Segunda-feira, Novembro 23, 2009

putameutiponossacaraentão

E que tal falar(-ouvir) um pouquito sobre música brasileira nova? Ou vamos continuar discutindo(-escutando) parassempre chicoecaetano?

"CartaCapital" 572, de 18 de novembro de 2009.


Ouvir para Crer

Os novos autores populares seguem livres das tradições, mas ainda voam longe do grande público

POR PEDRO ALEXANDRE SANCHES

Edu Krieger. Lulina. Ronei Jorge e Os Ladrões de Bicicleta. Lucas Santtana. Desconhecidos da maior parte do público, esses são alguns dos nomes que levam a (boa) música brasileira adiante e têm feito de 2009 um ótimo ano em termos musicais. Em terra aplainada pela pulverização via internet e pelo esfarelamento das gravadoras multinacionais, esses e outros nomes partem de uma relação zerada com seu ofício, mas ainda voam longe do sucesso de massa.

O cenário é de grande transformação e de muitos intercâmbios. Exemplar dos cruzamentos operados na música brasileira atual é o compositor e cantor carioca Edu Krieger. Filho do compositor erudito catarinense Edino Krieger, ele preferiu enveredar pela combalida MPB a seguir o pai na música de concerto. Mira as correntes de MPB, bossa nova e samba, mas desafia seus dogmas em prol de despretensão, leveza musical, guitarras, sanfonas, programações eletrônicas, cuícas como instrumentos harmônicos.

“Misturar cavaquinho com guitarra ainda é visto com certa reserva. Ouço comentários do tipo ‘este samba é lindo, mas eu gostaria de ouvir com formação tradicional’”, conta. Sobre influências ainda predominantes, o artista diverge em parte de seus pares: “Não é preciso seguir necessariamente o que João Gilberto fez. Ele é genial, mas desde que surgiu revolucionando tudo apareceram tantas outras formas de tocar violão. Acho limitador seguir João só porque os outros vão achar o máximo”. Krieger acaba de editar seu segundo álbum, Correnteza (Biscoito Fino), onde pratica essa distensão de conceitos de modo discreto, avesso a confrontos diretos ou rupturas. A carreira individual segue escoltada pela adesão de cantoras como Maria Rita e Roberta Sá, que levam sua música a públicos amplos.

Mais radical na demolição da MPB como a conhecíamos é Lucas Santtana, ativo militante da cultura digital, cujo ímpeto provocador deve estar inscrito no código genético, pois é sobrinho de Tom Zé e filho do também baiano Roberto Sant’Ana, produtor musical ligado às origens do grupo tropicalista. Lançado em julho, seu Sem Nostalgia (ybmusic) tornou-se um dos discos de ponta de 2009, pelo trabalho de desconstruir (e reconstruir) a importância, a sombra e o peso do violão brasileiro, por intermédio de trechos instrumentais “sampleados” (de modo não raro imperceptível) de Dorival Caymmi, Baden Powell, Jorge Ben, Gilberto Gil, Tom Zé e Novos Baianos.

A banda Ronei Jorge e Os Ladrões de Bicicleta participa da vanguarda musical destes primeiros anos 2000, seja por injetar algum amor pela MPB no rock’n’roll, seja por praticar rock’n’roll em terra até há alguns anos colonizada quase exclusivamente pela axé music. “Comecei em 1994, época da explosão da música baiana, do axé. Aqui era meio deserto, a gente não tinha uma grande profissionalização, e a música de carnaval tomava a frente de tudo”, diz, de Salvador. “Até hoje é meio assim, mas diminuiu.”

No recém-lançado Frascos Comprimidos Compressas (Gira Independente), o grupo distende a relação tensa com a hoje enfraquecida axé music. A letra de Aquela Dança, por exemplo, dialoga com os ex “inimigos”, e Ronei comenta: “Alguns do rock torceram o nariz. Os mais jovens adoram, são muito mais abertos que nossa geração”. Como a ecoar o título farmacêutico do CD, o cantor e compositor recebe como opressora a alegria hegemônica do axé. “Se você não fizer parte, fica parecendo que é meio doente. E às vezes é uma alegria meio tensa, alguns artistas ficam meio dopados na alegria. Ninguém é assim sempre”, afirma.

Se ninguém é sempre alegre, tampouco deve ser triste sempre (como o rock independente costuma induzir). “Quando a tevê daqui faz reportagem sobre rock, é todo mundo de preto, morcego, tachinha. Não tem relação com a música pop. A gente tenta trazer um discurso de leveza e as bandas mais jovens são muito mais relax”, opina. “A relação entre o rock e o carnaval é de ódio e de amor. A gente odiava, mas todo mundo corria para ver Pepeu Gomes e Armandinho tocando guitarra. Hoje revisitamos Gerônimo, Luiz Caldas, Moraes Moreira. A gente está mais à vontade.” Ronei concorda que a distensão se relaciona à morte de Antonio Carlos Magalhães e ao declínio do carlismo na Bahia: “Se estivéssemos em período de Antonio Carlos, seria impensável a diversidade. Hoje se apresentam aqui a Mariana Aydar, o (coletivo experimental paulista) Instituto. Abriram-se editais, antes nem sabia o que era isso”.

Terra de frevo e maracatu, o vizinho Pernambuco não teve seu axé, mas viveu uma contrapartida ao comercialismo desenfreado baiano, na figura do cultuado, experimental e nem sempre muito comunicativo mangue bit. Se há distensão por esse outro lado, um de seus nomes é Lulina. Cantora e compositora imersa em anos de gravações caseiras (e do emprego principal em agências de publicidade), ela acaba de publicar um brilhante álbum de estreia, Cristalina (ybmusic), em que a doçura se faz matéria principal de dezoito canções pop daquelas de decorar as letras após a segunda audição e cantar junto.

Lulina explica como recebeu, ainda adolescente, o advento do mangue bit: “Fui só uma vez a um show do Chico Science, um dos últimos dele. Ele era vizinho da minha tia-avó, vi o carro batido, a relação era mais com a pessoinha que com a música. Eu era mais garota revoltadinha, na onda Nirvana, Sepultura, camiseta com caveira”. Mas nem Nirvana, nem mangue bit, nem o samba (que também diz admirar) deram cartas em seu som. Ela descreve sensação parecida à de Ronei Jorge na Bahia, quanto ao predomínio de um ou outro gênero musical: “Era difícil a banda que não tocasse regional ter espaço. Se você não faz regional com rabeca, ciranda ou mangue bit, não é Recife”.

O disco é composto de versões retrabalhadas de músicas que já havia gravado em CDs artesanais. “Só Meu Príncipe eu guardei para estrear no Cristalina”, conta. O tal príncipe foge a quaisquer padrões MPB (ou mesmo mangue bit), e é definido por ela como “o troco da Amélia”, a personagem submissa do samba de Ataulfo Alves. Meu príncipe (...) limpa o banheiro/ Eu trabalho o dia inteiro/ Ele lava a roupa suja/ E eu bebo, bebo, bebo, diz a letra, em característico estilo “lulinês”.

“Sempre fiquei com muita vergonha de mostrar minhas músicas. É muita metáfora com barata e minhoca, nem todo mundo está acostumado com isso”, descreve o próprio temor em se assumir artista pop. E explica: “Metáfora é uma forma de disfarçar sentimentos, de se esconder. Minhoca fala de morte. Barata é se sentir como um inseto que vai ser pisado”.

A crônica do dia-a-dia é o mote de Lulina, que diz transformar em doces canções suas tristezas, insônias (para livrar-se de uma, compôs Narcolepsia), gastrites e bolhas na pleura (Blebs fala de tal doença, que ela teve de fato). “Novalgina era meu remédio favorito da infância, docinho, sabor morango”, brinca, num apartamento cheio de números 13 espalhados, um “museu do extraterrestre” instalado no banheiro e uma bebida verde chamada Sangue de ET (que também virou música). “Estava ficando tão obcecada pelo 13 que comecei a ficar com raiva do 14, aí fiz um disco caseiro, Aceitação do 14”, diverte-se.

Lulina radicou-se em São Paulo há sete anos e sua música faz jus a uma habitual identificação musical entre pernambucanos e paulistas, à base de humor cáustico. Uma prova é Bosta Nova, humorada declaração de horror aos festejos de réveillon. “Eu até gosto de bossa nova, é que não conheço muito. Tenho várias homenagens à bossa, uma chama João Gilberto É Mariana.”

Pois São Paulo não sai ilesa de sua doçura e timidez. A deliciosa Balada do Paulista ousa cutucar a fera e emerge como uma retumbante gozação aos sotaques e gírias da terra adotiva. “Um menino do meu trabalho falou essa frase: ‘Puta, meu!, tipo, nossa, cara!, então, eu fui lá e...’ A frase mesmo só começava no ‘eu fui lá’. Eu pensei, nossa, isso é uma música”, conta a gênese do amontoado de gírias que pronuncia “putameutiponossacaraentão”, sem tentar despistar o próprio acento pernambucano.

Cada um a seu modo, o que esses artistas têm feito é tentar derrubar as ditaduras musicais. “O problema é a monocultura. Se estivesse numa cidade onde só houvesse rock, eu ia odiar o rock”, sintetiza Ronei Jorge. “Nos anos 1980, quem não era do rock no Brasil é que estava mal.”

O ponto frágil ainda por superar, para artistas como esses, situados das classes médias para cima, é o da comunicação com públicos mais amplos. “Posso marcar um show na quadra da Mangueira na hora que quiser. Mas não tenho vontade, porque minha impressão é a de que vou ser mal compreendido ali”, defende-se Krieger a princípio, diante da discussão sobre a muralha que nas últimas décadas separou a MPB da música popular produzida por funqueiros, sertanejos e tecnobregas.

Discorre sobre a contraposição entre os pais “loucos” dos anos 1960 e os filhos “certinhos”, temerosos de excessos. “Já reparou que as cantoras da minha geração surgem todas com vestidos compridos? Acredito que é pensado, é a preocupação de não chocar ninguém no País- que já foi e é significado de bunda, de É o Tchan.” E então ele depara com o próprio temor de se comunicar com mais espectadores: “Ao mesmo tempo que tenho medo de como meu trabalho vai ser recebido na periferia, Maria Rita me prova o contrário, com a visibilidade popular que me dá cantando minha música”.

Curioso é notar que a filha de Elis Regina, lembrada por ele, tem abarrotado casas de shows com um repertório de sambas cantados em coro pela plateia. Um deles se chama Corpitcho, que Maria Rita tem apresentado com minissaias comparáveis à da jovem aluna da Uniban. Parafraseando Paulinho da Viola, as transformações da MPB estão no mundo, só é preciso enxergá-las.

Quarta-feira, Novembro 18, 2009

desperta, américa do sul

Esta minha atual fase paraense segue rendendo frutos suculentos, inclusive uma reportagem na edição 2 da "Billboard", já nas bancas, e anterior a essa nova visita que fiz ao festival Se Rasgum, no fim-de-semana passado.

Teria tanta coisa a dizer que até me perco, então por ora quero reproduzir aqui, com consentimento do autor, o depoimento que (o jornalista e codiretor dos documentários "Brega S/A" e "As Filhas da Chiquita") Vladimir Cunha me concedeu para a reportagem da "Billboard".

O que o Vlad escreveu por e-mail me parece mais que um depoimento, um texto pronto - e excepcional -, com reflexões úteis e importantes muito além das fronteiras do Pará. Quando ele diz "elite paraense", por exemplo, acredito que a gente pode facilmente substituir o termo "paraense" por qualquer canto do Brasil onde vicejem gêneros musicais locais. Ou podemos trocar, de modo mais amplo e igualmente justo, "elite paraense" por "elite brasileira" e e "música paraense" por "música brasileira". Cê não acha?

(Esclarecendo para quem não viu a "Billboard": a reportagem versa sobre o perrengue entre os grupos paraenses de tecnomelody e a Banda Djavú, baiana, que andou abocanhando uma série de hits paraenses e os transformou em música "da Bahia" de alto potencial comercial. Assunto candente, muitíssimo pano pra manga.)

Fala, Vlad:

POR VLADIMIR CUNHA

Pedro,

Belém é ao mesmo tempo um lugar de passagem e um ponto onde várias culturas se encontram. Passagem porque é a entrada da Amazônia e a saída para o sul do país, e para a Europa, para quem está no norte do Brasil. Uma cidade portuária onde o tráfego de informações sempre foi muito intenso, onde desde os anos 50 se contrabandeavam discos de rock dos
Estados Unidos e discos de cumbia, soca e merengue do Caribe e das Guianas. Foi o que possibilitou, por exemplo, a criação da guitarrada e da lambada, ritmos nascidos do contato da periferia da cidade com ritmos criados em outros países.

E sempre se ouviu muita música na periferia de Belém. Eu nasci e me criei no bairro do Jurunas e na parte baixa da Cidade Velha, duas áreas bem pobres da cidade (para tu ter uma ideia, a rua onde nasci somente foi ter asfalto e saneamento básico há cerca de 15 anos, antes era chão batido, valas a céu aberto e mato). E nesses locais era comum a gente estar brincado na rua e ouvir música de todos os lados, brega, merengue, lambada, carimbó, guitarrada... Porque sempre foi um hábito
do belenense pobre colocar as caixas de som na janela, na calçada ou na porta da casa. Em parte para mostrar aos vizinhos que ele conseguiu ter um aparelho de som (naquela época um status absurdo), em parte porque em Belém faz muito calor e na periferia da cidade ir para a rua ouvir música nos finais de semana é uma forma de escapar do ambiente sufocante das casas de madeira e alvenaria sem ventilação dos bairros mais pobres.

Então, essa musicalidade, ela sempre esteve presente no cotidiano do paraense da periferia, que desde cedo aprendeu a conviver com esses diversos matizes musicais. Antes de criar a Banda Calypso, Chimbinha tocava em bailes de Creendece Clearwater Revival a Pink Floyd, de Odair José a disco music. Isso é comum. Então, como o sujeito cresce ouvindo todo tipo de música desde cedo, aprende, na hora de tocar e criar a, combinar esses diversos estilos musicais.

Por causa da batida, por exemplo, "Blue Monday", do New Order, e "This Is Not a Love Song", do Public Image Ltd., foram hits absurdos nas aparelhagens nos anos 80, junto com músicas de Mauro Cota, Teddy Max, Juca Medalha, Pinduca e outros músicos locais. Como ninguém entendia a letra, as pessoas cantavam o refrão de "This Is Not a Love Song" como "bife, coloral e sal". Mas cantavam e se divertiam. Sempre que me lembro disso fico pensando o que sentiria um pós-punk metido a sebo ao saber que em Cametá, no Baixo Tocantins, lavradores, estivadores e pescadores dançavam as mesmas músicas que ele dançava no Madame Satã ou no Crepúsculo de Cubatão.

Isso tudo é para tu entender que essa confusão sensorial e de inputs de informação sempre existiu aqui em Belém e se intensificou ainda mais com a pirataria e o acesso à internet, pois as referências passaram a ser não somente musicais, mas também referências de moda, de seriados de TV, de filmes (tipo "Velozes e Furiosos", "Transformers" e
animes) e dos videogames ("Street Fighter" é, até hoje, sampleado em diversos tecnobregas).

É isso que colabora para essa inventividade do paraense pobre que resolve fazer música, que resolve criar esses gêneros híbridos e, agora, eletrônicos. O problema é que, ao contrário do axé e do forró, por exemplo, nunca existiu em Belém uma tentativa de profissionalização e institucionalização do tecnobrega. Isso porque não existe boa vontade da elite local com o ritmo. A elite local prefere escondê-lo, ridicularizá-lo e abraçar ritmos e modismos importados.

Isso se deve ao fato de que a elite local tem como hábito escamotear certos aspectos que constituem a identidade do povo paraense. Ela não gosta de ser ligada ao índio, ao negro, ao povo ribeirinho, ao morador da periferia. Ela nega seus traços índios, pinta o cabelo de loiro, sonha em morar em condomínios fechados, passar frio, usar casaco. Sonha com o dia em que Belém sera igual aos Jardins em São Paulo. Para ela, o tecnobrega, a lambada, o melody... tudo isso lembra que ao redor das
ilhas de conforto que ela ergueu, e nas quais perpetua a sua ilusão de embranquecimento e de pertencimento a uma realidade que não pode ser replicada numa cidade pobre e caótica como Belém, existe uma gente "feia", de pele escura, "mal-educada", "mal-vestida" e que ouve essa música dura, sexual, rude e que fere os ouvidos: o tecnobrega.

Por conta disso, o paraense médio nunca viu o tecnobrega ou o melody como uma cultura genuinamente local, que poderia ser exportada e gerar benefícios para a cidade e para o estado. Por ter vergonha do tecnobrega, e por conseguinte de uma infinidade de aspectos ligados à identidade do povo paraense, a elite local ergueu uma série de barreiras definindo o que pode e o que não pode, criando um apartheid não só social, mas também cultural, segregando essas manifestações para os salões de terra batida da periferia, para os balneários classe C e para os portos que circundam a cidade, onde são realizadas festas
todos os finais de semana.

Por ter sido relegado à periferia, o tecnobrega acabou encontrando na informalidade e na pirataria o seu meio de sobrevivência. Se por um lado isso foi bom, já que a informalidade criou um sistema de distribuição eficaz, por outro largou o ritmo numa espécie de terra de ninguém, onde direitos de patrimônio e de autor não são respeitados, onde não se tem controle sobre os processos criativos.

Por exemplo: a Banda Djavú roubou músicas de autores paraenses. é um fato. Mas, ao mesmo tempo, uma série de músicas do tecnobrega são roubadas. "No More Lonely Nights", do Paul McCartney, virou "Galera GDK", "Das Model" virou "Bole Rebole", "Beat It" virou "O Rei do Pop", cujo refrão, no lugar de "beat it", diz "é firme, firme". Junto a isso, existe uma via de mão dupla, na qual as bandas de forró roubam músicas paraenses e as bandas paraenses roubam forrós que são transformados em tecnobrega.

Um caso exemplar é da musica "Amores", que estourou em Belém numa versão tecnobrega, mas foi gravada originalmente pela banda Forró do Muído, que, por outro lado, roubou a musica de um grupo espanhol e gravou uma versão nao-autorizada dela em português. Nesse cenário caótico, informal e confuso, sempre me pareceu só uma questão de tempo até alguém vir aqui, pegar o melody e as músicas locais e lançar para todo o Brasil.

Em parte porque, ao empurrar e confinar o tecnobrega e o melody para espaços bem delimitados, a elite local perdeu o bonde da história, já que, espertamente, foram os empresários nordestinos, muito mais bem resolvidos com suas questões de identidade, que enxergaram no ritmo excelentes possibilidades de negócios. E enquanto o empresariado local dançava Biquíni Cavadão nos bares "classe A" de Belém e definia que melody era "coisa de caboco", a Bahia criava a Banda Djavú e fatura
milhões em cima de algo criado a partir do talento e da inventividade do povo paraense.

Quarta-feira, Novembro 11, 2009

sinhá nastácia sabe agradar?

Depois das compositoras, seguimos nós com as cantoras, desta vez negras, desta vez na "CartaCapital", edição 571, de 11 de novembro de 2009.

Dor de batucada

Por Pedro Alexandre Sanches


O Brasil raramente reconhece como nobres suas cantoras negras, ao contrário do que ocorre nos Estados Unidos com Billie Holiday, Sarah Vaughan, Ella Fitzgerald, Nina Simone ou Dinah Washington. Se é que temos nossas equivalentes às grandes damas do jazz, elas atendem por nomes como Elis Regina, Gal Costa, Maria Bethânia ou Nana Caymmi, todas de peles bem mais alvas que as das congêneres norte-americanas.

Não é que não tenhamos grandes vozes negras. Contamos com a fibra de sambistas da pesada, como Clementina de Jesus, Dona Ivone Lara, Alcione, Leci Brandão, Jovelina Pérola Negra, Teresa Cristina. Nossas cantantes negras parecem tender mais ao samba (e, eventualmente, ao soul e ao funk, caso de Sandra de Sá) que, digamos, ao jazz, à bossa nova ou à dita MPB.

São coisas da vida, cantaria a ruiva Rita Lee, e este não é assunto que instigue maiores interrogações, debates ou estudos acadêmicos. Ou melhor, não era. Produto de uma dissertação de mestrado do jovem jornalista e historiador Ricardo Santhiago, de 26 anos, o livro Solistas Dissonantes – História (oral) de cantoras negras (Letra e Voz, 294 págs., R$ 40) mexe com sutileza no vespeiro oculto atrás das tais “coisas da vida”. E chega a conclusões tão cristalinas quanto desconcertantes, sobre os porquês da ausência de cantoras negras na MPB, na bossa, no jazz, nos gêneros de maior empatia junto ao público das classes médias para cima.

A primeira e mais direta das constatações é de que essas cantoras existem, sim, sinhô. Santhiago vale-se da metodologia da história oral para registrar os depoimentos em primeira pessoa de treze brasileiras negras que, ao longo de compridas trajetórias profissionais, não quiseram e/ou não souberam traçar caminhos musicais calcados nas qualidades e nos estereótipos de samba, batucada ou pagode.

Algumas delas gozam ou gozaram de certa popularidade e reconhecimento, como Alaíde Costa, Eliana Pittman, Rosa Marya Colin e Zezé Motta. Mas a maioria tem presença restrita e marginal nos meios de comunicação. Não se pode dizer que sejam amplamente conhecidos do público nacional os nomes de Adyel Silva, Arícia Mess, Áurea Martins, Graça Cunha, Ivete Souza, Izzy Gordon, Leila Maria, Misty e Virgínia Rosa.

Juntas, as treze formam um mostruário que está longe de ser completo. Elas próprias evocam, em suas falas, colegas ausentes que caberiam perfeitamente no escopo do livro: Angela Maria, Elizeth Cardoso, Carmen Costa, Elza Soares, Leny Andrade, Tânia Maria, Rosa Passos, Daúde, Leilah Moreno, Jaqueline Ribas. Ah, e também uma pioneira entre as compositoras brasileiras, que surge no depoimento de sua sobrinha, Izzy Gordon: “Dolores Duran também era negra”.

Mesmo incompleta a seleção, a leitura acumulada dos depoimentos deslinda aos poucos uniformidades surpreendentes. É quase unânime, por exemplo, o relato sobre a resistência de gravadoras, produtores e músicos diante da não identificação das artistas com o samba.

Leila Maria conta do convite feito por um músico “muito conhecido”, para um trabalho conjunto: “Eu disse que queria cantar jazz, Tom Jobim... Na mesma hora ele disse que eu tinha outro perfil, que devia cantar sambas e que essas não eram músicas que traduzissem o sentimento ‘do negro’. Encerrei o encontro ali e nunca mais voltei”.

Zezé Motta lembra que para sua estreia-solo, em 1978, recebeu músicas de Caetano Veloso, Rita Lee e Moraes Moreira. A gravadora Warner apostou nela, a bordo do sucesso como atriz, no papel-título do filme Xica da Silva (1976), de Cacá Diegues. Mas as vendagens não atingiram as expectativas da gravadora, que tentou então “redirecionar” sua carreira rumo ao samba.

“Esperneei pra cá e pra lá, mas no disco Negritude (1979) topei gravar alguns sambas”, ela declara no livro. “Mesmo assim, sempre rejeitei o rótulo de sambista, não porque tivesse algo contra o samba, mas porque (...) eu achava isso, vamos dizer, meio estranho... Parecia uma ditadura com o artista negro.”

Em prol da sobrevivência, Ivete Souza (assim como Eliana Pittman) zanzou pelo circuito dos shows tipo macumba para turista, “exóticos”, e reflete em paralelo sobre a imagem prévia que se faz de uma cantora negra e a resistência a ela caso não corresponda à tal imagem. “Xiiii... Já vai ter pagode de novo” é o tipo de frase que afirma ouvir com frequência nos bares onde canta. Mas diz que interpretar músicas do repertório de Elis Regina provoca outro tipo de comentário: “Olha aí, olha a negona. A negona quer ser branca”.

Nas falas de Ivete e Zezé transparece a dura questão racial subjacente às relações neste país onde, garantem, “não somos racistas”. Histórias assim são fortes e abundantes. Áurea Martins ganhou notoriedade em anos recentes com discos discretos e sofisticados, mas deixou perdido no tempo longínquo um LP de estreia pela RCA. “Cheguei a escutar uma das diretoras da gravadora dizer: ‘Esse disco? Com essa neguinha?’”, lembra. De fato, O Amor em Paz (1972) passou despercebido, mesmo com as canções de Tom Jobim, Baden Powell e Chico Buarque.

Ivete conta de um teste para crooner em que perdeu para uma cantora branca: “Depois, (o contratante) disse ao rapaz que me indicou, que jamais colocaria uma negra cantando numa banda de baile, porque não faz uma bela figura. Uma loira chama mais atenção”.

Casos parecidos tem Alaíde Costa, espécie de centro gravitacional de Solistas Dissonantes, citada como desbravadora, parâmetro e exemplo por quase todas as outras cantoras. Equivalente feminino à presença negra de Johnny Alf no advento da bossa nova (de resto toda branca), ela rememora diálogo que ouviu entre os avaliadores de um teste no início da carreira. “A Alaíde canta melhor, tem mais personalidade”, disse um. “É, mas a outra também é boa... E não é neguinha”, respondeu o segundo. “Lembro com dor”, constata a cicatriz.

Como em Alaíde, a consciência do peso do embate racial aparece em alguns depoimentos. “Todos diziam que o disco era maravilhoso, que a cantora era maravilhosa... Mas a coisa não ia adiante. Convites para eventos e projetos nunca rolaram”, expõe Leila Maria, reconhecida como excelente intérprete. “Foi aí que comecei a cantar a bola para a questão do racismo.”

“Ao longo da minha vida, recebi muitos elogios: dizem que sou uma cantora maravilhosa, que canto muito bem... Mas as oportunidades que tive como cantora não refletem isso”, ecoa Rosa Marya Colin.

Adyel Silva aborda o mesmo tema sob outro ângulo, descrevendo a dívida assumida pela avó, zeladora do banheiro público do Anhangabaú, para lhe comprar um piano. E reúne a figura da avó à de Alaíde Costa, ao interpretar aquele gesto: “Nunca conversamos sobre isso, mas talvez ela (Alaíde) tenha sofrido a mesma coisa que sofri. (...) Talvez ela sinta uma responsabilidade igual àquela que minha avó quis me passar quando comprou o piano para eu tocar na sala, e não ficar na área de serviço”.

A propósito, Alaíde conta em seu depoimento que viveu sem água nem luz, que teve três irmãs mortas por tuberculose (“assim como grande parte da minha família”), e que conciliou os primeiros tempos na música com a profissão de babá.

No diálogo com o autor, Leila Maria testa a hipótese do racismo, cita o contrato de silêncio entre os que o praticam e os que o sofrem e demonstra como ainda estamos diante de um tema tabu: “Eu mesma não falo disso, porque tenho medo de que não entendam o que estou dizendo e não apenas me tomem como preconceituosa, mas achem que estou usando isso como um recurso para justificar por que não acontecem mais coisas na minha carreira”. Note-se, ela diz que se cala, já falando.

O mesmo dilema amedronta Adyel, segundo conta Santhiago: “Ela me ligou dois dias antes do lançamento do livro, dizendo que estava com muito medo. O medo era de que não entendessem o que ela estava dizendo”. E ele chega a outro ponto crucial da narrativa fragmentária, mas coesa, que ergueu: “O primeiro passo para a transformação de um estado é o reconhecimento desse estado”.

Leila e Adyel não parecem equivocadas em temer que as queixas guardadas se confundam com vitimização. Mostram saber que a discriminação só se consuma quando há a permissão silenciosa dos discriminados. O ponto a que Alaíde e sua dinastia involuntária chegaram até aqui é o da recusa firme e quase sempre silenciosa em ceder às enormes pressões externas para corresponder a papéis limitados e predeterminados.

Isso transborda da significativa sequência de frases do tipo “jamais vão me dizer o que eu devo gravar, como devo cantar” e “jamais vão me dizer o que eu devo fazer” (Alaíde), “canto o que quero, não gosto de ditadura nem de patrulha, vinda de lado algum” (Zezé), “falo que sou preta, mas que sou cantora e eles vão ter de me engolir” (Áurea) ou “por que não na sala?, é isso, é exatamente isso: por que não na sala?” (Adyel).

Solistas Dissonantes auxilia a história a dar mais um passo adiante, à medida que, fato raro, deixa a tenacidade teimosa de nossas Ellas, Billies e Sarahs se fazer acompanhar não só pelo canto, mas também pela reivindicação.

Sexta-feira, Novembro 06, 2009

está com tudo e não está prosa



Alienado que estou ultimamente, fui todo desavisado assistir ao documentário "Alô, Alô, Terezinha", de Nelson Hoineff, sobre o Chacrinha. E voltei feliz da vida, por várias razões.

É fácil quando se trata de uma história espetacular, protagonizada por um personagem fenomenal. Mas não se trata só disso. Minha impressão satisfeita é de que a montagem, a edição e o trabalho jornalístico por trás do filme (vejo aqui na Wikipedia que Hoineff é um figurão da televisão, mas confesso que não sei nada sobre ele) são tão formidáveis quanto o material em que se apoiam.

Seguir os raciocínios por trás das emendas entre os muitos depoimentos é tão fértil (e divertido) quanto acompanhar os incidentes surreais que acontecem diante da câmara (a asa delta que atropela Biafra quando ele canta "voar, voar, subir, subir", conhecida por todo mundo, é só uma delas). Toda uma outra história (senão a mesma) é contada ali, nas entrelinhas, de modo particularmente talentoso.

Outra intervenção que me agrada muito é a de dar voz eloquente a personagens anônimos (ex-calouros, ex-chacretes etc.) do estranho mundo de Chacrinha, tanto quanto à galeria de artistas que passaram por suas garras, uma galeria absurda de tanta diversidade.

Baby Consuelo (ou melhor, Do Brasil), faz um rasante daqueles em "Alô, Alô, Terezinha", entremeando a fala amalucada pró-Deus com o canto diabólico de tão bom (quando é que a gente vai reconhecê-la como uma das maiores intérpretes da nossa história, tanto com os Novos Baianos como em fase solo, hein?). Fábio Jr., Fafá de Belém, Agnaldo Timóteo, tudo é de encher os olhos e os ouvidos.

Mas, por improvável que pareça, não é nos "famosos" que o filme se apoia. Os momentos protagonizados por ex-calouros e ex-chacretes são emocionantes, e concedem ao documentário um tom moderno à beça, com cara de anos 2010 (OK, talvez o artifício seja mera reprodução do que Chacrinha já fazia em mil-novecentos-e-antigamente, mas não faz mal nenhum se isso significar que ele, sim, Chacrinha, tosco e grotesco como era, era moderno à beça em mil-novecentos-e-antigamente).

Imagino que o tratamento dado aos "perdedores" da história (ou seja, calouros e chacretes, exceto a genial Rita Cadillac) provoque urticária nas hostes politicamente corretas (das quais sou adepto em grande medida, e não tenho vergonha nenhuma de assumir). Mas eu lançaria a hipótese contrária: Hoineff respeita bastante os "perdedores", ou pelo menos os respeita muito mais que representantes das camadas "pensantes" que vivem(os) jurando "defender" os desassistidos.

O filme os mostra, os expõe na carne, como eles são, misturados a "famosos", "bem-sucedidos" e diretores escrotões de TV - ou seja, insinua, naquelas entrelinhas de que eu falava, que os que foram não são muito diferentes dos que poderiam ter sido. Malucos são os periféricos fluminenses nos quais o filme se atira com afinco, malucos são e eram os artistas, maluco era Chacrinha.

Maluco? Malucos? O pernambucano Alceu Valença dá a melhor das pistas na narrativa, ao observar que o pernambucano Chacrinha nada mais era que a adaptação televisiva dos "velhos" gaiatos condutores dos pastoris pernambucanos - tipo o Pastoril do Velho Faceta (não sei se é pernambucano, é?), em que Maria Alcina se apoiou para emplacar nacionalmente "É Mais Embaixo" e "Calor na Bacurinha". Arte de povo, de arena, de praça pública, portanto.

E acrescento, porque não é dito explicitamente no filme: o imaginário de Chacrinha era o dos pastoris e era também, em igual intensidade, o do circo, o do circo tão desprezado e marginalizado pelas classes "pensantes" de hoje e de ontem. O circo, provam os especialistas, é pai da MPB, do cinema, do rádio, da TV, da imprensa (de toda indústria cultural-informativa, enfim); todo mundo que trabalhava em circo migrou para esses outros meios quando entrou em decadência o depois rejeitado pai-patrono-patriarca-esfarrapado. E Chacrinha, assisto em "Alô, Alô, Terezinha", era a mais perfeita extrapolação do circo para a televisão.

O que me ficou rondando a cabeça, revendo aquele caos organizado, é que os programas do Chacrinha eram uma ilha de democracia encravada dentro de um Brasil entupido de ditadura e autoritarismo. Eles eram também, evidentemente, uma das faces da ditadura e do autoritarismo (que o digam Russo, Big Boy e as chacretes), especialmente na fase "global", mas esse outro lado, divergente daquele, é geralmente negado e varrido para baixo do tapete por gente graúda das classes médias para cima, da ditadura midiática para baixo.

Mesmo autoritário, Chacrinha furava o bloqueio e expunha o Brasil como ele era justamente na tela da famigerada Rede Globo. Mesmo tacanho em termos musicais, levava a música brasileira adiante de modo extremamente plural e democrático, sem distinguir Ney Matogrosso de Nelson Ned ou Chico Buarque de Agnaldo Timóteo.

Por sinal, Timóteo, ex-motorista de Angela Maria, é respeitado no documentário à mesma medida que é respeitado, por exemplo, Gilberto Gil, e aqui se repete nessa outra esfera o mesmo reposicionamento de forças que o filme promove entre "famosos" e "anônimos", "bonitos" e "feios", "ricos" e "pobres" [o mesmo reposicionamento que está havendo na "vida real", acrescento posteriormente]. Não sei se há gente irritada com o filme, mas se houver, eu apostaria que é por aí, muito mais pela inserção do "povo" no panorama que por uma suposta reação protetora ao dito cujo "povo". O choro de Agnaldo Timóteo é outro desses momentos emocionantes do filme de que eu falava.

É por isso que acho e digo que é moderno à beça.

Um último comentário, que "Alô, Alô, Terezinha" fez vir à tona no meu já combalido coraçãozinho. Eu passei a infância e a adolescência assistindo ao Chacrinha na TV Globo. Odiava Chacrinha, me incomodava com ele, praguejava contra o desrespeito com que tratava os calouros. Mas assistia. Todo sábado eu estava lá [por que será?, indago posteriormente]. E uma das sensações que me provocou rever todas aquelas cenas (meu Deus do céu, eu não sabia como me lembrava do figurino tipo urso-polar-tropicalista de Baby Consuelo!) foi um certo lamento por não ter usufruído sem tantos melindres daquela quantidade brutal de talentos ("famosos" e "anônimos") que passavam sem parar diante do nariz de batata do palhaço-faceta-Chacrinha (e do meu).

E isso me faz pensar, algo desconcertado, da música e na cultura que se produzem no Brasil de 2009. Será que vou demorar mais uns 30 anos para aceitá-la e reconhecê-la?

(Observação mais ou menos inédita: tenho um compromisso estourando aí, e publico assim mesmo, sem releitura nem revisão; a releitura será feita depois, e a revisão também, se necessária; quem quiser me buzinar, portanto, eis aqui um ótimo momento!) (Observação posterior, às 16h45 de 9 de novembro: arremedei uma coisinha aqui, outra ali, nada muito grave, além do que destaco nestes itálicos.)

sem horas, sem ouros

Segue um texto que escrevi para a "CartaCapital" e foi publicado (acho) na edição 461, em setembro de 2007. Daqui a pouco eu explico o porquê de ressuscitá-la agora.

CIRCO
Debaixo da lona

A família circense Wassilnovich migrou para o Brasil na segunda metade do século XIX, e aqui abrasileirou o sobrenome para Silva. Dos anos 1960 em diante, os integrantes da quarta geração da família passaram a ser enviados ao convívio de parentes com residência fixa, quando chegavam à idade escolar, em busca de um futuro “melhor”. Erminia Silva, hoje um historiadora de 53 anos, foi uma das enviadas à vida universitária. A ruptura com o passado nômade e circense durou até que ela direcionasse a pesquisa acadêmica ao reencontro com as próprias origens, num trabalho que agora deságua no livro Circo-Teatro – Benjamim de Oliveira e a Teatralidade Circense no Brasil (editora Altana, 434 págs., R$ 50).

Benjamim de Oliveira nasceu alforriado em Minas Gerais, em 1870, e ainda menino fugiu com o circo. No correr das décadas seguintes, tornou-se ator, palhaço, cantor, compositor, violonista, dramaturgo, encenador, diretor, um faz-tudo do circo, enfim. Mais que o protagonista da história, ele é utilizado no livro como pretexto e exemplo para que Erminia Silva reflita sobre as confluências entre o circo e o teatro, num primeiro plano, e, de modo mais geral, entre o circo e todos os ramos da então nascente indústria cultural brasileira.

A discussão de fundo, para a historiadora, diz respeito à participação dos profissionais egressos do circo na edificação das indústrias de cinema e de música (e, futuramente, de televisão e rádio). Na aurora do cinema nacional, Benjamim protagonizou uma versão filmada da pantomima Os Guaranis, que ele liderava no Circo Spinelli sob inspiração da obra quase homônima de José de Alencar. Assim como o músico Baiano era ao mesmo tempo cantor da primeira gravação do samba Pelo Telefone e ator circense, também Benjamim gravou discos e foi parceiro musical de nomes pioneiros como Catulo da Paixão Cearense e Eduardo das Neves. No circo, Benjamim, Baiano e Eduardo atuaram juntos numa versão da opereta A Viúva Alegre.

Quem, como Benjamim, levou o teatro para dentro do circo (e não o contrário) teve a memória mais dissipada pelo tempo que os pares de teatro (e música, e cinema), e eis aí a outro argumento crucial de Erminia. O que se depreende do livro é que a memória construída a partir do ponto de vista das elites culturais enobreceu o teatro e as novas formas em detrimento da origem circense de artesãos cada vez mais marginalizados. A tarefa cumprida neste momento pela historiadora que veio do circo é a de interromper os ciclos de silêncio que há décadas excluem do mapa cultural alguns de seus agentes fundadores. – POR PEDRO ALEXANDRE SANCHES

Sexta-feira, Outubro 30, 2009

assim é que é (*)

Afora o prazer melancólico de ver o que Michael Jackson estava preparando quando não sabia que daqui a pouco ia morrer, o semifilme "This Is It" deixa um travo forte na garganta. Testemunhamos ali não apenas a pré-morte de MJ. Estamos diante de algo ainda mais amplo, a falência do pop star.

É sintomático que, para faturar dinheiro com a morte do ídolo black'n'white, seu "imaculado" espólio tenha tido de desmontá-lo, de mostrar detrás das cortinas como é que se ergue o projeto mastodôntico de um "megashow" (este termo esteve tão em voga anos atrás, não é mesmo?), de um devaneio planetário de música pop. É uma delícia (melancólica) de assistir, mas não é algo que a indústria do entretenimento fornecesse a seus consumidores até pouco tempo atrás.

O que Michael mostra o tempo todo naquela tela além-túmulo é que o estrelato pop é, por excelência, um regime autoritário. Na seleção e liderança dos bailarinos, no trato com os músicos, na decisão sobre qual acorde elegerá a cada momento, na necessidade obsessiva de fazer parecer que sabe exatamente o que quer a cada acorde, na bajulação de todos ao redor, no comando da massa (essa parte que não chegou a acontecer), em tudo, enfim, o solitário pop star tem de se segurar na pose de um autoritário sorridente, de um déspota esclarecido, de um bem-amado.

Michael ainda disfarça timidamente, completando que é "com amor" cada bronca dirigida a sua senzala particular. Mas não é à toa que a certa altura o diretor, ao mesmo tempo mandão e submisso, se dá conta de que aquilo tudo ali é um templo, um "templo do rock'n'roll". O projeto autoritário precisa de seguidores, fãs, fanáticos, staff, escravos, o que seja, para se concretizar.

Desde o princípio (de seu desaparecimento) eu achei que a morte de MJ estava ligada tanto à tão propalada crise global do capitalismo, bem como à eleição de Obama Bin Laden, quero dizer, de Barack Obama para a presidência lá do país deles.

MJ sempre advogou a fusão funk'n'roll e black'n'white (no show "This Is It", isso seria brilhantemente reiterado no duelo de guitarras de "Black or White", entre um negão e uma loirinha). Mas, diante da posse de um presidente negro (com raízes não só africanas como muçulmanas), o mundo - ou melhor, o mundo EUA - de repente ficou pequeno demais para abrigar, de uma vez só, o "this is it" e o "yes, we can".

Michael disse "no, I can't", e se pirulitou, forévis.

Mas isso é perfumaria, o lance mesmo é a tal crise global do capitalismo - ou seja, a decadência do autoritarismo-patriarcado-patrimonialismo corporificado em "sucesso", sempre reproduzido à imagem e semelhança pela música pop como (ainda) a conhecemos, capitalista até o osso. Conforme ventos libertários sopram mundo afora, pelo "Terceiro Mundo", pela América Latina, pela internet e alhures, não é exatamente a grana, mas antes o autoritarismo que entra em formidável parafuso.

Os tempos são de estiagem para tudo que se ligue diretamente ao exercício do poderio (mais ou menos disfarçadamente) autoritário - o "Primeiro Mundo" e os Estados Unidos, o mundo mais "rico" (e a Oscar Freire), o jornalismo norte-americano (e o brasileiro) tipo Fox, o controle católico, o conservadorismo, os pop stars inseguros que precisam em todos os minutos fingir gozar de domínio completo sobre si próprios, sobre seu séquito-multidão, sobre o mundo, sobre tudo.

MJ sofreu demais a vida inteira. Era desde pequeno, ele próprio, um escravo - primeiro de seu pai-patrão, a seguir do sucesso e de fãs-patrões (e por - muitas - vezes detratores) igualmente autoritários, depois do exército de sanguessugas profissionais, sempre de sua própria e dramática dependência em relação a tudo e todos (aqui dentro) e ao exu capitalista (lá fora).

Mas o xis da questão é que o autoritarismo pop que o vitimou quando era menino-tweeter-adolescente e que sempre exerceu após se tornar adulto-marca-Peter-Pan (embora o fizesse de modo doce e cativante, como dá a entender "This Is It") não era papo para ele, simples assim.

Daí as deformações, a inadaptação, a autoimagem ET, a violência (não-)sexual, a briga infinda com o mundo, a vontade de voltar ao útero, o isolamento, a solidão, a falência em diversos campos.

Bastou o capitalismo à la EUA entrar em colapso. A primeira coisa relevante a acontecer (ou melhor, a segunda, pois antes houve as Torres Gêmeas) foi Michael Jackson evanescer. Sempre preocupado em salvar o Planet Earth, o plebeu MJ acabou por entregar o pescoço em prol da mais nobre das causas: o assassinato do autoritarismo (o dos outros e o seu).


P.S.: Não pode ser coincidência a sequência macabra de trailers que tive de assistir antes de chegar ao "espetáculo principal" da antessala da morte de Michael Jackson. Primeiro, um filme de terror em que todos os personagens são violentamente assassinatos, sob o slogan "nunca a morte esteve tão perto". A seguir, o "novo" filme do cara que fez um filme sobre o fim do mundo e que desta vez resolveu abordar o... fim do mundo. Dizem as tábuas que o mundo terminará em 2012, e pelo que entendi no "filmaço" um vulcão interno (um vulcão interno, me entenda bem) come a Terra de dentro para fora (não há de ter as iniciais MJ o vulcão, há?). Palácios caem por terra, monumentos mundiais desmoronam, até o Cristo Redentor carioca (que não me lembro de ter visto antes no coração de Hollywood) vira fumacinha. São mesmo uns megalomaníacos, esses norte-hollywoodianos, e talvez fosse pedir demais que eles não confundissem o declínio da economia deles e o colapso do elefante decadente (aqui peço perdão a um dos meus artistas favoritos, de iniciais MJ) chamado Estados Unidos com a extinção do planeta inteiro. As coisas não são bem assim, queridos ianques.

(*) Se você der uma espiada no link que coloquei ali pelo meio do texto, verá que este texto poderia perfeitamente se chamar "a bola de neve é fogo".

Terça-feira, Outubro 27, 2009

todo dia o sol se deita...

Ainda não recobrei o fôlego das tantas coisas bonitas, coloridas, reveladoras e transformadoras vistas nos 13 dias passados na Amazônia paraense.

E fico aqui me debatendo de vontade bloqueada de falar sobre o assunto - bloqueada porque não acredito que palavras deem conta de traduzir o sentimento de pequenice (minha) e grandeza (do mundo), e vice-versa, que me acompanhou a cada piscada d'olhos no Pará. (Será por isso que a palavra "grande" e suas aparentadas voejaram tanto no show e no texto sobre o show do Erasmo, logo após a volta do Grão-Pará?). Pausa.

[Imagino que alguém do Norte brasileiro que porventura esteja lendo isto aqui vá me dizer que eu, sulista paranapaulistano, faço uma imagem idealizada do Grão-Pará. E sei que devo fazer mesmo, e que talvez eu não achasse Belém tão maravilhosa se vivesse em Belém. Mas olha, isso não importa, e eu até aposto que quem porventura esteja lendo este texto a partir de estados que não sejam São Paulo não me entenda muito bem se eu contar do inferno de morar aqui nesta cidade fascinante. Não sei se me entendem, por exemplo, se eu disser (e vou dizer) que esta aqui é uma cidade dura, lotada de gente sempre ocupada em ocultar sentimentos que não pertençam às famílias da raiva e do rancor e, pior, anacronicamente sequestrada por uns bolsões de uma classe dominante (econômica e intelectual, quero dizer) tosca, grotesca, ensimesmada, ignorante de doer. Mas então, voltando, creio que meu olhar idealizado por sobre o Grão-Pará seja confiável, sim, tanto quanto é desconfiável. E pára a pausa.]

O caso é dizer, depois das tantas palavras acima, que não tenho palavras pra refletir ou refratar o que senti pela Amazônia paraense. É por isso que, pra tentar contornar o buraco no estômago, fiquei com vontade de copiar aqui algumas das provas recolhidas pelo caminho, provas da tal grandeza apaixonante que me derrubou para sempre (forévis) o queixo.

No Pará, ganhei um dos maiores presentes que a terra e os meus olhos me deram na vida indeira: uma coleção estupenda, alucinante, mais formigante que folha de jambu, de pores-do-sol!

Vai daí que também os pores-do-sol são indescritíveis, insubstituíveis e irreproduzíveis (em São Paulo, eu vejo um deles, digamos, a cada 47 dias ou coisa parecida). Mas pelo menos eles são (quase) fotografáveis.

Bom-dia, senhor pôr-do-sol!

9 de outubro, baía do Guajará, Belém



10 de outubro, centro de Belém



11 de outubro, festa de aparelhagem (ops!, não é o pôr-do-sol!, confundem-se "as mariposa"...), Belém



12 de outubro, baía do Guajará, rumo à ilha do Marajó



13 de outubro, Soure, ilha do Marajó





14 de outubro, fazenda de búfalos, Soure, ilha do Marajó



15 de outubro, ilha do Marajó, no caminho de volta para Belém



16 de outubro (...e aqui começo a descobrir que estou apaixonado pelo pôr-do-sol...), praia fluvial de Alter do Chão, Santarém











17 de outubro, rio Tapajós/Floresta Nacional de Tapajós e, de volta, Alter do Chão, Santarém





18 de outubro, Alter do Chão, Santarém



19 de outubro, idem





20 de outubro, avião, de volta para São Paulo



(Por coincidência, o sol está se pondo outra vez bem agora, aqui em São Paulo. Mas, da minha janela e por detrás das nuvens, eu não estou vendo.)

Domingo, Outubro 25, 2009

a guitarra é uma mulher

Foi uma gigante surpresa o show único que Erasmo Carlos protagonizou cá em São Paulo na sexta-feira que passou, 23 de outubro de 2009. Nem foi exatamente Erasmo a surpresa, porque a grandeza dele é notória - quem sabe sabe, conhece bem, e aí não há em que se surpreender. Mas me surpreenderam, entre outros vários lampejos, a produção vistosa e sofisticada, a cenografia chique de doer, o azeite rock'n'roll da banda (com Dadi e os formidáveis garotos da banda - para mim desconhecida até então - Filhos da Judith), o roteiro mui inteligentemente alinhavado, o modo de apresentação das músicas mais novas, a volta ao repertório erasmocarliano do clássico "Panorama Ecológico" (1978).

O que não consiste em surpresa nenhuma, mas foi mais uma vez delicioso constatar, foram as sinalizações oferecidas pelo enorme e dulcíssimo artista, de que ele é, acima de tudo o mais, um cínico de marca maior.

O cinismo brotou todo florido, por exemplo, quando o velho band leader partiu para a inevitável menção ao ano comemorativo do inevitável Roberto Carlos. A banda se retirou (exceto o tecladista) e Erasmo, o grande, anunciou: ia agora prestar uma homenagem mínima, minúscula, singela, ao parceiro durante quase 50 anos.

Certeiro, remeteu-se ao pernambucano Luiz Gonzaga, o "rei do baião", para prestar tributo ao seu "rei" (público e) particular: citando "Boiadeiro" (1950, de Armando Cavalcanti e Klécius Caldas), disse que sua homenagem "é pequenina, é miudinha, é quase nada/ mas não tem outra mais bonita no lugar". E começou.

Não vou me deter em interpretações desta vez, que eu já fiz isso vezes sem fim. Acho que basta reproduzir alguns extratos das canções que ele selecionou, na sequência que ele montou, em versão pot-pourri apenas de teclado, voz e imensa candura. Cito de memória, mas acredito que foi exatamente assim, ou quase: "Por que me arrasto aos seus pés?/ por que me dou tanto assim?/ e por que não peço em troca/ nada de volta pra mim?", em seguida "olha, você vive tão distante/ muito além do que eu posso ter", depois "eu te proponho/ nós nos amarmos/ nos entregarmos", então "vou me agarrar aos seus cabelos/ pra não cair do seu galope", adiante "não adianta nem tentar me esquecer/ durante muito tempo em sua vida eu vou viver", enfim "eu te amo, eu te amo, eu te amo" e "como é grande o meu amor por você". Depois não vem me dizer que EC não dialoga apaixonadamente com RC quando canta criações de RC & EC.

Depois do denso momento de homenagem, o show continuou, para bem mais à frente, chegar ao episódio máximo de inteligência, sensibilidade, afronta e - principalmente - cinismo. Fora do bloco-tributo, Erasmo apanhou mais uma canção do repertório do parceiro e trouxe ao mundo uma versão rock'n'roll ("Rock'n'roll" é o nome de seu mais novo CD e o mote tanto do disco como do show) de "Quero Que Vá Tudo pro Inferno" (1965), aquela que o rei posto não canta há décadas, ao que consta por aversão TOC à palavra "inferno". No moderníssimo telão de led ao fundo do palco, ardia uma enorme, infernal fogueira.

"Cê tá entendendo?", perguntaria Arnaldo Baptista. Grandissíssimo Erasmo Carlos.

p.s.: Apenas comecei a ler "Minha Fama de Mau", o livro autobiográfico do "tremendão". Li pouco até agora, mas foi o suficiente para já perceber que está lotado de perspicácia, talento e inteligência (não dava para ser diferente, tratando-se de quem se trata). Mas aproveito esta oportunidade para registrar que o show me ajudou a ver o que eu já tinha perceber depois de umas tantas audições, mas acho que até hoje não mencionei aqui: há grandes, grandes, grandes momentos nesse novo álbum de EC, nesse "Rock'n'Roll".

p.s. 2: O uso repetitivo do termo "grande" neste texto não é mera coincidência, nem bobice ou desleixo. Como cantou o gigante em pessoa, no momento mais novo e emocionante do show, "você não vê porque não quer/ a guitarra é uma mulher."

Sexta-feira, Outubro 23, 2009

red label ou ice? (*)

Então, eis-me de volta do Pará, ainda nutrido de rio, frutas, peixes, tacacá, floresta, sorvete e tecnomelody.

Só pra esquentar os tamborins, porque eu tinha prometido avisar aqui no blog: este seu criado se encontra nas bancas, em três versões diferentes.

Na "Cult" 140, está a coluna "As novas donas do pedaço", continuação e conclusão daquela história do texto As bruxas, elas existem ou não?

Na "Rolling Stone" 37, há um perfil de Seu Jorge e uma resenha do (ótimo) disco "Beijo Bandido", novo do Ney Matogrosso.

No número 1 da "Billboard Brasil", escrevo a reportagem de capa, sobre adivinha quem?, "o número 1", Roberto Carlos. Não podia contar aqui, mas andei pelos bastidores do show dos 50 anos, e conto lá um pouco do que vi. Pessoal tem elogiado o box "O rei e eu", que, modéstia à parte, é meu favorito também.

Ah, e tem também um perfil do escritor Santiago Nazarian, que escrevi para a "Revista Gol" - mas essa acho que não vai para as bancas (ou estou enganado?), só circula dentro de avião.

Mais tarde, aos poucos, como de costume, vamos colocando (e debatendo, se vocês assim quiserem) os textos por aqui.

E daqui a pouco vem mais coisa...

(*) Título inspirado no sensacional hit tecnobrega ouvido a cada esquina de rua, a cada curva de rio e a cada clareira de floresta do Pará, aquele que diz assim, "gatinha, do que você gosta mais,/ de red label ou ice?/ pra mim tanto faz/ red lable ou ice". Adoooro.

Quinta-feira, Outubro 08, 2009

ô siriê

Este blog anda meio parado, eu sei.

Andava em contagem regressiva rumo aos dias de descanso que começam hoje. Estou indo para o Pará, terra de Fafá, de Pinduca e do tecnobrega. E do Círio de Nazaré, que acontece neste fim-de-semana em Belém.

Eba!

Darei minhas passadinhas por aqui, como de praxe, especialmente se encontrar, er, notícias pelo caminho. Vocês me contam as novidades também?

Ê! Siriê! Até a (breve) volta!

Sexta-feira, Outubro 02, 2009

Mussum forévis

Bem, que o Brasil iria parar no topo dos "tópicos da moda" de hoje no Twitter era barbada, depois dos últimos acontecimentos político-esportivos.

Gostoso e divertido é ver como é que se explica o "yes we créu" que ribomba planeta afora (a agora) via Twitter, olha só a tradução simultânea no site What the Trend?:


Why is Yes We Créu popular right now?

Brazilian twitter-ers creation, It's a pun with Barack Obama slogan "Yes, we can"



and brazilian 'funk carioca' performer MC Créu music.



It's like "Yes we nailed it", but in a sexual, fun way.

Referring to Rio de Janeiro being chosen as the host of the 2016 Olympics.


A babel já começou, e você pode até não gostar, mas Brasil, hoje, é MC Créu, Lula, Pelé, Mussum, morenas do tchan, ministro preto do esporte, Paulo Coelho, pré-sal, Zelaya e Copacabana. Eu tô achando bem legal, viu?

Sexta-feira, Setembro 25, 2009

...e as bruxas, elas existem?

Está no ar, nas bancas de jornal e também no site da Cult, minha terceira coluna na revista. Agora está aqui também.


As bruxas, elas existem ou não?


O percurso acidentado de mulheres que, num ambiente governado por homens, ousaram ser compositoras de MPB

Pedro Alexandre Sanches


Você sabe por onde andam Tuca, Lilian Knapp, Martinha, Elizabeth, Marília Medalha, Rosinha de Valença, Sueli Costa, Luli, Lucina, Anastácia, Dora Lopes, Geovana, Aparecida? Ou, antes, você sabe quem foram, são e serão essas pessoas?
Eram, são e serão artistas bastante diferentes umas das outras. Mas guardavam em comum o fato de terem sido mulheres de atuação febril nos anos 1960 e 1970, quando vigorava uma ditadura militar no Brasil. E também o fato de que eram, são e serão, todas, compositoras por profissão.

Trata-se de um clichê, mas talvez seja necessário repeti-lo: em grande parte de seu percurso, a composição brasileira foi uma atividade avassaladoramente masculina. Na aurora do que hoje chamamos música popular brasileira, existiu a pioneiríssima Chiquinha Gonzaga, em atividade a partir de 1877. Depois disso, apenas na década de 1950 elas viriam a público, nas figuras quase solitárias de Dolores Duran, Maysa, Dora Lopes.

E pronto. Dolores compôs standards da dor de cotovelo, como "Castigo" e "Fim de Caso", e morreu de infarto no auge da inventividade, em 1959, aos 29 anos. Maysa principiou muito jovem, no pique da fossa de "Meu Mundo Caiu" e "Tarde Triste", mas se tornara compositora bissexta quando morreu num acidente automobilístico, em 1977, aos 30 anos.

Atuante desde o fim dos anos 1940 e autodefinida "branca por fora, mas crioula por dentro", Dora elegeu o samba como via de expressão e conquistou picos de sucesso como compositora na década de 1970. Morreu esquecida aos 62 anos, em 1983, nove anos após lançar um LP chamado Testamento, que começava por "Se Eu Morrer Amanhã", "Tá Tudo Certo" e acabava "Com Dolores no Céu".

Ironicamente, foi em tempos de enorme repressão que as mulheres conquistaram avanço numérico e vicejou o elenco citado no primeiro parágrafo. A abre-alas da nova leva se chamava Tuca, cuja primeira composição gravada apareceu no LP Ana Lucia Canta Triste, em 1964. Escrita em parceria com a futura dramaturga Consuelo de Castro, a canção se chamava, veja só, "Homem de Verdade".

Tuca participou da avalanche dos festivais da canção, lançou dois LPs autorais em 1965 e 1968, radicou-se em Paris, voltou ao Brasil em 1975 e morreu em 1978, aos 34 anos, de parada cardíaca decorrente de uma série de dietas para emagrecer.


Geração seguinte

Foi no núcleo da "alienada" jovem guarda que apareceram as próximas cantoras-compositoras. Lilian Knapp coassinou vários dos iê-iê-iês lançados pela dupla Leno & Lilian e fez sucesso solo em 1979, como a bonequinha de "Eu Sou Rebelde" (essa versão não foi escrita por ela, mas por um tal Paulo Coelho). Em 2008, Lilian lançou o CD Underground à frente da banda Kynna, com repertório escrito por roqueiros das novas gerações.

Dona do hit "Sou Louca por Você", Elizabeth lançou uma série de LPs derramados e extrovertidos ao longo dos anos 1970, mas depois desapareceu das gravadoras.

Propensa à fossa, Martinha é caso raro, de autora jovem-guardista bem-sucedida em criar um repertório extenso e sustentável. Foi uma das maiores arrecadadoras de direitos autorais dos anos 1980 e 1990, mas a partir do bastidor, como fornecedora de temas para duplas sertanejas.

De volta ao terreno MPB, Marília Medalha é nobre filha da era dos festivais. Ao lado de Edu Lobo, venceu em 1967 com "Ponteio". Com Tom Zé, conquistou o primeiro lugar de 1968 para "São Paulo, Meu Amor". Só no início dos anos 1970 libertou o lado autoral, em dupla com um certo Vinicius de Moraes.

"Já fui muito prejudicada, tenho uma história de muita surra", me disse numa entrevista em 2006. Fortemente envolvida na resistência à ditadura, parou de gravar em 1992. Em 2008, a jovem cantora Iris Salvagnini lançou de modo independente o CD Iris e a Canção de Marília Medalha, só com composições inéditas da homenageada.

Rosinha de Valença impôs-se por volta de 1964 como exímia violonista na tradição recém-fundada por Baden Powell. Só em 1976 aventurou-se a compor e cantar um disco inteiro, o extraordinário Bicho do Mato. Nos anos 1990, Rosinha teve uma parada cardíaca e permaneceu em coma durante 12 anos, até morrer em 2004. Meses depois, foi honrada com o tributo Namorando a Rosa, dirigido pela ex-parceira Maria Bethânia.

Luli e Lucina fizeram história na invenção da androginia popular brasileira, compondo para o grupo Secos & Molhados (Luli é coautora de "O Vira" e "Fala") e, a seguir, para a fase solo de Ney Matogrosso ("Bandolero" é das duas). Mais tarde se consolidaram como dupla emepebista e hoje compõem e gravam separadas, e modestamente.

A partir de 1971, Sueli Costa compôs hits tristíssimos para Bethânia ("Assombrações"), Elis Regina ("20 Anos Blue") e Simone ("Jura Secreta"). Desde 1975, lança esporádicos e modestos discos próprios, o mais recente deles, Amor Blue, há dois anos. "É, acho que estava um pouco isolada nessa época. Só tinha a Joyce", me disse em 2007, referindo-se a uma das duas únicas autoras daquela geração a levar carreira longeva e comercialmente vitoriosa. A outra era roqueira menina em território arrendado e governado por homens, e se chama Rita Lee.

Do samba brotaram as impactantes cantoras-compositoras Aparecida e Geovana. Do forró é Anastácia, autora (com Dominguinhos) do clássico "Eu Só Quero um Xodó". Compositoras de um nome só, andam perdidas em ruidosa multidão - o recurso de "dar um Google" não é suficiente para localizá-las entre muitas Anastácias, Aparecidas e Giovanas (por esse motivo, aliás, Joyce mudou recentemente sua assinatura para Joyce Moreno).

Parece detalhe prosaico esse do Google, mas será mesmo? Será mera coincidência a subtração dos sobrenomes de tantas Marlenes, Angelas Marias, Inhanas, Morganas, Maysas, Tucas, Elis Reginas, Wanderléas, Waldirenes, Rosemarys, Vanusas, Gianes, Joelmas, Dianas, Martinhas, Silvinhas, Evinhas, Regininhas, Claudias, Márcias, Célias, Joyces, Janes, Miúchas, Marias Alcinas, Alciones, Simones, Joannas, Marinas, Clemildas, Isoldas, Katias, Rosanas, Xuxas, Sandys...?

Repare só nas tantas histórias tristes resumidas acima. Colocadas assim, todas juntas, levam à conclusão de que não só os fazedores de música engajada eram passíveis de castigo, punição e sofrimento. Uma por uma, ajudaram a fixar a mensagem insistente de que, em anos de chumbo, ser mulher e compor música eram condições incompatíveis, se não desastrosas. Não cremos em bruxas, mas... Afinal, somos ou não somos (além de racistas) machistas e patriarcalistas?

Domingo, Setembro 20, 2009

coisas da vida 2

Coisas do Twitter: Ontem estreei twittar de dentro de um show, o show de Jorge Ben Jor, cá em São Paulo. E o que apareceu na tela foi mais ou menos o seguinte (acrescentarei os acentos que não conseguia na hora, ok?):

@pdralex Ben Jor: uma versão acachapante de Hermes Trismegisto pra começar a animar a festa.

@pdralex Ben Jor: mais maracatu que nunca.

@pdralex Ben Jor tá cantando "Magnólia"!!!!!

@pdralex Ben Jor: versão revigorada de "Os Alquimistas...". Que é que tá acontecendo??!!

@pdralex E logo em seguida "Alcohol", esquece aquele papo datado de passado-presente-futuro.

@pdralex Ben Jor: "Menina Mulher da Pele Preta"!! :-o

@pdralex "Zumbi" em versão reggae. Eu morro!!!

@pdralex Ben Jor: "Do Leme ao Pontal", de Tim Maia!!

@pdralex Ben Jor: ele tá declamando "Cinco Minutos"!!

@pdralex "Jorge da Capadócia" em versão bem Fernanda Abreu, há quantos milênios ele não cantava essa?

@pdralex VOU GRITAR QUE NEM A XUXA: ELE TÁ CANTANDO "o homem da gravata florida"!!!!!

@pdralex Não, ele cantou "Jesualda", eu não vou falar mais nada!


No calor do momento, me apeguei mais às canções de 1974, pelo espanto feliz de ver ele desimplicando do histórico "A Tábua de Esmeralda". Mas foi muito mais que isso, e bastante entremeado com sambas de fases mais recentes e em geral menos admiradas de sua obra - e em releituras invariavelmente inspiradas. O roteiro, se eu não tiver confundido nem esquecido de nada, foi o seguinte:

"Hermes Trismegisto e Sua Celeste Tábua de Esmeralda" (1974)
"A Banda do Zé Pretinho" (1978) + "Salve Simpatia" (1979)
"Por Causa de Você, Menina" (1963)
"Mas Que Nada" (1963)
"Hoje É Dia de Festa" (2004 - ou 2002, na voz de Elza Soares)
"Maria Helena e Chiquinho" (2004)
"Santa Clara Clareou" (1981)
"Zazueira" (1968, na voz de Wilson Simonal)
"A Minha Menina" (1968)
"Que Maravilha" (1969)
"Magnólia" (1974)
"Ive Brussel" (1979)
"Engenho de Dentro" (1993)
"Os Alquimistas Estão Chegando os Alquimistas" (1974)
"Alcohol" (1993)
"Velhos, Flores, Criancinhas e Cachorros" (1975)
"Occulatus Abis" (1979)
"Menina Mulher da Pele Preta" (1974)
"O Telefone Tocou Novamente" (1970)
"Denize Rei" (1978)
"Que Pena" (1969)
"O Dia em Que o Sol Declarou Seu Amor pela Terra" (1981)
"Zumbi" (1974)
"Elizabeth Blue" (1986)
"Bebete Vãobora" (1969)
"País Tropical" (1969)
"Spiro Giro" (1991)
"Do Leme ao Pontal" (1983, de e com Tim Maia)
"W/Brasil (Chama o Síndico)" (1991, com uma introdução que eu não conhecia - seria outra música?)
"Ponta de Lança Africano (Umbarabarauma)" (1976)
"Fio Maravilha" (1972)
"Cinco Minutos" (1974, declamada no meio de "Fio Maravilha")

Bis
"Jorge de Capadócia" (1975)
"O Homem da Gravata Florida" (1974)
"Jesualda" (1975)
"O Namorado da Viúva" (1974)
"Balança Pema" (1963)
"Eu Vou Torcer" (1974)
"Gostosa" (1995)
"Taj Mahal" (1972)
"Dumingaz" (1975)
"A Banda do Zé Pretinho" (1978) + "Salve Simpatia" (1979)

Sentiu o tranco? Cacildis.

coisas da vida 1

Coisas do twitter: Então nossa querida Sandy foi se manifestar no Twitter, sobre a difícil questão da pirataria. Disse ela assim:

@Leah_Sandy É, eu ainda compro CDs, com mto gosto! Não sou de ficar comprando músicas pela web, mto menos baixando... Prefiro esse jeito tradicional!

Aí meu amigo Pedro Noizyman respondeu a ela, mantendo a fórmula "@Leah_Sandy" na equação - para que ela tivesse acesso, é claro:

@noizyman sim, vc é rica RT @Leah_Sandy ainda compro CDs c mto gosto! ñ sou d ficar comprando p web, mto menos baixando. Prefiro o jeito tradicional!

E aí várias pessoas retwittaram a resposta do @noizyman, eu inclusive, e a bobice (dela mesma, ou teleguiada pela indústria de música e comunicação que a sustenta?) da @Leah_Sandy ficou exposta em público pelos 15 minutos (ou segundos) de Warhol.

É, a Sandy pode ser "rica", mas a vida não anda fácil para quem gostava de se manter dentro da bolha isoladora do resto do mundo. Não é de estranhar que a @Leah_Sandy desgoste de downloads, internets etc., e prefira o "jeito tradicional".

Quarta-feira, Setembro 16, 2009

ié, ié, ié

Então, vamos juntos criticar o "Iê Iê Iê", do Arnaldo Antunes, lá no Twitter? Ainda hoje, quarta 16 de setembro, logo mais, no cercadinho #cricritwitter do @pdralex.

(...)

Pronto, foi, ficou assim:


6 horas antes:

Ê, tem gente manjando da grandeza de @yokoono !!! ♫BETWEEN MY HEAD AND THE SKY ★★★★★ Review in UNCUT Magazine http://bit.ly/Yuncut

e o cara da Uncut diz que em "yes, i'm a witch" (2007), "sim, eu sou uma bruxa", @yokoono se esfregava na cara do "rock misógino". ééééé!

Durante:

Então, vambora, #cricritwitter de "Iê Iê Iê", o novo do Arnaldo Antunes? Quem quiser acompanhar ouvindo, ligo o CD daqui a cinco minutos

Começou. Faixa-título, "Iê Iê Iê".

A primeira coisa que dá para ouvir é o jeitão Fernando Catatau (Cidadão Instigado), produtor do CD.

Sempre acho que os Tribalistas fizeram um bem danado para os três. Para Marisa, para Brown e, principalmente, para Arnaldo.

O exercício constante do AA, daí em diante, em continuar sendo elaborado, sem ser "cabeça", é muito interessante.

Tecladinho do Marcelo Jeneci, não? Mistura de jovem guarda, "Bang Bang" com Nancy Sinatra, tecnobrega paraense...

...E funk carioca, óbvio.

2, "A Casa É Sua". A sonoridade é bem Catatau. E, portanto, bem Chimbinha & Joelma, abaixo as cercas e tabus da MPB!

O estilo Lafayette gritando alto e gostoso nos teclados.

Sensacional o que AA fala no release, de querer revigorar a sonoridade da jovem guarda dos anos 60, mas com linguagem de hoje.

Obs.: não é uma gravadora que lança o disco de AA, e sim uma fábrica de cosméticos. Sinal inquietante do tempo.

3, "O Que Você Quiser". É a quinta vez que ouço o disco, mas essa parece que eu já sei de cor. Surf-rock-jovem guarda delicioso.

E mais tecnobrega... Tem toda uma genalogia aí, né? Chimbinha e vários outros gênios paraenses devem tudo ao iê-iê-iê. E ao Caribe.

RT @gafieiras o arnaldo conseguiu ser ainda mais popular e experimental que os titãs (e nando reis) pós-tribalistas

4, "Vem Cá", também composta pelos 3 tribalistas. Melodia do capeta, entre o melhor que AA já fez, nessa encarnação e nas passadas.

A voz continua uma taquara, mas e daí? Belchior (apareceu?), Moraes Moreira, Fernando Catatau, tantos adoráveis taquaras...

"amar e fazer amor", clichê tipo "amor I love you", mas legal...

5 começa melancólica, é "Longe", parceria com dois moleques da banda, Jeneci e Betão Aguiar (quer dizer, não sei se Betão é moleque...)

Jovem guarda anos 2000: "nenhum e-mail chegou", "não tem satélite transmitindo notícias de onde estou"... Ou tem?...

Gosto muito da melodia dessa "Longe", também.

"Longe" termina com uma contagem regressiva, algo entre "2001" dos Mutantes e "150... 180... 200 km por Hora" de Robertão

O Belchior?! RT @ivanpawlow @pdralex Apareceu. Tá no Uruguai.

A propósito, alguém lembra que Belchior e Arnaldo foram parceiros? No disco "Paraíso" (82), do Belchior. Que é cearense, como Catatau.

6, "Invejoso", parceria com Liminha, sen-sa-cio-nal, em música & letra!

Odair José com letra (um pouquinho) de esquerda...

"in - vejoso/ querer o que é dos outros é o seu gozo", "in - vejoso/ o bem alheio é o seu desgosto"... :-)

inVEJoso me lembra de VEJa, não sei por que...

iê-iê-iê nordestino nervoso (& os calmantes) no final de "Invejoso"

...e um tecnobrega bem caribenho misturado no meio... acho que é a melhor faixa do disco, será?...

Não consigo lembrar quem era o cara iê-iê-iê que cantava um rock sobre inveja, ou algo parecido... Sergio Murilo? Mas SM não era iê-iê-iê...

7, "Envelhecer", parceria com Jeneci e (o pernambucano) Ortinho. não começa muito atraente.

...mas depois a melodia cresce, e a letra produz achados à AA: "eu quero por Rita Pavone no ringtone do meu celular"!

"ser eternamente adolescente, nada é mais demodê", (titãs do) ié ié!

"eu quero (...) que quando eu esquecer meu próprio nome me chamem de velho gagá". Fofo. E profundo.

Um disco contra a (chatérrima) síndrome de Peter Pan do rock'n'roll (de roqueiros e de seus fãs)?

@pdralex e o clipe de "longe" é bem bonito também. http://migre.me/77uV. 6, 5, 4, 3, 2, 1...

8, "Sua Menina", balada suave (e roqueira), mas uma pancada. A "bruxa" @yokoono cantaria facilmente esse rock antimisógino.

E as rimas são um desbunde brega-cafona-calypso-jovem-guardista:

"Você trata muito mal sua princesa/ um dia ela vai virar a mesa"

"Você trata muito mal sua pequena/ um dia ela vai sair de cena"

Tá vendo por que é iê-iê-iê com linguagem moderna? "com certeza ela vai sumir comigo/ vai fugir comigo/ vai sumir comigo sim"

É uma "Namoradinha de um Amigo Meu" sem culpa, né? Um Roberto Carlos (meio) de esquerda...

Tô ouvindo uma Marisa Monte nos vocais de fundo, ou é impressão minha?

9, "Um Kilo" (na capa), ou ou "Um Quilo" (no encarte). Tecnobreguíssimo.

E nordeste-pernambucamíssimo: Del Rey, Mula Manca & A Fabulosa Figura, Academia da Berlinda.

@pdralex eu não sei o que é isso que você está ouvindo, mas essas rimas são de doer! Gongo djá!

"O céu não sai de cima", releitura do RC de "eu te darei o céu, meu bem"?

"Mexerico da Candinha" pansexual às avessas: "se usa camisola camiseta ou camisinha/ também não é da conta da vizinha"

Agora virou guitarrada paraense, Los Pupuña, Pio Lobato etc. Ou Suzana Flag, cadê o Suzana Flag que arrasou no tributo ao Odair José???

10, "Sim ou Não", reminiscências titânicas - parceria com Branco Mello. Afinal, AA foi Titãs que foi Titãs do Iê Iê...

Mais pra new wave que pra funk carioca.

(para) @Crintzs ai, os preconceitos... ... ...

@dafnesampaio a banda chegou por aqui não tem muito tempo. é @bandasuzanaflag

11, "Meu Coração", AA e Ortinho, um quê(zão) de Serge Gainsbourg (a propósito, existe algo mais moderno que Serge Gainsbourg?).

Uma certa cantora (também cearense) uma vez me disse que Wando era o Gainsbourg brasileiro. Espero tanto, até hoje, o Serge Wandsbourg dela

Tinha uma antipreconceito contra a velhice, essa é a antipressa: "Só corre e nunca chega na frente/ se chega é pra dizer 'vou embora'"

A gente sabe muito bem como é isso de chegar só pra dizer "vou embora", né?

(para) @dafnesampaio Sim, eu sigo a @bandasuzanaflag, mas quase nunca ouço eles falarem...

12, "Luz Acesa", a última, mais um reencontro de Titãs: parceria com Marcelo Fromer (deve ser antiga, né?) e Sérgio Britto.

Algo meio ska, meio Paralamas... New wave... Aliás, new wave é um gênero morto, como AA diz no release que o iê-iê-iê é?

Sei não, eu não concordo muito com isso de o iê-iê-iê ser um gênero morto... a Banda Calypso por acaso está morta?

Não tá, e vende disco como água.

Acabou. Resumo da ópera-pop-warhol? Um grande disco, prontofalei.

E, pronto, calei. "Você trata muito mal sua princesa um dia ela vai virar a mesa."

Só mais uma, pra quebrar o clima AA, genial RT @arnaldobranco PUTA MERDA, OURO > Originais do Samba na TV Cultura, 1972 http://migre.me/77Am

+- meia hora depois:

Leoni_a_jatoOnde você viu isso? RT @pdralex: Obs.: não é uma gravadora que lança o disco de AA, e sim uma fábrica de cosméticos.

oonacastro@pdralex muito boa a crítica de Pedro Alexandre Sanches sobre o novo disco do Arnaldo. Muy bueno!

Leoni_a_jatoTambém achei. É incomodamente original. RT @pdralex: Acabou. Resumo da ópera-pop-warhol? Um grande disco, prontofalei.

@Leoni_a_jato É a patrocinadora, Leoni, a Natura...

@oonacastro gracias, Oona!!! e viva os tempos digitais, né?... :-)


Então, foi mais ou menos isso. Arnaldo Antunes, partindo de Yoko Ono e chegando aos Originais do Samba (e a um comenário do Leoni, que sempre soube dar valor ao iê-iê-iê).

Sexta-feira, Setembro 11, 2009

o sertão que não existe mais

Na "CartaCapital" 562, na data redonda de 9 do 9 do 9.


O sertão que não existe mais

Por Pedro Alexandre Sanches

Manifestações populares espontâneas a Luiz Gonzaga brotaram em diversos pontos do Nordeste neste agosto de 2009. A evocação refere-se aos vinte anos da morte do músico pernambucano, mas possivelmente fazia referência indireta também à morte de um Nordeste que ele cortantemente transformou em canção e que hoje não existe mais.

Em retretas de sanfoneiros como aque la em torno de seu busto em Juazeiro do Norte (CE), no redondo 2 de agosto, cabiam menções ao sertão caatingueiro, às canções sobre seca e abandono político (como Asa Branca, de 1947), às vestes de couro inspiradas nos cangaceiros de Lampião. E cabiam loas à série fabulosa de invenções formuladas pelo “rei” do baião, do xaxado, do xote, do rojão, do coco, da quadrilha, do forró, da música pop tocada com sanfona, zabumba e triângulo (instrumentos antes pertencentes apenas ao folclore local).

Hoje um Nordeste voltado ao progresso se sobrepõe às imagens de “terra ardendo”, “braseiro”, “fornalha” (ou “fornaia”, como ele pronunciava) e “nem um pé de ‘prantação’” de Asa Branca. Há quem se incomode com o status de “hino do Nordeste” adquirido por essa canção, como Lirinha, do grupo Cordel do Fogo Encantado, nascido em cidade vizinha à Exu de Gonzaga e contrário à perpetuação da submissão inscrita em algumas de suas canções. Também costuma ser citado certo apego do patriarca musical a pendores autoritários e conservadores, típicos do coronelismo, como na biografia Vida do Viajante (34, 1996), da francesa Dominique Dreyfus.

São retratos do Nordeste percebido e difundido pelo cantor entre 1912 e 1989, de contraste vívido com o imaginário praiano do outro grande retratista musical daquela região no século passado, o baiano Dorival Caymmi (1914-2008). Aspectos que hoje pareçam anacrônicos em nada arranham o legado colossal da obra registrada por Luiz Gonzaga entre 1941 e 1989, em mais de 150 discos, entre compactos de 78 rpm e LPs (também nisso ele é duplo negativo de Caymmi e suas 101 canções).

A saga épica segue preservada, e o comprova o cineasta Breno Silveira, que prepara, possivelmente para o ano do centenário de Gonzaga, uma versão cinematográfica romanceada sobre a vida do viajante. Foram adquiridos os direitos de uso da biografia Gonzaguinha e Gonzagão – Uma história brasileira (Ediouro, 2006), de Regina Echeverria, centrada na tumultuada relação entre pai e filho adotivo (embora fértil em canções, o artista era biologicamente estéril). Seria sinal de que o diretor do também épico 2 Filhos de Francisco (2005) prepara novo filme fundado no tema da paternidade? “Não necessariamente”, diz a coprodutora Márcia Braga. “Compramos mais para nos precaver de a ideia ser vendida para outra produtora.”

Músico, Gonzaguinha (1945-1991) bateu de frente com Gonzagão ao aderir à chamada “canção de protesto” na virada dos anos 1960 para os 1970. Num mesmo disco (Canaã, de 1968), o pai, getulista e adepto da ditadura, compôs e gravou Canto sem Protesto e abrigou as primeiras composições de Gonzaguinha, entre elas Pobreza por Pobreza (a mão é sempre a mesma que vive a me explorar, diz a letra).

Não só em relação ao filho, submissão e insubordinação se confrontaram em Gonzaga. Segundo Dominique Dreyfus, quando moço ele tinha Lampião como herói, mas perseguiu cangaceiros por obediência. “Eu era empregado do Exército, era soldado. Tinha disciplina. E eu sempre gostei de disciplina”, afirmou à autora.

O mito do cangaceiro ressurgiria em 1947, no Rio, onde o imigrante desenvolveu a maior parte de suas obras-primas de “nordestinidade” (e esse é ponto em comum com Caymmi). Asa Branca iniciava uma rota de sucesso, e Gonzaga abandonou os ternos e gravatas para adotar o chapéu à moda de Lampião como símbolo de identidade nordestina. A Rádio Nacional, dona de seu passe, proibiu a referência ao cangaço, mas engoliu o sapo diante do sucesso do figurino. Em breve ele completaria a estilização de cangaceiro com gibão de couro, cartucheira e sandálias. E seguiria apregoando a imagem de pretenso fora da lei em territórios de suposta legalidade.

A tensão entre a clausura da disciplina e o espírito livre rendeu outras grandes canções sobre passarinhos, Acauã (de Zé Dantas, 1952) e Assum Preto (1950). Nessa, Gonzaga e o futuro deputado cearense Humberto Teixeira despistavam o dilema do pássaro que tem os olhos furados para “cantá mior”: Assum preto véve sorto/ mas num pode avoá/ mil vez a sina de uma gaiola/ desde que o céu, ai, pudesse oiá.

Gonzaga borrou limites entre lei e desordem musical de modo a não fazer feio no século de downloads e copylefts. Vários clássicos assinados por ele, inclusive Asa Branca, pertenciam ao folclore nordestino e ao repertório de seu pai sanfoneiro, Januário. Em depoimento à biógrafa francesa, o músico deu a entender que, em algumas das canções assinadas com Zé Dantas, era mais “sanfonizador” que coautor.

Com o apogeu da era do rádio, avolumava-se a cultura (ou melhor, a economia) dos direitos autorais, e o expropriador viveria dias de expropriado. Em 1949, os norte-americanos Harold Steves e Irving Taylor verteram ao inglês e a cantora Peggy Lee gravou Juazeiro, ou melhor, Wandering Willow, sem crédito a Gonzaga e Teixeira. Processados por plágio, argumentaram que, como os brasileiros, inspiraram-se no folclore. Mas a gravadora teve de recolher os discos das prateleiras.

Criador e mantenedor do site www.luizluagonzaga.mus.br, o bancário pernambucano Paulo Vanderley afirma que as homenagens nordestinas em 2009, em sua maioria, “vêm de baixo para cima”. Num evento oficial de Exu, em 2 de agosto, esteve o governador paulista José Serra. “As informações que circulam por aqui é que ele queria atingir o Nordeste por meio de Luiz Gonzaga”, diz Vanderley.

Para contrapor a noção do músico como retratista da submissão sertaneja, o fã cita Vozes da Seca, de 1953: “Ali ele diz que o nordestino não quer esmola. É muito atual”. A letra dessa parceria com Zé Dantas flagra ambiguidades entre nortistas e sulistas: Seu doutor, os nordestinos têm muita gratidão/ pelo auxílio dos sulistas/ nesta seca do sertão/ mas, doutor, uma esmola/ a um homem que é são/ ou lhe mata de vergonha ou vicia o cidadão. Veja bem, quase a metade do Brasil tá sem comer, arremata.

Inúmeras ambiguidades forjaram a obra e o sucesso maciço de um artista ímpar, e talvez tamanha identificação viesse do dado prosaico de que Gonzaga era tão ambíguo (e estéril) quanto a região e o país em que nascera. Mas e se houvesse férteis sementes de progresso e libertação plantadas na aridez de Asa Branca e nos baiões obedientes com que Luiz Gonzaga ajudou o Brasil a conhecer seu Nordeste?

Sexta-feira, Setembro 04, 2009

blowin' in the wind, caminhando contra o vento

A segunda coluna na revista "Cult", edição 138, de agosto de 2009.


Caminhando contra o vento, like a rolling stone

A história não costuma ser gentil com os artistas
que optam por fazer da música uma ferramenta de engajamento

Pedro Alexandre Sanches

Em 1965, o norte-americano Bob Dylan apresentou-se ao público do festival de folk de Newport munido de guitarra e eletricidade. Se um ano antes fora recebido no mesmo festival como porta-voz e consciência de uma geração politizada, agora as vaias se abatiam sobre ele enquanto cantava, elétrico, que não queria mais trabalhar na fazenda ("Meggie's farm") e se sentia sem casa, ao desabrigo ("Like a rolling stone"). Para o público que acompanhara a ascensão do jovem cantor, parecia estar em curso uma traição ao folk de protesto que o fizera florescer.

Em 1968, as vaias derrotaram o brasileiro Caetano Veloso no 3º Festival Internacional da Canção Popular (FIC). Como já acontecera no ano anterior com "Alegria alegria", guitarras roqueiras lhe faziam cama, desta vez aos gritos de "eu digo não ao não" ("É proibido proibir"). A hostilidade abafou a canção e culminou num longo diálogo surdo entre as vaias da plateia e o indignado discurso de reação do artista. Nervosíssimo, ele comparou o público estudantil, supostamente de esquerda, aos direitistas espancadores do Comando de Caça aos Comunistas.

Cada um à sua maneira, Dylan e Veloso cresciam artisticamente num curioso estado de guerra contra grande parcela de seus admiradores e/ou consumidores. Jovens saíam das apresentações de Bob aos gritos de "idiota", "falso" e "neurótico" - mas continuavam lotando seus shows.

Em Newport 1965, Dylan teve como inusitado antagonista um de seus antecessores musicais, o cantor e compositor de folk Pete Seeger. Versões desencontradas são unânimes em testemunhar a fúria de Seeger contra Dylan nos bastidores; segundo uma delas, o autor do folk de protesto "If I had a hammer" (1949) tentara eliminar a distorção do som do pupilo com o auxílio de um machado. Na turnê que deu prosseguimento à ruptura de Newport, Dylan conviveu diuturnamente com os apupos da plateia e a animosidade cobradora da imprensa.

No Brasil, a guerra contra as guitarras esquentara um ano antes do episódio de "É proibido proibir". A TV Record preparava um novo programa dedicado à música popular brasileira - ou MPB - que se chamaria Frente única e tinha como principais entusiastas Geraldo Vandré e Elis Regina. Sob a "ameaça" da inconsequência roqueira da jovem guarda, forjou-se um ato público em defesa da MPB, a até hoje célebre "passeata contra as guitarras". Marcharam Elis, Vandré, Chico Buarque, Edu Lobo, Jair Rodrigues e um Gilberto Gil pré-tropicalista. Caetano e Nara Leão recusaram-se a participar e assistiram a distância.

Uma comparação entre a MPB norte-americana e a folk music brasileira poderia apontar para a constatação de que, embora o antiamericanismo fosse questão de honra para os puristas brasileiros, os embates ideológicos e os ânimos exaltados daqui não significaram muito mais que a reprodução de batalhas já travadas ao norte da América. Mas não é exatamente disso que este texto quer tratar. Façamos mais um paralelo.

A herança de Dylan e Caetano

O folk nunca mais foi o mesmo depois de Bob Dylan. Representantes da esquerda na música popular de lá, artistas como Joan Baez (sua parceira e/ou namorada à época), Odetta e Pete Seeger mantiveram-se politicamente ativos, mas encolheram consideravelmente suas presenças no cenário musical. Há pouco, Seeger reapareceu diante de uma gigantesca plateia, trazido pelas mãos do discípulo roqueiro Bruce Springsteen. Juntos, cantaram folks de protesto na cerimônia de posse do democrata Barack Obama.

No Brasil, ao menos três ícones identificados naquele momento com a canção de protesto seguiram adiante a todo vapor: Elis Regina, Chico Buarque, Maria Bethânia. Em tempos próprios e por atalhos diversos, todos aplacaram a veia do protesto, como também fez Nara Leão a partir da adesão transitória à tropicália. Milton Nascimento manteve-se à parte, embora flertasse e continuasse flertando com o protesto e com o folk à brasileira.

Entre os mais afetados pela convulsão tropicalista, há todo um elenco de artistas engajados da era dos festivais: Vandré, Edu Lobo, Marília Medalha, Sidney Miller, MPB 4, Sérgio Ricardo, Taiguara, Tuca, Gonzaguinha, Grupo Manifesto, Maranhão, Cesar Costa Filho... O bravo Sérgio Ricardo, pertencente à linha purista (e acústica), desestruturou-se pelas vaias antes de Caetano: desistiu de seu "Beto bom de bola", chamou os espectadores de "animais" e quebrou o violão no palco, no festival de 1967.

É forçoso reconhecer que a história brasileira não foi gentil com seus cantores mais politizados e ortodoxos (de esquerda): após a síntese tropicalista, sua arte se converteu em antiquada e passou a ser compreendida como fora de moda à luz das novas convenções. Autor do hino "Pra não dizer que não falei de flores" (1968), Vandré renunciou à música, e longe dela se conserva até este momento (ao menos diante do olho público). A morte precoce foi o destino de uma quantidade desconcertante de artistas que passaram pelo protesto: Elis, Nara, Sidney Miller, Taiguara, Tuca, Gonzaguinha, Maranhão...

Se nos Estados Unidos o rolo compressor dos mercados despolitizou a música e deixou à míngua polarizações direita/esquerda, aqui a mensagem foi mais cruel. Por décadas aprendemos a entender que arte engajada era não só "chata", como passível de punição, por vezes à pena capital (com ou sem trocadilho, a gosto do freguês). Sob a rotulação de "panfletários", foram anulados (e se autoanularam) artistas como Sérgio Ricardo, num processo ironicamente semelhante ao que segregou a tal MPB, num centro de poder e prestígio, de sambistas, "cafonas", "alienados", Wilson Simonal & outros marginalizados.

Conclusões erráticas e sujeitas ao erro podem se tirar de tais fábulas. Uma possível é que, da arena sangrenta, saíram vitoriosos homens como Bob Dylan e Caetano Veloso, situados nalgum lugar indeterminado entre os clássicos polos ideológicos, conquistadores da sobrevivência artística e mercadológica, em muitos momentos à custa do enfrentamento frontal com público, crítica e quem mais chegasse. A vaia, no caso deles, foi nutriente crucial para a permanência.

Quarta-feira, Agosto 26, 2009

o silêncio dos súditos

Este meu texto que vai copiado abaixo foi publicado na edição do sábado 22 de agosto de 2009 no "Correio Braziliense", lá do Distrito Federal (e viva a descentralização!). Escrevi sob encomenda do Carlos Marcelo, que, além de editor do suplemento "Pensar", do "CB", é autor da bela biografia "Renato Russo - O Filho da Revolução" (ed. Agir, 2009).

O texto foi publicado com uma ilustração linda, que não sei descrever em palavras. E talvez diga mais ou menos o contrário do tópico anterior, "aquela casa simples", mas... Ora, por que uma determinada afirmação haveria de ser anulada pela afirmação contrária a ela, não é mesmo? Se não fôssemos - ou formos - maniqueístas...


O silêncio dos súditos

De Roberto Carlos, que completou 50 anos de reinado, a Luiz Gonzaga (eterno rei do baião), a música popular é regida pela monarquia. E um país que necessita de reis é, forçosamente, um país cujos filhos não se acostumam a ser reis deles próprios

PEDRO ALEXANDRE SANCHES
ESPECIAL PARA O CORREIO

“Roberto Carlos é o rei do iê-iê-iê”, cantarolava Chico Science em 1994 na abertura da versão de sua Nação Zumbi para o hino soul Todos Estão Surdos, gravada originalmente em 1971. Naquele sotaque pernambucano e naquelas sonoridades manguebit, a homenagem quase parecia mais devotada a Luiz Gonzaga, o “rei do baião”, ou a Lampião, o “rei do cangaço”, do que propriamente ao “rei do iê-iê-iê”, a quem o tributo se dirigia.

O caso é que nós, nascidos no século 20, gostávamos à beça de nos decretar governados por “reis”. E nem cabe aqui aquele papo surrado de que “só mesmo no Brasil...”, pois outro dia mesmo morreu lá na autoproclamada democracia dos Estados Unidos da América um “rei do pop”, Michael Jackson, anos após ter passado um período casado com a filha de um falecido “rei do rock”, Elvis Presley.

De modo geral, somos doidos por entronizar um reizinho, mesmo que não vivamos em monarquias nem estejamos falando propriamente sobre sistemas políticos. Pelé é “rei” honorário no futebol, e não temos uma correspondência em termos de “rainhas”. Carmen Miranda foi “rainha”, mas era chamada de Pequena Notável (“pequena”, perceba), e não de “rainha”. OK, por anos Xuxa foi “rainha dos baixinhos”, mas o tempo mostrou que não era vitalícia, certo?

“Reis” júniors tivemos alguns esporádicos, como Ronnie Von, “pequeno príncipe” dos tempos da jovem guarda do “rei” Roberto (Wanderléa não era “rainha” nem “princesa”, apenas “ternurinha”). Mesmo lá fora, em contraponto ao “rei” Michael Jackson havia sua majestade, o Prince, tão talentoso quanto, mas de fôlego menos duradouro. Tampouco foi consagrada realeza à sempre espertíssima Madonna, um dos poucos “reis” ainda em atividade em 2009 (pelo menos no pop) – antes mesmo da coroação do sucesso, ela preferira ser mãe profana de Jesus a ser imperatriz.

O xis da questão mora mesmo no trono do “rei”, e fiquemos por ora só no caso brasileiro. Se muitos contestam a realeza de Lampião e poucos recordam a de Gonzagão, Roberto Carlos indubitavelmente conserva seu título por décadas suficientes para ser não só “rei”, mas “rei” de permanência e durabilidade. Note, como prova, a avalanche de marketing apelidada de “50 anos de carreira” destinada a conservar o poder de nosso, bem, “rei”.

Ele desfruta do recorde aparentemente vitalício qual um papa em seu manto sagrado. (Por sinal, a bossa nova não era movimento religioso e teve seus “papas”, mas não nomeou “reis”.) Nos anos 70, RC cantava que “eu quero ter um milhão de amigos e bem mais forte poder cantar”, mas talvez o que estivesse querendo intimamente dizer – e conseguiu de fato, diga-se – era “eu quero ter vários milhões de súditos e bem mais forte poder reinar”. Foi feita a vontade de sua majestade.

A cara do Brasil

Roberto era o homem certo na hora certa de um país num período certo como dois e dois são cinco. Ajustou-se precisamente a um modelo de ditadura, com sua panca de brasileiro bom moço, cordial, humilde, obediente e submisso. Criou-se uma simbiose, a ponto de Roberto Carlos ter virado um sinônimo perfeito de Brasil, ou pelo menos de uma determinada cara de Brasil - sincera, sofrida, tristonha.

No entanto, veja bem, a perpetuação no poder monocrático não é primazia do ex-menino capixaba de Cachoeiro do Itapemirim. As primeiras décadas de “governo” de Roberto Carlos foram tempos pródigos em providenciar o advento de “reis” de longevidade impressionante, mesmo que não andem por aí alardeando o titulo.

Exemplos? Presidente da Ordem dos Músicos do Brasil (OMB) desde o início do regime militar, o recém-deposto Wilson Sandoli jamais se disse “rei” – mas foi de fato, munido de poderes despóticos autoconcedidos (e às vezes até de armas de fogo), e bovinamente legitimados pela plebe musical brasileira. Enquanto o show tinha que continuar, Roberto era “rei” no palco e Sandoli fazia as vezes na coxia. E exercia poderes ilimitados, a ponto de, segundo sustentam seus opositores, comprar sedes para a OMB sem dar satisfação para ninguém.

Quer outro “rei” incontestável, um que pela designação talvez chamássemos de “rainha”? Eis a mui masculina Rede Globo, hegemônica em audiência há 44 anos e influente a ponto de quase ser compreendida como sinônimo de Brasil. Não à toa, é a rede que cooptou já nos anos 70 o “rei” musical do qual é até hoje “patroa”. Alguém conseguiria pensar em Globo, Natal e Roberto Carlos sem pensar em Brasil?

Nos calcanhares de dona Globo sempre esteve um tal Silvio Santos, que não chegou a arranhar a liderança do canal ao lado, mas impera ininterruptamente no imaginário popular desde que a TV brasileira amarrava linguiça com cachorro. Outro dos domínios televisivos: seu titulo máximo pode ser o de “trapalhão” (o “bobo da corte”?), mas alguém duvida que Renato Aragão é “rei do humor” brasileiro desde que Roberto Carlos era mocinho?

Mãos de ferro

Para muito além da música e da TV, parece interminável o rol de poderes, instituições, empresas, associações e congêneres dirigidos há tempo equivalente pelas mesmas mãos de ferro, muitas vezes em regime familiar, tradicional e proprietário.

Estamos falando de um país que se acostumou não a uma monarquia, mas a uma ditadura (ou várias), instalada quando o menino Roberto Carlos cantava Splish Splash e É Proibido Fumar. Esse regime foi convencionalmente extinto em 1984, de início pelas mãos de José Sarney (outro “rei”?). Mas o que talvez a permanência de tantos “reis” indique é que ainda continuamos nos libertando, pouco a pouco, dia após dia, dos hábitos e costumes que nos fizeram uma ditadura.

Não deve ser à toa que não se encontram novos aspirantes a “reis” no horizonte. A popularidade não tem sido suficiente para coroar as cabeças de, digamos, Padre Marcelo Rossi, Joelma & Chimbinha, Ronaldo ou Mano Brown. O desmonte da monarquia prossegue com a vagareza das tartarugas.

Mas, quem diria, lá se vão 15 anos desde que Chico Science abrasileirou o iê-iê-iê e tratou com fina ironia o título de nobreza do ídolo RC. Pois sabe como terminava sua Todos Estão Surdos? Com a repetição persistente dos seguintes dizeres: “Ói. Escute. Você que está aí sentado. Levante-se. Há um líder dentro de você. Governe-o. Faça-o falar”. Um país que necessita de reis é, forçosamente, um país cujos filhos não se acostumaram a ser reis deles próprios. E Chico Science, morto precocemente em 1997, já atentava contra essa tal monarquia que desde então não para mais de cair.

Pedro Alexandre Sanches é jornalista e autor dos livros Tropicalismo – Decadência Bonita do Samba (Boitempo, 2000) e Como Dois e Dois São Cinco – Roberto Carlos (& Erasmo & Wanderléa) (Boitempo, 2004)

Sábado, Agosto 22, 2009

aquela casa simples

Fui ontem ao ginásio do Ibirapuera, assistir a mais um show do Roberto Carlos. E me emocionei muito, muito, muito, como há muito tempo não acontecia - de chorar praticamente toda a primeira metade do show.

Não sei se sei explicar por que tanta choradeira, por um espetáculo que afinal de contas não deixa de ser idêntico a todos os outros que ele promove há séculos.

Mas sei que me emocionei influenciado por uma conversa que tinha tido um dia antes, sobre o Brasil. Sobre o direito que nós, brasileiros, temos (e na maior parte do tempo não desfrutamos) de nos orgulhar do Brasil. Sobre perceber e reconhecer o que de bom, ótimo e excelente anda sobrevoando por aí. Sobre abrir os olhos e sair do círculo vicioso medíocre dos "midia victims", do nhenhenhém enfadonho de só criticar, criticar, criticar, e só reclamar, reclamar, reclamar, do senado, do Sarney, da "mentirosa" Dilma, da gripe suína, do assassinato da menininha atirada pela janela, do inverno que não acaba, do calor que faz suar, da chuva, do sol, da lua, da nuvem. Sabe a Hiena Hardy, "ó céu, ó dia, ó vida..."?

Fui para o Ibira nesse espírito neobrasileiro, disposto a ver e admirar Roberto Carlos como algo e alguém de que tenho razões suficientes para me orgulhar muito, muito, muito. E aí foi fácil: foi só abrir a torneirinha de choradeira - difícil depois era fechá-la de volta.

É evidente que colabora à beça para esse humor o fato de que ele, o cara, está num momento especialmente iluminado. Cantando bem como o capeta, se me permitem a blasfêmia. Aparentemente seguro e sabedor do tamanho acumulado pelos seus 50 anos de música. E transmitindo com simplicidade e clareza ao público a constatação de que ele, RC, ama intensamente as canções que escreveu (quase sempre em duo com Erasmo Carlos, e isso ele esqueceu novamente de mencionar).

Um dos fios condutores centrais do meu livro "Como Dois e Dois São Cinco" (Boitempo, 2004) consiste em demarcar, sempre que possível, que desde que despontou para o "sucesso" Roberto Carlos é a cara do Brasil, Roberto Carlos é o brasileiro por excelência, Roberto Carlos é o Brasil refletido no espelho, Roberto Carlos É o Brasil.

Por isso é quase desconcertante ir até lá e vê-lo tão bem, tão encantado consigo mesmo e com suas canções. Porque se Roberto Carlos tem passado os últimos anos se tratando e se curando de suas feridas psíquicas, e se Roberto Carlos anda tão bem e tão iluminado, só posso ser fiel ao meu amado "Como Dois e Dois São Cinco" e concluir: o Brasil tem passado os últimos anos se tratando e curando de suas feridas psíquicas, e o Brasil anda tão bem e tão iluminado que dá vontade de chorar.

[Coincidência ou não, depois do show eu fui para o Bar Secreto e de repente apareceu na minha frente uma garota cearense, chamada Isadora, amiga da Karine Alexandrino (autora do disco "Querem Acabar Comigo, Roberto"). Eu e Isadora não nos conhecíamos, mas ela me disse que gostou muito do "Como Dois e Dois São Cinco", e que Roberto Carlos, mesmo "neurótico", a emociona demais. Foi difícil não desatar a chorar de novo, que dia, Nossa Senhora!]

Mas, então, não é só vontade de chorar. Minha torneirinha de chororô continua ligada e jorrante até agora. Aliás, acho que sei por que choro tanto: desse estranho e ainda meio desconhecido sentimento de felicidade-liberdade. E de orgulho de Roberto Carlos, ou seja, do Brasil. Chuif.

Quinta-feira, Agosto 20, 2009

esta luz só pode ser jesus

Só gostaria de fazer um comentário sobre "A Fazenda", porque, não adianta, eu não consigo deixar de me interessar e ficar ligado nesses shows de realidade.

Ao que tudo indica, quem vai vencer "A Fazenda" é o Dado Dolabella, aquele canastrão - ou "polentão", como meu velho pai dizia para se referir à canastrice interpretativa do Tarcísio Meira quando o Tarcísio Meira ainda era galã.

Está tudo nos conformes, o Dolabella Jr. (não sei quem se lembra, mas o pai dele era uma figura meio repulsiva, meio vilanesca das novelas globais dos anos 70) desde o início contou mesmo com a simpatia instantânea da torcida. Mas. Foi bastante interessante e instrutivo acompanhar a construção da vitória do rapaz pelos... inimigos dele.

É o enredinho básico de todos os shows de realidade. Logo de cara a turma detecta o potencial vencedor de um determinado candidato, e toma como meta principal derrubá-lo. Por isso, passa a persegui-lo, constante e obsessivamente. E exatamente por isso, e em geral na condição autoconstruída de "vítima", o "pobre" consolida um percurso (sofrido, mas) "vitorioso" e, bumba!, fatura o milhão.

Ou seja, os "perdedores" pavimentam o caminho doirado do "vencedor".

Todo mundo há de lembrar uns três ou quatro ou cinco fulanos que venceram assim o "Big Brother". O cara do lado de cá do espelho se identifica com o perseguido porque também se sente um eterno perseguido, pronto, simples assim.

E não sei se esse método brota da "vida real" para os confinamentos, ou foge deles para ela, ou ambos, mas não é só nas telas da Globo e da Record que a fórmula se consagra e se repete. Longe disso.

Por exemplo, se aquele maluco chamado Luiz Inácio Lula da Silva surfa em ondas colossais de popularidade e prestígio, em alguma medida não seria esse seu percurso pavimentado pela espuma raivosa babada pelas bocas de Vejas, Folhas e Globos? Será que eles nos fazem este bem, sem sequer saber? Será que lá nas profundezas dos fundos dos porões das mentalidades eles desejam o bem do Brasil, ainda que o bem do Brasil seja o contrário do que eles mais desejam?

E, a bordo da histeria midiática destes dias que correm, você se espantaria se, num futuro breve, José Sarney fosse eleito para o cargo que quisesse, se o quisesse?

E alguém conhece um brasileiro com mais cara de "vítima" que o "rei" Roberto Carlos?

E a Dilma Roussef, estará secretamente torcendo para que apareçam muitas e muitas e muitas fichas policiais falsas, Linas, Marinas e que tais? (Não estou sendo original aqui, vários têm apontado o efeito fermentador do ódio contra Dilma no crescimento da aceitação a Dilma. Ainda que ogros, damas de sociedade, intelectuais sensíveis e reginas duarte em geral gritem aos quatro ventos seus picarescos "eu tenho medo da Dilma".)

Outro que sabe muito bem se servir da condição de perseguido é aquele homem franzino e de expressão aparentemente impassível chamado Edir Macedo, o bispo-mor da Igreja Universal. Vi ele outro dia no domingão da Record falando mais ou menos isto: que é perseguido, que sempre foi perseguido (inclusive dentro de camburão) e que assim continuará sempre sendo. Está feita a "vítima", pronto, eis a sopa no mel para que seu enorme contingente de admiradores aumente em progressão continuada e autossustentável. Mas, também, om o auxílio luxuoso e platinado de sua maior inimiga, dona Globo - que, no sonho de destruir seu Dolabella particular, brinca com o fogo de rejeitar, ofender e se indispor com o imenso eleitorado evangélico disponível no Brasil.

(Aliás, veja a ironia: há uma evangélica à beira de se tornar candidata à presidência da República, também sob o patrocínio aloprado de inimigos de Lula e Dilma como José Serra, Globo, Veja, Folha & cia limitada.)

E este meu vaivém maluco por personagens disparatados tem um só objetivo final: observar que neste domingo, quando se consumar a vitória do Falabella, quero dizer, Dolabella, o símbolo que estará emoldurado atrás dele não é apenas mais uma enfadonha vitória do "perseguido".

Simbolicamente, o "vencedor" por trás do tão perseguido Dado Dolabella é Edir Macedo, o homem que lhe pagará o prêmio-bagatela de 1 milhão de reais.

Sexta-feira, Agosto 14, 2009

#cricritwitter ana carolina, "n9ve"

E aí então ficou mais ou menos assim (mais ou menos, porque houve mais tweets, digo, piados que ficaram abrigados pelo guarda-chuva #cricritwitter) (e, outra coisa, pela dinâmica do Twitter os piados estão do mais recente para o mais antigo - se você não começar de baixo para cima, provavelmente não vai entender bulhufas):

ecostela Também gostei. RT @mauriciostycer RT @pdralex #cricritwitter @arnaldobranco Sensacional! http://migre.me/5eEW

paulo_mais tb ñ sei. mas se fosse seguida pelo PAS, a audiência do #cricritwitter aumentaria RT @Leoni_a_jato: ... Nem sei se a AC tem Twitter

georgianicolau RT @pdralex: #cricritwitter @arnaldobranco Sensacional! http://migre.me/5eEW

janjagomes @pdralex #cricritwitter de qualquer maneira, o disco soa bem, a vontade da moça de mudar é louvável. Se quiser umas internas ask JP later.

mauriciostycer RT @pdralex #cricritwitter @arnaldobranco Sensacional! http://migre.me/5eEW

pdralex #cricritwitter @arnaldobranco Sensacional! http://migre.me/5eEW

pdralex @janjagomes A gente tem que fazer uma #cricritwitter em dupla, então! Um vai pela popa e o outro vai pela proa!

Leoni_a_jato O grande público não está aqui, com certeza. Muito menos te seguindo ou seguindo quem te segue RT @pdralex: #cricritwitter

janjagomes @pdralex #cricritwitter eu sou o oposto rs.. preciso fazer esforço p focar na letra. Mas faz parte do aprendizado. JP arrasando no sambas!

Leoni_a_jato Quem te segue é que prefere o Lucas RT @pdralex: #cricritwitter Conclusão é que no Twitter Lucas Santtana é mais popular que Ana Carolina?

pdralex @janjagomes #cricritwitter Foi, Janja. Tudo muito rápido pra colocar tudo ao mesmo tempo... Somando que essa parte não é muito meu forte...

BrMorais @pdralex #cricritwitter não é diva ! por isso o delirio fantastico é bonito!

mauriciostycer @pdralex experimenta fazer #cricritwitter do Little Joy

DeboraFreires @pdralex Lucas Santtana é MARA. #cricritwitter Conclusão 2: Popular é ser cult no Twitter!

janjagomes @pdralex #cricritwitter alias onde se acha uma ficha tec do disco? Ja baixei ele no 4shared, mas no site dela so da p ouvir uma musica rsrs

janjagomes @pdralex #cricritwitter quero dizer, passou longe dos musicos, da produçao.

janjagomes @pdralex #cricritwitter Cheguei tarde mas to lendo as historinha. So uma cricritica corporativa. Isso foi uma analise só da Ana C. né

chicobarney @pdralex ou talvez que a cricritwitter fosse uma novidade mais quente semana passada!

pdralex #cricritwitter A conclusão é que no Twitter Lucas Santtana é muito mais popular que Ana Carolina? Tudo depende mesmo do referencial, hein?

pdralex #cricritwitter Pra encerrar, repara só: quando cricritiquei Lucas Santtana ganhei uns 120 seguidores. Hoje ganhei uns 15 (fora os que perdi)

pdralex @vitorlop #cricritwitter Verdade, Vitor, ousadia (formal, né, poque outras ela tem) não é a praia dela... Ninguém pode ser tudo...

pdralex @BrMorais #cricritwitter Fiquei meio nervoso hoje... É muito rápido pra conseguir completar raciocínio... :-)

euamotubaina @pdralex qdo é q o #cricritwitter vai acontecer em um buteco?

pdralex #cricritwitter Hahaha RT @viledesma@pdralex Eis o momento pérola: "identificação brutal com Caetano Veloso, outro rei da negatividade..." rs

BrMorais @pdralex #cricritwitter parabéns Pedro!! otima descoberta , muito divertido!

DeboraFreires @pdralex#cricritwitter É, voltamos ao "Não ouvi e não gostei". E quanto à grande dimensão do talento, falo na mídia, sucesso de público, etc

pdralex #cricritwitter @margochanning_ Ai, mas esta eu tô conseguindo perder, graças da Dios! Adoro cada vez mais! Nasci vizinho do Paraguai, pô!!

pdralex @CONTRATODOS #cricritwitter Ah, entendi! Tá cera, e daí?! Pessoalmente, num gosto muito, mas que importância tenho eu no oceano, né?!

pdralex #cricritwitter Vergonha nada, @DeboraFreires !!, a gente só pode perder preconceitos depois que admite que os tem...

juniorcaballero #ff #cricritwitter #followfriday #Sarney #Ongs ( Assunts do momento ).

pdralex #cricritwitter @DeboraFreires @pdralex O sotaque, o amor, a redundância de sonoridades. Sim, é preconceito!(vergonha)

BrMorais @pdralex #cricritwitter ,hehe também não curto o sample, mas a letra é bem massa, melodia boa também.

pdralex Mas tá cheio de artista assim, né? @paulo_mais #cricritwitter é muito difícil acreditar em alguém q se julga + importante q aquilo q canta

pdralex #cricritwitter Por que?! RT @CONTRATODOS @pdralex haha... pedro, você é o senhor mau dos tempos verbais! hauhauahuahauahuahauah

paulo_mais #cricritwitter é muito difícil acreditar em alguém q se julga mais importante do q aquilo q canta. implico muito com isso.

pdralex #cricritwitter @DeboraFreires Mas sem usar truque de cartola de cricrítico agora: o que de objetivo faz a música italiana ser brega?

pdralex #cricritwitter @DeboraFreires Também tendo a achar, mas... Preconceitoooooo!

CONTRATODOS RT @pdralex #cricritwitter @BrMorais Mas é legal aquela coisa ambígua com as divas, né? Pergunta: AC é (e/ou quer ser) diva, ou não?

pdralex RT @bebelfl #cricritwitter ana carolina é, por excelência, trilha sonora de fossa de fim de relacionamento. música feita de mágoa pura.

paulo_mais verdade. isso me intriga RT @pdralex: #cricritwitter @paulo_mais Mas são justamente as canções que o público dela canta em coro, de cor, né?

pdralex #cricritwitter @BrMorais Mas é legal aquela coisa ambígua com as divas, né? Pergunta: AC é (e/ou quer ser) diva, ou não?

pdralex #cricritwitter @BrMorais Hhahaha, Bruno, estava ouvindo hoje essa "Dadivosa", impliquei com o sample de Bethânia...

sgondim @pdralex #cricritwitter A letra de "8 histórias", segundo Ana Carolina já declarou em entrevistas, é fictícia, uma grande brincadeira

pdralex #cricritwitter @paulo_mais Mas são justamente as canções que o público dela canta em coro, de cor, né?

pdralex #cricritwitter Indo atrás de comentários que ficaram lá embaixo. @paulo_mais, "Ela se impõe acima da canção", pode ser...

bebelfl @pdralex #cricritwitter ana carolina é, por excelência, trilha sonora de fossa de fim de relacionamento. música feita de mágoa pura.

pdralex @paulo_mais #cricritwitter Ih, pois é... Apesar que tenho dificuldades com Jerry Adriani também... Preciso reouvir...

DeboraFreires @pdralex#cricritwitter "Tristeza não tem fim, felicidade sim." Cae negativo? Rarará!

BrMorais @pdralex #cricritwitter : a unica musica que gostei de ouvir dela ate hj é de uma paranaense, Dadivosa?, sera que sou bairrista?

pdralex ##cricritwitter Acabou o disco!

pdralex @sgondim #cricritwitter Adoro Bacharach, e James Taylor!!

pdralex #cricritwitter Ou, no território dos que nos supomos "cultos", a identificação brutal com Caetano Veloso, outro rei da negatividade...

pdralex #cricritwitter É muito o que move o poder inabalável de Roberto Carlos, também.

pdralex #cricritwitter "Traição", taí de novo aquela história da identificação negativa entre AC e seus fãs.

pdralex #cricritwitter Não que eu seja obrigado a amar (saudades de Cássia...), mas até que não dói tanto assim...

pdralex #cricritwitter E a gente no nhenhenhém da gritaria, do comercialismo, do preconceito...

BrMorais #cricritwitter warming live! muito bom!

DeboraFreires @pdralex Não é pecado, não! Só acho que seu talento é superdimensionado. E que eu, particulamente, a prefiro sem gritar.#cricritwitter - é +

pdralex #cricritwitter "Traição" com Esperanza Spalding, outra cantora respeitada de jazz (alem de brasileirófila), tô certo?

paulo_mais #cricritwitter Falando em Carmen Miranda, Isabella Taviani me mostrou um sambinha bem legal que lembra as coisas do assis valente com a CM

pdralex #cricritwitter @CONTRATODOS Hahaha, Densise, mas você sabe quem é a DEDICADA? eu não sei... momento "Caras", hahaha.

pdralex #cricritwitter @DeboraFreires E o que a gente teria contra isso, Debora? Querer ser bem-sucedido é, er, "pecado"?...

paulo_mais já se fosse Jovem Guarda! hehehe RT @pdralex: #cricritwitter Meio bossa nova também essa "Torpedo", né? Tenho preconceito, também...

DeboraFreires @pdralex #cricritwitter Nada é mais brega que música italiana. NADA.

pdralex #cricritwitter Meio bossa nova também essa "Torpedo", né? Tenho preconceito, também...

pdralex #cricritwitter Feito Michael Jackson, aliás.

pdralex #cricritwitter Sempre presto atenção em quem cita Carmen Miranda. CM era estivadora de muque, morreu de tanto carregar pedra nos EUA...

pdralex #cricritwitter Olha essa "Torpedo"! Carmen Miranda estilizada! Simpático!

ufrgstv O crítico musical Pedro Alexandre Sanches (@pdralex) está comentando em tempo real sua audição do novo CD de Ana Carolina. #cricritwitter

pdralex #cricritwitter Será que AC também toma esse preconceito - antiitaliano, antilatino, antiportuguês, pró-inglês - na testa?

sgondim @pdralex #cricritwitter Chiara Civello é cantora de jazz. Para conhecer: http://www.chiaracivello.com/

pdralex #cricritwitter Depois "ignorantes" são os outros, ai ai ai...

pdralex #cricritwitter Rola aí um condicionamento social (ótimo pros Bush e Obama), né? "Não gosto porque é em italiano", pluft, descarta.

paulo_mais Mas o do Renato Russo é bom. RT @pdralex: #cricritwitter Pelo jeitão derramado, deve ser. Mas minha mãe é descendente direta de italianos.

pdralex #cricritwitter Meu mais recente patrão, por quatro anos, era italiano militante e fanático, daqueles de detestar pizza brasileira...

pdralex #cricritwitter Pelo jeitão derramado, deve ser. Mas minha mãe é descendente direta de italianos.

pdralex #cricritwitter Italiano também é osso duro de roer, aqueles discos da Zizi Possi, socorro... Mas... Por quê? Por que o italiano me afugenta?

pdralex #cricritwitter Aí entra em italiano a Chiara Civello (autora de outras faixas do CD, por sinal). Alguém sabe quem ela é?

pdralex #cricritwitter A coisa melosa de "Resta" é bem o que me afugenta dela. Dói um pouco.

paulo_mais será? acho que ala se impõe acima da canção. isso q mata RT @pdralex: #cricritwitter Eu acho que Ana Carolina sofre um bocado de preconceito

pdralex #cricritwitter @viledesma Segue, o Bajofondo atravessa bem o disco, né?

BrMorais @pdralex #cricritwitter chatinha mais excelente é tipo binitinha mais ordinaria? :-)

CONTRATODOS RT @pdralex #cricritwitter excrusive eu acho que essa canção é fake gay. rs.

euamotubaina @pdralex mas esse cantar fazendo força não é biologicamente natural. é maneirismo (ou marca registrada) vide: Elza Soares #cricritwitter

pdralex #cricritwitter Eu acho que Ana Carolina sofre um bocado de preconceito - que em geral é desviado pra voz dela, pra gritaria etc. e tal.

CONTRATODOS RT "@pdralex #cricritwitter "8 Estórias" é excelente.. Chatinha, mas excelente..." pedro, ela dá nome ficticio às ex-vacas. segue o dilema

pdralex #cricritwitter "Toda boate tem um fundo de verdade" (2003), ela e Seu Jorge, a gay e o negro.

pdralex #cricritwitter Tira a homossexualidade do armário e leva direto pro imenso "público popular" que ela tem. Utilidade pública.

pdralex #cricritwitter Essa lista bem cafajeste de amantes mulheres, adoro. Nisso acho AC mais importante que em qualquer coisa:

pdralex #cricritwitter "8 Estórias" é excelente.. Chatinha, mas excelente...

pdralex #cricritwitter Tá, eu também implico com o jeito de cantar fazendo força (ou a voz dela é assim mesmo?, vão querer que faça plástica?), mas

pdralex #cricritwitter ...E 600 Los Hermanos, e trocentos fiscais do Sarney...

pdralex #cricritwitter “hoje eu tô meio implicante/ hoje você deu azar” (99)

pdralex #cricritwitter No ponto, @viledesma. Pode, claro! Só tô implicando com o efeito manada, tipo 400 bandas de folk ao mesmo tempo agora

bebelfl @pdralex #cricritwitter bom, pode não ter entediado o santo... mas já eu... resta ver se o show será bom! me apaixonei por ela ao vivo.

pdralex #cricritwitter Tipo "eu tranco a porta pra todas as mentiras/ e a verdade também está lá fora/ agora, a porta já está trancada” (99), p/ex.?

pdralex #cricritwitter Não dá para desprezar a letra de "Era", dá? A genrte pensa na AC como boa letrista?

pdralex #cricritwitter "Vai me levar e pronto, porque eu quero". Combina bem com AC. Seria autoritária também a relação dela com a legião de fãs?

pdralex #cricritwitter "Me ganhou vai ter que me levar" é legal. Forte. Mas também uma aproximação autoritária do amor, não?

pdralex #cricritwitter Agora vai, é bonitinha essa "Entreolhares"...

pdralex @bebelfl #cricritwitter Isso porque ela foi curta pra não entediar o santo, né, @bebelfi?

pdralex #cricritwitter A propósito, "não ouvi e não gostei" é bem boiada do Álvaro Pereira Jr., né?

pdralex #cricritwitter Vanessa da Mata emplacou com Ben Harper, vamos seguir a boiada.

pdralex #cricritwitter "Entreolhares" é das melodias grudentas bem Ana Carolina. John Legend cantando em inglês, mais uma vez o efeito manada:

mauriciostycer RT @pdralex #cricritwitter Toda crítica fast-food vaidosa se baseia no duplo truque:encontrar desculpas e pretextos p/ elogiar quem vc gosta

pdralex #cricritwitter Já tô ouvindo uns "não ouvi e não gostei" - é disto mesmo que estou falando...

bebelfl #cricritwitter eu particularmente fiquei entediada com esse CD novo da ana carolina. e eu amo ana carolina. mais do mesmo! @pdralex

pdralex #cricritwitter Auto-ironia inteligente, não?

pdralex #cricritwitter Não teve um papo de o disco ser curto, só nove faixas? "A minha oração é bem curta pra não entediar o santo"?

pdralex #cricritwitter "A minha oração é bem curta pra não entendiar o santo" é na mosca.

pdralex #cricritwitter Clichê: a cricrítica em geral não gosta (ou finge que não gosta) de AC. E o público dela é imenso.

pdralex #cricritwitter Se você anda de van ou coisa parecida, é claro.

pdralex #cricritwitter Começou a 3, "Tá Rindo, É?", "tocou atrasado e eu quase perdi a van" é certeiro em causar empatia.

pdralex #cricritwitter E garimpar desculpas e pretextos para ver "defeitos" em quem você não gosta.

pdralex #cricritwitter Toda crítica fast-food vaidosa se baseia num duplo truque: encontrar desculpas e pretextos para elogiar quem você gosta.

pdralex #cricritwitter E aí fui escrevendo aquelas minicríticas (podem ser chamadas de críticas) medonhas na "Folha" (estão no blog agora).

pdralex #cricritwitter Mas então, era cruel ter de aturar Ana Carolina com a presença de Cássia Eller. Eu não gostava nem um pouco.

pdralex #cricritwitter "Dentro": amor e mágoa, e uma pegada latina por trás.

lojadobispo RT @jampa: #cricritwitter Crítica ao vivo. De CD da Ana Carolina http://bit.ly/15b7Kv (via @arnaldobranco e @pdralex) Não ouvi e não gostei.

nandasavieira Queria brincar de #cricritwitter com o @pdralex, mas como um certo astrólogo costuma se repetir quando fala, terei que editá-lo.

pdralex #cricritwitter Forte o refrão de "10 Minutos". Entra naquilo que ela disse à Patrícia Palumbo, do público se identificar com ela no negativo

pdralex #cricritwitter Ela começava tomando de frente 2 comparações fortes: Zélia Duncan e Cássia Eller (a cantora que eu mais admirava então)

georgianicolau @pdralex vai cricriticar o N9ove, novo album da Ana Carolina, no twitter a partir de agora #cricritwitter

jampa #cricritwitter Crítica ao vivo. De CD da Ana Carolina http://bit.ly/15b7Kv (via @arnaldobranco e @pdralex) Não ouvi e não gostei.

pdralex #cricritwitter Ela começa cantando suave. Ela costuma gritar, e esse foi meu primeiro problema com a moça, ainda lá em 1999.

pdralex #cricritwitter "10 Minutos" começa bem Bajofondo TangoClub. Bonito, mas lembrando a abertura de "A Favorita".

pdralex #cricritwitter "N9ove", de Ana Carolina. Girando.

pdralex #cricritwitter a cricrítica não vai ficar menos fast food por causa disso. Mas futuramente podermos consultar a história desta crítica.

pdralex Só um pedido pra quem for brincar: escrevam #cricritwitter nas mensagens, por favor.

#cricritwitter

Então vamos brincar de seguir a sugestão do Ivan. Tio @pdralex irá cricriticar o disco novo de Ana Carolina, "N9ve", ao vivo, hoje (sexta-feira 14), a partir das 16h30 em ponto, via Twitter. Convido todo mundo a comparecer, e imagino que pode vir a ser especialmente divertido para quem quiser levar seu próprio exemplar do "N9ve" e ouvir junto. E aí vale tudo (até dançar homem com homem e mulher com mulher): participar, palpitar, discordar, sabotar, criticar, elogiar etc. etc. etc.

Então é isso, hoje, 16h30, no @pdralex do www.twitter.com


P.S.: alguns subsídios acrescentados às 13h24. Segue abaixo tudo que escrevi sobre Ana Carolina nos tempos de "Folha de S.Paulo", e a seguir apenas uma menção indireta na "CartaCapital".

"Folha", 27 de abril de 1999 (parece que as estrelinhas se apagaram com o tempo, no arquivo virtual do jornal...):

Ana Carolina

Guardada no armário da BMG por cerca de um ano, a mineira Ana Carolina, 24, desencanta e se integra ao coro das novas cantoras -Cássia Eller e Zélia Duncan são comparações imediatas. Destaca-se ao mostrar composições próprias/inéditas, mas derrapa em arranjos padronizados em batuque/programação e canto tenso. Ainda assim, é promessa em desenvolvimento. (PAS)
Avaliação:


"Folha", 24 de abril de 2001:

Ana, Rita, Joana, Iracema e Carolina

Artista: Ana Carolina
Lançamento: BMG
Quanto: R$ 25, em média
Ana Carolina, chegando ao segundo CD, parece ter dotes de compositora e tem atraído as manhosas rádios brasileiras. Mas em "Ana, Rita, Joana, Iracema e Carolina" se pauta pelos excessos, soando caricatural ao fazer da voz um panachê de vícios de Cássia Eller, Angela Ro Ro, Zélia Duncan e Alcione. Versão de pop vulgar italiano e uma leitura sem humor dos Sex Beatles pioram tudo. (PEDRO ALEXANDRE SANCHES)


"Folha", 22 de agosto de 2003:

Estampado

Artista: Ana Carolina
Lançamento: BMG
Quanto: R$ 28, em média

A mineira Ana Carolina lança seu terceiro álbum, "Estampado", e o problema subsiste: na maioria das faixas, as interpretações perseguem o estilo e a personalidade de Cássia Eller, mas com uma dureza e um rigor nervoso que a outra jamais possuiu. Um maneirismo tenso segue dominando a voz e as composições de Ana. (PAS)


"CartaCapital", edição 462, 19 de setembro de 2007:

MÚSICA

A jornalista de rádio Patricia Palumbo lança o segundo volume de Vozes do Brasil (DBA, 202 págs., R$ 69), em que entrevista personagens da música brasileira que abrangem dos veteranos Tom Zé e Rita Lee aos mais recentes Adriana Calcanhotto, Mônica Salmaso e Pato Fu. O livro se torna mais saboroso quanto mais se aproxima de figurinhas menos carimbadas (e menos unânimes) do circuito do jornalismo cultural, o que resulta em momentos reveladores. Um deles é a declaração de Ana Carolina, de que seu (volumoso) público se identifica com ela “pelo lado negativo das coisas”. Noutra passagem, Elba Ramalho expõe aparentes obsessões religiosas e conta que tenta a todo custo convencer Caetano Veloso a deixar de ser ateu. – PAS 


Terça-feira, Agosto 11, 2009

todo dia era dia de branco

Já se imaginou caindo, sem mais nem menos, dentro de uma aldeia indígena no coração da floresta amazônica? E, mais, tendo de repente que se comunicar numa dificílima língua indígena?

Pois bote reparo só na seguinte narrativa, que recolho do livro "Memórias de Brasileiros - Uma História em Todo Canto" (ed. Peirópolis, 2007). Quem se expressa é Teodoro Pasiku Pereira Xerente, nascido índio na aldeia Xavante Baixa Funda, em Tocantins:

"Na nossa casa se falava a nossa língua. Português é difícil. Eu me lembro da primeira vez que fui à cidade. Meu pai me levou para conhecer os brancos. Já tinha visto li na Baixa Funda um professor e as enfermeiras, mas não era muito, não. Nossa, quando cheguei na cidade, me espantei, fiquei nervoso de ver tanto branco. Fiquei com medo. Falei para o meu pai: 'Vamos embora, papai'. E ele: 'Não sinta medo, não, meu filho. Eles não mexem com ninguém, não'. Aí, o medo passou".

Não é genial? Não é impressionante como tudo depende dramaticamente do ponto de vista com que a gente olha?

Sexta-feira, Agosto 07, 2009

@pdralex #cricritwitter lucas santtana, "sem nostalgia"

Mais um experimento de (cri)crítica musical em pílulas via Twitter: "Sem Nostalgia" (YB Music, 2009), o novo disco independente do independente Lucas Santtana.

Nesse meio tempo, o experimento anterior, com "Não Vou pro Céu, mas Já Não Vivo no Chão", de João Bosco, causou o seguinte elogio do leitor Ivan:


"Confesso que já fazia um bom tempo que não ouvia JB. Acho que desde o Malabaristas do Sinal Vermelho, que considero muito bom também. Mas nada como um novo - e ótimo - disco para trazer um grande artista à tona novamente.

Em tempo, curti a crítica via twitter. Acho que isso pode evoluir ao ponto de você marcar com seus leitores audições simultâneas com comentários instantâneos.

Sei lá. Apenas uma idéia.

Um abraço,
ivan"


Sei lá digo eu, achei sensacional a sugestão do Ivan. Será?!

Mas, ops, voltemos ao Lucas Santtana, ao "Sem Nostalgia":


@pdralex #cricritwitter "Sem Nostalgia", de Lucas Santtana (@DIGINOIS).

@pdralex #cricritwitter "Sem Nostalgia" começa com o violão de "Noite de Temporal", de Dorival Caymmi, na versão de 1959 (se não me engano).

@pdralex #cricritwitter A 1a. faixa se chama "Super Violão Mashup", e se é mashup deve ser "Noite de Temporal" misturada com outra música, certo?

@pdralex #cricritwitter Se for, a segunda integrante da mistura eu não reconheço - alguém (re)conhece?

@pdralex #cricritwitter É fantástico, esse "Super Violão Mashup" do @DIGINOIS.

@pdralex #cricritwitter Eu adorei o "Sem Nostalgia".

@pdralex #cricritwitter Por sinal, "Sem Nostalgia" é o típico disco que cricríticos de música (pelo menos os paulistas) adoram.

@pdralex #cricritwitter A faixa 2, "Who Can Say Which Way", segue no mesmo pique, brilhante e vibrante.

@pdralex #cricritwitter É tão simples decifrar as lógicas que regem as diferenças público/cricríticos na apreciação de música, não?

@pdralex #cricritwitter # Basicamente, o público acha bom o que vende, mesmo que não seja bom.

@pdralex #cricritwitter E os cricríticos (pelo menos os paulistas) acham ruim o que vende, mesmo que não seja ruim.

@pdralex #cricritwitter (A faixa 3 é triste, soturna, numa linha bem inglesa, ou norte-americana, não sei bem. Bonita.)

@pdralex #cricritwitter E eles (os cricríticos) tendem a achar bom o que não vende, mesmo que não seja bom.

@pdralex #cricritwitter Por exemplo, um cara como eu, cricrítico apaulistado, jamais poderia dizer, num jornal, que ama o Fábio Jr.

@pdralex #cricritwitter Eu amo o Fábio Jr.

@pdralex #cricritwitter Mas, espera, o @DIGINOIS. A faixa 4, "Cira, Regina e Nana", também é espetacular.

@pdralex #cricritwitter Parece um pouco a 3, meio inglesa ou estadunidense, mas é em português. E bem brasileira, bem Brasil, Ben Brasil, Jorge Ben.

@pdralex #cricritwitter Quer dizer, some o Dorival mashup da 1 com o inglês "moderno" de 2 e 3, e encontre o Ben Dorival Lou Reed de 4.

@pdralex #cricritwitter Mas "Sem Nostalgia" é um disco para o grande público?

@pdralex #cricritwitter Não parece ser, embora Lucas seja filho de Roberto Sant'Ana, produtor de vários próceres MPB,...

@pdralex #cricritwitter ..., do grupo baiano "heróico" (Caetano, Gil etc.) a Jair Rodrigues e Alcione.

@pdralex #cricritwitter E embora Lucas tenha raiz tão baiana quanto, er, Ivete Sangalo e outros odiados por cricríticos que não podem amar Fábio Jr.

@pdralex #cricritwitter "Recado pro Pio Lobato" conversa com o Pará, talvez o lugar musical mais moderno-sem-aspas do Brasil (você conhece Pinduca?).

@pdralex #cricritwitter "Hold Me in" vai na linha deprimida-deprimente-depressora, o tipo que fãs de Daniela Mercury odiariam se conhecessem.

@pdralex #cricritwitter Também não me liguei muito, não, nas três primeiras audições.

@pdralex #cricritwitter Ops. Uma pausa pra um trabalho FORA do computador.

@pdralex #cricritwitter "Amor em Jacumã", samba-rock baiano batuta. Sons de grilos, parece.

@pdralex #cricritwitter Me lembro de "Os Grilos" (67), de Marcos Valle. Ou "Grilos" (72), de Erasmo Carlos. Ou "Grilo na Cuca" (79), de Dudu França.

@pdralex #cricritwitter Só fazem músicas ótimas com grilos?

@pdralex #cricritwitter "I Can't Live Far from My Music" é em inglês, mas não sei se parece mais nova-iorquina ou baiana. Ou carioca.

@pdralex #cricritwitter Ou se está mais pra Fábio Jr. ou pra Tiê. Lucas Santtana é um híbrido, uma coisa assim Marina Silva...

@pdralex #cricritwitter "Cá pra Nós" segue o modo menor, em português, bem lá longe faz pensar em samba. Híbrido de Nick Cave e Dolores Duran.

@pdralex #cricritwitter "O Violão de Mario Bros", rápida, precisa e concisa.

@pdralex #cricritwitter "Ripple of the Water", uma atmosfera muito Caetano em Londres.

@pdralex #cricritwitter (Caetano é popular ou impopular? Os cricríticos amam ou odeiam CV? O grande público sabe que CV existe, ou não está nem aí?).

@pdralex #cricritwitter Mais grilos em "Natureza #1 em Mi Maior"!

@pdralex #cricritwitter Acabou. Fica a questão sobre se "Sem Nostalgia" pode (e quer) realmente se comunicar com a massa.

@pdralex #cricritwitter Se bem que essa pode ser uma falsa questão: em tempos de Twitter etc., faz tanta diferença quantas cópias vai vender?

@pdralex #cricritwitter E, claro, a questão dos maniqueísmos público-cricrítica, vende/não-vende, se-comunica/se-trumbica, clichês pra lá e pra cá...

@pdralex #cricritwitter (O show do Tom Zé ontem também foi em modo menor. Mas de chorar. Lucas também é parente do Tom Zé.)

@pdralex #cricritwitter Clichês pra lá e pra cá? Acho melhor eu ir ouvir o novo da Ana Carolina...

@pdralex #cricritwitter Ana Carolina tem Twitter?

Quarta-feira, Agosto 05, 2009

blackesperto

E este, então?...

filosofia é poesia

Só porque deu vontade...:

Quinta-feira, Julho 30, 2009

leonard cohen, "pequeno judeu"

Como diria Maria Bethânia, chique do chique DO CHIQUE. O que é este homem dançando? O que é este homem branco dançando na chuva?



O "little jew" Leonardo Coim tentava prever o futuro em 1992, e em parte ficava parecendo o passado, 1984, o ano em que George Orwell achou que ia eclodir o Grande Irmão.

Acertou tudo ("there'll be the breaking of the ancient western code", "your private life will suddenly explode" e "and the white man dancing" são tão 2009, não?) e errou tudo (embora seja cedo demais para afirmar qualquer temeridade, t'esconjuro). Como Jorge Well.

E nós aqui, conversando sobre Orwell e Cohen dentro do Grande Irmão...

(Quem decifrou o que ele diz no trecho substituído por "pim" "pim" "pins"?)

Quarta-feira, Julho 29, 2009

defunto pobre de luxo não precisa

Só digo uma coisa: hoje é o #MussumDay.

E Mussúmzis está em todas as bôquis twittêiris, lá no topo dos assúntis mais comentádis do planêtis, ôbis!, obâmis!

Mas, sem brincadeira agora, hoje completam-se 15 anos da morte de Antonio Carlos Bernardes Gomes, o Mussum. Efemérides quase sempre são entediantes e modorrentas, mas não esta.

Afora o legado d'"Os Trapalhões" (pedaço inseparável da minha infância, portanto da minha vida inteira), Mussum foi por uma década integrante aguerrido do conjunto Os Originais do Samba. À época o que eles faziam era tido por "samba joia". O que à época era tido como pejorativo (nessa gaveta a ditabranca tentava empilhar Os Originais, Antonio Carlos & Jocafi, Benito di Paula, Baiano & Os Novos Caetanos, Wando, Bebeto etc. etc. etc.). Desde aquela época, era GENIAL. Por exemplo?

Os Originais cantaram o sambão "Cadê Tereza" (69) com Jorge Ben, mais Black Music do Brasil que Jorge Ben cantando "Cadê Tereza" (69) sozinho.



Criaram "Bacurucuco no Caterefofo" (69), mora? E "Vou Me Pirulitar" (69), também de Jorge Ben. E "Se Papai Gira" (69), idem.

Ganharam de Roberto e Erasmo Carlos o extraordinário SAMBA(-roque) "Eu Queria Era Ficar Sambando" (70) (e como duvidar que lá nas profundezas era isso mesmo que Roberto & Erasmo queriam?). Mais tarde (73), inventaram um desconcertante pot-pourri de canções de Roberto & Erasmo, colocando em tempo de sambão "Amada Amante", "Quando as Crianças Saírem de Férias", "Quando", "Todos Estão Surdos", "Debaixo dos Caracóis dos Seus Cabelos" e, até, "Jesus Cristo".

A gospel-power "Jesus Cristo" em tempo de samba, cê tá entendendo?

Também encaixaram em pot-pourris sambistas artistas tão semelhantes quanto Chico Buarque e Benito di Paula.

Cantaram "É de Lei" (70), de Baden Powell e Paulo César Pinheiro (bem no início, fizeram recital com Baden e a cantora Márcia, aliás).

Do samba de fundo de quintal, devidamente blackmusiqueado, libertaram "Linha de Umbanda" (71), de Lápis (sim, Lápis). "A Subida do Morro" (71). "No Reino da Mãe do Ouro" (75). "Bate Barriga" (72). "Do Lado Direito da Rua Direita" (72), clássiquis da músiquis popularzis brasilêiris.



"Falador Passa Mal" (73) (Simonal?), outra do sambista Jorge Ben, clássiquis do samba-róquis (gênero do qual Os Originais são co-autores).



"Tragédia no Fundo do Mar (Assassinato do Camarão)" (74), nonsense absoluto (será?).



"A Dona do Primeiro Andar" (75), "estou apaixond'apaixonado estou/ pela dona do primeiro andar/ peladona do primeiro andar". Quem pode ter sido criança, jovem, adulto ou velho nos anos 70 e não se lembrar vivamente disso?

"A Vizinha (Pega Ela, Peru)" (80), esta por Mussum em carreira solo. "Nega Besta" (80), idem, composta pelo baiano-&-novo-caetano Arnaud Rodrigues, já cantada em pleno idiômis mussumzês.



"Nego Véio Quando Morre" (77) (Mussum?), mito máximo dos meus 9 anos de idade..., que reencontro agora, assombrado e estupefato, no YouTube:



A Sony Music, ex-Sony BMG, ex-BMG, ex-RCA, é dona de todo o acervo colossal d'Os Originais do Samba. Nunca reeditou em CD mais que míseros três títulos do grupo. Mas quase todos eles estão boiando aí pela internet, disponíveis para download, ao alcance dos ouvidos por meios que exus tranca-rua do conhecimento e reacionários em geral juram "ilegais".

Só que tem que reacionário racista nenhum jamais vai sobrepujar Os Originais do Samba. Mussum forévis!

Segunda-feira, Julho 27, 2009

não vou pro céu, mas já não vivo no chão

Pílulas de crítica musical (?!?...) via Twitter, sobre "Não Vou pro Céu, mas Já Não Vivo no Chão" (MP,B/Universal, 2009), de João Bosco.

@pdralex "Teu sorriso é uma navalha/ Que abre o meu coração", na nova "Navalha", parceria outonal de João Bosco e Aldir Blanc.

@pdralex Depois na letra seguem umas coisas de "pregado na cruz", "Cristo na Paixão", bem diferente dos Bosco-Blanc dos anos 70...

@pdralex Bosco nunca para de ficar mais e mais maneirista. Mas, putz, que GRANDE músico/compositor/artista.

@pdralex Aí as letras do Carlos Rennó... Verborrágicas... Tristonho, o disco do Bosco (até a quinta faixa).

@pdralex Sob um tanto de pompa, estão bastante tristes também as letras do filho dele, Francisco Bosco.

@pdralex Em "Tanajura" reaparece (enfim!) a linha afro-índia de Bosco, sua mais impactante invenção nos anos 80. Letra quase humorada do Francisco.

@ ericosanjuan @pdralex Ainda bem que no CD novo do João Bosco limaram aqueles scats dele. Só ele se divertia fazendo aquilo.

@pdralex Mais Bosco e Blanc, "Mentiras de Verdade": "Com a boca eu me despedi/ Minhas mãos desdisseram: não, não". Outonal, e tristíssima...

@ pdralex...E aquele simbolismo bem Aldir Blanc: "Coleira de cetim/ Quero esquecer de mim".

@ pdralex Em "Jimbo no Jazz", o parceiro é o brabo Nei Lopes, mais Aldir Blanc que o próprio Blanc!

@ pdralex Letra 100% afro do Lopes: zanga, jongo, candango, fandango, tangolomango, quenga, sacurupemba, tunga, gago, banzo, piongo, mambo...

@ pdralex Aliás, alguns ápices da poesia simbolista hiper-realista Bosco-Blanc: "De Frente pro Crime", "Caça à Raposa" (75), "O Rancho da Goiabada"...

@ pdralex ...(76), "Tiro de Misericórdia", "Linha de Passe" (77), "Comissão de Frente" (82)... Dona Elis deitou e rolou por ali...

@ mauriciostycer Crítica do novo CD de João Bosco em pílulas de 140 carac. Novidade de @pdralex

@ ericosanjuan @pdralex Só num disco de Bosco-Blanc o Paulinho da Viola diria o verso "soltar um barro"...

@ pdralex Aí Clementina gravou "Ingenuidade", em 76, aí Roberto Ribeiro regravou (79), aí Dona Inah regravou (2004), aí Caetano transambou (2009)...

@ pdralex ...Aí Bosco também regravou (2009). O autor é Serafim Adriano. Quem é Serafim Adriano?

@ laurose @pdralex Fora o violão do João Bosco não é Pedro? Cada dedo é um instrumento de escola de samba. Tenho uma teoria que ele e o Tavinho Moura

@ pdralex Tem um leve bafo pedófilo, essa "Ingenuidade", não?

@ laurose@pdralex ... mudaram o jeito de tocar violão no Brasil nos anos 70. Uma pena que ambos tenham se deslumbrado demais c/ a técnica.

@ laurose @pdralex Tavinho Moura não, Toninho Horta. Confundi os conterrâneos. Tavinho é muito bom pra se deslumbrar...

@ laurose @pdralex ... mudaram o jeito de tocar violão no Brasil nos anos 70. Uma pena que ambos tenham se deslumbrado demais c/ a técnica.

@ pdralex "Sonho de Caramujo" termina o CD magistralmente, após uns cochilos. "Eu moro dentro da casca do meu violão" (boa definição pra MPB 2009?)...

@ pdralex Moral da história? Nenhuma..

@ gafieiras @pdralex um pouco sobre serafim adriano. http://migre.me/4eEB.

@ pdralex @laurose verdade, Lauro, violão fenomenal!!! Mas às vezes parece que ainda estamos naquelas de João Gilberto...

@ pdralex @mauriciostycer :-)

@ pdralex @ericosanjuan Hahahaha! E tem gente que assusta com o linguajar, er, chulo de Bosco & Blanc, né?... Eles eram era Lula muito antes de Lula.

@ pdralex @laurose Faz sentido, sim.. Problema é que os caras (e a gente) envelhecem(os), né?...

@ pdralex @gafieiras Dafne, pelo pouco que se lê ali, Serafim parece sambista de linha popular (Agepê etc.), adotado por alguns emepebistas, né?

Apenas primeiras impressões a serem referendadas, ou não. Mas, pesquisa: você (ainda) ouve João Bosco?

Quarta-feira, Julho 22, 2009

quarta-feira no país das maravilhas (existe?)

Retomo agora o fio da meada do debate suscitado pelo texto copiado no tópico anterior (cruzes!), cuja íntegra existe aqui. Disse assim o Nando (vou transformar tudo em itálico e em um parágrafo só, para não confundir, combinados?):

"Pedro, devemos firmar nossas convicções tenham elas importância ou não, não é? Mesmo que aconteça 'o tempo todo'. Lembremos que Zé Ramalho quase teve sua carreira (opa) fulminada por conta de um plágio com... uma revista do Hulk (que não deu em nada porque a revista tampouco havia dado - opa - crédito ao poema original - de W.B.Yeats, pelo que me lembro. E, claro, dinheirinho sempre no meio, como no caso do George Harrison, puta bolada ele teve que pagar a quem compôs 'He's so fine'. 'Sei lá, a gente age como se 'direito autoral' fosse um conceito natural, mas não é, não é. É invenção industrial pra enriquecer engrenagens muito maiores(...)'. Hmmm. Tem um cadinho mais de complexidade aí, creio. A criatividade cria um vínculo poderoso entre nossa subjetividade e nossos atos, com um tanto de responsabilidade a ser trabalhada aí no meio, ainda mais com quem arrasta séquitos sedentos de... originalidade. Só estou aqui no seu blog porque é o SEU blog. Ou seja, pelo que você produziu, produz, produzirá. Não gosto de ser enganado, Pedro. Não gosto de ouvir 'Canto para minha morte', pensar 'Esse cara é muito foda, um gênioooo!' e depois ouvir 'Balada para mi muerte', com Piazzola e Amelita Baltar e pensar 'Piazzolla fez versão de Raulzito, o que é isso? Não. Eu é que sou um trouxa completo!'. Mas a farsa do Raul não se resume aos plágios, vai a outras esferas como a 'filosófica', a 'mística', a 'contestadora' e por aí vai. Já fui fã demais dele, hoje o considero um bom artista, com a grande sacada de fazer um puta crossover entre rock'n roll e ritmos tradicionais do nosso país. E com um humor peculiar que até hoje me faz rir. Só. O resto é uma grande enganação. Carismático, inquieto, provocador. Ok. Espetacular? Genial? Hmmm. Abraço".

Mas, então, ontem passeei pela minha amada Galeria do Rock, aqui de SP, e logo de cara tomei um baita susto: a Baratos Afins tinha mudado de nome!!!! O logotipo era o mesmo de sempre (um logotipo que, por sinal, me atiça tanto quanto - ou um pouco menos que - o da... Apple?), mas agora a loja chamava outro nome que não consigo lembrar. "Aconteceu uma tragédia!", pensei já desesperado. Mas não, não demorou para eu perceber toda a parafernália de gravação, e a Carol, filha do Luiz Calanca, me explicar que era a Globo, uma gravação da "Aline"... Ufa!

Refeito do susto, mal dei meia volta para não entrar na gravação (nem encontrei o Calanca, chuif) e, mais um susto!, trombei de cara com uma estátua do Raul Seixas em tamanho natural (também há uma outra, do Michael Jackson, mas deixa isso pra lá por ora). Era bonita, a do Raul, mas olhar pra ela me deu uma vontade de chorar... Não só de saudade daquela figura engraçada que era o Raul, mas também, e talvez principalmente, pela constatação de que já não existe mais a maioria daquelas lojinhas de CDs que quando eu cheguei em São Paulo me faziam ter tremedeira de tanto desejo (coisificado?) e de tanta "novidade" que pareciam guardar... Agora, no lugar delas, vendem camisetas, bonecos plásticos de ídolos pop, tatuagens... CD ainda existe aos montes (principalmente de heavy metal), mas no geral parece ter virado artigo de quinta linha na galeria do... rock. E ainda não conheço susto maior do que esse, musicalmente falando.

Não sei bem por que o comentário do Nando me fez imediatamente lembrar disso tudo, suponho que pela constatação de que as coisas mudam tanto e tão depressa que nem dá tempo mais de lamentar que não são mais como eram a Galeria do Rock, o Raul, o logotipo da Baratos Afins, os direitos autorais, nem a gente mesmo... E também, evidente, por esse cruzamento de referências ao Raul Seixas.

Tenho certeza de que eu começar a "defender" o Raul do "ataque" do Nando não seria um bom caminho. Não, não é o caso de transformar isso numa queda-de-braço colateral às questões de direito autoral e, principalmente, de classe na música "popular" brasileira - concorda, Nando? Por meu turno, concordo com o ângulo, totalmente coerente e plausível, com que mira o "maluco beleza", mas posso apenas somar outro, que não reafirma nem nega o seu?

Quero dizer, deixa eu (pintar o meu nariz, deixa eu) tentar reproduzir o que penso/sinto por ouvir minha adorada "Meu Amigo Pedro" (epa!) e, muito tempo depois, descobrir que a melodia foi chupada de "Billy", tama de filme de faroeste escrito pelo Bob Dylan. Penso e sinto mais ou menos assim: "Putz, que safado larápio genial esse Raul Seixas! Chupou o Dylan, e o Dylan não ficou nem sabendo! E ainda por cima fez uma música MELHOR que a (er) 'original'??! Cachorro(-urubu)!".

Bem, os gringos também copiam a gente volta e meia, né? O Rod Stewart precisou amaciar o Jorge Ben, não sei como, por ter plagiado "Taj Mahal" em "Da Ya Think I'm Sexy?". Eu também adoro o Rod Stewart dos anos 70/80 (muito menos que o Ben, mas, vá lá, os dois têm lá algum parentesco - como Zé Ramalho não deixa de parecer meio primo distante do Incrível Hulk), e não consigo deixar de gostar do "teretetetê" do loiraço ex-coveiro "só" porque ele "plagiou" meu ídolo...

Aliás, não é só ele. E os Black Eyed Peas, que enfiaram um pedação de "Cinco Minutos" dentro de "Positivity" e nem sequer colocaram Jorge Ben de coautor? (Será que o Ben chiou - alguém sabe? -, ou nem dá bola mais?) Mas, de novo, quem diz que eu consigo não gostar dos B.E.P.? (Hum, o disco novo é meio ruim, ou é impressão minha? Alguém baix... comprou? A capa é bonita, meio Matrix misturado com Incrível Hulk...)

Conclusão disso tudo aí? Sei lá! Talvez que eu tenho certa queda por certos "plagiadores"...

Outra: concordo e me envaideço com seu comentário sobre a "originalidade", mas... Acredita que quando escrevo eu não tenho a menor noção sobre se estou ou não estou plagiando alguém involuntariamente? São tantos zilhões de pessoas, para apenas 46 cromossomos... Sem contar os títulos, todos "copiados" de letras de músicas... Sei, você vai dizer que "plagiar" sem querer não se iguala a "plagiar" no veneno, e concordo também, mas... até aí morreu Neves, né?...

E, de mais a mais, sabe quantos centavos recebo em direitos autorais pelo que escrevo neste blog, pelo que estou escrevendo neste exato instante? Zero milésimo de centavo de real, ou dólar, ou yen, ou libra marciana. Se direito autoral existe, cadê o meu?!

E, desafio alguém a me convencer do contrário, isso que acabei de falar no parágrafo acima tem um outro nome, bem mais pomposo: crise do capitalismo global. Em breve Walt Disney não vai mais continuar a ganhar (ué, mas ele já não morreu, uns 50 - ou 10 mil - nos atrás?) tamanhas fortunas em cima da carcaça do Mickey Mouse, - que também, por sinal, foi "plagiado" de alguém, e não "inventado" pela originalidade de papai Disney.

Como diz minha amiga Márcia, o original não se desoriginaliza. Mas e o desoriginal, será que não se originaliza?

Não que eu aprecie ser copiado sem receber crédito, independentemente de reais, dólares, yens ou libras venusianas, mas a pulga continua atrás da minha orelha: qual será a questão real por trás disso tudo?, qual será a natureza (dinheiro? ética? originalidade?) da(s) questão(ões) por trás disso tudo?

Quem compôs "Luar do Sertão"? "Asa Branca"? "Águas de Março"? "Marinheiro Só"? "Cuidado com a Fura"? Quem é o pai da Branca de Neve, ou do Capitão Gancho? Qual é a "verdadeira" identidade do Batman, do Super-Homem, da Mulher-Maravilha? Quem tem (quem não tem?) passaporte para copiar?

E aquela outra questãozinha, sobre os preconceitos de classe? Onde encaixar? Voltamos a ela, ou deixamos para lá?

fim-de-semana em eldorado 2

Há um tópico já bem lá embaixo, chamado "fim-de-semana em eldorado", em que a discussão continua até agora a pleno vapor. Estava respondendo lá ao Nando, que foi quem manteve a chama acesa, e me ocorreu que muito mais legal seria tornar essa discussão um pouquinho mais, er, pública, menos escondida que lá na janelinha vermelha de semanas atrás - topas seguir aqui, Nando?

Vou colocar então a ideia em ação, primeiro reproduzindo o texto (da revista Cult número 137) que suscitou o diálogo com o Nando, vai ele aqui, e em seguida vem mais, no próximo tópico.


Questão de gosto?

Ainda há sumo para espremer da surrada discussão sobre o que nos leva a eleger ou rejeitar uma música ou artista

PEDRO ALEXANDRE SANCHES

Johnny Alf completou 80 anos em 19 de maio de 2009, poucos meses após o encerramento do festivo ano de comemoração dos 50 anos da bossa nova. Diferentemente do movimento que ele ajudou a pavimentar e que atravessou 2008 mimado em museus, pavilhões e ocas, Johnny passou seu aniversário num hotel-residência para idosos, em Santo André, no ABC paulista.

Johnny Alf é um artista brasileiro, carioca, negro, de origem suburbana, largamente reconhecido como iniciador e inspirador de versos e notas musicais que se tornariam mundialmente consagrados como “bossa nova”. Ainda assim, parabéns a ele nesta data querida a comunidade cultural brasileira ofereceu com resistente parcimônia. Mesmo mestre inconteste (e em parte por temperamento próprio), tem se colocado historicamente à margem da bossa e de outras bossas.

Unha e carne daquele movimento foram os cariocas Tom Jobim & Vinicius de Moraes, como todo mundo sabe. Galã além (ou aquém) de gênio, Tom deslizou pela música e pela moda montado em fina estampa de garotão de Ipanema. Vinicius era ex-estudante em Oxford, ex-crítico cinematográfico, poeta consagrado e ex-diplomata em Los Angeles e Paris quando, já maduro, vestiu melodias em versos como tristeza não tem fim/ felicidade, sim.

João Gilberto, 78 anos recém-completos (como será a fatídica efeméride de seu 80o aniversário?), é baiano interiorano, de Juazeiro. Mas nasceu filho de pais prósperos e dono futuro de uma batida de violão que o diferenciaria de todos os demais mortais. A partir de 1958, gravitariam em torno de sua aura dezenas de jovens músicos oriundos da brisa zona sul do Rio de Janeiro (e do sexo masculino, em maioria absoluta, mais uma Nara Leão aqui, outra ali).

Roberto Carlos, 50 anos de carreira musical nesta noite, tentou fazer bossa nova antes de virar Roberto Carlos. Vindo do interior do Espírito Santo, Cachoeiro do Itapemirim, principiou perseguindo as modas da hora, notadamente aquela orquestrada pela voz pequena de João Gilberto. Surgiu, é fato, titubeante e desoriento, mas, como todo mundo sabe, não é verdade que talento não possuísse. É pública e notória a historinha de que ao tentar se intrometer nas rodas finas da bossa foi congelado pelo desprezo de onze em cada dez daqueles jovens que orbitavam a lâmpada de João. Quem RC teria sido se a bossa não o tivesse desdenhado, jamais saberemos.

Assim como seus chapas Wilson Simonal, Erasmo Carlos, Jorge Ben e Tim Maia, Roberto morava no outro lado da cidade, zona norte, subúrbio. Para encontrar afluentes desobstruídos do rio chamado sucesso, precisaram, cada um à sua maneira, contornar a pontuda ilhota da bossa nova e inventar suas próprias engenhocas musicais, de preferência bem distantes da língua materna.

Não se está tentando dizer aqui que a bossa nova era (e é) um castelo elitizado ao sopé do terreiro depois batizado de MPB, música POPULAR brasileira. Era e é, e também isso todo mundo sabe. O que aqui se quer afirmar é que esse castelo (o da MPB como um todo) foi construído sobre a lógica violenta da luta de classes. [O mesmo eu poderia falar de minha própria profissão, o jornalismo, mas isto é outra conversa.]

Ou não seriam de origem social e tom da pele as mais gritantes diferenças entre Tom & João, de um lado, e Johnny Alf, do outro? Consta que Jobim chamava Johnny de “Genialf”, mas isso nunca foi divulgado pelo autor de Eu e a Brisa, nem foi legitimado pela comunidade que, insinuava o próprio maestro soberano, tinha (tem?) vergonha de ser brasileira. E essa é uma história corriqueira, exemplos se amontoam.

Antes de se tornar política e eticamente condenável, Simonal se tornou musicalmente grosseiro, pilantra, artífice da “pilantragem”, inverso simétrico (e negro) das sutilezas e dos maneirismos de outras bossas. Talvez tenha perdido a chance do perdão antes mesmo de - digamos em termos puritanos - pecar.

Para se tornar semi-unanimidade, a suburbana gaúcha algo abrutalhada Elis Regina teve de passar por um longo e dolorido processo de... “depuração”, “sofisticação”. O preço foi provavelmente alto demais para uma indomável que se tentava domesticar.

Jorge Ben (Jor) faz a turma toda dançar até o sol raiar, mas a oalguém escuta a oficialidade bradar que Jorge é João, que Jorge é gênio, que Jorge é Jobim? Por que será que não?

No seio da música mais popular brasileira, aquela à que foi negado o título de nobreza (fajuta?) “MPB”, a sutileza jamais foi reconhecida. Não faz diferença se é Waldick Soriano ou Odair José, o sujeito que venha de fora do eixo político-geográfico e não seja escolado está desde o berço condenado a não ter bossa, a não ser tropical(ista), a não saber fazer MPB. Sobre isso Paulo César de Araújo discorreu brilhantemente no libertário livro Eu Não Sou Cachorro, Não – Música Popular Cafona e Ditadura Militar (Record, 2002).

Chego finalmente à afirmação que mais gostaria de fazer. Somos (fomos?) uma coletividade que finge se importar (e se incomodar) com música baseada em critérios estritamente estéticos. É mentira. Do alto de nossos pedestais, costumamos discursar aos sete ventos contra a suposta “pobreza” musical de baladas românticas, boleros, modas sertanejas, raps e funks “americanizados”, pagodes “mauricinhos” (mas quem são mesmo os mauricinhos, cara-pálida?).

É mentira. Apreciação estética está lá atrás em nossas listas de prioridades – não raro enchemos a boca para miar que não ouvimos e não gostamos deste ou daquele “cafona”. Não, os regentes de nossos “gostos” e “sensibilidades” musicais são mesmo os nossos preconceitos - sobre cor da pele, status social, sexo, orientação sexual, escolaridade ou o que for. A estética, coitada, é o bode expiatório que paga todo o pato. Não fosse assim, Johnny Alf talvez morasse dentro do castelo da MPB. Mas aí Johnny Alf não seria Johnny Alf.

Sexta-feira, Julho 17, 2009

pão & circo

Este texto foi publicado na edição 551 (24 de junho de 2009) da "CartaCapital", sob o título "Currículo oculto". O Barenbein, depois, disse que gostou, e retificou apenas um dado: ele atualmente é produtor musical da Record, e não "diretor musical".



POR PEDRO ALEXANDRE SANCHES

Manoel Barenbein não é um nome nem um rosto largamente conhecido. Mas completa neste ano uma rota de 50 anos dedicados (com algumas interrupções) ao ofício da música brasileira. Mesmo anônimo perante a maioria do público, esse paranaense de 66 anos foi o produtor por trás de marcos musicais como A Banda e Roda Viva, com Chico Buarque, Alegria, Alegria e Tropicália, com Caetano Veloso, Domingo no Parque e Aquele Abraço, com Gilberto Gil, Baby e Divino, Maravilhoso, com Gal Costa, País Tropical e Que Pena, com Jorge Ben(Jor) e Vem Quente Que Eu Estou Fervendo e De Noite na Cama, com Erasmo Carlos, entre inúmeros outros.

Técnico de som do histórico show Dois na Bossa, que uniu Elis Regina e Jair Rodrigues e ajudou a fundar a sigla MPB, Barenbein tomou rumos mais discretos que os dos medalhões de sua geração. Há pouco viu chegar às lojas o primeiro disco de um colega de geração a conter sua assinatura à frente desde o início dos anos 1970. Reaparece como diretor musical de Festa para um Rei Negro (Universal), CD e DVD de comemoração dos 50 anos de carreira e 70 de vida de Jair Rodrigues. Barenbein produzira todos os discos de Jair entre 1968 e 1971, o que engloba sucessos como Casa de Bamba, Pra Que Dinheiro, Irmãos Coragem e Festa para um Rei Negro.

Antes do hiato, passou à história como produtor de rigorosamente todos os discos do movimento tropicalista gravados na Philips brasileira, entre 1967 e 1969. Tornou-se, como era próprio da brechtiana linguagem tropicalista, um produtor que aparecia dentro das músicas. Em Pega a Voga, Cabeludo (1968), Gilberto Gil e os Mutantes cantavam em coro: Ê, Manoel, para de encher!

“É, tinha ‘Manoel, me dá um cricri’... Era uma coisa divertida, não tinha uma lógica. Essas coisas eram mais dos Mutantes, brincadeira deles mesmo, descontração”, esquiva-se, sorridente, de justificar sua popularidade naqueles discos.

Em 1971, quando boa parte da tropicália e da MPB se espalhavam em diáspora pela Europa, Barenbein mudou-se para a Itália, onde trabalhou na filial local da Philips. Na volta, por razões até hoje difíceis de compreender, não se reaproximou do elenco que ajudou a impulsionar, e que incluiu ainda Nara Leão, Maria Bethânia, Marília Medalha, Toquinho, Claudette Soares, Rita Lee.

Diz que não houve desavença alguma na partida para a Itália: “Ao contrário, tanto que dois anos depois voltei para a companhia. O que tem é que André (Midani, presidente da Philips brasileira à época) me chama de louco, de ter largado tudo que eu tinha para ir para a Itália ser assistente de produção”.

E explica: “Fui recomeçar uma coisa minha, eu estava em busca de alguma coisa diferente, de alguma abertura. Segui por outros caminhos. Na realidade a separação, a minha ida para a Itália, mudou meu relacionamento. Obviamente, o espaço foi ocupado, e você volta para fazer outras coisas”.

Lidar com televisão, mas ainda com música, foi uma dessas coisas. Trabalhou no SBT nos anos 1980 e novamente nos 2000. No intervalo, abriu uma gravadora independente, depois um escritório para empresariar novos artistas. “E uma coisa complicada de fazer. Não deu certo”, diz. Há quatro anos tornou-se diretor musical da Rede Record, onde coordena trilhas sonoras de novelas e do reality show A Fazenda, entre outros programas.

Conduzida pela cantora e compositora gaúcha Laura Finocchiaro, a intricada sonorização do reality show suscita a reflexão de Barenbein sobre as transformações tecnológicas que o meio musical não para de viver. “Comecei a viver um mundo que mudou. A tecnologia é um mundo à parte para mim, não me desenvolvi com ela”.

O produtor exemplifica: “Obviamente sei quando o som está certo ou errado, o que não sei é chegar no computador, no pro-tools, com todos os seus apetrechos. Para quem viveu como eu e gravou com dois canais, hoje ter 54, poder transportar com o mouse uma nota do instrumento e substituí-la por outra... Tem horas que isso tudo é um choque para mim.”

Os Barenbein, conta, eram judeus de origem polonesa. “Meu pai nasceu numa cidade que era fronteira da Rússia com a Polônia. Então ele era russo quando os russos invadiam e virava polonês quando os russos iam embora. A Rússia tinha invadido e tomava conta, e ele foi convocado para o exército russo. Fez sentinela a 23 graus abaixo de zero.”

O pai veio parar em Ponta Grossa (PR), onde teve distribuidora de cereais, depois posto de combustível, ficou doente, vendeu tudo para pagar as dívidas e migrou para São Paulo, quando Manoel tinha 7 anos. “Aqui, meu pai e minha mãe faziam um trabalho que faziam os imigrantes, principalmente os judeus e os de origem árabe. Eram mascates. Enchiam duas malas de roupa, pegavam o trem e iam para São Bernardo, São Caetano. Prédios não havia, eram casas, você podia bater à porta e oferecer coisas. Hoje não tem mais como fazer isso”, evoca.

Embora classifique os anos na Philips brasileira (de 1967 a 1971) e o tempo da invenção tropicalista como o “momento mais importante da minha vida”, vinha de longe sua ligação com a indústria musical. Na adolescência, por paixão pessoal, viveu entranhado no mundo do rádio, onde se iniciou em 1959. Aos 16 anos, conseguiu por intermédio de um amigo em comum acesso ao bastidor do programa de Walter Silva, o Pica-Pau, na Rádio Record.

“Fui, sentei lá na mesa, tocou o telefone, instintivamente eu atendi. Até hoje todo mundo tira sarro de mim, como toca um telefone e você já vai pondo a mão? Comecei a ir lá para atender telefone. Virei uma espécie de assistente do Walter”.

Quando o pai adoeceu novamente, precisou formalizar um emprego, e foi ser office-boy da gravadora RGE, onde Silva também trabalhava. “Naquele tempo não havia contradição”, ri. “Apesar de trabalhar em rádio, ele trabalhava na divulgação da RGE. Fui para lá, meu primeiro chefe foi José Bonifácio de Oliveira Sobrinho. Numa analogia com hoje, Boni era o diretor de marketing, e Pica-Pau, o gerente.”

De boy, passou a assistente de divulgação. O primeiro trabalho foi levar a um radialista o disco com Balada do Homem sem Deus (1959), na voz de Agostinho dos Santos. Em 1961 seria o divulgador do primeiro e imaturo disco da então adolescente Elis Regina, pela gravadora Continental.

O primeiro trabalho como produtor viria somente em 1966, quando descobriu Toquinho e convenceu a RGE a lançar seu LP de estreia. Em menos de dois anos, produziu discos de Zimbo Trio, Walter Santos, Claudia, Claudia Barroso e Erasmo Carlos. O ponto alto desse período se deu no primeiro álbum de Chico Buarque (com A Banda, Pedro Pedreiro e Olê Olá), ainda em 1966.

Lembra-se de Chico quando discorre sobre a fase italiana: “Lá cheguei a coordenar a produção de um compositor que ninguém queria como cantor, e ele também não queria gravar. Era Umberto Balsamo, sua primeira gravação, Natali. Repetiu-se um pouco a história de Chico Buarque, que no primeiro momento também não queria gravar”.

A partir de A Banda, integrou-se à era dos festivais e encontrou passaporte para a Philips, então em transição para se tornar, anos 1970 adentro, a gravadora mais disposta a ousar e lançar novos artistas no Brasil. O envolvimento máximo se daria no festival da Record de 1967, cujo repertório a Philips gravou em três discos. “Das 36 músicas classificadas, gravei 23 aqui em São Paulo. Seriam 24, mas Ponteio (que seria a vencedora) acabou indo para o Rio, porque Edu Lobo se sentia melhor gravando lá. Entre essas 23 estavam Domingo no Parque, Alegria, Alegria, Eu e a Brisa (de Johnny Alf, desclassificada antes da final).”

Começava a fumegar a locomotiva tropicalista, que, segundo ele veio concretizar as suas melhores expectativas. “O encontro com Caetano, Gil, os Mutantes e Rogério Duprat (o maestro por trás de grande parte dos anárquicos arranjos tropicalistas) era uma coisa que eu já sonhava. Na RGE eu convivia com Chico de um lado e com Erasmo do outro”, rememora. “Eu tinha um desespero de querer ver como ficaria a música brasileira não com o ritmo do iê-iê-iê, mas com alguma coisa da identidade dela e usando baixo elétrico, guitarra elétrica, uma sonoridade que vinha dos Beatles. Como seria a música brasileira fazendo isso? O destino quis que eu fosse parar ali.”

As experiências de seu “momento mais importante” ele veio reviver nestes anos 2000, não só no reencontro com Jair Rodrigues, mas também na produção do show de Caetano Veloso nos 450 anos de São Paulo, no cruzamento das avenidas Ipiranga e São João. Jair cantou com Caetano um pot-pourri de Dois na Bossa, que Barenbein recorda com gosto: “Foi fantástico, eles inverteram as vozes. Jair cantou a parte da Elis e Caetano cantou a parte do Jair. Rever aquele momento, com público, exatamente como foi no Teatro Paramount, são momentos que matam”.

Se hoje, nas trilhas da Record, busca revelar vozes novas como Mariana Belém (filha de Fafá de Belém), Mariana Bravo e Cláudia Gomes, na volta da Itália a garimpagem pelo novo tomou contornos curiosos, e até hoje nunca estudados com seriedade. Recontratado pela RGE, Barenbein passou a gravar artistas com nomes como Paul Denver, Tony Stevens, David D. Robinson, Harmony Cats.

Talvez ele tivesse voltado americanizado da Itália, mas não, não virara produtor de artistas estrangeiros. Eram todos brasileiros. É que em 1974 um certo Morris Albert (na realidade Maurício Alberto) estourara nas paradas de sucesso com a balada Feelings, e essa se tornou entre os diretores de gravadoras uma tendência a ser perseguida.

Ainda na Philips, ele assistira à criação de Pete Dunaway (Otávio Augusto, que segundo Barenbein era sobrinho de Boni) e Mark Davis, futuro Fábio Jr. Tony Stevens era Jessé, David D. Robinson era Dudu França, Chrystian faria sucesso mais tarde em dupla sertaneja com Ralf. “Boa parte desses nomes fui eu que inventei”, diverte-se o produtor.

Ele justifica a construção de ídolos românticos de que os brasileiros não conheciam nem sequer os rostos, diligentemente mantidos em segredo pelas gravadoras: “Quando cheguei à RGE, o Brasil estava meio fechado. De um lado estavam a Philips e a Odeon com MPB, eu não tinha nem como concorrer pela força, pelo catálogo e pelo elenco que tinham. E do outro lado havia Continental e Copacabana, com elencos populares, eu também não tinha como concorrer. E a gente decidiu apostar nesse mercado em inglês.”

Haveria algum paralelo possível entre a tropicália e a onda dos ídolos “estrangeiros” sem rosto? Seria um movimento herança do outro? “Não, a tropicália não era cantada em inglês, não era para passar como gravação internacional. Essa outra onda era para dizer que a gente conseguia fazer um internacional tão bom quanto o importado, que tínhamos artistas que podem cantar em inglês”, responde, antes de partir, ainda pela manhã, para um dia cheio de trabalho com A Fazenda.

Domingo, Julho 12, 2009

...meu olhar se perde na poeira...

Ontem à noite, lá no Twitter, meu @pdralex fez uns comentários talvez um tanto embebidos em vinho sobre o especial de Roberto Carlos no Maracanã.

Mas, revendo hoje, creio que posso repeti-los todos, os comentários, sem muitas vírgulas ou reparos.

O reencontro com Erasmo Carlos foi absolutamente emocionante, à parte os clichês à la "Amigo". "Sentado à Beira do Caminho", lançada quando Roberto desembarcara da jovem guarda e quando o principal (e fundamental) parceiro deu uma descarrilada por não saber que caminho tomar, sempre foi o tema de Erasmo, por excelência. Mas, quando Roberto foi vencido pela emoção (isso não é assim tão frequente, à parte os clichês de "Emoções") e se deixou desmontar e desmoronar (é raro, raríssimo, isso acontecer, não?), ele ficou de repente com uma expressão de "Sentado à Beira do Caminho" que eu nunca havia visto no rosto (e no corpo) dele. Arrepiante (e muito adequada de notar, nestes dias de frisson-Michael-Jackson), a mecânica da solidão e do abandono no rosto (e no corpo) daquele(s) que tem bem mais de 1 milhão de "amigos".

Mas, "Sentado à Beira do Caminho" à parte, o momento matador, para mim, foi a sequência formada por "Aquela Casa Simples" (uma maravilhosa e bem pouco percebida canção de 1986), "Meu Querido, Meu Velho, Meu Amigo" (1979, para o pai) e "Lady Laura" (1978, para a mãe). Fusão das memórias dos pais e da casa de origem, aquele bloco foi mais ou menos o que viria a desaguar depois em "Sentado à Beira do Caminho": a retórica da solidão e do abandono condensadas e sublimadas no rosto (e no corpo) do homem com o olhar mais triste que já existiu.

(Ai, e não me vem com aquele nhenhenhém de "especial de RC já basta o de Natal"... É tão fácil mudar o canal, e são tantos os canais. Mas, como o Twitter bem demonstrou, quase ninguém saiu de casa - nem da tela da dona Globo - ontem à noite. Seja sob sorrisos ou muxoxos, pouquíssimos de nós ficam incólume à passagem da história em frente de nossos metálicos narizes. E eu, apesar de ter demorado horrores para aderir, amo o Twitter!)

Quarta-feira, Julho 08, 2009

...por descuido abriu uma carta que voltou...

Alguém me belisca, pra eu ter certeza de que estou mesmo acordado?

Tomei um susto que me abriu a boca quando fui lá no meu e-mail UOL (que anda quase completamente abandonado apesar de eu ser assinante do dito cujo UOL) e encontrei a seguinte mensagem, sob o título "O Clube UOL tem um recado importante para você!" (os grifos e itálicos são devidamente meus):

"Estamos readequando a categoria dos nossos assinantes no Clube UOL conforme a pontuação mensal.

Como hoje você não atinge 150 pontos/mês, significa que em breve você pode deixar o Clube UOL VIP para ser incluído no Clube UOL Assinante, onde você continua participando de todas as promoções e possui ótimos descontos e benefícios - não tão exclusivos quanto os do Clube UOL VIP.

Para fazer parte do Clube UOL VIP é necessário ter mais de 9 meses ativos no UOL, somar 150 pontos/mês, onde cada Real pago no UOL vale 5 pontos e não atrasar o pagamento de nenhuma fatura.

Veja o que o UOL recomenda a você para somar 150 pontos/mês e continuar sendo um assinante VIP:

• Produtos de segurança: navegue mais seguro.
• Assistência Técnica: tenha dúvidas e problemas resolvidos.
• Emprego Certo: tenha acesso às melhores vagas do mercado.
• UOL Garantido: seguro que cobre a sua assinatura em caso
de desemprego.
• Voip: economize nas ligações.
• Wi-fi: internet sem fio em alta velocidade"
.

Signifique isso o diacho que significar, o fato é que se passaram onze horas e uns quebrados e já recebi mais um e-mail do UOL, agora sob o título "Desconsiderar mensagem do UOL" (esse nem precisa de grifo):

"Enviamos indevidamente um e-mail informando sobre a readequação da categoria do Clube UOL VIP.

Por favor, desconsidere a mensagem, você continua sendo um assinante Clube UOL VIP.

Pedimos desculpas e agradecemos a compreensão.

Aproveitamos para relembrá-lo que o novo Clube UOL foi lançado em Maio e que o Clube UOL VIP tem muito mais estabelecimentos com descontos exclusivos.

Equipe UOL
"

Até agora eu não entendi se pertenço ao clube dos adequados, dos readequados ou dos inadequados. Aliás, sendo bem sincero, quem disse que eu preciso dessa porcaria de "Clube UOL VIP" pra qualquer geringonça nesta minha pobre vida? Aliás ao quadrado, quem me perguntou se eu queria ser UOL VIP? Ninguém.

Tudo bem, dane-se. O que me aflige é outra coisa, uma outra pergunta que ronda minha cabeça feito mosca na sopa: eu entendi direito ou o portal que EU assino está esnobemente ME ameaçando, em vez de me tratar graciosamente como SEU parceiro e cliente???

OK, dr. UOL, cordeiro que sou eu obedeço e desconsidero a mensagem que não compreendi e menos ainda apreciei. Mas deixo copiadas aqui, ela e a prima grosseirona dela, com pretensões à posteridade. Quem sabe estas singelas mensagenzinhas façam o sr. se lembrar novamente de mim num futuro não muito distante, caso decida continuar mesmo com essa mania besta e belicosa - mariposa em volta da lâmpada - de agredir sua própria freguesia.

(Piky, agradecido por certas inspirações que você sabe quais são...)

Segunda-feira, Julho 06, 2009

fim-de-semana em eldorado

Então, prometi que trazia para cá as novidades que acontecessem: estou estreando, neste início de julho, uma coluna sobre música na revista "Cult". Acaba de ir às bancas, na edição 137, mas está disponível também na versão virtual da revista, sob o título interrogativo Questão de Gosto?. É, digamos, sobre bossa nova, e não importa se ela é black ou white (ou importa?). Encontrou?

don't matter if you're black or white

Bananal (SP), 30 de junho de 2009.