita e poderosa. É uma coisa para o homem e para a mulher [&lt;i&gt;fala em tom recitado&lt;/i&gt;]: “O mundo é um suceder de níveis, desde a matéria inanimada até a suprema beatitude do ser eterno, que é Deus”. Ele diz que a primeira lei natural é a conservação da vida – todo mundo quer conservar a vida –, depois a geração, que é ter filhos e educar os filhos, e depois o desejo de verdade. O único país que aproveitou bem a teologia de São Tomás de Aquino foi a Alemanha. A Constituição alemã é toda tomasiana, toda. Os outros imitam, mas a Alemanha...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;É FÁCIL ENCONTRAR NAS LIVRARIAS? SÃO TOMÁS DE AQUINO NÃO É MUITO POPULAR, É?&lt;br /&gt;Não, não é. Uma vez até, na Itália, terra dele, perguntei e o livreiro falou: “Não, São Tomás de Aquino é um santo série B” [&lt;i&gt;ri&lt;/i&gt;]. Não é um santo série A. Série A é São Pedro, São Paulo...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;SÃO JORGE...&lt;br /&gt;São Jorge também é B... Aqui no Brasil que é A. Gozado, cara, “série B”... (Nos acomodamos nas poltronas do avião.) Na Delta Airlines e na América Airlines tem as aerovelhas, [&lt;i&gt;risos&lt;/i&gt;], elas são bravas, “Não pode passar aí, não é seu lugar, porra!”.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;VOCÊ NÃO CHAMA ELAS DE AEROVELHAS, CHAMA?&lt;br /&gt;Não, não, mas são todas velhinhas bonitinhas, arrumadinhas. Os americanos têm isso de bom, deixam as velhinhas de 60 anos trabalharem de areomoças [&lt;i&gt;cumprimenta o jogador Jonas, do Botafogo, que está sentado na poltrona a seu lado&lt;/i&gt;]. Prazer, meu irmão. Ó, e boa sorte, você é profissional, tem que jogar onde tem que jogar. Falou, boa sorte, irmão.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;ESSE NÃO É DO SEU TIME...&lt;br /&gt;Não. Ele foi do Flamengo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;NÃO ENTENDO NADA DESSE ASSUNTO...&lt;br /&gt;Esporte você não cobre, não?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;NÃO, MAIS MÚSICA.&lt;br /&gt;Só música? Ah, o relacionamento da música com futebol é bom, pô.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;POIS É, A COMEÇAR POR VOCÊ. POIS É, A COMEÇAR POR VOCÊ, NÉ?&lt;br /&gt;É... Agora está no ar a campanha da Fernandinha Abreu, ela é vascaína, está fazendo a campanha do Vasco, pra sócio. Luiz Melodia também é vascaíno. Mas quando a gente se encontra é uma festa total, Fernandinha é minha musa. Pô,  “Jorge de Capadócia” com ela foi... delicioso.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;JORGE, NUNCA ENTENDO ONDE VOCÊ MORA. UM POUCO NOS ESTADOS UNIDOS E UM POUCO AQUI, VOCÊ ALTERNA?&lt;br /&gt;É, moro um pouco lá, um pouco no Rio e um em pouco São Paulo. Antigamente era mais nos Estados Unidos. Por causa da escola e da faculdade dos meus filhos eu tinha que estar mais lá.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;OS DOIS ESTAVAM ESTUDANDO LÁ?&lt;br /&gt;Estavam. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;GABRIEL E...&lt;br /&gt;Tomaso.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;DE AQUINO?...&lt;br /&gt;Fiquei nos Estados Unidos, porque lá, enquanto o filho é menor, você tem que estar perto, o tutor tem que aparecer, pra pagar as contas principalmente (ri), pra saber como estão as notas. Depois, na faculdade, melhorou, mas no tempo da high school tinha que ficar mais tempo lá que aqui.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;MORAVAM EM QUE CIDADE?&lt;br /&gt;No interior da Flórida, uma cidade bem caipira, Bradenton, uma cidade onde você vê ainda aqueles caras que nem em filme, de macacão e chapéu de rancheiro. A cidadezinha tem a maior high school pra estudantes de fora.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;VOCÊ ESTRANHAVA?  O CARA QUE COMPÔS “PAÍS TROPICAL”, MORAR NESSE LUGAR TÃO TIPICAMENTE... OUTRA COISA?&lt;br /&gt;Não, porque ali é pertinho, em 40 minutos está em Orlando, de Orlando são três horas para Miami, tudo de carro. Eles eram internos, a escola soltava no fim de semana, eles vinham para Flórida, ou senão Miami. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;ENTÃO ELES ACABARAM A ESCOLA, E AGORA VOCÊ ESTÁ MAIS NO BRASIL DE NOVO?&lt;br /&gt;Acabaram a high school, agora estão na faculdade. Gabriel mexe com tecnologia de música, está fazendo, como se fala?, esqueci... Ele escolheu ciências políticas e esse negócio de hotelaria. Faz hotelaria e faz música eletrônica, essa música eletrônica, de DJ...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;ENGRAÇADO, O FILHO DO JORGE BEN...&lt;br /&gt;É, e o Tomaso já está formado em business administration. Está trabalhando na bolsa, em Wall Street.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;EM TEMPOS DE CRISE GLOBAL...&lt;br /&gt;É, não foi fácil, não. E agora minha mulher fica lá com eles, há um tempão, aí vem pra cá resolver as coisas. Agora ela está aqui, resolvendo umas coisas aqui do escritório.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;VOCÊ FAZ MUITOS SHOWS LÁ?&lt;br /&gt;Lá tem muito trabalho, muito. Mas a agenda tá mais aqui, o empresário é daqui. O Junior [&lt;i&gt;Airton Valadão Jr., irmão do cantor Nasi&lt;/i&gt;] é um grande empresário. Se você falar pra ele “ó, eu quero de segunda a sexta”, ele arranja.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;VOCÊ GOSTA DE FAZER SHOWS DE SEGUNDA A SEXTA?&lt;br /&gt;Não, não, assim não dá, assim não dá. Porque, modéstia à parte, o nosso show é show. Dois shows pra gente no mesmo dia não é legal, porque um não vai sair bom, já faz o primeiro pensando no segundo. Então tem que ser um só, pra sair legal. Aqui seria bom, mas o problema ainda é de viagem, lá pra cima não saem nunca na hora certa. De uma cidade pra outra, se é pequenininha, não tem voo, tem que encarar van.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;OS DOIS FILHOS, ENTÃO, PREFERIRAM FICAR MORANDO FORA?&lt;br /&gt;É porque Tomás tá trabalhando, e pra Gabriel ainda faltam dois anos de faculdade.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;ELES SÃO DISCRETOS, NÃO? NUNCA VI FOTOS DELES.&lt;br /&gt;Tem pouca foto. Eles também não gostam muito, não.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;VOCÊ TAMBÉM É MUITO DISCRETO. COSTUMA FALAR SOBRE MÚSICA, E MESMO ASSIM É BEM RARO.&lt;br /&gt;É, falo sobre o meu trabalho. Agora eu tô falando sobre livro e poesia porque eu gosto. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;MUITA GENTE TALVEZ SE SURPREENDA COM ESSE LADO SEU, PORQUE SUA MÚSICA É POPULAR, NÃO VAI PRO LADO “INTELECTUAL”.&lt;br /&gt;É, alguma coisa às vezes eu mesmo censuro... Pô, não pode ser muito inelectual, tem que misturar. O urbanismo, eu passo isso, minha música é urbana e suburbana. O Dostoiévski foi o primeiro livro-cabeça que parei, depois de São Tomás de Aquino... Foi &lt;span style="font-style:italic;"&gt;Os Irmãos Karamazov&lt;/span&gt; [&lt;i&gt;mostra a espesssura do livro com a mão&lt;/i&gt;]. É um livro que você desiste, o primeiro livro que li. Eu já sabia da história, mas antiga, alguma coisa, do tempo de escola, de filme. É um poeta quase contemporâneo, Dostoiévski. Passou por aquela Rússia toda, dos czares. &lt;span style="font-style:italic;"&gt;O Jogador&lt;/span&gt; também é demais...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-style:italic;"&gt;O JOGADOR&lt;/span&gt; APARECE NA LETRA DE “AS ROSAS ERAM TODAS AMARELAS” (&lt;i&gt;CANÇÃO DE 1972 QUE CITA PERSONAGENS DE VÁRIOS ROMANCES E POEMAS DE DOSTOIÉVSKI&lt;/i&gt;).&lt;br /&gt;É, &lt;span style="font-style:italic;"&gt;O Jogador&lt;/span&gt;... Dostoiévski tem um jogador, um ladrão honrado, um adolescente, o ofendido... Ele conta as ideias do jogador, ele é compulsivo e temeroso ao mesmo tempo, “vou jogar, vou perder, não jogo”. Muito bacana.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;COM QUAL DESSES PERSONAGENS VOCÊ SE IDENTIFICA MAIS?&lt;br /&gt;[&lt;i&gt;Pausa.&lt;/i&gt;] Adoro esses personagens dele, são personagens que vão tentando se achar... O ofendido vai tentando, ele se sente o ofendido a vida inteira, mas ele quer tentar sair daquilo. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“TAJ MAHAL” [&lt;i&gt;1972&lt;/i&gt;] NASCEU DE LEITURAS SUAS?&lt;br /&gt;Leitura minha, total. A história do Taj Mahal é linda, na Índia, na cidade de Agra. Vários escritores escreveram sobre o Taj Mahal. O príncipe Xá-Jehan era persa, foi na época que a Pérsia dominava ali na Índia. E ele casou com Nunts Mahal, devia gostar muito dela, porque tiveram 14 filhos. E para fazer aquele palácio maravilhoso com artesãos turcos, italianos, os melhores artesãos de pedras preciosas ele contratou para fazer o Taj Mahal.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;VOCÊ JÁ FOI À ÍNDIA E AO TAJ MAHAL?&lt;br /&gt;Não. Eu soube que o músico Taj Mahal gravou um disco lá, deixaram ele gravar. O lugar tem uma acústica... Eu soube agora que o palácio está moderno, modernizaram tudo. Não tinha banheiro pra turista, agora tem.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;CURIOSO, ESSA É UMA DE SUAS MÚSICAS MAIS FAMOSAS, E ATÉ HOJE VOCÊ NÃO FOI CONHECER PESSOALMENTE?&lt;br /&gt;Nunca. Eu vou, vou ter que ir. Tentei duas vezes, estava em Londres a a gente ia para tocar 15 dias depois da temporada de verão, Tunísia, França, Itália. Aí pensei, vou pra Índia, Agra. Mas, como estrangeiro, pra chegar lá eu ia ter que tomar umas três vacinas. Ia chegar e tinha que pegar outro voo pra Agra, que fica uns 300 quilômetros da capital. Fiquei pensando, pô, vou tomar essa vacina, pode me dar alguma coisa, e eu tenho compromisso, tenho o resto da excursão pra fazer. Aí estou esperando. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;FICO AQUI IMAGINANDO SE NO SEU SANGUE NÃO CORRE ALGUMA COISA PARA AQUELES LADOS.&lt;br /&gt;Não, mas eu gosto daquela história. Tem uma espiritualidade, a Índia toda tem.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;VOCÊ FALA DOS TUAREGUES EM MÚSICA, ELES TAMBÉM SÃO ORIENTAIS, NÃO? VOCÊ CONHECE SUA DESCENDÊNCIA?&lt;br /&gt;Minha descendência por parte de mãe é etíope. Agora, por parte de meu pai, é uma mistura. Por parte de meu pai tem europeu, europeu mesmo. A família toda de meu pai é branquinha, minha avó era branca. Meu pai já era moreno, nasceu aqui no Brasil já misturado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;AUGUSTO?...&lt;br /&gt;O Augusto, é. A gente ficou procurando isso, dizem que minha avó por parte de pai era austríaca. O resto da família é tudo claro. E eu sou mesclado porque misturou com minha mãe, África. Nem é África lá, Etiópia é outra parte ali. Uma coisa incrível que eu estava vendo é que na Etiópia mesmo eles se sentem mais europeus que africanos. E realmente, é uma ponte, né?, “não, aqui não, nós somos africanos, somos outra coisa”. E é isso, você vê, a Europa está ali mais perto da África que o Brasil, né?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;VOCÊ PODE CONTAR SOBRE SUA INFÂNCIA, SEUS PAIS?&lt;br /&gt;Ah, meus pais foram maravilhosos pra mim.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;OS DOIS NASCERAM NO RIO?&lt;br /&gt;Não, só meu pai. Minha mãe (Sílvia) nasceu na divisa de Rio e São Paulo, já veio prontinha de lá. Nasceu em zona rural, contam que meu avô veio para cá sem querer, ele não vinha para cá. Meu avô tem uma história de um navio que saiu lá do Mediterrâneo e ia pra outro lugar, aí parou no Brasil. Por isso eu falo “parou no Brasil num dia de Carnaval”.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;QUAL É ESSA MÚSICA MESMO?&lt;br /&gt;“Crioula” [&lt;i&gt;de 1969&lt;/i&gt;].&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;DE ONDE VINHA O NAVIO?&lt;br /&gt;Da Etiópia. Nessa época, a Etiópia já estava sendo invadida. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E FOI PARAR NA ZONA RURAL, DIVISA DE SÃO PAULO E RIO? COMO SE CHAMA ESSE LUGAR?&lt;br /&gt;Ah, eu não sei se é Queluz, já no Rio de Janeiro... Vale do Paraíba, meu avô era agricultor.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;ENTÃO NÃO EXISTE A COISA DA ESCRAVIDÃO NO SEU PASSADO?&lt;br /&gt;Não, não. Meu avô veio ao Brasil, devia ir pra um lugar melhor. Na história da escravidão, os Estados Unidos foram o primeiro país a liberar os escravos. Então falava-se que o pessoal da Etiópia ia pra lá. E não existia ainda Israel, hoje o pessoal da Etiópia vai pra Israel, porque a maioria deles é de judeus. Mas meu avô não era judeu. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;NÃO É POSSÍVEL QUE TENHA ALGO DE JUDEU NESSA MISTURA?&lt;br /&gt;Não, não tem. Minha avó só conheci de retrato. Não conheci ela, nem meu avô. Conheci minha avó por parte do meu pai.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O QUE SEUS PAIS FAZIAM?&lt;br /&gt;Ah, de meu pai poderia dizer que aprendi a malandragem, o lado filósofo. Meu pai foi um grande estivador. Meu pai tinha um Ford bigode, um caminhão, e o orgulho dele era domingo levar o pessoal pro futebol e pra piquenique.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;ELE PEGAVA NO PESADO...&lt;br /&gt;Estivador, meu pai trabalhou de estivador. Depois se aposentou, fez parte do bon vivant da zona Sul, morar em Copacabana, ir à praia pescar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;ISSO PORQUE ELE PROGREDIU?&lt;br /&gt;Não, eu também progredi... Mas nunca nos faltou nada por causa disso, meu pai sempre correu atrás.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;SUA FAMÍLIA NUNCA FOI POBRE, ENTÃO?&lt;br /&gt;Não, pobre não. Sempre teve roupa pra mim, colégio. Esses dois anos, quase três que passei no seminário, foi uma bolsa de estudo que meu pai arrumou pra mim, por conhecimento. Tinha saído do primário, fiz ginásio e aí arrumei a bolsa, foi a melhor coisa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;VOCÊ GOSTAVA? SEMINÁRIO PARECE SER ALGO RIGOROSO.&lt;br /&gt;Era rigoroso, total, mas tinha uma aura... Quando você voltava pro povo, você sentia, mudava tudo, era um distúrbio total. Lá era uma calmaria, falava-se baixo, sem palavrão, cumprindo ordens. Você tinha acesso aos livros pra rezar, pra cantar no coro gregoriano, aquelas coisas bonitas. O latim vem dessa época, rezava missa em latim. Fui coroinha também.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;ESSA FASE MARCOU SUA VIDA? VOCÊ É RELIGIOSO?&lt;br /&gt;Marcou, foi bom. Sou religioso. Sou cristão, católico e carioca. Só não sou romano porque nasci no Rio de Janeiro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;MAS É ECLÉTICO TAMBÉM, NÃO? OGUM SEMPRE APARECE NAS SUAS MÚSICAS.&lt;br /&gt;Faz parte, faz parte da filosofia, né? A igreja sabe, isso já foi discutido várias vezes, pelas etnias, uma coisa que os negros africanos tiveram que inventar, cada orixá deles botavam um santo, pra poder sobreviver. É a mitologia dos orixás, cada orixá é um santo. Essa é a mística, né?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;TEM UMA HISTÓRIA DE QUE VOCÊ QUERIA SER JOGADOR DE FUTEBOL, E NÃO MÚSICO?&lt;br /&gt;É, eu passei, fui do Flamengo. Consegui jogar no Flamengo, no infanto-juvenil. Mas aí o futebol era bom, mas eu tinha que correr atrás pra trabalhar, estudar, pagar as contas. Lá não ganhava nada, né? Não era remunerado. Até que apareceu a música, mas era outra coisa que eu também não queria.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;NÃO?&lt;br /&gt;Não.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;AI, MEU DEUS. O QUE SERIA DE NÓS?&lt;br /&gt;Meu pai e minha mãe não gostavam, falavam... Porque até aquele tempo atrás o músico era considerado um marginal, aquelas coisas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;TINHA QUE ENTRAR PELA PORTA DOS FUNDOS.&lt;br /&gt;É, não tinha respeito.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;NESSE TEMPO VOCÊ CHEGOU A TER EMPREGOS “NORMAIS”?&lt;br /&gt;Olha aqui, eu trabalhei um pouquinho de despachante, aquele cara que vê livro, vai no cartório... Tinha um trabalho legal, das 10 às 16 horas. E nesse ínterim todo, eu já estava na alquimia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;ESTUDANDO ALQUIMIA? OU FREQUENTANDO ALGUM GRUPO?&lt;br /&gt;Estudando. E tinha um grupo, um grupo de adeptos maravilhosos, eram da América do Sul, e tinha um brasileiro, professor ou reitor de faculdade, de São Paulo, não sei se era PUC. Junto com um grupo sul-americano de adeptos da alquimia, ele viu uma transmutação, em 1958.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;DE METAL EM OURO?&lt;br /&gt;É, é. Eles viram, na América do Sul. Eles falaram pra mim: “É uma arte”. Quando conversei com eles falei de São Tomás de Aquino, dos livros... A Igreja proíbe de falar que ele foi alquimista. A Igreja proíbe, mas ele foi. O o papa deixava, papa Silvestre deixava, isso no século XIII, porque São Tomás de Aquino era um cara abastado, rico, de família riquíssima, e ele que quis ser...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;...ALQUIMISTA.&lt;br /&gt;...E padre, monge, ele quis ser. Seus pais tinham preparado ele pra ser um conde de Assis, maravilhoso, ricaço. Tanto que ele se internou sozinho, foram tirar ele de lá, ele falou: “Eu quero ser padre, eu gosto daqui”.  São Tomás de Aquino já era um cara, pelas escrituras dele você vê, em pleno século XIII ele escreveu aquilo tudo, já fazia arte com alquimia. E estes caras daqui viram em 1958, deviam ser também uns caras com um Q.I. muito grande na alquimia pra ser convidados pra ver. E você tem que estar num lugar que tem ouro, tinha eu e outro amigo estudante, todo lugar que tinha ourives a gente ia ver como é que fazia, aquela fábrica de ouro. E a gente ficava indignado, eu conto isso numa música minha do disco &lt;span style="font-style:italic;"&gt;Solta o Pavão&lt;/span&gt; [&lt;i&gt;de 1975, na faixa “Luz Polarizada”&lt;/i&gt;]: “Coloque o seu grisol sobre a luz polarizada”. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;EU NUNCA ENTENDI ESSA LETRA, “COLOQUE O SEU...”?&lt;br /&gt;O seu grisol, sobre a luz polarizada. Grisol é um frasco (faz gestos como os das curvas de um violão, ou de uma mulher) de vidro inquebrável. Eles já faziam isso, com aquele molho dentro com a luz polarizada, aquela luz azulzinha, fininha... E aquele que forja a falsa prata e o falso ouro não merece a simpatia de ninguém. E essas lojas brasileiras todas de ouro, de ourives, pô, aquele ouro todo... era mais metal que ouro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;OURO DE TOLO...&lt;br /&gt;É. A gente anotava isso tudo pra ver qual era. Os alquimistas falavam que precisa ter um ouro que não se pode falsificar, é o ouro de dentista, aquele ouro 14, ouro malhado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;EXISTEM ALQUIMISTAS HOJE EM DIA?&lt;br /&gt;Eu conheço, na França. Na Europa ainda tem.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E NO BRASIL?&lt;br /&gt;No Brasil não, não tem.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;EM ALGUM MOMENTO VOCÊ FOI UM ALQUIMISTA?&lt;br /&gt;Não, eu nunca cheguei a fazer transmutação. Meu livro, não o de Paracelso, o livro sobre de Nicolas Flamel, tem um texto grande que fala assim [&lt;i&gt;a aeromoça oferece um sanduíche, a frase fica interrompida&lt;/i&gt;]... &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;NICOLAS FLAMEL E PARACELSO (PERSONAGENS DAS CANÇÕES DE &lt;span style="font-style:italic;"&gt;A TÁBUA DE ESMERALDA&lt;/span&gt;) ERAM ALQUIMISTAS?&lt;br /&gt;Eram, Nicolas Flamel, ele é que é meu muso. Ele e a mulher dele. Ele é “O Namorado da Viúva”.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;NÃO SABIA QUE ESSA MÚSICA ERA DE ALQUMISTA. NICOLAS FLAMEL ERA “O NAMORADO DA VIÚVA”? &lt;br /&gt;Era, e ninguém queria ela, com medo. Não, eles queriam, mas tinham medo, porque ela tinha isso tudo, era rica, tinha posses e já era viúva três vezes. Nicolas Flamel é século XV, 1406. É o meu muso [&lt;i&gt;cantarola&lt;/i&gt;], “namo-mora-rado da viúva”...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E PARACELSO É “O HOMEM DA GRAVATA FLORIDA”?&lt;br /&gt;Paracelso é “O Homem da Gravata Florida”. A história de Paracelso é maravilhosa também. Tinha a casa dele lá na Suíça alemã, ainda tem, onde ele viveu.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;NESSE LUGAR VOCÊ FOI?&lt;br /&gt;Fui, eu fui em todos esses lugares. Levei o Gilberto Gil. Levei o Gil na casa do Nicolas Flamel. Por incrível que pareça, você pode perguntar a ele, o Gil viu uma coisa lá que eu vi, só nós dois vimos, na casa de Nicolas Flamel. Depois eu perguntei: “Gil, você viu uma coisa que eu vi?”. Ele falou: “Eu vi, você viu?”. Foi incrível.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;MAS O QUE FOI?&lt;br /&gt;Vi uma coisa lá, na casa de Nicolas Flamel.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;NÃO VAI CONTAR O QUÊ?...&lt;br /&gt;Não, não. Mas vimos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E NÃO ERA SOB O EFEITO DE ALGUMA SUBSTÂNCIA QUÍMICA?&lt;br /&gt;Não, não, não. Vimos uma coisa lá. Nós vimos alguma coisa, mas bonita, não feia. Uma coisa bonita.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;ENTÃO, VOLTANDO À HISTÓRIA DE PARACELSO...&lt;br /&gt;O pai dele era famoso, médico, aquele médico que mexe com as plantas. Ele herdou do pai isso, todo o conhecimento dessa medicina, que se chama agricultura celeste.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;QUE É O NOME MAIS LINDO DO MUNDO.&lt;br /&gt;Agricultura celeste. A planta é plantada de acordo com o sol, com a lua, com as estrelas, e colhida de acordo, na época tal. Com essas plantas Paracelso curava as pessoas. E, naquela época, imagina ele, um médico, ele curava tantas pessoas que os médicos que estudaram nas grandes faculdades ficavam com bronca dele. Como é que pode, o cara vem com um remédio... Ele era tachado de feiticeiro, tinha que fugir de cidade em cidade. Tinha um cônego, um cara da Igreja e prefeito da cidade, estava morrendo nas últimas. Ninguém dava jeito nele, chamaram Paracelso. Em três dias voltou a cor, o sangue correndo, o cara já começou a andar. Como? O cara deu um xarope, uma pílula e aí foi aquele alvoroço todo. Queriam botar ele na fogueira por causa disso. E ele era um cara reconhecido, porque usava aquele echarpe colorido...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;...QUE ERA A GRAVATA FLORIDA?&lt;br /&gt;Que era a gravata florida. A história dele é demais.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;ELE FOI PARA A FOGUEIRA?&lt;br /&gt;Não, conseguiu escapar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;OS ALQUIMISTAS ERAM CONSIDERADOS BRUXOS? ERAM PERSEGUIDOS?&lt;br /&gt;Eram. Imagina naquele tempo, o cara conseguir fazer transmutação. Tinha muito arquimista, arquimista era tipo um mágico, que tapeava. Então por causa dos arquimistas os alquimistas eram perseguidos, ninguém acreditava. E depois tinha uma coisa, ele não podia mostrar a arte dele, senão vários príncipes diriam: “Ah, já que sabe fazer, prende ele aqui”. Já seria preso, tinha que ficar trabalhando só pra eles.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;OS ALQUIMISTAS ERAM OS OFENDIDOS?&lt;br /&gt;É, os ofendidos. Se eles fizessem certo estavam presos. Se não fizessem morriam, tinham que fingir.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;NÃO TEM UMA HISTÓRIA DE QUE PARACELSO ERA UMA MULHER DISFARÇADA?&lt;br /&gt;Não. Falaram isso, mas não é, Paracelso era um homem. Tá lá a casa dele. Pode ser que existiu outra mulher com esse nome, ou escreveu alguma coisa, mas Paracelso é homem, da Suíça alemã, lá pro lado de Zurique.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;TEM GENTE QUE FICA CABREIRA COM VOCÊ, “O QUE SÃO ESSAS COISAS QUE ESSE CARA TÁ FALANDO?”?&lt;br /&gt;Tem, tem sim. Mas existem muitos alquimistas. Falam mais ou menos, mas Mozart era amigo e adepto da alquimia. Ele tinha um dom, uma capacidade incrível, desde os cinco anos. Tocava pra grandes castelos, reis, condes, princesas. Viajava na carruagem dele, ia de Londres pra Paris, não sei como ele chegava de carruagem. De Paris ia pra Itália, dava os concertos dele nos dias certos, não falhava um.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;VOCÊ OUVE MÚSICA CLÁSSICA?&lt;br /&gt;Ouço. De Mozart gosto muito, também já estive na casa dele. Gosto de ouvir às vezes, gosto, pra acalmar. Fiquei fã de Puccini desde quando fui ver a ópera Turandot.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;FREQUENTA ÓPERA?&lt;br /&gt;Quando posso eu frequento. Ópera é demais, porque tem tudo: a ópera é o teatro, a música, drama, o cenário que os caras montam. A Aída, na Itália, em Termas de Caracala, é uma coisa assombrosa, tem até elefante.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;VOCÊ FOI?&lt;br /&gt;Fui.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;MESMO QUANDO VOCÊ ESTAVA FALANDO DOS ALQUIMISTAS, ME VINHA A LEMBRANÇA DE CIRCO. VOCÊ TEM UMA GRANDE MÚSICA SOBRE ISSO (“O CIRCO”, DE 1972).&lt;br /&gt;Circo, circo! Foi sempre presente na minha vida o circo. Pô, era minha maior diversão, sempre gostei, principalmente dos palhaços. E daquela magia toda, que a gente só via no circo. Fui em todos os circos no Rio de Janeiro, Orlando Orfei, até no circo do Beto Carrero. Eu estava em Los Angeles quando vi o Cirque du Soleil pela primeira vez, faz 20 anos. Pô, é um circo que não tem aninais, primeira coisa, mas os caras te encantam tanto com malabarista, palhaço, regente de orquestra. Me lembro bem, já há 20 anos eram três tecladistas e dois cantantes, eles faziam aquela música toda do circo. Quando estou em Orlando vou sempre ver.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;AS COISAS QUE VOCÊ IMAGINOU NA LETRA DE “O CIRCO” NÃO SE VEEM EM CIRCO NENHUM. A CABRA CICLISTA... É MUITA IMAGINAÇÃO, DE ONDE SURGE?&lt;br /&gt;Aquilo é imaginação. Até existem, o anão gigante, a mulher barbada, o homem-avestruz, que engole faca, colher, come tudo. O homem-foguete...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;ISSO EXISTE TAMBÉM...&lt;br /&gt;...Que vira elefante e sai voando.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;ISSO JÁ É MAIS DIFÍCIL...&lt;br /&gt;Orquestra de sapo, a cabra ciclista, a girafa seresteira. Porque girafa não fala, não emite nenhum som, sabia?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;É? E ESSA EMITIA.&lt;br /&gt;É, então. O pior e o melhor de tudo é o homem, o marido da Deise. Ele que come raio laser, e ela que recebe todo o aplauso...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E VOCÊ NÃO FALA “LASER”, SENÃO NÃO RIMARIA COM “DEISE”.&lt;br /&gt;Não, eu falo “leise” [&lt;i&gt;sorri, satisfeito, e começa a cantarolar&lt;/i&gt;], “e agora com vocês a grande cartomante, a internacional Deise/ a mulher do homem que come raio leise”.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;TEM UMA MÚSICA ANTERIOR QUE SE CHAMA “DEIXA O MENINO BRINCAR” (1965). NESSAS VOCÊ É UM MENINO, NÃO?&lt;br /&gt;É, deixa o menino brincar. Eu vejo os meninos, a garotada. Acho que criança tem que brincar mesmo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;ÀS VEZES ADULTO TAMBÉM.&lt;br /&gt;Adulto também.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;VOCÊ FAZENDO ESSAS MÚSICAS, MESMO AS DOS ALQUIMISTAS, ERA UM ADULTO BRINCANDO?&lt;br /&gt;Era, um adulto brincando. De criança tem outra que eu fiz, “A História de Jorge” (1976).&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;É UMA DAS MINHAS PREDILETAS.&lt;br /&gt;[&lt;i&gt;Cantarola.&lt;/i&gt;] “Jorge voa/ voa, Jorge, Jorge, Jorge, voa”... Eu estava assim na janela do meu prédio, na rua Paula Freitas, vi aquela rua assim vazia, era de madrugada, tava começando a amanhecer. E parece que imaginei ali um garoto que saía correndo e voava que nem um avião. Aí fiquei com aquilo, poxa. Tinha conhecido Jorginho, que sempre foi fã meu, um amigo, jogava futebol também. E aí saiu ali, porque Jorginho falava: “Jorge, sou seu amigo”, “Jorge é meu amigo” [&lt;i&gt;“essa é a história de um menino que tinha um amigo que voava e Jorge se chamava”, diz a letra&lt;/i&gt;].&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;VOCÊ DISSE ANTES QUE NÃO QUERIA SER MÚSICO. QUANDO SE CONVENCEU?&lt;br /&gt;Eu já fazia música desde a escola, escrevia as letras, sem melodia. Porque meu pai, o Augusto, ele foi compositor, teve três músicas de carnaval com parceiros gravadas. Meu pai tinha os amigos lá do Salgueiro, os amigos do tempo dele que eram da estiva e também do Salgueiro. Sempre teve música em casa, meu pai e minha mãe se conheceram na Gafieira Elite, dançaram muito na Estudantina.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;SAMBA, BASICAMENTE...&lt;br /&gt;Samba, só samba. Meu pai era amigo de Ataulfo Alves, tinha grandes amizades musicais.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;VOCÊ É UM SAMBISTA, JORGE?&lt;br /&gt;Eu faço samba muito bom. Não sou um sambista, mas eu faço, sei fazer muito bem.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;MAS ADICIONOU ALGO MAIS AO SAMBA.&lt;br /&gt;Eu misturo, misturo. “Mas Que Nada” (1963) já foi uma mistura, né? Misturei um pouquinho de samba que é misto de maracatu.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;MAS NO INÍCIO FOI TIDO COMO BOSSA NOVA, NÃO?&lt;br /&gt;Não, não bossa nova. Eles nem sabiam botar nome. Samba esquema novo. Eu tocava no Beco das Garrafas, mas nunca fiz bossa nova. Meu samba é outra coisa, totalmente diferente, por isso Meirelles e Os Copa 5 quiseram tocar comigo. Gostaram do meu som, “esse som a gente nunca viu”. Eu tocava entre eles, todo mundo lendo música, tocavam todos bem, e eu não sabia o que tava tocando, não sabia ler música. As minhas harmonias eram erradas, mas eram certinhas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;DEPOIS APRENDEU A LER MÚSICA?&lt;br /&gt;Depois. Tive que aprender pra falar com eles como é que eu quero. Hoje eu posso falar “quero assim”.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;QUAIS SÃO SUAS LEMBRANÇAS DAQUELA ÉPOCA EM QUE VOCÊ ESTAVA SURGINDO?&lt;br /&gt;Eu frequentava lá, poderia dizer, desde quando mudei para Copacabana, eu era adolescente, tinha 16 anos. Antes morava na Tijuca. Mudei pra Copacabana, foi um sonho. Mudei pra um bairro meio tradicional, e uma modernidade incrível, vendo as mulheres passar em frente de biquíni, homens de short na praia. Tomei um choque, pô. E as coisas melhores na época estavam em Copacabana, o açougue, a carne, tudo era melhor. Tinha outro cheiro, perfume. Morar ali, a duas ruas do Copacabana Palace (ri). E aí ia frequentar o Beco aos domingos. Tinha jam session, com aqueles músicos mais famosos da época. E a gente ia, tinha que ficar até oito horas da noite. Começava às cinco e ia até meia-noite, mas às oito, como era de menor, diziam: “Sai todo mundo”.  Comecei a frequentar assim, o Bottom’s Bar, que era uma casa de música. E tinha uma casa que era tipo um inferninho...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;QUE VOCÊ DEVIA GOSTAR DE FREQUENTAR TAMBÉM...&lt;br /&gt;Não, a gente não podia, menor não podia. A casa tinha as meninas, mas você não podia. Mas torcia pra chegar domingo pra ir pra lá.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;JOÃO GILBERTO TOCAVA LÁ?&lt;br /&gt;Não, João Gilberto acho que nunca foi lá. Tocavam lá Meirelles, o maestro Cipó, só gente boa de jazz. João já tinha gravado e estava famoso, tocava só em apartamento, com o grupo dele, Nara Leão, um grupo mais sofisticado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;VOCÊ NUNCA FOI DESSA TURMA?&lt;br /&gt;Não, eu ainda não estava na música.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;SUA TURMA ERA TIM MAIA, ROBERTO, ERASMO?...&lt;br /&gt;É, essa era outra turma. Mas eu não era da turma deles. A turma deles, o primeiro conjunto, eram Tim Maia, Erasmo e Roberto. Chamava Sputniks. Eles tocavam no programa de rock do Carlos Imperial. Aí houve uma confusão lá, Roberto se separou e o Tim depois sumiu um pouco, foi pros Estados Unidos. Tim tocava desde garoto, foi o primeiro cara que vi cantando “bop-a-lena, bop-a-lena”, tocando guitarra. Ficamos amigos aí, mas ficamos mais amigos depois, quando Tim voltou e veio pra jovem guarda. Fizemos uma excursão uma vez com a fábrica francesa de tecidos famosa, a Rhodia, eu, Rita Lee e Tim Maia. Eram as manequins e a gente tocava no meio dos desfiles. Uma coisa chiquérrima [&lt;i&gt;sorri&lt;/i&gt;].&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;NÃO FICOU NADA GRAVADO DISSO?&lt;br /&gt;Ah, não, nem no tempo nosso de &lt;span style="font-style:italic;"&gt;Divino, Maravilhoso&lt;/span&gt;, da tropicália, sobrou gravação. Dizem que gravavam tudo aquilo, apagavam e gravavam novela em cima. Mas, falando do Tim Maia, ele foi uma coisa assim... O som dele revolucionou. Ele teve umas fases lúdicas, lindas, específicas...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;POR EXEMPLO?&lt;br /&gt;Por exemplo, aquela do livro. Ele estava seguindo e descobriu que não era nada daquilo. Essa foi uma decepção dele. O cara botou a fé nele toda ali e depois descobriu, pô.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;DEVE TER SIDO RUIM PRA ELE, MAS RENDEU MÚSICAS MARAVILHOSAS...&lt;br /&gt;Ô, só música maravilhosa. Ele aderiu, cantava com o livro na mão. O síndico, o grande síndico, Deus o tenha. Com os amigos que ele tinha fé ou gostava de falar, ele contava, contava o que ele tinha feito... Não vou falar pra você nem pra ninguém, mas eu guardava, os amigos sempre guardavam. A qualquer hora você tinha que atender, ele ligava três horas, quatro horas da manhã. Uma coisa que posso contar pra você: quando ele gravou o disco com Os Cariocas [&lt;i&gt;em 1997&lt;/i&gt;], ele chegou contente, feliz da vida, isso eram quatro da manhã. Aí acordei, já sabiam lá em casa que telefone para mim era dele.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;ELE DEVIA SABER QUE VOCÊ TAMBÉM ESTARIA ACORDADO?...&lt;br /&gt;[&lt;i&gt;Ri.&lt;/i&gt;] Do outro lado ele feliz, “porra, estou chegando do estúdio agora, gravei com Os Cariocas!”. Mostrava faixa por faixa, gravou um disco de bossa nova, ouvi todas e [&lt;i&gt;ri&lt;/i&gt;] tinha que dar nota.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;NOTA? DE ZERO A DEZ?&lt;br /&gt;[&lt;i&gt;Ri muito.&lt;/i&gt;] “O que você acha, porra!?” “Do cacete” [&lt;i&gt;ri&lt;/i&gt;]. Era demais. Falava de amor [&lt;i&gt;imita&lt;/i&gt;]: “Porra, tô apaixonado, apaixonado, porra!”.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;FALE UM POUCO SOBRE ROBERTO E ERASMO TAMBÉM.&lt;br /&gt;Com eles foi muito pouco, só vivi aquela época da jovem guarda.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;FEZ DUAS MÚSICAS COM ERASMO, E MOROU COM ELE, NÃO?&lt;br /&gt;Fiquei um pouco com Erasmo no Brooklin, quando fui pra São Paulo pra me apresentar no Jovem Guarda. Foi a época em que a gente fez “Menina Gata Augusta” [&lt;i&gt;1967&lt;/i&gt;], que foi legal, [&lt;i&gt;cantarola&lt;/i&gt;], “menina gata augusta, menina augusta gata”. Era legal. Já fizemos um [&lt;i&gt;hesita&lt;/i&gt;] samba-rock... Ali já era um samba-rock, é.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;VOCÊS BATIZARAM DE “JOVEM SAMBA”.&lt;br /&gt;É, jovem samba, [&lt;i&gt;cantarola&lt;/i&gt;] “eu sou da jovem samba/ a minha linha é de bamba” [&lt;i&gt;de “A Jovem Samba”, do disco &lt;/i&gt;O Bidu&lt;i&gt;, de 1967&lt;/i&gt;].&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E A TURMA DA MPB FICOU BRAVA...&lt;br /&gt;Puta que pariu! Neguinho quebrava disco, quebraram meus discos todos, na TV, aquele programa de televisão...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;FLÁVIO CAVALCANTI?&lt;br /&gt;Quebrou. Quebrou &lt;span style="font-style:italic;"&gt;A Tábua de Esmeralda&lt;/span&gt;.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;QUEBROU &lt;span style="font-style:italic;"&gt;A TÁBUA DE ESMERALDA&lt;/span&gt;?&lt;br /&gt;Quebrou, quebrou.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;SE ELE SOUBESSE... MAS NÃO SÓ ELE, A ELIS REGINA TAMBÉM FICOU BRAVA QUANDO VOCÊ FOI AO JOVEM GUARDA, NÃO?&lt;br /&gt;Todo mundo. Hoje tem uns dois, mas um cara que eu queria ser ele quando era garoto é o Max de Castro, que inventa tudo, não quer saber. Max de Castro bota drum’n’bass, guitarra... Naquele tempo eu já fazia isso, mas sofria uma censura, pô...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;OS FILHOS DE WILSON SIMONAL TÊM VOCÊ COMO UM PAI, NÃO?&lt;br /&gt;Pô, então. E outros, outros. Poderia falar, dos novos que estão surgindo aí, tem tanta gente boa. Lá na livraria, uma terça-feira você tem que ir lá, tem um garoto chamado Lê Andrade, que suinga, faz letra bem, estudou em Londres, mas é totalmente brasileiro, um suingaço. É paulistano-carioca. Tem vários que chegam lá. Tem um grupo interessantíssimo de Belo Horizonte, que descobri, chama Black Sonoro. É um troço sonoro mesmo, com suingue. Outro grupo também, são meus amigos, é o do Fred Zero Quatro. Nação Zumbi e Fred Zero Quatro, pô, tem uma ressonância. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;TODOS ESSES ARTISTAS TE ADORAM.&lt;br /&gt;É, Fred e Otto participaram comigo do Festival de Inverno de Garanhuns, agora, foi muito legal. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;VOCÊ GOSTA DO FUNK CARIOCA, JORGE?&lt;br /&gt;Do que eu faço.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E ESSE DE AGORA?&lt;br /&gt;Não, esse novo não é um funk...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;DIGAMOS QUE O NOME É UMA LIBERDADE POÉTICA...&lt;br /&gt;É, uma liberdade poética. Esse não é um funk. Eles falam funk, mas não é. Não sei nem se é ritmo e poesia, mas é um... Pode ser um r’n’d, ritmo &amp; dança. É.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;ELES DEVEM GOSTAR DE VOCÊ TAMBÉM, ALGUNS PEGAM BASES DE MÚSICAS SUAS.&lt;br /&gt;É, já pegaram. Mas não é o funkão. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;FUNK CARIOCA É VOCÊ?&lt;br /&gt;É... Não só eu, outras pessoas fazem. É que nem aqui em São Paulo [&lt;i&gt;o avião já pousou&lt;/i&gt;], o pessoal fala de samba-rock. Mas não é um samba-rock, é um samba diferente, que o pessoal dança tipo rock.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;É UM SAMBA MISCIGENADO,  O PAULISTA, NÉ? TEM JAPONÊS FAZENDO.&lt;br /&gt;É, faz, e eles dançam estilo rock. Gerson King Combo faz um funkão. A Banda Black Rio é funk. [&lt;i&gt;Saímos pelos corredores do aeroporto, a comissária de solo puxa conversa, diz “bom show, eu daria tudo pra ir, mas eu não vou estar aqui”. Ele faz meia-volta e diz, todo galante: "Ah, você não vai estar aqui?" Ela responde: “A gente vai pra Recife”. "Ah... Seria um prazer... Boa viagem então, tá?"&lt;/i&gt;]&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;VOCÊ FALOU DE TIM, ROBERTO E ERASMO, E SIMONAL?&lt;br /&gt;Simonal, pô, foi o primeiro a gravar todos os meus sucessos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;FOI IMPORTANTE PRA VOCÊ.&lt;br /&gt;Foi. Simonal pedia, perguntava: “Tem alguma coisa?”. “País Tropical”, “Zazueira”.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O TEMRO “PATROPI” FOI ELE QUE INVENTOU?&lt;br /&gt;Não, o patropi já tinha, o patropi é meu, passei pra ele. Patropi cantei num show, eu e Toquinho. Era eu, Toquinho e Paulinho da Viola, lindo, mas não foi ninguém. Depois todo mundo estourou. Olha só a produção, Fernando Faro e Abujamra.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;NÃO ERA ESSE QUE TINHA ARACY DE ALMEIDA TAMBÉM?&lt;br /&gt;Isso, é. Não ia ninguém.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;COMO ERA ARACY NESSA ÉPOCA?&lt;br /&gt;Era daquele jeito dela... Ela é uma escola de música. Pô, gravou Noel Rosa. Trabalhou com Noel, acho que foi até namorada dele. Mas era um show assim [&lt;i&gt;ri&lt;/i&gt;], não ia ninguém. Foi no teatro da FGV, em São Paulo. Cada um cantava suas coisas, só eu e Toquinho cantávamos “Que Maravilha”.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;UMA MÚSICA SENSACIONAL SUA QUE POUQUÍSSIMA GENTE CONHECE É “QUEREMOS GUERRA” (1968).&lt;br /&gt;Orra, aquela foi do festival [&lt;i&gt;cantarola&lt;/i&gt;]: “Mas só se não fizer sol amanhã/ se chover também eu não vou sair de casa/ eu não estou aqui pra pegar uma gripe danada/ e no fim da semana não poder ver a minha namorada [&lt;i&gt;pausa&lt;/i&gt;]/ guerra, queremos guerra”.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;POR QUE SERÁ QUE NÃO FICOU FAMOSA? ERAM VOCÊ, CAETANO E GIL, NUMA MESMA GRAVAÇÃO.&lt;br /&gt;Você lembra da Phono 73 [&lt;i&gt;um festival com todo o elenco da gravadora Philips&lt;/i&gt;]? Na Phono não deixaram eu cantar. Censuraram, Chico Buarque foi censurado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;POR QUE CENSURARAM A SUA?&lt;br /&gt;A minha porque eu falava “guerra, queremos guerra”. Por causa da palavra guerra.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E AÍ VOCÊ DEIXOU ELA DE LADO?&lt;br /&gt;Deixamos de lado, é, porque acho que ela perturbava aqueles arapongas...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(NO SAGUÃO DO AEROPORTO, ELE CONVERSA COM JOGADORES DO BOTAFOGO, DÁ AUTÓGRAFOS. ENTRAMOS NA VAN RUMO À CASA DE SHOWS.) VOCÊ TEM AMIZADE COM ESSA GAROTADA DO FUTEBOL, RONALDO...?&lt;br /&gt;Não, essa geração do futebol eu conheço muito pouco. Porra, bicho, o Rio de Janeiro tá uma vergonha. Dois times grandes, rapaz, quase caindo novamente. São Paulo tem seis ou oito times no campeonato. No Rio, de times grandes, só tem dois. [&lt;i&gt;O fotógrafo Marcelo Naddeo pergunta se ele ainda torce para algum time.&lt;/i&gt;] Só torço pro Flamengo. E Brasil. [&lt;i&gt;Marcelo comenta que nunca foi no Maracanã lotado.&lt;/i&gt;] Pô, tem que ir.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;VOCÊ AINDA VAI?&lt;br /&gt;Vou, sempre. Quando eu morava ali – morei na Doutor Sotamini, que era uma rua do lado do campo do América, quando o América tinha um campo ali na Tijuca –, dali todo mundo vai a pé pro Maracanã. Bons tempos, eu era garoto, meu pai me dava um troco, ia de geral. A gente ia de geral, ia bonitinho, de sapatinho, naquela época calça curta. Aí da geral a gente pulava pras cadeiras [&lt;i&gt;ri&lt;/i&gt;], aí tá bonitinho, ninguém falava nada. Agente ia, eu e os amigos da escola. Era do lado da escola onde eu estudei o primário, na Tijuca. Uma fase legal. O Maracanã é um show, você, pegando o elevador, sobe, quando abre a porta lá em cima, rapaz, é sempre show, aquela coisa “aaaaah”(faz barulho de multidão). E quando o céu tá azul clarinho, ou quando o jogo é domingo à tarde... Tudo nasceu lá domingo à tarde: “Fio Maravilha”, “País Tropical”, “Camisa 10 da Gávea”...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;COMO ASSIM? VOCÊ TINHA A IDEIA E ESCREVIA NA HORA?&lt;br /&gt;Compunha, tinha a idéia lá, vendo aquilo tudo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O MARACANÃ DEVE MUITO À MÚSICA BRASILEIRA, ENTÃO.&lt;br /&gt;Um poeta profissional nordestino que vai lá na livraria, ele fala: “Suas músicas são a própria poesia, como você fala, urbana e suburbana, só é cantado”. Ele falou do jeito que retrato as pessoas, nas letras. Isso é o que eu fazia na escola, era bom nisso.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;PODE DAR EXEMPLO DO QUE VOCÊ CHAMA DE “SUBURBANO” NAS MÚSICAS?&lt;br /&gt;Da poesia suburbana? A poesia do suburbano falar e ver as coisas, ele já vê diferente do pessoal da cidade, do urbano. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;AS MÚSICAS COM NOME DE MULHER SERIAM SUBURBANAS?&lt;br /&gt;Todas, tudo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;VOCÊ FAZ UM MONTE DE MÚSICAS COM NOME DE MULHER, A DOMINGAS (SUA COMPANHEIRA DESDE O FIM DOS ANOS 60) NÃO CHIA?&lt;br /&gt;Não, ela já sabe que é o meu estilo de música, né?, que eu tenho que fazer. Ela é companheira nisso.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;ESSAS PERSONAGENS, JESUALDA, KATARINA, VOCÊ IMAGINA?&lt;br /&gt;Não, não são imaginadas. São musas mesmo. Existem de verdade. Todas. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;QUEM ERA JESUALDA (PERSONAGEM DA CANÇÃO HOMÔNIMA DE 1975, QUE A ESTA ALTURA NÃO SABEMOS, MAS MAIS TARDE ELE CANTARÁ NO SHOW)?&lt;br /&gt;“Jesualda” é uma história mesmo, lá de Copacabana. Jesualda é da minha geração mesmo, aconteceu mesmo com ela isso [&lt;i&gt;a personagem é uma cozinheira da zona sul que conhece um estrangeiro num ponto de ônibus rumo ao Maracanã e "agora espera baby no exterior"&lt;/i&gt;].&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;OU SEJA, HÁ A PARTE DA IMAGINAÇÃO, MAS VOCÊ CONTA MUITAS HISTÓRIAS REAIS TAMBÉM?&lt;br /&gt;Eu conto história, sou um repórter, tipo um repórter. Eu tenho que ver primeiro pra fazer... E um pouco de ficção é bom, né? Misturar os dois. É legal você fazer uma ficção em cima.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;VOCÊ TEM MÚSICAS INÉDITAS? ESTÁ GRAVANDO?&lt;br /&gt;Não, agora não tô gravando, não. Tô só fazendo. Quando dá tempo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;FAZER DISCO HOJE EM DIA...&lt;br /&gt;É, eu perguntei ao meu filho, “fala pra mim”, ele disse: “Pai, nenhum dos meus amigos compra CD, ninguém compra”. Neguinho vai lá e baixa, faz o disco dele mesmo...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O QUE VOCÊ ACHA DISSO?&lt;br /&gt;É terrível. Agora tem que ver quem errou [&lt;i&gt;ri&lt;/i&gt;]...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;ALGUÉM ERROU, SIM, MAS NÃO FOI NATURAL TAMBÉM? EXISTIA LP, DEPOIS VIROU CD, AGORA VIROU DOWNLOAD...&lt;br /&gt;É, mas olha aqui, deixa eu falar pra você. A tecnologia tá tão avançada, quando eu estive no Japão, 12 anos atrás, já comprei um chip duma banda japonesa e um chip duma banda americana. Era um chip, um chip, uma moedinha. Eles vendiam uma máquina, tipo um chaveirinho, você botava o fone ali, porra, era um sonzão! Depois os Estados Unidos brecaram. Saiu pra criança, quatro faixas da Britney Spears... Puta que pariu, um chipzinho, caramba, o CD vai pro cacete então, né? Ano passado voltei lá só tinha coisa de outro mundo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;VOCÊ É RATO DE COMPUTADOR, FAZ DOWNLOAD?&lt;br /&gt;Não sou. Não faz. Porque eu não tenho saco... Acho que eu tenho um pouquinho de preguiça de ficar no computador, porque eu tenho que ler. Eu tenho que ler. Os livros que eu quero não estão no computador. Ler no computador? O livro, porra, é mais apaixonante. Você lê a hora que quer, não tem aquela tela te perturbando a vista. Aí eu tenho que ler, aí tem que tocar, aí tenho que sair pra passear com meus cachorros – eu tenho uma cachorrada. Tem que dar atenção um por um, senão eles ficam com ciúme e me mordem. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;QUANTOS CACHORROS, DE QUE RAÇAS?&lt;br /&gt;Tenho três. Tenho a começar com o lhasa apso, que se chama a Spring. Tem a Kati, que é mini-maltês, a mais braba de todas. Míni, míni, do tamanho do meu tênis. E tem o Joaquim, que é um poodle lindo, lindo, branquinho.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;MORAM ONDE?&lt;br /&gt;Todos no Rio. Fizemos um abaixo-assinado, antigamente não podia ter cachorro no apartamento. Pô, todo mundo tem. Aí ficou normal, legalizaram a cachorrada no prédio. Então, tem isso tudo. Ligo assim pro amigo, tecladista quer saber o que a gente vai tocar no show, se vai ter alguma coisa nova, aí ele passa pra mim, eu só uso computador pra isso.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;NO SEU SHOW MUITA COISA ACONTECE DE IMPROVISO TAMBÉM, SEM ROTEIRO PRONTO, NÃO.&lt;br /&gt;Não tem roteiro, o técnico de luz nosso já sabe disso. Como ele já sabe as músicas, já prepara a luz pra música tal. É dependendo do público, da reação, né?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;POUCOS ARTISTAS FAZEM ISSO...&lt;br /&gt;É, a gente toca assim, e tá bem... É pra banda ficar ligada. Porque senão a banda, pô, fica tocando sempre a mesma música. Pra sentir melhor, por exemplo, estão esperando a hora de entrar &lt;span style="font-style:italic;"&gt;Santa Clara Clareou&lt;/span&gt;, entra outra música...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;OS MÚSICOS TÊM QUE SAIR CORRENDO ATRÁS DE VOCÊ.&lt;br /&gt;[&lt;i&gt;Ri, divertido.&lt;/i&gt;] Saem correndo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;É UMA MALANDRAGEM SUA COM ELES?&lt;br /&gt;[&lt;i&gt;Ri.&lt;/i&gt;] É, muda, muda...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;UMA VEZ FUI ENTREVISTAR VOCÊ NO CONDOMÍNIO DA BARRA, E VOCÊ VEIO COM TACOS DE GOLFE. PRATICA ESSE ESPORTE?&lt;br /&gt;Foi, mas não tenho tempo, por incrível que pareça. Todos os campeonatos que me chamam, pô, é sete horas da manhã!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;VOCÊ PARTICIPA DE CAMPEONATO?&lt;br /&gt;Às vezes participo, mas sete horas da manhã não dá pra mim. Chego em casa às cinco! Eu jogo sozinho, às vezes vou pro clube Itaiangá, sou sócio lá. É um dos clubes mais bonitos do Brasil.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;ALGUM OUTRO ESPORTE? FUTEBOL?&lt;br /&gt;Umas peladinhas de vez em quando, também quando dá. As peladinhas também são todas cedo, não dá.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;SEU ESPORTE É NOTURNO, CANTAR...&lt;br /&gt;É, não dá. Às vezes eu falo: “Pô, tinha que ter mais horas!”. Tinha que ter mais tempo pra fazer. Porque é tudo, tudo apressado, o tempo todo meu já é corrido.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;COMO ERA O LUGAR ONDE VOCÊ MORAVA NOS EUA?&lt;br /&gt;É um lugar bom de morar, mas você não tem contato com barulho. Pra quem está acostumado com barulho, cidade grande, porra, passa mal lá. Oito horas da noite, nove, não tem mais ninguém, sumiu, parece que um tsunami levou todo mundo. Não tem ninguém na rua. Aí passa o xerife, “que que estão fazendo aí esta hora, dez horas”. Porra, são três carros de xerife.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;NÃO PODE FICAR NA RUA?&lt;br /&gt;Ficar na rua pode, não pode fazer barulho depois das dez.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;VOCÊ JÁ TEVE PROBLEMA COM SÍNDICO?&lt;br /&gt;O síndico [&lt;i&gt;De &lt;/i&gt;“W/Brasil”&lt;i&gt;, megassucesso a partir de 1989&lt;/i&gt;] foi homenagem ao Tim Maia, mas tem, já tive. Tem síndico que acha que é o coronel ou o general, o dono. Só porque ele tá ganhando, ele mesmo não paga o condomínio.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;VIRA UM POUCO XERIFE TAMBÉM...&lt;br /&gt;Vira. Mas, também, nunca fiz nada demais. O meu síndico é em homenagem ao Tim Maia, que ele queria ser o síndico lá do Barra Palace. Já te contei do Tim? Ele tinha a gravadora dele lá, né? Ele mesmo mandava fazer as capas, os discos, fazia tudo. Tinha um quarto lá que era só capa e disco. Vi várias vezes, ele ligava pras casas que vendiam discos, pras lojas, “ó, tô com disco novo aí”. Os caras já sabiam que era ele, “quanto tu quer?”. Tanto, ele, pá, pá, pá, já mandava levar, toma lá, dá cá. Ele sozinho vendia mais de 20 mil discos. Ele já fazia isso, já brigava com o sistema das gravadoras.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O QUE VOCÊ ACHA DE COMO ESTÃO AS COISAS HOJE, COM AS GRAVADORAS ENCOLHENDO CADA VEZ MAIS, DISCO PARANDO DE VENDER?&lt;br /&gt;Não vende mais, por isso eu perguntei pra você, quem foi o culpado disso tudo?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;TEM ALGUM PALPITE?&lt;br /&gt;Ah, fico pensando, pô. A começar pelo tal de jabá. O grupo de cantores, autores, nunca pôde ter uma rádio própria pra tocar seus trabalhos. Nunca, ninguém foi premiado. Hoje é um lobby pra ter rádio, né? Meu filho fala só isso: “Pai, ninguém tá comprando, neguinho baixa”.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;ISSO INFLUENCIOU, MUDOU AS COISAS PRA VOCÊ?&lt;br /&gt;Claro, influenciou. Pensando bem, não há também o incentivo das gravadoras pra que os artistas façam um trabalho que só vai vender nas lojas. Então você vê muito selo novo aparecendo, não é? Muita gente se lançando mesmo... Aquela menina mesmo, embora pra mim ela seja uma grande artista, canta muito bem, é versátil, ainda vai ser muito melhor, a Mallu Magalhães - ela é uma artista música, canta bem, toca bem, e ela se lançou assim, né? Se fosse esperar uma gravadora, rádio, não ia ter vez. Ela conseguiu. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;AQUELA HISTÓRIA DO PLÁGIO DE ROD STEWART (O CANTOR USOU A MELODIA DE “TAJ MAHAL” EM SUA “DA YA THINK I’M SEXY?”, DE 1978). VOCÊ PROCESSOU ELE?&lt;br /&gt;Não, foi a editora que foi atrás. A editora, sem eu estar acionado nem nada, a editora fez uma aposta com ele. Uma aposta, não, fizeram um acordo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;ATÉ HOJE NÃO COLOCARAM SEU NOME COMO AUTOR.&lt;br /&gt;Então, fizeram um acordo. A editora fez um acordo com ele, e eu dancei, é. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(CHEGAMOS AO LOCAL DO SHOW. ACOMPANHAMOS A PASSAGEM DE SOM, MAS A CONVERSA SE INTERROMPE AQUI. DEZ DIAS DEPOIS, JORGE JÁ NÃO ESTÁ TÃO FALANTE, E O PAPO CONTINUA AO FIM DO CORUJÃO DA POESIA, ÀS 3H30 DA MANHÃ, ENQUANTO A POETA NATÁLIA PARREIRAS AJEITA A GRAVATA FLORIDA PARA A SESSÃO DE FOTOS. O REPÓRTER PÕE UMA MÚSICA NO CELULAR PATA JORGE OUVIR.) VOCÊ CONHECE ESSA?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;[&lt;i&gt;Depois de alguns segundos.&lt;/i&gt;] Black Eyed Peas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;É, ELES SAMPLEARAM UM PEDAÇÃO DE “CINCO MINUTOS” (1974), EM “POSITIVITY” (1998), E NÃO TE DERAM CRÉDITO.&lt;br /&gt;[&lt;i&gt;Ele sorri, não fala nada. Enquanto ajeita a gravata, penteia os cabelos. A sessão de fotos é feita lá fora, embaixo de chuva.&lt;/i&gt;]&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O QUE VOCÊ ACHOU DO SHOW EM SÃO PAULO?&lt;br /&gt;Achei muito, muito participativo. A galera toda participou, todo mundo cantando.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;VOCÊ JÁ VINHA FAZENDO AS MÚSICAS DE &lt;span style="font-style:italic;"&gt;A TÁBUA DE ESMERALDA&lt;/span&gt; EM SHOWS?&lt;br /&gt;Não, aquilo foi lá mesmo. A gente tocou um mês antes em Campinas, e lá tinha um pessoal com uma placa do disco &lt;span style="font-style:italic;"&gt;A Tábua de Esmeralda&lt;/span&gt;, e outra placa pedindo "Hermes Trismegisto". Nesse dia não fiz, porque não estava ensaiado. Esta banda que está comigo agora está mais ligada nas músicas recentes. Tem que ensaiar tudo com eles, senão...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;VOCÊ FEZ UMAS MISTURAS DE MÚSICAS ANTIGAS COM OUTRAS MAIS RECENTES, COMO “ALCOHOL” (1993).&lt;br /&gt;É, misturei “Alcohol” com “Os Alquimistas”.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;VOCÊ SABE DAR NÓ EM GRAVATA?&lt;br /&gt;Eu? Não. Até hoje não sei. Tenho duas gravatas floridas, consegui duas, mas não como eu queria, com as flores todas. Uma só tem rosa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;ESSA AÍ É BOA?&lt;br /&gt;É. [&lt;i&gt;Terminada a sessão, Jorge se despede do Corujão da Poesia, mas convida a reportagem para a próxima escala, numa padaria do Leblon. Uma comitiva o acompanha embaixo de chuva: músicos, o jovem poeta e palhaço Lucas, duas jovens jornalistas cariocas. Jorge pede água com gás, café com leite e pão com manteiga, e se diverte com Mama Giulia, de 71 anos, sotaque italiano, figura carimbada nos saraus, que o chama de Giorgio&lt;/i&gt;] Mama Giulia, una ova, ou due? [&lt;i&gt;Pede um ovo estrelado.&lt;/i&gt;]&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;VOCÊ NÃO TEM COLESTEROL ALTO, NÃO?&lt;br /&gt;Não.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;DEPOIS DOS SHOWS COSTUMA BATER UM RANGO TAMBÉM?&lt;br /&gt;Não, depois de show, não. No camarim tem muita fruta, queijo e refrigerante, de todo tipo [&lt;i&gt;Jorge não fuma nem bebe, e não permite bebidas alcoólicas para ninguém nos camarins&lt;/i&gt;]. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;VI VOCÊ NO DVD NOVO DO ZECA PAGODINHO, VOCÊ BOTOU ELE PRA CANTAR “TAJ MAHAL”.&lt;br /&gt;Você viu, é?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;VI, E LÁ VOCÊ ESTÁ DECLAMANDO TAMBÉM. DECLAMOU “CINCO MINUTOS” NO SHOW, ESTÁ NUMA FASE DE DECLAMAR?&lt;br /&gt;No show do DVD eu estava indo embora, foi ele que me chamou de volta. Era só pra declamar a oração para São Jorge. [&lt;i&gt;Para Lucas&lt;/i&gt;] Quantos livros você consegue ler por mês? O professor João acha que, pra eu memorizar tudo, tenho que pegar cinco livros, daqueles que ele passa pros alunos lá dele, e começar a ler. Primeiro vê tudo como é o livro, depois lê 15 páginas, passa o outro, vai alternando, que você consegue ficar. Porque às vezes se ler um direto você perde... [&lt;i&gt;“Eu leio quanto o meu orçamento permitir”, diz Lucas.&lt;/i&gt;] É, o livro é caro, o livro é caro. [&lt;i&gt;Lucas conta que é palhaço – “ator-palhaço”, emenda Jorge – e que seu pai é mágico. E que sua mãe é “a mulher do homem que come raio laser”.&lt;/i&gt;]&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;FALANDO EM PAIS, O QUE VOCÊ SENTIU AO SABER QUE MANO BROWN, DOS RACIONAIS, BATIZOU OS FILHOS DE JORGE E DOMÊNICA (DOMÊNICA É UMA DAS VARIAÇÕES QUE ELE USA EM MÚSICAS PARA FALAR DA MUSA DOMINGAS; A PARTIR DE UMA DESSAS MÚSICAS MANO BROWN TIROU PARTE DA IDEIA DE SUA "FIM DE SEMANA NO PARQUE", DE 1994)?&lt;br /&gt;Pô, demais, né? Eu conheci Jorginho e Domênica num show em São Paulo. Fui saber disso lá, naquele show [&lt;i&gt;em 2004, em Itaquera, zona leste de São Paulo&lt;/i&gt;].&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;VOCÊ CONHECEU MANO BROWN NAQUELE DIA?&lt;br /&gt;Não, eu convidei ele uma vez, a gente foi ver B.B. King em São Paulo. B.B. King esteve aqui, e a cônsul americana era amiga da minha mulher, e falou: “Olha, quero convidar os artistas brasileiros que estão aqui, porque o B.B. King vai fazer uma apresentação pra gente aqui no consulado”. Aí nós fomos, eu, Jair Rodrigues, todos os artistas que estavam disponíveis em São Paulo. E Brown era pra ir, mas... ele não sai, não dá entrevista. Falei: “Não, nós vamos ver B.B. King no teatro, você vai comigo”. E ele foi. E o B.B. King aquele dia tava inspirado, tocou tudo, embora tivesse que tocar sentado um tempo. Mas ele tocou, rapaz... É um dos guitarristas que não têm nada ensaiado, o solo dele ele não ensaia, evai procurando a nota, você sente isso.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;IGUAL ALGUÉM QUE A GENTE CONHECE...&lt;br /&gt;[&lt;i&gt;Ri, satisfeito.&lt;/i&gt;] Ele vai procurando, vai achando, vai achando, vai embora, fica aquela coisa, maravilhosa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E O QUE BROWN FALOU DO SHOW?&lt;br /&gt;Ah, adorou. Ele é fã do Marvin Gaye, tem toda a coleção. Se criou aquele mito de que o rap tinha que ser bandido, agora começou a mudar. O rap americano, hoje em dia, tá todo mundo chique, vestindo Giorgio Armani, todo mundo na estica... A poesia já está mais doce...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;VOCÊ ACHA ISSO RUIM?&lt;br /&gt;Não, muito bom, porque estava aquela poesia gângster que eles têm muito lá. É poesia doce no sentido de o cara não botar que vai matar o outro, o gangsta. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;AQUI NÃO TEM TANTO A PARTE DA RIQUEZA, MAS OS RAPPERS TAMBÉM COMEÇAM A IR ALÉM DO ASSUNTO VIOLÊNCIA.&lt;br /&gt;É, tem que sair. [&lt;i&gt;A comilança acaba, Ben Jor se despede e mergulha na madrugada. Num dos bolsos, leva a gravata florida presenteada pela &lt;/i&gt;&lt;b&gt;Trip&lt;/b&gt;&lt;i&gt;.&lt;/i&gt;]&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/8578073-6125859381532063710?l=pedroalexandresanches.blogspo
